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O encaminhamento metodológico é um dos elementos que constituem o plano de aula, é o registro do planejamento que por sua vez é o processo de prever as ações educacionais. Conforme afirma Libâneo (2004, p. 149): “O processo e o exercício de planejar referem-se a uma antecipação da prática, de modo a prever e programar as ações e os resultados desejados, constituindo-se numa atividade necessária à tomada de decisões.”

Dessa forma, o plano de aula é um documento utilizado para o registro prévio das ações do professor, onde constarão: o que se pensa fazer, como fazer, quando fazer, com que fazer, com quem fazer. Para que exista o plano, faz-se necessária uma reflexão anterior sobre fins e objetivos, que levam à sua definição, possibilitando responder às questões indicadas. Portanto, o plano de aula apresenta de forma sistematizada as decisões tomadas relativas às ações que se pretende realizar, é um guia que orienta a prática, partindo da própria prática assim não pode ser um documento rígido e absoluto. Ele é a formalização dos diferentes momentos do processo de planejar que, por sua vez, envolve desafios e contradições (BAFFI, 2002).

O encaminhamento metodológico, em um plano de aula, refere-se ao “como trabalhar” os conteúdos pensados, ou seja, são estratégias e procedimentos de ensino que serão utilizados para se atingir o objetivo projetado. Ele carrega em si a concepção de aprendizagem e de Educação Integral do professor, de acordo com Gonçalves:

[...] a concepção de educação integral que deve estar como pano de fundo para fundamentar sua execução, seja na ampliação da jornada escolar, seja

na articulação da escola com outros espaços públicos de aprendizagens, governamentais ou não governamentais. (GONÇALVES, p.131).

Para verificar qual a postura dos profissionais frente ao encaminhamento metodológico, foram feitas as seguintes perguntas:

 Como você compreende o encaminhamento metodológico no plano de aula?

 Considerando que você atua com uma turma que frequenta a escola em tempo integral, descreva um encaminhamento metodológico empregado.

Em relação à primeira pergunta, embora não tenham dado respostas objetivas, de modo geral as profissionais demonstraram compreender a importância do planejamento, do plano de aula e do encaminhamento metodológico, tendo em vista as respostas a seguir:

R. A - O encaminhamento é de suma importância para o desenvolvimento do plano de aula.

A.P.C - Plano de aula é fundamental, sequência do trabalho, é flexível. Organiza os recursos. Mas não consigo traçar experiências com a outra professora do 5º ano porque as permanências são em dias diferentes.

A.P.B - Tem que ter um objetivo claro a atingir e em cima disso você vai pensar a atividade que você vai desenvolver, sem necessidade de muito detalhe.

P - A pedagoga do integral acompanha o planejamento?

A.P.B - O acompanhamento da pedagoga não é frequente.

Percebeu-se, pelas respostas das profissionais, conceitos que vão dos mais elementares a fundamentais na reflexão sobre o planejamento, tais como: o encaminhamento como parte do plano de aula, o plano como organizador da sequência de trabalho do professor com a necessária flexibilidade e a importância dos objetivos estabelecidos, pois estes orientam a ação docente, mostram o que se espera do estudante, demonstram o ordenamento dado aos conteúdos, enfim revelam as convicções do professor.

Em suas respostas, as professoras revelaram ainda um pouco daquilo que as angustia na dinâmica de suas escolas, como o fato de não poder planejar junto

com a colega que trabalha a mesma Prática Educativa, o que dificulta a troca e o compartilhamento de experiências e do acompanhamento da pedagoga (coordenadora da Educação Integral) ao planejamento não ocorrer com frequência, o que foi percebido pela pesquisadora nas duas escolas pesquisadas. Deve-se levar em conta que esse acompanhamento faz parte das atribuições delas, embora ainda não esteja documentado pelo fato da função ser recente na RME. Contudo, para exercer a função de coordenadora da Educação Integral, a SME colocou como requisito a formação em pedagogia, tendo em vista que:

A atuação do pedagogo escolar é imprescindível na ajuda aos professores no aprimoramento no seu desempenho na sala de aula (conteúdos, métodos, técnicas, formas de organização da classe), na análise e compreensão das situações de ensino com base nos conhecimentos teóricos, ou seja, na vinculação entre as áreas do conhecimento pedagógico e o trabalho de sala de aula. (LIBÂNEO, 1996, p. 127).

As profissionais demonstraram em suas respostas a falta de unidade entre os encaminhamentos propostos para o turno regular de aulas e as Práticas Educativas, revelando uma dicotomia difícil de ser superada entre turno e contraturno, onde um é o núcleo duro e o outro é visto como um acessório ao turno regular de aulas, não um turno único em favor de uma Educação Integral:

R.B - Na Prática Educativa é mais tranquilo, te dá mais opções, você pode deixar os alunos mais criativos. Na base nacional comum percebo mais dificuldade, pelo fato de ser à tarde, tem que ser mais sistematizado, porque na Prática pode ser mais trabalhado o lúdico.

C.A - O encaminhamento dos trabalhos no contraturno devem ser diversificados oferecendo momentos onde o aluno tenha oportunidade de manipular materiais, uso de mídias, entre outros na construção de conceitos.

Mesmo na falta de unidade de encaminhamentos e na dicotomia demonstrada, estas profissionais revelam noções de uma concepção construtivista de aprendizagem quando utilizam termos como criatividade e, principalmente, oportunizar a manipulação e a construção de conceitos. Mas por que isso não pode ocorrer também no turno regular de aulas?

A coordenadora C.B revelou um problema que ainda é recorrente em algumas escolas, o planejamento acontecer no papel, mas não é efetivado na prática:

C.B - A proposta delas é bacana (no papel), mas eu não vejo acontecer na prática, principalmente o acompanhamento pedagógico. Deve ser de acordo com o proposto no Caderno Pedagógico. Algumas ainda têm dificuldade de fazer os portfólios na internet conforme a Gerência de Educação Integral orienta, é o portfólio do professor, com planejamento, foto das atividades...

P – Puxa que legal! Como é isso? É pela plataforma Moodle?

C.B - Vou chamar a professora... para você ver, o portfólio dela está bem dentro do que a Gerência pede.

[A professora foi chamada, não era uma das participantes desta pesquisa, mas mostrou à pesquisadora seus arquivos de atividades no computador].

Em seguida, a coordenadora colocou para a pesquisadora uma questão que angustia alguns profissionais da escola “Y” e também de outras escolas com oferta de tempo integral na RME:

C.B - Acho que os alunos do 5º ano não deviam ficar no integral, eles são muito desinteressados, indisciplinados...

P- Mas, mais tempo na escola não é para garantir a aprendizagem? Então eles não têm direito a um tempo a mais para aprofundar e reforçar conteúdos e ter mais oportunidades de aprendizagem? Eles não precisam? [A coordenadora demonstrou certa dúvida] O que poderia ser feito então?

C.B - Talvez o encaminhamento? Talvez o encaminhamento mesmo, temos que aplicar os conteúdos de uma forma interessante, interativa, para que o aluno possa participar do processo de conhecimento. O mundo está cada vez mais atrativo...

Em sua resposta, a coordenadora revelou o quão frágil é a concepção de Educação Integral dela e de muitos outros profissionais, pois esta não é para todos, somente para os menores, mais disciplinados, nada de favorecer uma educação multidimensional. Revelou ainda uma concepção de aprendizagem fortemente empirista, pois afirmou que os conteúdos são “aplicados” pelo professor, não

mediados por ele e ainda, que o aluno participa do processo de conhecimento, mas não o constrói, mesma concepção presente na resposta da professora A.P.A:

A.P.A - A maneira como o professor conduz o processo de ensinar é o fator que garante a aprendizagem.

Ao descrever um encaminhamento metodológico empregado, novamente ficou clara, nas colocações das professoras R.A e R.B, a dicotomia entre turno regular de aulas e contraturno, contudo a regente R.B descreveu uma aula da Prática Educativa com a qual trabalhava no contraturno e que conseguiu, mesmo que sem intenção, integrar com sua aula do turno regular:

R.A - O encaminhamento é feito mais sistematizado por ser núcleo comum, já que no período integral os alunos participam de várias práticas, vivenciando.

R.B - Eu trabalhei a história da fotografia na Prática Educativa de Ciência e Tecnologias da Informação e Comunicação, foi um trabalho muito interessante, que foi se desenvolvendo por um longo tempo, puxando outros assuntos, até que construímos a câmara escura... Daí quando estava trabalhando com a fotografia na aula de história [do turno regular de aulas] eles souberam “ler” a fotografia, fizeram a relação com a aula da Prática.

Nas respostas acima, as docentes demonstraram o entendimento da necessidade de no tempo ampliado não se oferecer aos estudantes mais das mesmas atividades já ofertadas para o turno regular de aulas, o que foi reafirmado na fala das demais profissionais:

A.P.A - Utilizar estratégias mais lúdicas, jogos, caça-palavras, dramatizações, filmes, slides, momentos fora de sala para fazer leitura. O caderno é utilizado, mas sem exigência da criança ficar muito sentada.

A.P.B - Trabalho mais com atividades práticas, há tempo para isso: dramatizações, desafios... Dá tempo de sistematizar melhor, seria melhor trabalhar com menos alunos, eles exigem

atenção mais individualizada.

A.P.C - Educação Ambiental [Prática Educativa a qual a professora também desenvolve]:

inicia com a parte conceitual, pesquisa, influência do homem, vai para a prática, montamos o jardim suspenso, vasos com materiais recicláveis, bastante prática, trabalhos em grupo.

Acompanhamento Pedagógico: de acordo com o plano da regente, ela preenche uma folha com o que os alunos têm mais dificuldade e nós trabalhamos: desafios lógicos, números romanos com palitos de fósforo, eles adoraram, até hoje eles lembram e pedem para fazer de novo, material dourado...

C.A - Uso de materiais que o aluno possa manipular, uso de mídias, utilização de espaços diversos, oportunizar muito movimento - fora de sala de aula convencional.

C.B - Este ano até vir professor para a Prática de Movimento, eu tive que atender as turmas, porque sou a coordenadora do integral, fiz um trabalho do som com bolas de basquete, palmas, canto junto, baquetas... Aproximei o esporte da musicalização, foi uma integração!

Cantamos aquela música ...[a coordenadora referiu-se à música “We Will Rock You”, do grupo Queen, da qual, naquele momento, não lembrou o nome] Coisas práticas, brincando, com jogos... É muito mais trabalhoso elaborar essas atividades. Mas vale a pena, tanto que agora está tendo o campeonato de basquete, o interesse começou com aquele trabalho que eu fiz.

Nesse sentido, Gonçalves chama atenção para a qualidade da educação em tempo integral:

Não se trata apenas de um simples aumento do que já é ofertado, e sim de um aumento quantitativo e qualitativo. Quantitativo porque considera um número maior de horas, em que os espaços e as atividades propiciadas têm intencionalmente caráter educativo. E qualitativo porque essas horas, não apenas as suplementares, mas todo o período escolar, são uma oportunidade em que os conteúdos propostos, possam ser ressignificados, revestidos de caráter exploratório, vivencial e protagonizados por todos os envolvidos na relação de ensino-aprendizagem. (GONÇALVES, 2006, p.

132).

Se o que se almeja é uma Educação Integral em tempo integral, deve-se considerar as 9 horas que o estudante permanece na escola. Todo esse tempo deve ser permeado por um caráter diferenciado, ou seja, ativo, participativo e interativo.

Dessa forma o encaminhamento metodológico contemplará a formação plena do estudante e a Educação Integral não se constituirá somente em mais tempo do estudante na escola.

4.6. INTEGRAÇÃO ENTRE O ENSINO REGULAR DE AULAS E AS PRÁTICAS