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3 “E o mar estava na concha”

3.2 O que ouço e vejo do mar, a partir da concha

E eu já tinha ouvido dizer que para conhecer melhor seus alunos e alunas não é preciso ir à casa deles, que uma atenção redobrada às suas falas, gestos, desejos dizem o necessário para organizar o trabalho pedagógico. Em 2004 eu trabalhava no Jardim São Marcos há um ano e duvidei disso...

Quando começamos a tratar do tópico de conteúdo ‘moradia’, inclusive com respaldo do livro de português com a música “A casa” de Vinícius de Moraes, comecei a fazer perguntas sobre a casa em que moravam.

Concomitante ao início do trabalho tivemos a primeira reunião de pais do ano, onde emocionada e triste ouvi a história trágica da família de um de meus alunos: casa alagada por enchente, ser motivo de sarro no bairro pela precariedade do barraco, ter suas roupas desprotegidas de ratos, não ter dinheiro para comprar gás e fervê-las... enfim, pensei “ – Que raio de trabalho faço em torno da condição humana destas crianças? Como vou trabalhar ‘casas’?”

Daí lembrei de um texto trazido pela Lourdinha, num TDC, no qual Miguel Arroyo dizia da importância de aproximarmos a escola dos movimentos sociais, e como aquele texto tinha mexido comigo e com as coisas que eu acreditava(...) No mesmo período procurei o prof. Guilherme da Faculdade de Educação na vontade de (...) reiniciar momentos de discussão e reflexão (...). No dia em que nos encontramos fui questionada com relação ao meu conhecimento sobre aquela comunidade onde trabalho e seus campos de atuação, formas de organização, que por estar localizada espacialmente perto de outra região onde trabalhei dois anos e meio julgava reconhecer semelhanças e ter um imaginário mínimo de elementos para o trabalho com as crianças. O professor aconselhou idas às casas das crianças... algo que eu já almejava, mas que não encontrava tempo nem encorajamento para... (...)

E eu lá buscando me encontrar na sala, com as crianças, por meio de um recurso que me toca muito: a música. “Era uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada...”. No livro didático, uma das atividades propostas envolvia o trabalho com fotos-legenda: fotografias acompanhadas de um texto que a complementa com título e informações. A foto-legenda do livro tratava de casas de João-de- barro, logo pesquisamos outras foto-legendas em jornais.

Daí o insigth! Pensei que poderíamos fazer fotos-legendas das moradias deles, discutir a questão da moradia de maneira mais profunda e quem sabe entendendo melhor a favela e seus porquês! Pensei também: “Ai, não é muito pra eles?”

Conversa aqui, outra ali, e Lourdinha me deu o incentivo e o respaldo final. Preparei os bilhetes pedindo autorização para passeios que sairiam às 11h30m da escola e os levariam as suas casas, no máximo de quatro em quatro crianças fotografando o bairro e se possível, suas casas.

(...)Desde a maneira como eu imaginava o famoso córrego à pinguela, o “túnel”, as diferentes noções de distância apresentadas pelas crianças, os espaços de brincar, as ideias do que representa a palavra perigo, alguns traços da identidade da criança que mora nas “casinhas”, ou nas proximidades da escola... A riqueza de um jeito de dialogar, que não tem relação direta com o movimento social, mas que viabiliza idas e vindas de perguntas e porquês, quando, sinceramente, as crianças ensinam a professora um pouco do que é o bairro Jardim São Marcos.

(registro de dezembro de 2004) 28

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Trechos de registro “O trabalho do ano” gravado em pasta intitulada “2ª. série E” arquivada em meu computador.

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Nada nos impede de trabalhar somente a partir dos indícios de práticas cotidianas e costumes da população atendida pela escola trazidos pelas crianças para sala de aula. Estes podem realmente nos ensinar muito e orientar grande parte do planejamento caso professoras e professores, optemos por lançar-nos no desafio de diminuir a distância existente entre nós e nossos alunos e alunas.

Paulo Freire disse, em diversos momentos, da importância de exercitarmos a disponibilidade ao diálogo, em um movimento que envolve curiosidade, inquietação e amorosidade em direção ao outro com quem queremos aprender e ensinar:

(...) as condições materiais em que e sob que vivem os educandos lhes condicionam a compreensão do próprio mundo, sua capacidade de aprender, de responder aos desafios. Preciso, agora, saber ou abrir-me à realidade desses alunos com quem partilho a minha atividade pedagógica. Preciso tornar-me, se não absolutamente íntimo de sua forma de estar sendo, no mínimo, menos estranho e distante dela. E a diminuição de minha estranheza ou de minha distância da realidade hostil em que vivem meus alunos não é uma questão de pura geografia. Minha abertura à realidade negadora de seu projeto de gente é uma questão de real adesão de minha parte a eles e a elas, a seu direito de ser (FREIRE, 1996, pág. 155).

A memória das aprendizagens no diálogo com Freire e as experiências que tive ao acompanhar outras crianças na escola e fora dela por mais de dois anos em um assentamento rural, me diziam que meu diálogo com alunos e alunas ainda estava empobrecido... Em 2004, meu planejamento pedia outros indícios... Pedia mais elementos sobre a vida no Jd. São Marcos. Só o que eu lia nas/com as crianças na escola não era suficiente para mim.

A vivência de visitação à casa das crianças, experienciada em 2004, gerou reflexões importantes sobre a minha relação como professora com as famílias, possibilitou criação de vínculos de confiança e mais que isso, me ensinou coisas sobre a vida das crianças que eu não poderia jamais inferir a partir apenas das narrativas, gestos e objetos que as crianças apresentavam em sala de aula. Foi uma experiência intensa que redimensionou meu trabalho na escola.

Até hoje lanço mão da memória dos momentos que partilhei com as crianças e seus familiares fora da escola, no planejamento do trabalho e na tentativa de compreender episódios

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recorrentes, que por muitas vezes nos chocam e promovem indignação no cotidiano da instituição escolar.

Convido a/o leitor/a a, como quem coloca uma concha no ouvido, fazer um exercício de imaginação: a partir de alguns ‘sons’ e imagens produzidas na narrativa de minhas memórias sobre as andanças que fiz pelo bairro nos últimos anos, conhecer um pouco - bem pouco - da história que tive o privilégio de partilhar e vivenciar pelas ruas no/do Jd. São Marcos.

São lembranças de cenas únicas, num cenário em constante mudança...

“As vozes de Lê 29”...

...Ouço crianças e seus gritos que vão diminuindo ou aumentando pela distância que tomam na correria da brincadeira. Muitas corriam ao meu encontro, felizes por me verem ali perto do ‘túnel 30‘, das brincadeiras, de suas casas, apresentando-me seus bichinhos, cachorros, o cavalo da vizinhança... Naquele lugar, barulho de carro não é o que chama mais atenção... um ou outro passa por nós, na rua asfaltada perpendicular àquela onde caminhávamos sob o sol forte. Dos muitos portões abertos saiam músicas diversas, em alto volume e desconhecidas por mim.

Logo aparece a tia, atrás do pequenino só de cueca, batendo os pezinhos na terra vermelha. Falava ainda mais alto que as crianças da rua: “Lê, segura esse menino!” e dava ordens para que ele entrasse.

Lê justificava o fato de ter ignorado seu sobrinho pela rua, dizendo que estava com a professora, lembrando à tia do ‘dia da visita’...

Ela me convida para entrar e Lê, ainda no portão, narra à distância o que alguns meninos ‘aprontam’... A tia se aproxima dele e brava, exige que feche o portão e entre para ajudá-la, enquanto caminhávamos, atravessando o terreiro em frente a casa, ela justificava a braveza dizendo que um dia aquele menino iria morrer pela ‘boca grande’ que tem...

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O apelido deste aluno e nomes dele e de outras crianças são fictícios. Esta narrativa, diferente de outras que narram acontecimentos no bairro e na escola, foi escrita para esta pesquisa.

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E Lê era mesmo conhecido pelo tanto que falava, muito rápido e em alto - e bom! - som... Não conheci professora que não reclamasse dessa sua característica...

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Lê foi aluno marcante, para minha felicidade, pelo tanto que aprendi com ele. Eu tinha carinho imenso por ele e admirava sua inteligência e rapidez de raciocínio!

Os textos coletivos eram muito melhores quando ele estava presente e seu envolvimento com o trabalho era empolgante, apesar dos milhares de conflitos que gerava em sala e no pátio por seu jeito impaciente e pelo seu senso de justiça exacerbado, somado à sua ‘boca grande’, como brincava a tia...

Antes de colocar a máquina fotográfica na mão das crianças elaborei algumas atividades para discutir enquadramento, para que percebessem que a intencionalidade no foco poderia

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Página extraída do livro “Paulo Zumbi e as fotos”, que produzi com a turma de 2004, a partir das fotos que as crianças tiraram do bairro. O texto foi escrito por dois meninos. Já não lembro mais se eles digitaram ou se fui eu. Há no livro todo vários erros de ortografia e concordância. Naquela época eu tinha receio em mexer nos textos das crianças. Assumi no livro a produção das crianças após escrita e reescrita com minhas intervenções em sala. Infelizmente não tenho os manuscritos destes textos.

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gerar textos diferentes acerca das moradias e do bairro. Em uma delas usei uma imagem retirada do livro “A rua é livre”, de Kurusa 32. Sobre a imagem copiada em uma transparência,

coloquei folhas de sulfite com recortes de diferentes tamanhos, que destacavam diferentes ‘pedaços’ da mesma imagem. Projetei na parede e na medida em que ia retirando as folhas e ampliando o recorte, as crianças reelaboravam suas narrativas sobre a cena que viam. Em um desses momentos, Lê me surpreende mediando o questionamento dos colegas. Registrei em meu caderno de planejamento:

“– É bairro de rico?

- É de pobre porque...

- Se fosse de rico a mulher não estaria no meio da rua com a vassoura, teria chamado a polícia...

- O muro seria alto...”

(Registro realizado em 22/03/2004)33

Jardim São Marcos: bairro de pobre? Por quê?

Na página seguinte de meu caderno anotei informações citadas em uma dissertação de mestrado (na época ainda em andamento) que tinha ‘caído’ em meus braços depois de passar de mão em mão pela escola. Hoje já está disponível na biblioteca da Faculdade de Educação da UNICAMP.

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DOPPERT, Monika. (Ilustração), KURUSA. A rua é livre. São Paulo: Ed. Callis, 2002, p.15.

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Tétis Mori Muniz caracteriza o bairro em 2002. Fiz minhas anotações em tópicos, destacando a composição das moradias divididas entre favelas e bairros. A seguir partilho algumas das informações a partir do texto da própria pesquisadora:

O número de favelados nos bairros do Complexo continua sendo grande, sendo que eles representam 40% da população e os moradores dos bairros 60% de uma população de 21.659 habitantes, segundo o Plano Intersetorial para o Complexo São Marcos (s/d)

O número de favelas é superior ao número de bairros. São oito favelas espalhadas pelos bairros sendo que cinco delas estão na região do São Marcos. A população residente em favelas, segundo o Plano Intersetorial para o Complexo São Marcos (op.cit), é maior na região do São Marcos (com 45% da população) do que na região do Santa Mônica que tem 25% da sua população morando em favelas (MUNIZ, 2007, págs. 108 e 109).

Os dados citados foram conseguidos pela pesquisadora em 2002, por meio de um relatório da Secretaria de Saúde. Acredito que em 2007, quando a dissertação foi apresentada à banca, essa ‘descrição’ da região já não coincidia com a realidade, muito menos coincide hoje, dez anos depois. Os dados mais recentes sobre a região, disponibilizados no site da prefeitura, via Internet, são do censo de 200034. Eles dizem que a média de anos de estudo entre as 14.773 pessoas atendidas pelo Centro de Saúde do Jd São Marcos – um entre os dois postos que atende a região -, na época era de 4,9% e que apenas 8,7% dos responsáveis por famílias da região tinham de 11 a 14 anos de estudo.

Em minhas buscas para uma melhor caracterização do bairro encontrei um artigo do Núcleo de Estudos de População da UNICAMP no qual, infelizmente, são oferecidas informações sobre desigualdade, vulnerabilidade social35e mortalidade relacionadas à região, apresentando

dados e índices elaborados também em meados dos anos 2000:

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Portal da Saúde de Campinas, Sistema de Informação Tabnet, disponível em

<http://tabnet.saude.campinas.sp.gov.br/. Acesso em: jan. 2011.

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Na busca pelo conceito de vulnerabilidade encontro CUNHA (2006, p.148) dizendo que na escolha deste termo em lugar de outros, como ‘pobreza’: “Acredita-se que, ao se adotar um enfoque que permita ir além da dimensão da renda percebida, ou do conjunto de necessidades básicas atendidas, pode-se avançar no entendimento da diferenciação socioespacial existente no plano intra-urbano e, particularmente, fornecer subsídios mais adequados para o planejamento das políticas públicas que visam o aumento da capacidade de resposta das famílias aos vários riscos (sociais, ambientais, físicos etc.) existentes no espaço urbano.”

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A área que inclui o Jardim São Marcos (...) apresenta taxa de homicídio de 139,2 por 100 mil, e alta proporção de população que vive em situação de exclusão e pobreza, inalterada há pelo menos 15 anos, período no qual a taxa de homicídios mantém-se entre as mais altas do município e da região. Nesta região, entre 1991 e 2000, a proporção de chefes de domicílios com menos de quatro anos de estudos mantém-se em torno de 40%; de população residindo em favela, em torno de 30%; e, em 2000, nada menos que 32% de jovens de 11 a 17 não freqüentava a escola e cerca de 5 para cada mil homens de 15 a 44 anos morreram assassinados (AIDAR, 2006, p. 571).

Mesmo sabendo da alteração deste quadro, julgo importante apresentá-lo aqui por perceber, até hoje, as consequências do que pesquisadores chamam de ‘vulnerabilidade’ da/na comunidade atendida pela escola em que trabalho. As marcas da exclusão social e da violência urbana são nítidas em muitas histórias de vida de alunos e alunas, inclusive dos mais novos.

Próximo ao ano em que o artigo de AIDAR (2006) foi publicado, produziu-se um documento de planejamento da Coordenadoria Regional de Assistência Social da Região Norte de Campinas (2005, p.14), afirmando que “As áreas consideradas de vulnerabilidades [na microrregião dos Amarais] são principalmente as favelas e ocupações ao longo do Córrego do Quilombo/Lagoa, tanto pela violência, sub-habitação e os constantes alagamentos provocados por chuvas”. Estas áreas estão menores, mas existem lá até hoje.

Relatórios como este que tive acesso foram produzidos em diálogo nos processos de construção dos mapas de Vulnerabilidade Social36

, realizados em 2005, 2007 e 2009. Eles apresentam dez diferentes regiões da cidade que concentram maior complexidade de problemas sociais e funcionam – ou deveriam funcionar – como ‘guias’ no planejamento integrado de políticas públicas. A região dos Amarais, onde encontramos os bairros atendidos também pela ‘Escolinha Branca’, está entre as dez áreas da cidade mapeadas como vulneráveis.

36 Os Mapas de Vulnerabilidade social, segundo o Plano Municipal de Assistência Social (2010, p.7-8) foram

originados a partir “do Mapa de Exclusão e Inclusão Social – MEIS, construído pelo Instituto de Estudos Especiais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – IEE/PUC-SP, de acordo com contratação efetuada pela Secretaria em 2003/2004.(...)A partir desse (...) MEIS, (...) em 2005, foi construído pelas Políticas Sociais de Saúde, de Educação, de Trabalho, Emprego e Renda, de Esportes, de Cultura e de Segurança Pública, um Mapa que pudesse demonstrar as áreas que essas políticas indicavam como de maior demanda dos serviços sociais.Constatou-se, então, que nos territórios que apresentavam o maior número de homicídios, por residência das vítimas, coincidentemente correspondiam aos territórios indicados pela Assistência Social, para instalação dos Centros de Referência de Assistência Social – CRAS, pela Educação, como as áreas de maior evasão escolar, por violências pela Segurança Pública, entre outros indicadores, e assim, validadas por todas as áreas envolvidas e acima indicadas, passando a denominar-se Mapa de Vulnerabilidade de Campinas”.

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O recente censo de 2010 oferece informações mais próximas das que posso constatar andando pelos bairros da região, mas tabulações cruzadas ainda não são possíveis de serem acessadas para captarmos informações como as que mencionei anteriormente, como média de anos de estudo entre moradores da região, por exemplo. No anexo B coloco imagens de mapas capturadas do site do IBGE37. Essas imagens nos dão a dimensão da área ocupada pelo que o

Instituto denomina como ‘aglomerados subnormais’38na região.

Nas buscas que fiz nesse site encontrei informações interessantes apontadas em mapas interativos39

fornecidos pelo IBGE, alguns desses disponibilizando números de pessoas alfabetizadas, por faixa etária, em diferentes setores da região da escola. Inseri esses dados no CD-ROM que acompanha o texto impresso.

As informações retiradas do site do IBGE não estão impressas pois entendo que, sendo meramente indicativas de números aproximados de pessoas, não esclarecerão muito mais do que posso dizer em poucas palavras agora: gerações mais velhas apresentam maior número de pessoas analfabetas.

Em geral são migrantes de diferentes regiões do país – especialmente de Minas Gerais e de estados do Nordeste – que por crescerem afastados dos grandes centros urbanos, vivendo a situação de trabalhadores já na infância, foram lesados em seu direito à educação. Há indicação de analfabetos nas faixas etárias entre 15 e 19 anos, por exemplo, - muitos provavelmente nascidos e ‘criados’ na região - mas em menor proporção que seus parentes e vizinhos mais velhos.

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IBGE: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

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“O Manual de Delimitação dos Setores do Censo 2010 classifica como aglomerado subnormal cada conjunto constituído de, no mínimo, 51 unidades habitacionais carentes, em sua maioria, de serviços públicos essenciais, ocupando ou tendo ocupado, até período recente, terreno de propriedade alheia (pública ou particular) e estando dispostas, em geral, de forma desordenada e densa. A identificação atende aos seguintes critérios: a) Ocupação ilegal da terra, ou seja, construção em terrenos de propriedade alheia (pública ou particular) no

momento atual ou em período recente (obtenção do título de propriedade do terreno há dez anos ou menos); e b) Possuírem urbanização fora dos padrões vigentes (refletido por vias de circulação estreitas e de alinhamento

irregular, lotes de tamanhos e formas desiguais e construções não regularizadas por órgãos públicos) ou precariedade na oferta de serviços públicos essenciais (abastecimento de água, esgotamento sanitário, coleta de

lixo e fornecimento de energia elétrica).” Informação disponível em:

<http://www.ibge.gov.br/home/presidencia/noticias/noticia_visualiza.php?id_noticia=2051&id_pagina=1>. Acesso em: 17 jan. 2012.

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Julgo que a importância dessas informações está na justificativa que ofereço para um trabalho mais próximo das famílias das crianças... Há uma compreensão das condições de vida de alunos e alunas que precisa ir além de práticas cotidianas isoladas de algumas famílias também. É importante fazermos a ‘leitura’ das práticas culturais compartilhadas, do quanto o convívio naquele bairro, com aquelas ofertas - ou não - de lazer e serviços públicos, filantrópicos e religiosos, impactam nos encaminhamentos para resolução de problemas que chegam à escola. Na minha compreensão, tais ‘leituras’ favorecem a humanização do trabalho desenvolvido na escola, pois são aproximações do ‘universo cultural’ no qual estão inseridas as crianças, como ensina Paulo Freire em sua obra.

Exercícios cuidadosos de compreensão da dinâmica de trabalho e de convívio social no bairro podem romper com alguns preconceitos discriminatórios que temos em relação a algumas famílias, ou elencar elementos novos para pensar a aproximação da escola com a comunidade, ou ainda podem alimentar projetos temáticos que professores queiram implementar junto aos alunos e alunas.

As falas das crianças acerca do bairro mudaram muito desde 2004, quando fiz minhas primeiras andanças pelas casas de alunos... Para nossa alegria, notícias de mortes e de tráfico diminuíram, aparecem menos em sala de aula. A construção do conjunto habitacional, constituindo a possibilidade de um novo bairro chamado Vila Esperança, diminuiu a quantidade de pessoas vivendo em área de risco, mesmo que a precariedade deste novo bairro ainda seja marcante. Moradias construídas de madeiras e restos de materiais de construção ainda existem