Ao trabalhar com o grupo a compreensão do ambiente computacional, também
explorei seus recursos e a possibilidade de se comunicar através das ferramentas
apresentadas. Isso remete à necessidade da coordenação de diferentes ações. Além da
apropriação do artefato tecnológico e do como fazer, tem-se o que se pode fazer com ele,
enfatizando a possibilidade de se comunicar.
Mais do que saber onde escrever, como enviar e quem escreveu, desenvolve-se
um processo comunicacional, rompendo com o escrever por si só. Dentro desse
princípio, acompanhei como as crianças estavam usando as ferramentas e que utilidades
que davam a ela.
Um exemplo dessa apropriação pode ser acompanhado com FE. Toda vez que
lhe era proposto entrar no fórum do CRIANET, FE entrava e ficava mexendo na barra
de rolagem de forma aleatória, ou procurava por outras ferramentas. Eu já havia
acompanhado que ela sabia como usar o fórum, onde escrever, onde estavam as
mensagens escritas anteriormente e quem as escreveu. Mesmo assim, evitava o seu uso.
Neste mesmo período, o grupo estava explorando as ferramentas do CRIANET, entre
elas a possibilidade de trocar as figuras dos cômodos. Foi quando FE colocou a Emília
49na Biblioteca. Num encontro com os outros participantes do grupo (com o subgrupo de
que FE não fazia parte), FR trocou a figura da Biblioteca, tirando a Emília e colocando a
imagem da Barbie. Depois disso, FR escreveu no fórum: “eu trirea figura da da FE da
biblooteca”.
49 A imagem da Emília, personagem do Sítio do Pica-pau Amarela, havia sido enviada para a ferramenta biblioteca por IS, após ser capturada da Internet. Quando FE encontrou a imagem na ferramenta, procurou ajuda para inseri-la no banco de figuras e, assim, colocou-a no cômodo biblioteca.
No encontro seguinte com o grupo de que FE fazia parte, as crianças estavam
usando o fórum, menos ela. Então, perguntei: FE, para que a gente escreve no fórum?.
Ela me respondeu: Para nada!. Nessa resposta, pude observar que o fórum não fazia
sentido para ela, sendo tratado como um espaço no qual ela escrevia sem um propósito,
demonstrando não ter compreendido o seu uso. Inicialmente, isso poderia ser
considerado simples desinteresse em participar das trocas que estavam sendo feitas. A
partir da sua resposta, entendi que ela não havia significado o fórum enquanto um
espaço de socialização das produções. Após essa intervenção, me afastei e fiquei
acompanhando de longe seu comportamento no CRIANET. Ela procurou pelo perfil
(seu e dos colegas) e navegou pela casa.
Novamente me aproximei e comentei: Tu sabias que lá no fórum tem uma
mensagem para ti? Ela continuou navegando pela casa sem demonstrar interesse,
acrescentei: Vamos ler o fórum juntas?. Ao que respondeu com um: Ah sora!. Tentei
mais uma vez: Vamos lá, eu leio um pouco e tu outro pouco. FE olhou-me e falou: Tá
bom. Entramos no fórum e fomos direto para as últimas mensagens. Apontei para a
mensagem da FR e questionei: O que está escrito aqui?. Ela iniciou a ler e eu ajudava
conforme apresentava alguma dificuldade, até lermos toda a mensagem. Sora, porque
ela tirou? Não era para ter trocado a minha figura.., exclamou. Não sei. Queres
perguntar isso para ela?, questionei. Então FE virou para o computador e começou a
escrever no lugar correto sua mensagem: “FR não é ra par tira a foto que estava na
biblioteca”. Ao finalizar e enviar a mensagem, sorriu para mim. Mais uma vez
perguntei: Por que tu escreveste isso para a FR no fórum?. Ao que ela me respondeu:
Porque não era pra ela tirar a foto. Acrescentei: E porque escreveria no fórum?. FE
concluiu: Porque sim, pra dizer isso.
O fórum inicialmente parecia não fazer sentido para FE. Apesar de coordenar as
diferentes ações para seu manuseio, ela não havia se desequilibrado com as
contribuições postadas. Isso pode ter ocorrido tanto pela dificuldade de ler as mensagens
de seus colegas, quanto pelo não entendimento de que era possível se comunicar através
do espaço em questão. Apesar de acessar as contribuições dos colegas que estavam
registradas no perfil e chamá-los para mostrar as descobertas, o que estava sendo
postado no fórum não parecia interessá-la.
Compreender o funcionamento do fórum envolve o pensamento operatório, tanto
pela noção de totalidade que caracteriza esta ferramenta, quanto pela sensibilidade à
contradição. Quando FE leu que sua figura foi trocada, ela mostrou que havia
conservado os dados anteriores de sua ação e que é modificada por FR. Ela não ficou
somente na negação da atitude de FR, questionou-a, mesmo não chegando a argumentar
porque sua figura deveria ficar. Surge no CRIANET um espaço que pode ser mudado de
acordo com as ações dos colegas, sendo que as mesmas podem ser compartilhadas no
fórum. Essa comunicação via fórum transcende o espaço físico vivenciado na sala de
aula.
A partir da situação vivenciada, FE deu um novo sentido para o fórum. Para
chegar à compreensão de que poderia falar com seus colegas através da situação
vivenciada, foram necessárias estruturas construídas anteriormente. Dessa forma, se seu
primeiro objetivo (antes desse encontro) foi escrever e experimentar a ferramenta, com
base na sua resposta, acredito que o objetivo da mensagem postada nesse exemplo foi se
comunicar.
Nesta perspectiva, acredito que, para participar do fórum, tendo-o como um
espaço em que se socializam as descobertas, é necessária tanto a apropriação das
tecnologias empregadas, quanto estar sensibilizado para o que está sendo debatido.
Quando falo das tecnologias, me refiro ao ambiente computacional e à escrita
50. Essas
trocas que possibilitam o compartilhamento de idéias se estabelecem através de sistemas
de sinais construídos socialmente. Por outro lado, eles ganham vida a partir do contexto
das crianças, podendo ou não ser importantes para elas, trazendo consigo os desafios
vivenciados pelo grupo.
50 Para Lévy (1993), a escrita é uma tecnologia da inteligência que desempenha um papel fundamental na nossa sociedade. Através dela, os discursos podem ser separados das circunstancias em que foram escritos.
7 PARTICIPANDO DE UM AMBIENTE VIRTUAL COLETIVO
Como já foi relatado anteriormente, o CRIANET foi ponto de referência para o
trabalho. Apresentei a plataforma ao grupo como uma casa a ser habitada, explorando-a
enquanto um espaço coletivo. A partir de sua estrutura, privilegiei fala das crianças,
construindo uma proposta na qual elas compartilhariam as descobertas feitas na Internet,
participando de um ambiente virtual comum a todos. Para tanto, foram valorizadas suas
particularidades diante das dificuldades, com ênfase para as contribuições registradas.
Ao ter como premissa o respeito ao desenvolvimento cognitivo das crianças,
vislumbro no processo de interações interindividuais um caminhar de permanentes
construções. O conhecimento é revisto a cada acesso, com novas descobertas. Esse
processo é constituído tanto de interações individuais, quanto de interindividuais, sendo
que as duas são complementares. Assim, quando ocorre a interação interindividual,
tendo-a como uma relação social, o sujeito interage também com o seu eu, numa
interdependência entre o social e o mental.
Assim definimos pelas interações entre indivíduos, com transmissão exterior das características adquiridas (em oposição à transmissão interna dos mecanismos inatos), os fatos sociais são exatamente paralelos aos fatos mentais, com a única diferença que o “nós” se encontra constantemente substituído pelo “eu” e a cooperação, pelas operações simples (Piaget, 1973, p.35-36).