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3 “E o mar estava na concha”

3.1 A concha: a escola em seu contexto

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A EMEF. “Pe. José Narciso Vieira Ehrenberg” é uma das escolas conquistadas pela organização popular da região dos Amarais. Carinhosamente chamada de ‘Escolinha Branca’, é parte da história dos antigos moradores do bairro... O apelido carrega a imagem da pequena escola pintada toda de branco, de mais de 20 anos atrás, quando foi construída. Os pais de meus alunos estudaram na escola quando crianças. Atendemos, aproximadamente, de 800 a 1000 alunos – números que mudam pelo aumento ou redução do número de turmas abertas no ensino supletivo noturno -, entre crianças, jovens e adultos.

Nossa escola hoje é reconhecida pela comunidade como a melhor escola do bairro. Isso ouvimos muito!

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Disponível em:

<http://2.bp.blogspot.com/_vcE0Tqz5WPI/TOLpTsWHU4I/AAAAAAAAAjs/5bhqsnXr7V0/s1600/conchas_1271_1 280x1024.jpg>. Acesso em: 26 jan. 2012.

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Reconhecimento gerado pelo trabalho de muitos docentes, de funcionários e da própria comunidade, que soube aproveitar as oportunidades criadas pelas políticas públicas que já impactaram seu prédio e sua gente, tanto quanto brigar contra elas, quando necessário.

A ‘Escolinha’ foi crescendo com o bairro, acompanhando a luta da comunidade e constituindo-se fruto dela. Hoje possui doze salas de aula, salas de informática e de vídeo, biblioteca, uma pequenina sala de música, almoxarifado, secretaria, sala dos professores e diretoria. Temos refeitório, cozinha e uma pequena área para convívio, descanso e almoço de funcionários, além de duas quadras, uma coberta e uma aberta. Estas são isoladas por um alambrado que as separa do pequeno parquinho - construído para a chegada das crianças de 6 anos no Ensino Fundamental - e do pátio, bem menos arborizado do que gostaríamos.

Há ainda um espaço para horta, que no ano de 2011 recebeu cuidados e mudas novas, depois de várias tentativas de trabalho com o espaço, que antes vivia abandonado.

Penso no prédio tentando imaginar as imagens que tantos outros que o conhecem possam ter em comum com esta que tenho em mente. Com certeza, as imagens/lembranças desse prédio são marcadas pela subjetividade de quem lembra dele, pela experiência que viveu em cada um dos ambientes que o compõe. Esse prédio é muito mais constituído pelas memórias daqueles que compõem a ‘Escolinha Branca’ do que por concreto, aço e tinta!

Escola é...

o lugar onde se faz amigos

não se trata só de prédios, salas, quadros, programas, horários, conceitos...

Escola é, sobretudo, gente, gente que trabalha, que estuda, que se alegra, se conhece, se estima. O diretor é gente,

O coordenador é gente, o professor é gente, o aluno é gente,

cada funcionário é gente. E a escola será cada vez melhor na medida em que cada um

se comporte como colega, amigo, irmão.

Nada de ‘ilha cercada de gente por todos os lados’.(...) Paulo Freire22

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Trecho do poema “A escola”, de Paulo Freire, disponível em:

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Quantas outras imagens/palavras invadem aqueles que têm a escola do bairro Jardim São Marcos, em Campinas, constituinte de seus modos de ser no mundo?

Em um movimento que lembra o do molusco que cria sua concha em camadas cada vez maiores, a comunidade escolar - que inclui profissionais e famílias - segue crescendo e construindo ‘novas camadas’ em seu entorno... expressas fisicamente, mas nem sempre. O ‘corpo’ que constitui essa ‘concha’ é feito também de gente e de sonhos, em forma de gente...

Os sonhos individuais e coletivos que conseguiram ser alimentados e constituídos nesse espaço físico foram deixando marcas. Algumas vão se apagando, outras se renovando.

Para dizer da escola, quero dizer dessa gente que sonhou e sonha comigo todos os dias. Escolhi algumas delas por terem sido mais marcantes na maneira como a enxergo, no tempo em que trabalho, também deixando marcas nessa escola.

Apresento algumas pessoas e também experiências que alimentaram minha aposta no trabalho coletivo, crença apreendida antes de começar a dar aula, mas significada lá na ‘Escolinha Branca’.

Quem vive/constrói a concha?

Tomei registros que me ajudam a contextualizar a escola, nas lembranças das relações que ali se estabeleceram entre os diferentes membros da comunidade escolar, o ambiente físico e aspectos políticos constituintes desse cenário.

Tivemos durante seis anos uma equipe gestora afinada em princípios e modos de trabalho. Em 2000, um concurso público renovou grande parte dos profissionais da rede, que por muitos anos revezavam-se em substituições em diferentes cargos. Foi por este concurso que ingressei na FUMEC, por ele, fui chamada a assumir sala no ensino fundamental como professora efetiva.

Escolhi a escola pela região, achava que conhecia mais ou menos os bairros próximos à estrada das Amarais, por onde eu passei por dois anos e meio para trabalhar com os adultos.

Em 2003, boa parte dos profissionais da escola do Jd. São Marcos chegava pelo mesmo concurso, com meses de diferença uma da outra, incluindo a direção da escola. Com certeza, a ‘acolhida’ calorosa não era apenas para um ou dois novos profissionais!

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Lembro da primeira reunião pedagógica da qual participei e da pergunta: qual a função desta escola para os alunos do Jd. São Marcos? Lembro dos professores e professoras mais antigas na escola nos contando das histórias de vida de muitos alunos e do debate revivido inúmeras vezes: formamos para que carreguem caixas na CEASA ou para entrarem na UNICAMP?

E eu sonhava com jeitos de fazer e construir outro bairro... Não queria responder nem à Ceasa23

, nem à UNICAMP. Para quem deveríamos responder? Quais sonhos construiríamos juntos?

E o grupo nunca estava satisfeito com a pergunta e muito menos com as respostas que ouvia. Com os embates ideológicos explícitos, parcerias foram se constituindo no planejamento e na ação da construção dessa ‘escola do/para o Jardim São Marcos’.

Eu iniciava minha vida no magistério no mesmo tempo em que a profa. Corinta Geraldi assumia a Secretaria Municipal de Educação. O clima de construção de projetos nas nossas mãos era claro e inflamava os que queriam mudanças na escola.

Muitos novos professores se efetivaram, novas equipes gestoras, Congressos para discutir princípios e regulamentar o trabalho na rede aconteciam. O programa Conta Escola24

instituído dava a garantia de podermos escolher os investimentos prioritários na escola. Os Conselhos de Escola se empoderavam...

No Jardim São Marcos a escola foi mudando de cara com o passar dos meses e anos, fisicamente mudava. Internamente mudávamos também.

Quando cheguei uma nova biblioteca também estava em construção. A escola teria uma sala de vídeo, quadras pintadinhas, cada canto da escola pensado para atender melhor as crianças e aos profissionais. Anos depois: mais árvores, horta, parquinho, salas de vídeo e informática renovadas...

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CEASA: Centrais de Abastecimento de Campinas S.A.

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Segundo Artigo 1º da Lei Municipal Nº 11.689 de 6 de outubro de 2003, trata-se de um “ sistema de repasse de recursos financeiros destinados às Unidades Educacionais Públicas Municipais, garantindo-lhes autonomia de gestão financeira, para o ordenamento e execução de gastos rotineiros destinados à manutenção e desenvolvimento do ensino.”. Disponível em: < http://www.campinas.sp.gov.br/bibjuri/lei11689.htm>. Acesso em: 18 jan. 2012.

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Assumi nessa escola uma turma de 1a série e horas-projeto no período da tarde para o trabalho com a biblioteca.

Neste caminho, partilhando dilemas de sala de alfabetização e com uma biblioteca e seu funcionamento a ser pensado, conheci a professora Simone Franco. Uma das poucas pessoas campineiras que conheci aqui, também formada em Pedagogia pela UNICAMP.

Juntas planejamos prateleiras, classificação de livros, cores de almofadas para canto de leitura, cortinas, armários, mesas, projetos e campanhas para escolha de um novo nome e símbolo para biblioteca, oficinas para dinamizar o espaço, meios de abrir empréstimo também para comunidade... Nos perguntávamos: como fazer da biblioteca um espaço privilegiado de circulação de pessoas e projetos?

Planejávamos muitas atividades de alfabetização, folhinhas e mais folhinhas - como costumamos chamar os impressos repletos de desafios de leitura e escrita para crianças!

Trabalhamos muito e juntas aprendemos que escolhas feitas em parceria produzem frutos bons de partilhar! Passávamos quase os cinco dias da semana juntas, o dia todo. Tamanha convivência alimentada com boa disponibilidade ao diálogo nos propiciou crescimento enorme como pessoas e como profissionais. Crescente também é nossa amizade, que vem se fortalecendo a cada nova decisão tomada em parceria, a cada tempestade enfrentada, pelos ventos que semeamos juntas!

Com a Simone aprendi a organizar os tempos e os espaços pedagógicos na sala de aula. Meu jeito de planejar, antes de nosso encontro, era um hipertexto difícil de controlar! Uma riqueza! As aulas eram prenhes de intertextualidade, sempre abertas a sinais, desejos e questões trazidas por alunos e alunas e com isso minha dificuldade em fechar os temas (sempre) abertos eram grandes.

Na medida em que planejava o trabalho com a Simone, aprendia jeitos diferentes de incluir, cotidianamente, temas trazidos pelas crianças. Desafio que encarávamos no diálogo com outras professoras, em reuniões semanais, nas quais aquilo que aprendíamos umas com as outras nem sempre estava muito nítido para nós... Íamos fazendo, discutindo, reclamando, perguntando, trocando... crescendo...

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Pelo tanto que crescíamos juntas e pelos desafios que tomávamos a vencer, fomos escolhendo, ano a ano, projetos a partilhar. Um mesmo se repete desde 2003: alfabetizar crianças! Assumimos turmas, em mesmas ‘séries’, agora denominadas ‘anos’ do Ciclo I.

Assumimos desafios para nossas formações também, na medida em que idealizávamos, juntas, desejos a serem realizados com as turmas. Nunca repetimos projetos nesses nove anos de parceria! O trabalho é reinventado no diálogo com as crianças, respaldado pelo apoio que temos uma da outra para as apostas que fazíamos junto aos alunos e alunas.

Projeto grande, que abarca outras parcerias e muitas lições!

Nesse percurso, a partilhar os desafios da alfabetização e do pensar o trabalho compartilhado na escola esteve, por seis anos a orientadora pedagógica Maria de Lourdes Gomes da Silva, para nós : Lourdinha, Lou.

Simone me ajuda a dizer dessa parceria entre nós, colocando a Lourdinha como interlocutora importante no trabalho que desenvolvíamos, em um Memorial escrito para curso de especialização:

Embora muitas vezes tenha ouvido de colegas de escola e de estudo que o trabalho em sala de aula é um trabalho solitário, tive a honra, o prazer e a oportunidade de experimentar nesse percurso, o aprendizado e a construção de uma parceria com a Lourdinha e a Mafê.

Poder contar com olhar de mais duas pessoas para o aprendizado das crianças, para a organização da sala, para a elaboração das atividades foi significativo para minha formação enquanto professora e sem dúvida faz diferença no trabalho com as crianças. Porque quando estou inserida ativamente dentro de um contexto, certamente nem todas as possibilidades são encontradas e aproveitadas, ou a maneira de realizar o trabalho pode surtir mais efeito quando posso contar com outros pontos de vista.

Além disso, mantemos nesse tempo um apoio mutuo quando chegavam os momentos de incerteza e conflito. Um abraço amigo, uma palavra carinhosa, um olhar de cumplicidade certamente faz toda diferença (FRANCO, 2009, p.43). Inúmeros pedidos de ajuda, convites para entrar em sala, planos a discutir, atividades para avaliar. Sempre que podíamos, reuníamos com a Lou para analisar nossas aulas. Com jeito único de dizer o que pensa e de intervir pedagogicamente em nosso trabalho, me ensinou a olhar mais demoradamente para algumas crianças, enxergar saltos de outras onde não via e - por incrível que pareça - lembrar-me, diariamente, que trabalhava com crianças e, por isso

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deveria exigir menos delas e de mim. Aprendi com ela a colocar em cheque certezas e desejos absolutos e a cultivar a força dos gestos mais simples, com um senso prático, amorosidade e ética que reconheço em poucos.

Das perguntas e falas insistentes que fazia em todas as reuniões, nos momentos em que o coletivo da escola se reunia, lembro de duas: uma que era ‘eixo’ de muitas outras “Para que serve esta escola, aqui, localizada no Jd. São Marcos?”; outra no encaminhamento das ações propostas, aparentemente boba, mas que nos ajudava a, aos poucos, perceber a dimensão de nossas capacidades: “façam propostas que possam efetivar”. Depois dessa fala, das dezenas de ações propostas, uma ou outra passava a ser priorizada. E ainda assim, nosso projeto político pedagógico ficava, como ainda fica, com propostas ‘de um homem só’ e que não se realizam... Mas, ao mesmo tempo, aprendemos a nos cobrar daquilo que colocamos no papel e a considerar o projeto político pedagógico um documento escrito a muitas mãos. Aprendizado difícil!

Ficou a lição de que construir a escola dos sonhos é construir uma escola possível, feita no momento em que a assumimos no dia de hoje e nas 24 horas seguintes e assim consecutivamente, em pequenas ações partilhadas, em um mesmo sentido.

As atividades analisadas em dupla, o comentário da Lourdinha sobre um desenho de criança que passava desapercebido, as horas a mais destinadas a pensar formas de envolver os pais no trabalho, o abraço e lágrimas em momentos de crise: como era bom poder sair da sala e encontrar a Lou andando pelo corredor, sempre disposta a ouvir e compartilhar experiências!

Tão importante quanto poder contar com alguém que saiba ouvir, é contar com uma parceira aberta o suficiente para nos convidar a pensar sobre seu fazer pedagógico na escola...

As partilhas cotidianas promoviam a ideia de que ‘o trabalho’ era um só, de todas nós. Fazia sentido pensar sobre o que se fazia, porque esse ‘pensar’ seria partilhado e colocado em função de um trabalho que era também, mas não só, meu...

Sonho meu, trabalho meu, sonho nosso, trabalho nosso… ‘Nosso’ de quem? Como? O olhar externo, de pessoas que possam respeitosamente acompanhar nossa trajetória, conhecendo nossas ações e se expondo na medida em que se colocam junto em

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encaminhamentos e práticas diárias, assumindo seus riscos, gera crescimento pessoal e profissional.

Ter a oportunidade de contar com uma equipe gestora que aos poucos conhecia minhas fragilidades e apostava nas potencialidades que eu apresentava, me fez crescer muito! Eu me arriscava em projetos que sozinha não realizaria e tinha a oportunidade de ouvir uma avaliação do trabalho realizado na primeira pessoa do plural: o que facilitava a reorganização das ações e a reorientação de objetivos.

A sensação de que crescia e cresço a cada dia na escola, no encontro com minhas colegas me fez e ainda faz pensar no que chamamos de coletivo na escola. Mais: o que queremos dizer quando usamos as palavras ‘trabalho coletivo’?

Busco palavras da Lourdinha produzidas em um Trabalho de Conclusão de Curso de especialização e que pode nos ajudar a dimensionar o desafio de pensar em constituições de um trabalho compartilhado em princípios pela comunidade escolar na qual trabalho:

Como fortalecer um trabalho coletivo na escola? Como criar uma coletividade onde os membros aprendem em conjunto? Talvez possamos falar em coletivos dentro da escola e um caminho pode ser o fortalecimento destes coletivos. Numa escola como a que eu trabalhei, com mais de 1000 alunos distribuídos em três turnos, 34 turmas, mais de 60 profissionais entre especialistas, professores e funcionários, por mais que a aposta seja na construção de uma identidade da escola e na busca pela construção de uma continuidade no trabalho desenvolvido, o desafio é enorme! As possibilidades de articulação existem nos grupos de cada período, uma vez que fazem parte de um coletivo que se encontra quase diariamente e se reúnem semanalmente no horário de TDC (Trabalho Docente Coletivo)25 (SILVA, 2009, p.9 – grifo meu).

A equipe gestora26 alimentava essas questões. Por anos acreditei que alimentávamos

cotidianamente coletivos. A ilusão de um grande coletivo composto por todos os profissionais da escola foi dando lugar à vivência de parcerias específicas com gente que defendia as mesmas ideias e se defendia de ‘ataques’ diversos, da Secretaria, de outros colegas...

Um olhar para a escola com um organograma na mente, buscando intersecções entre grupos distintos e isolados em seus círculos, nomeados como especialistas, funcionários,

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Fazem parte da jornada do professor 2 horas-aulas semanais para reunião coletiva (nota da autora da citação)

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Além da Lourdinha como orientadora pedagógica, Rita Ferreira de Almeida, Márcia Guedes Soares e Célia do Amaral Avino compunham este grupo.

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professores, alunos e pais, pode produzir listas de tarefas e funções relacionadas à ‘união’ desses conjuntos, almejando ‘o bom funcionamento’ de uma unidade escolar democrática, sugerindo relações e trocas entre todos na realização de um trabalho coerente e coletivo.

Se pensar nas pessoas que comigo convivem nesses nove anos no Jd. São Marcos e for dizer do trabalho pedagógico coletivo que acontece por lá a partir das relações entre os sujeitos, deslocando-os dos lugares que ocupam e de suas ‘funções’ esperadas - que às vezes são usadas para restringir e cercear iniciativas -, crio a imagem de um caleidoscópio imenso.

Nenhum organograma daria conta de descrever as relações de apoio e de trabalho conjugado existente em uma escola que olhe para si de maneira dialógica e democrática.

Costumo dizer que tenho o insistente impulso de olhar ao meu redor e ver relações entre pessoas e objetos segundo minhas crenças, por mais que muitos à minha volta desmintam as imagens que vejo.

Sempre circulei em todos os espaços da escola como se fossem também meus, como se em cada um deles algo me pertencesse e eu pudesse contribuir, corrigir, pegar emprestado, amar, errar, compartilhar.... Com as devidas licenças de quem ocupa cada espaço físico na realização de seu trabalho, para não atrapalhar ou impedí-lo, transito e me relaciono igualmente com todos e todas, até que me digam explicitamente que meu trânsito não é bem- vindo.

Esse movimento, para mim, gera e mobiliza compromisso com a escola e disponibilidade para pensar e ‘fazer junto’ qualquer trabalho que faça a escola crescer e que necessariamente seja compartilhado, independente se dentro ou fora da sala de aula, na biblioteca ou na diretoria.

O ‘entra-e-sai’ na secretaria e na diretoria da escola, na gestão com a qual convivi de 2003 a 2008 sempre foi polêmico e eu demorei a entender o porquê. Fui aprendendo que o espaço da secretaria e da direção para alguns era algo como ‘solo sagrado’.

Fui percebendo que meu trânsito na sala da direção, por exemplo, era visto como um privilégio ou ‘proteção’... Uns diziam que esse ‘entra-e-sai’ era uma ‘bagunça’, outros diziam que facilitava a vida de todos, pois agilizava o trabalho... mas por trás disso tudo, tempos

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depois, percebi que mais forte era o incômodo causado pelo ‘poder’ delegado aos espaços. Rita, nossa diretora, também parecia incomodar-se pouco com a ocupação desses espaços.

Ainda preciso perguntar para ela se as poesias recitadas em sua sala, para alegrar e alimentar esperanças, não valeram os barulhos por lá.

A impressão que eu tinha era a de que todas nós nos revezávamos em dias tristonhos e mais animados... Nossa diretora com seu jeito meigo, e ao mesmo tempo forte, sustentava a vontade de continuar tentando fazer algo diferente a cada dia para construir uma escola onde eu e as crianças fôssemos mais felizes.

Rita fazia grandes apostas na escola, permitia-se grandes sonhos e longas prosas em meio ao caos. Um jeito de dizer do trabalho, na beleza e nas agruras que me comove até hoje quando rememoro...

Na escrita deste texto, busco outros escritos...

Encontrei em meus guardados uma carta que escrevi para Rita, feita com carinho e tristeza por ver o desgaste do grupo pelo volume de trabalho e por ouvir seus dizeres sobre o desejo de buscar escolas menores - com menos problemas -, eu lhe pedia paciência! Dizia a ela que pedisse também paciência à poesia...

(...)

contem a ela da minha certeza No amanhã

Que sinto um sorriso no rosto invisível, da noite

Vivo em tensão, ante a expectativa do milagre; por isso Peçam-lhe que tenha paciência (...)27

Um grupo grande de profissionais demorou muito para construir autoconfiança e a colocar ‘na roda’ problemas que pareciam - e ainda parecem - insolúveis, lutando para