Portanto, com base nos dados coletados a partir do estudo exploratório relatado,
foi desenvolvido o protótipo do CRIANET
35, uma plataforma de software voltada ao
trabalho com crianças na Internet. Sua estrutura integra ferramentas para comunicação
síncrona e assíncrona e registra as contribuições postadas pelos participantes,
possibilitando um diálogo permanente entre os sujeitos. Este protótipo foi implementado
por uma equipe interdisciplinar composta por profissionais da informática, educação e
comunicação, o que foi feito pelo NUTED a partir do framework ROODA_DEVEL
36,
envolvendo tanto sua programação quanto sua interface.
Assim, o CRIANET foi construído a partir da idéia de metáfora
37. A escolha de
temática usada baseou-se nos relatos das crianças apresentados anteriormente. Ao propor
a ambientalização deste espaço em uma casa, busquei valorizar o aspecto coletivo, de
forma que as próprias crianças participantes habitassem-na e se tornassem responsáveis
por sua manutenção. Porém, ressalto que o CRIANET é ainda um protótipo e continua
em desenvolvimento, portanto nem todas as ferramentas idealizadas foram
implementadas.
Quando o sujeito entra no CRIANET, ele acessa diretamente o grupo no qual
está cadastrado, tendo na casa um espaço que é compartilhado por todos os “moradores”.
Sua área de trabalho (Figura 2) é caracterizada como uma casa e seu entorno. Com isso,
pode-se contorná-la ou entrar nela, encontrando seus cômodos. Esses podem ser
35 Nesta seção são apresentadas algumas telas do CRIANET, contudo outras telas podem ser apreciadas no ANEXO II.
36 O ROODA DEVEL foi explicado no capítulo 2, seção 2.1
acessados entrando pela porta da casa e navegando dentro dela, através das janelas ou do
dropdown
38. As ferramentas podem ser acessadas por um menu superior, nos cômodos
ou no dropdown.
Essas opções variadas de acesso tiveram como princípio proporcionar aos
sujeitos construir seus caminhos, valorizando diferentes processos de apropriação.
Nisso, utilizei tanto uma lógica cristalizada na Internet (navegação pelo menu superior e
dropdown), quanto uma lógica calcada no intuitivo. Quando emprego essa expressão,
tenho como base o pensamento intuitivo apresentado por Piaget (1973). Este é
caracterizado por valorizar as antecipações e reconstituições representativas.
Figura 2: Área de Trabalho do CRIANET, primeira tela acessada após o login.
A disposição dos links para as ferramentas tem o objetivo de ampliar as possíveis
interações entre os participantes. Como observei no estudo exploratório que algumas
crianças inicialmente procuravam clicar no centro da tela e, principalmente, nas imagens
com movimento, optamos por colocar animação onde existissem atalhos. Da mesma
forma, escolhemos privilegiar espaços com desenhos em conjunto com a escrita, a fim
de que as crianças pudessem ler tanto as imagens, quanto as palavras, sem restringi-las a
38 Menu com atalhos para acesso direto aos cômodos e ferramentas, fica disponível no canto superior direito e para utilizá-lo é necessário clicar na seta que aponta para baixo.
textos extensos. Um exemplo disto está nas portas. Cada uma delas apresenta uma placa
indicando a qual cômodo levará e a cor do mesmo; ao passar o mouse sobre ela,
movimenta-se, ficando entreaberta, e no canto aparece a mesma cor das letras (Figura 3).
As imagens da casa são em duas dimensões, mas sua navegação simula uma
terceira dimensão, possibilitando vê-la de mais de um ponto de vista. Dentro disto,
explorou-se a idéia de proporção dos espaços e dos móveis, incluindo a profundidade e a
perspectiva.
Os cômodos encontrados são: sala, cozinha, quarto, biblioteca, corredor e um
outro cômodo com um ponto de interrogação para ser construído pelos moradores
39.
Também se pode acessar os lados da casa, os fundos e o telhado. Esse deslocamento
pode ser feito através das setas que apontam as direções ou atravessando as portas,
janelas e passagens secretas. Em cada cômodo é encontrada uma ferramenta, sendo que
ambos são caracterizados pela mesma cor.
Figura 3: Sala do CRIANET, com acesso ao fórum e aos outros cômodos da casa.
As ferramentas disponíveis no presente protótipo são:
1- Fórum (Figura 4): encontrado na sala, foi adaptado para o debate síncrono e
assíncrono. Para tanto, foi utilizado como referência o princípio apresentado pelo
chat (Axt et al 2003)
40. As mensagens são colocadas uma embaixo da outra, seguindo
uma ordem cronológica de envio, não são separadas por temas ou tópicos e ficam todas
na mesma tela.
Figura 4: Fórum do CRIANET com mensagens postadas.
2- Perfil (Figura 5): encontrado no quarto, é onde o morador pode se apresentar e
colocar sua imagem. Cada participante só pode modificar o seu perfil, porém, tem
acesso ao perfil dos seus colegas. A cor escolhida no perfil, se torna a cor do nome no
fórum.
Figura 5: Perfil do CRIANET, com a visualização do perfil dos colegas.
3- Biblioteca (Figura 6): encontrada no cômodo que também se chama
biblioteca, é usada para a publicação dos arquivos do grupo. Nela, é possível enviar
arquivos ou visualizar os que foram enviados anteriormente. Os mesmos podem ser
copiados, mas não podem ser apagados.
Nas imagens, de fora e de dentro da casa, são encontrados pontos de
interrogação. Nesses espaços, o participante pode inserir uma figura, enviada por ele ou
por algum colega. Nessa ferramenta, os participantes montam seu banco de figuras,
sendo este compartilhado por todos do grupo (Figura 7). Quando é colocada uma nova
figura no lugar do ponto de interrogação, ela fica visível para todos os participantes, de
forma que eles possam participar da constituição do ambiente coletivamente. Essa
ferramenta também é usada no cômodo a ser construído pelos membros do grupo.
Figura 7: Banco de figuras do CRIANET, com a visualização de uma imagem.
Atualmente estão sendo desenvolvidas duas novas ferramentas, usadas para a
comunicação síncrona. Uma delas é o bate-papo, que será implementado na cozinha. A
outra é o telefone de latinha
41, que lista os usuários conectados ao mesmo tempo (de
todos os grupos cadastrados) e possibilita a comunicação entre eles, dentro do princípio
da relação um-um.
Nesta perspectiva, busco um espaço que privilegie as contribuições das crianças,
rompendo com uma estrutura unilateral. Tenho nas suas falas a referência para a
constituição da dialogicidade no CRIANET, sem que prevaleça somente a fala do
41 Essa ferramenta foi desenvolvida a partir do Finder, disponibilizado no ROODA (Behar et ali 2001a e 2001b).
professor e sem a preocupação de editar as contribuições dos alunos. Com isso, é
enfatizado o processo.
Coloco o CRIANET como ponto de referência para o estudo das interações
interindividuais, mas não restrinjo a pesquisa a ele. Também exploro o ETC e trago para
o debate as colocações feitas presencialmente pelas crianças, o que desenvolvo nos
próximos capítulos.
6 APROPRIANDO-SE DO AMBIENTE COMPUTACIONAL
A caminhada que constitui o processo de interações interindividuais em
ambientes virtuais é permeada por inúmeras interações no ambiente presencial e pela
apropriação do ambiente computacional. Nisso, destaco a importância das trocas
ocorridas no laboratório de informática no decorrer da pesquisa, contribuindo para a
consolidação de um elo de solidariedade entre os participantes.
As crianças que participaram da pesquisa não tinham computador em casa, mas
utilizavam quinzenalmente o laboratório de informática. Pude observar que elas não
exploravam os recursos do computador com autonomia, em especial, no que se referia à
Internet. Nos primeiros encontros, não sabiam nem quais softwares era preciso abrir para
escrever, desenhar ou navegar na Internet, ou mesmo se era preciso abrir um programa
específico
42. O acesso a essas ferramentas não era o foco dessa pesquisa, entretanto,
acabou fazendo parte da mesma pela forma como essa apropriação foi sendo explorada
pelo grupo. Também, pela necessidade dessa apropriação tecnológica a fim de que o
encontro via Rede pudesse se consolidar.
Assim, a partir dos primeiros encontros, coloquei como desafio para essa
pesquisa a apropriação do ambiente computacional que estava sendo explorado, o que
incluía o CRIANET. As crianças não teriam que aprender apenas a usar um software,
mas a coordenar as diferentes ações que compõem o manuseio do computador. Essa
apropriação envolveu tanto a conceituação do que estava sendo feito quanto sua
compreensão. Nessa perspectiva, compreender o ambiente computacional ultrapassa
resumir-se ao êxito da ação e fazer com sucesso o que se deseja, de forma que se saiba o
que se quer fazer antes de praticar a ação.
Porém, o trabalho não foi dividido em duas partes distintas, primeiro a
compreensão do artefato tecnológico para que depois voltássemos ao trabalho em grupo.
Os dois processos foram se constituindo juntos e de forma interdependente.
Dentro dessa proposta, foi apresentado o CRIANET a eles, de forma que nós,
enquanto grupo, habitássemos a casa como um espaço coletivo. Nesse primeiro
momento, pude acompanhar exclamações como a de FE
43, que, ao retornar para a sala de
aula, contou para seus colegas de turma: Hoje nós conhecemos a nossa casa!.
Com o objetivo de que eles participassem dessa proposta com autonomia,
busquei que as descobertas fossem compartilhadas, favorecendo a descentração e a
superação do egocentrismo cognitivo. Ao partir desse processo de apropriação da
tecnologia usada, pude intervir para que buscassem ajuda com os colegas e não só com
as professoras
44, do mesmo modo que quando vissem um colega precisando de ajuda,
buscassem orientá-lo. Isso favoreceu uma maior integração entre os participantes. Com o
compartilhamento das descobertas, foi superado o verbalismo egocêntrico
45. Assim,
caminhamos em direção a uma ampliação das interações interindividuais (que iniciou no
ambiente presencial) e de uma construção cooperativa (também no presencial).
Essa perspectiva, voltada à coletividade, pôde ser acompanhada pelo
comportamento das crianças diante do grupo. Um exemplo disso foi o caso de RA. Nos
primeiros encontros ela sentava distante do grupo, isolando-se. Com o andamento do
trabalho, ela começou a sentar em um computador central e a aceitar a ajuda dos outros
colegas.
43 Os participantes dessa pesquisa serão identificados por duas letras do seu nome em maiúsculo, tanto quando forem apresentadas falas orais, quanto nas mensagens registradas nos ambientes virtuais.
44 As professoras mencionadas são eu e as minhas colegas que participaram dos encontros, a professora da turma não esteve presente nos nossos encontros no laboratório de informática. Porém, ela participou à distância dos ambientes virtuais e mantivemos reuniões periódicas para conversarmos sobre o trabalho. 45 Esse verbalismo é visto por Piaget (1994) como um produto da autoridade oral e da linguagem egocêntrica, consolidado pela coação. Para romper com isso é necessário socializar e, através da cooperação, “libertar a criança da mística da palavra adulta” (p.299).