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1 CONTEXTUALIZAÇÃO DO ESTUDO

1.4 LOCAIS DE ESTUDO

1.4.2 A comunidade da Campininha

As terras que foram doadas pelo governo ao Coronel João Pacheco no século XIX abrangiam praticamente toda a área do município de Três Barras e eram habitadas por índios Kaingang e Xokleng que acabaram sendo expulsos ou se miscigenaram com a nova população (IBGE, 2008; Marques, 2008). Foi nesta época que a

comunidade da Campininha foi fundada (J.P. 2008 comunicação pessoal).

Tanto as áreas que hoje pertencem a FLONA quanto a Campininha (J.P. 2008 comunicação pessoal) foram utilizadas principalmente para a criação de gado, extrativismo de erva-mate e exploração de madeira, principalmente de araucária (IBAMA, 2003). Propriedades da comunidade apresentam ainda hoje um grande número de antigos ramais ferroviários que eram utilizados pela Souther Brazil

Lumber & Colonization Company – Lumber para o transporte da

madeira. A Lumber era uma empresa subsidiária da Brazil Railway, foi a maior madeireira da América do Sul entre 1916 e 1940 contou com tecnologia de ponta para os padrões da época e teve papel destacado na venda de madeira de araucária para a Argentina, Uruguai, São Paulo e Rio de Janeiro. A Lumber, como ficou conhecida até hoje, teve um papel preponderante na história da devastação da floresta com araucária no século XX e na ocupação do território da atual cidade de Três Barras, SC (Carvalho, 2010).

À medida que as famílias foram aumentando, as terras foram sendo divididas entre os filhos e em épocas mais difíceis, foram também vendidas. Formou-se assim, segundo S.M. (2008 comunicação pessoal), a comunidade que recebeu o nome de Campininha devido à existência de um “campo nativo” na região.

Apesar de manter uma cobertura florestal caracterizada por Floresta Ombrófila Mista, semelhante às demais comunidade do Planalto Norte Catarinense, a Campininha não é uma comunidade típica do Planalto Norte, nas quais predominam os agricultores familiares com uma forte presença do cultivo de fumo e feijão. Na comunidade, formada por 196 famílias (Três Barras, 2012) não se verifica nenhum plantador de fumo, por exemplo. Hoje na Campininha, estão instaladas duas indústrias de porte médio: a Dalquin/Dalpet (produtos químicos e rações) e a Forex (setor madeireiro) além de uma empresa agrícola de grande porte (AMA) que cultiva milho e soja. Devido a presença destas indústrias a maioria dos membros da comunidade são operários, aposentados (entre esses agricultores aposentados) e trabalhadores rurais (conhecidos como diaristas) (Battisti, 2007).

Existe uma Associação de Moradores e a comunidade participou do programa Microbacia IV do governo do estado de SC, sendo denominada de Microbacia Hidrográfica Santos Anjos. Alguns moradores da comunidade estão envolvidos em um projeto de desenvolvimento de turismo rural, onde participaram de diversos

treinamentos e discussões. Já existe uma pequena pousada em uma das propriedades e um restaurante colonial nas proximidades da comunidade (Marques, 2008).

Esta comunidade foi escolhida para o desenvolvimento do projeto, pois neste local foi observado o uso tradicional e a presença da espécie em estudo. Além disso, a comunidade está no entorno da FLONA de Três Barras e participa do projeto CONSERVABIO.

Neste contexto, as áreas dentro da comunidade da Campininha utilizadas neste estudo foram caracterizadas pelos agricultores por meio de entrevistas e turnês guiadas, realizadas no contexto do projeto CONSERVABIO, levando-se em conta para esta caracterização, o uso e o manejo da terra. Portanto, tratam-se de categorias êmicas com nomenclatura designada pela autora desta tese.

A partir das descrições dos agricultores para suas áreas foram encontradas características diferentes entre as propriedades. Esta descrição baseou-se nas características particulares de cada área específica, como nas diferentes práticas de manejo adotadas, cobertura florestal, presença ou não de animais (como bovinos, eqüinos, suinos e ovinos, entre outros), como discutido em Mattos (2011).

Para o desenvolvimento deste trabalho as áreas caracterizadas pelos agricultores foram então agrupadas em unidades de paisagem. Assim uma ou mais áreas com usos e manejos semelhantes consistiram uma unidade de paisagem.

Conforme as descrições fornecidas pelos proprietários de acordo com o uso, origem e práticas de manejo, classificaram-se as situações encontradas em 5 unidades de paisagens, na comunidade da Campininha. Também foram incluídas no estudo as duas áreas da FLONA descritas anteriormente, sendo que cada uma constitui uma unidade de paisagem. A Tabela 2 e a figura 4 trazem detalhes das unidades de paisagem em estudo.

Tabela 2. Distribuição das parcelas de estudo de B. antiacantha nas unidades de paisagem sob diferentes manejos. NPFT/UFSC. 2014.

Local Unidade de Paisagem Número de parcelas Características da área Designação dada pelos proprietários FLONA NMAF1 9

Floresta Secundária sem intervenção na área há 60 anos. Antigamente utilizada

como mangueirão para animais.

Sem nome específico

FLONA NMAF2 3 Floresta secundária, sem manejo (extração de madeira) a mais de 60 anos.

Sem nome específico Comunidade da Campininha NMAC 3

Área com dossel coberto, mata mais densa, presença abundante de Bromelia. Sem manejo a pelo menos 8 anos. Antes disso era utilizada como área para o gado

Mato

Comunidade da Campininha

BOV 3

Área com dossel coberto, mata mais densa, presença abundante de Araucaria

angustifolia e mirtáceas, com presença

de gado bovino

Mato

Comunidade da Campininha

BOEM 3 Área mais aberta, com presença de gado

bovino e extração de erva-mate Caíva

Comunidade da Campininha

CER 7 cercas*

Cercas vivas localizadas em propriedades diferentes. CEJA e CEJE (sombreado meio período); CEJB e CESI (trechos sombreados e trechos pleno sol); CEJC,

CEJD e CEDU (sombreadas),

Cerca Comunidade

da Campininha

BOEMR 5

Área com dossel coberto, com vários indivíduos de Araucaria angustifolia . Área com roçadas frequentes, presença de

gado bovino e extração de erva.

Caíva

* As cercas vivas totalizam aproximadamente 2 Km e estão em 3 propriedades diferentes.

Figura 4. Bromelia antiacantha em diferentes unidades de paisagem no Planalto Norte de Santa Catarina onde, A = NMAF1 - corresponde à unidade de paisagem não manejada há 60 anos e B = NMAF2 - paisagem não manejada para extração de madeira há 60 anos; C = BOV unidade de paisagem com presença de gado bovino; D = BOEM unidade de paisagem onde há presença de gado e extração de erva-mate; E = BOEMR - unidade de paisagem onde é feita roçada, há gado e é extraída erva- mate; F= NMAC - unidade de paisagem não manejada a no mínimo 8 anos na comunidade, G = CER - cerca viva. NPFT/UFSC 2014. Fotografias: A,C,D,E,F e G:Samantha Filippon 2013. B Anna Jacinta Mello, 2012.

2 CERCAS VIVAS E USOS LOCAIS DE BROMELIA