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CRIANET: uma plataforma para crianças na Internet

Portanto, com base nos dados coletados a partir do estudo exploratório relatado,

foi desenvolvido o protótipo do CRIANET

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, uma plataforma de software voltada ao

trabalho com crianças na Internet. Sua estrutura integra ferramentas para comunicação

síncrona e assíncrona e registra as contribuições postadas pelos participantes,

possibilitando um diálogo permanente entre os sujeitos. Este protótipo foi implementado

por uma equipe interdisciplinar composta por profissionais da informática, educação e

comunicação, o que foi feito pelo NUTED a partir do framework ROODA_DEVEL

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,

envolvendo tanto sua programação quanto sua interface.

Assim, o CRIANET foi construído a partir da idéia de metáfora

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. A escolha de

temática usada baseou-se nos relatos das crianças apresentados anteriormente. Ao propor

a ambientalização deste espaço em uma casa, busquei valorizar o aspecto coletivo, de

forma que as próprias crianças participantes habitassem-na e se tornassem responsáveis

por sua manutenção. Porém, ressalto que o CRIANET é ainda um protótipo e continua

em desenvolvimento, portanto nem todas as ferramentas idealizadas foram

implementadas.

Quando o sujeito entra no CRIANET, ele acessa diretamente o grupo no qual

está cadastrado, tendo na casa um espaço que é compartilhado por todos os “moradores”.

Sua área de trabalho (Figura 2) é caracterizada como uma casa e seu entorno. Com isso,

pode-se contorná-la ou entrar nela, encontrando seus cômodos. Esses podem ser

35 Nesta seção são apresentadas algumas telas do CRIANET, contudo outras telas podem ser apreciadas no ANEXO II.

36 O ROODA DEVEL foi explicado no capítulo 2, seção 2.1

acessados entrando pela porta da casa e navegando dentro dela, através das janelas ou do

dropdown

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. As ferramentas podem ser acessadas por um menu superior, nos cômodos

ou no dropdown.

Essas opções variadas de acesso tiveram como princípio proporcionar aos

sujeitos construir seus caminhos, valorizando diferentes processos de apropriação.

Nisso, utilizei tanto uma lógica cristalizada na Internet (navegação pelo menu superior e

dropdown), quanto uma lógica calcada no intuitivo. Quando emprego essa expressão,

tenho como base o pensamento intuitivo apresentado por Piaget (1973). Este é

caracterizado por valorizar as antecipações e reconstituições representativas.

Figura 2: Área de Trabalho do CRIANET, primeira tela acessada após o login.

A disposição dos links para as ferramentas tem o objetivo de ampliar as possíveis

interações entre os participantes. Como observei no estudo exploratório que algumas

crianças inicialmente procuravam clicar no centro da tela e, principalmente, nas imagens

com movimento, optamos por colocar animação onde existissem atalhos. Da mesma

forma, escolhemos privilegiar espaços com desenhos em conjunto com a escrita, a fim

de que as crianças pudessem ler tanto as imagens, quanto as palavras, sem restringi-las a

38 Menu com atalhos para acesso direto aos cômodos e ferramentas, fica disponível no canto superior direito e para utilizá-lo é necessário clicar na seta que aponta para baixo.

textos extensos. Um exemplo disto está nas portas. Cada uma delas apresenta uma placa

indicando a qual cômodo levará e a cor do mesmo; ao passar o mouse sobre ela,

movimenta-se, ficando entreaberta, e no canto aparece a mesma cor das letras (Figura 3).

As imagens da casa são em duas dimensões, mas sua navegação simula uma

terceira dimensão, possibilitando vê-la de mais de um ponto de vista. Dentro disto,

explorou-se a idéia de proporção dos espaços e dos móveis, incluindo a profundidade e a

perspectiva.

Os cômodos encontrados são: sala, cozinha, quarto, biblioteca, corredor e um

outro cômodo com um ponto de interrogação para ser construído pelos moradores

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.

Também se pode acessar os lados da casa, os fundos e o telhado. Esse deslocamento

pode ser feito através das setas que apontam as direções ou atravessando as portas,

janelas e passagens secretas. Em cada cômodo é encontrada uma ferramenta, sendo que

ambos são caracterizados pela mesma cor.

Figura 3: Sala do CRIANET, com acesso ao fórum e aos outros cômodos da casa.

As ferramentas disponíveis no presente protótipo são:

1- Fórum (Figura 4): encontrado na sala, foi adaptado para o debate síncrono e

assíncrono. Para tanto, foi utilizado como referência o princípio apresentado pelo

chat (Axt et al 2003)

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. As mensagens são colocadas uma embaixo da outra, seguindo

uma ordem cronológica de envio, não são separadas por temas ou tópicos e ficam todas

na mesma tela.

Figura 4: Fórum do CRIANET com mensagens postadas.

2- Perfil (Figura 5): encontrado no quarto, é onde o morador pode se apresentar e

colocar sua imagem. Cada participante só pode modificar o seu perfil, porém, tem

acesso ao perfil dos seus colegas. A cor escolhida no perfil, se torna a cor do nome no

fórum.

Figura 5: Perfil do CRIANET, com a visualização do perfil dos colegas.

3- Biblioteca (Figura 6): encontrada no cômodo que também se chama

biblioteca, é usada para a publicação dos arquivos do grupo. Nela, é possível enviar

arquivos ou visualizar os que foram enviados anteriormente. Os mesmos podem ser

copiados, mas não podem ser apagados.

Nas imagens, de fora e de dentro da casa, são encontrados pontos de

interrogação. Nesses espaços, o participante pode inserir uma figura, enviada por ele ou

por algum colega. Nessa ferramenta, os participantes montam seu banco de figuras,

sendo este compartilhado por todos do grupo (Figura 7). Quando é colocada uma nova

figura no lugar do ponto de interrogação, ela fica visível para todos os participantes, de

forma que eles possam participar da constituição do ambiente coletivamente. Essa

ferramenta também é usada no cômodo a ser construído pelos membros do grupo.

Figura 7: Banco de figuras do CRIANET, com a visualização de uma imagem.

Atualmente estão sendo desenvolvidas duas novas ferramentas, usadas para a

comunicação síncrona. Uma delas é o bate-papo, que será implementado na cozinha. A

outra é o telefone de latinha

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, que lista os usuários conectados ao mesmo tempo (de

todos os grupos cadastrados) e possibilita a comunicação entre eles, dentro do princípio

da relação um-um.

Nesta perspectiva, busco um espaço que privilegie as contribuições das crianças,

rompendo com uma estrutura unilateral. Tenho nas suas falas a referência para a

constituição da dialogicidade no CRIANET, sem que prevaleça somente a fala do

41 Essa ferramenta foi desenvolvida a partir do Finder, disponibilizado no ROODA (Behar et ali 2001a e 2001b).

professor e sem a preocupação de editar as contribuições dos alunos. Com isso, é

enfatizado o processo.

Coloco o CRIANET como ponto de referência para o estudo das interações

interindividuais, mas não restrinjo a pesquisa a ele. Também exploro o ETC e trago para

o debate as colocações feitas presencialmente pelas crianças, o que desenvolvo nos

próximos capítulos.

6 APROPRIANDO-SE DO AMBIENTE COMPUTACIONAL

A caminhada que constitui o processo de interações interindividuais em

ambientes virtuais é permeada por inúmeras interações no ambiente presencial e pela

apropriação do ambiente computacional. Nisso, destaco a importância das trocas

ocorridas no laboratório de informática no decorrer da pesquisa, contribuindo para a

consolidação de um elo de solidariedade entre os participantes.

As crianças que participaram da pesquisa não tinham computador em casa, mas

utilizavam quinzenalmente o laboratório de informática. Pude observar que elas não

exploravam os recursos do computador com autonomia, em especial, no que se referia à

Internet. Nos primeiros encontros, não sabiam nem quais softwares era preciso abrir para

escrever, desenhar ou navegar na Internet, ou mesmo se era preciso abrir um programa

específico

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. O acesso a essas ferramentas não era o foco dessa pesquisa, entretanto,

acabou fazendo parte da mesma pela forma como essa apropriação foi sendo explorada

pelo grupo. Também, pela necessidade dessa apropriação tecnológica a fim de que o

encontro via Rede pudesse se consolidar.

Assim, a partir dos primeiros encontros, coloquei como desafio para essa

pesquisa a apropriação do ambiente computacional que estava sendo explorado, o que

incluía o CRIANET. As crianças não teriam que aprender apenas a usar um software,

mas a coordenar as diferentes ações que compõem o manuseio do computador. Essa

apropriação envolveu tanto a conceituação do que estava sendo feito quanto sua

compreensão. Nessa perspectiva, compreender o ambiente computacional ultrapassa

resumir-se ao êxito da ação e fazer com sucesso o que se deseja, de forma que se saiba o

que se quer fazer antes de praticar a ação.

Porém, o trabalho não foi dividido em duas partes distintas, primeiro a

compreensão do artefato tecnológico para que depois voltássemos ao trabalho em grupo.

Os dois processos foram se constituindo juntos e de forma interdependente.

Dentro dessa proposta, foi apresentado o CRIANET a eles, de forma que nós,

enquanto grupo, habitássemos a casa como um espaço coletivo. Nesse primeiro

momento, pude acompanhar exclamações como a de FE

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, que, ao retornar para a sala de

aula, contou para seus colegas de turma: Hoje nós conhecemos a nossa casa!.

Com o objetivo de que eles participassem dessa proposta com autonomia,

busquei que as descobertas fossem compartilhadas, favorecendo a descentração e a

superação do egocentrismo cognitivo. Ao partir desse processo de apropriação da

tecnologia usada, pude intervir para que buscassem ajuda com os colegas e não só com

as professoras

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, do mesmo modo que quando vissem um colega precisando de ajuda,

buscassem orientá-lo. Isso favoreceu uma maior integração entre os participantes. Com o

compartilhamento das descobertas, foi superado o verbalismo egocêntrico

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. Assim,

caminhamos em direção a uma ampliação das interações interindividuais (que iniciou no

ambiente presencial) e de uma construção cooperativa (também no presencial).

Essa perspectiva, voltada à coletividade, pôde ser acompanhada pelo

comportamento das crianças diante do grupo. Um exemplo disso foi o caso de RA. Nos

primeiros encontros ela sentava distante do grupo, isolando-se. Com o andamento do

trabalho, ela começou a sentar em um computador central e a aceitar a ajuda dos outros

colegas.

43 Os participantes dessa pesquisa serão identificados por duas letras do seu nome em maiúsculo, tanto quando forem apresentadas falas orais, quanto nas mensagens registradas nos ambientes virtuais.

44 As professoras mencionadas são eu e as minhas colegas que participaram dos encontros, a professora da turma não esteve presente nos nossos encontros no laboratório de informática. Porém, ela participou à distância dos ambientes virtuais e mantivemos reuniões periódicas para conversarmos sobre o trabalho. 45 Esse verbalismo é visto por Piaget (1994) como um produto da autoridade oral e da linguagem egocêntrica, consolidado pela coação. Para romper com isso é necessário socializar e, através da cooperação, “libertar a criança da mística da palavra adulta” (p.299).