• Nenhum resultado encontrado

A concupiscência na perspectiva de Blaise Pascal

No documento Download/Open (páginas 160-169)

CAPÍTULO IV – O CONCEITO DE CONCUPISCÊNCIA

4.1 A concupiscência na perspectiva de Blaise Pascal

Inicialmente, é relevante fazer um levantamento do tema da concupiscência no viés pascaliano. Acrescenta-se uma reflexão de Ben Rogers em sua obra Pascal: elogio

do efêmero (2001): Pascal era um jovem severo e fechado em si mesmo. Aqui, podemos

dizer que Machado de Assis era o mesmo. Simultaneamente, em sua dialética, Pascal apresenta uma argumentação sutil e obscura, e qualquer formulação simplista será apressada e incerta. Ainda consoante Rogers, a abordagem de Pascal é cética e pirrônica (e aqui acrescenta-se Machado de Assis). A diferença é que Pascal visava levar o homem à fé em Deus ao fazê-lo perceber sua fraqueza, corrupção e precariedade. Machado de Assis, por sua vez, não objetivava levar o/a leitor/a até Deus ao fazê-lo(a) perceber-se fraco(a), corrupto(a), contingente. Para ele, o ser humano se encontra em um beco sem saída.

Blaise Pascal afirma que ninguém, baseando-se apenas em meios humanos, é capaz de entender ou de se dar conta da confusa mistura de baixa qualidade e alto potencial presente no homem. A despeito de sua evidente capacidade para a felicidade, o homem é naturalmente miserável e nada do que os filósofos foram capazes de sugerir pode aliviar essa miséria. Para Pascal, só o cristianismo resolve o problema do caráter humano e oferece uma série de argumentos históricos para o divino caráter da Bíblia e da religião cristã com base, sobretudo, na precisão das profecias do Antigo Testamento.

O escritor carioca, no que lhe concerne, nem ao menos sugere que o cristianismo e a Bíblia irão regenerar o ser humano, conforme se percebe, sobretudo, na obra Quincas

Borba, em que ninguém se redime, se regenera ou se transforma por causa do amor, que

seria um caminho para a prática do bem.

Assim sendo, o ser humano, tanto para Blaise Pascal quanto para Machado de Assis é um ser decaído, inconstante. O filósofo e teólogo francês, na Seção VI, maço 377 (p. 501), vai discorrer sobre a humildade, o orgulho, que servem como meios para o ser humano se debater na concupiscência bem como no ennui e no divertissement:

Os discursos da humildade são matéria de orgulho para as pessoas gloriosas, e de humildade para as humildes. Assim, aqueles do pirronismo são matéria de afirmação para os categóricos; poucos falam da humildade humildemente; poucos, da castidade castamente; poucos, do pirronismo, duvidando. Nós não passamos de mentira, duplicidade,

contrariedade, e nós escondemos e nos mascaramos a nós mesmos.25

[tradução da autora]

Por sua falta de humildade, pelos inúmeros desvios de personalidade do ser humano, entre os quais, a concupiscência, Pascal, na Seção V, maço 334, p.484, escreveu: “A concupiscência e a força são as fontes de todas as nossas ações: a concupiscência faz os voluntários; a força, os involuntários.”26 [tradução da autora]

O ser humano, conforme Pascal, está sempre tentando se equilibrar entre a razão e as paixões, a grandeza e a miséria, a fraqueza e o Nada. Há, na seção VI, no maço 381, pp. 502-503, uma reflexão pascaliana que mostra esse desequilíbrio que insiste em permear a vida do ser humano e suas relações:

Se somos jovens demais, não julgamos bem; velhos demais, da mesma maneira. Se não sonhamos suficientemente, se sonhamos em excesso, nós ficamos obstinados e nós só temos essa ideia na cabeça. Se consideramos sua obra incontinenti, depois de tê-la feito, estamos ainda totalmente prevenidos; se muito tempo depois, não entramos nela mais. Assim, os quadros vistos de muito longe e de muito perto; e só há um ponto indivisível que seja o verdadeiro lugar: os outros são demasiadamente perto, demasiadamente longe, demasiadamente altos ou demasiadamente baixos. A perspectiva a designa na arte da pintura. Mas na verdade e na moral, quem a atribuirá?27 [tradução da autora]

Conforme já foi pontuado na presente tese, dividir os conceitos principais de Pascal detectados na obra machadiana, divertissement, ennui, concupiscência, vaidade, foi inspirado única e exclusivamente em critérios que tornassem as reflexões mais facilmente detectáveis, pois é sobremaneira complexo colocar tais conceitos em compartimentos estanques, já que eles se encontram entrelaçados. Por conseguinte,

25Les discours d’humilité sont matière d’orgueil aux gens glorieux, et d’humilité aux humbles. Ainsi ceux

du pyrrhonisme sont matière d’affirmation aux affirmatifs ; peu parlent de l’humilité humblement ; peu, de la chasteté chastement ; peu, du pyrrhonisme en doutant. Nous ne sommes que mensonge, duplicité, contrariété, et nous cachons et nous déguisons à nous-mêmes.

26La concupiscence et la force sont les sources de toutes nos actions: la concupiscence fait les volontaires; la

force, les involontaires.

27Si on est trop jeune, on ne juge pas bien; trop vieil, de même. Si on n’y songe pas assez, si on y songe trop

on s’entête, et on s’en coiffe. Si on considère son ouvrage incontinent après l’avoir fait, on en est encore tout prévenu ; si trop longtemps après, on n'y entre plus. Ainsi les tableaux, vus de top loin et de trop près ; et il n’y a qu’un point indivisible qui soit le véritable lieu : les autres sont trop près, trop loin, trop haut ou trop bas. La perspective l’assigne dans l’art de la peinture. Mais dans la vérité et dans la morale, qui l’assignera ?

quando foi selecionado o tema na concupiscência é porque se trata de um estado ligado à vaidade, mas também à miséria, queda e fraqueza humanas.

Blaise Pascal foi um pensador religioso, teólogo, filósofo, proselitista da fé cristã. Para ele, a salvação só se daria por meio de Jesus, que seria o intermediador do reencontro do ser humano com Deus. Essa consideração foi feita para que se conheça a razão por que, em alguns pensamentos, Pascal vai se referir a Deus como o ponto de partida para suas reflexões. No maço 314, pp. 475-476, o filósofo vai discorrer sobre a potência concedida por Deus, a qual pode ser aplicada a Deus ou ao indivíduo. Se ela for aplicada a Deus, o Evangelho é a regra. Se for ao indivíduo, este tomará o lugar de Deus. Uma vez que Deus é rodeado de pessoas caridosas, que lhe pedem os bens da caridade que estão em sua potência... Então, Pascal orienta que o indivíduo precisa conhecer a si próprio e que deve saber que ele não passa de um rei de concupiscência e, portanto, deve tomar o caminho da concupiscência.

Pascal, no maço 402, p. 509, escreveu: “Grandeza do homem em sua própria concupiscência, da qual soube tirar uma regra admirável, e de ter feito dela um quadro da caridade.” (« Grandeur de l’homme dans as concupiscence même, d’en avoir su tirer un règlement admirable, et d’en avoir fait un tableau de la charité ». Ele também afirmou, na seção VII, maço 430, p. 521:

As grandezas e misérias do homem são tão visíveis, que é necessariamente preciso que a verdadeira religião nos ensine que existe algum grande princípio de grandeza no homem, e que existe um grande princípio de miséria. Portanto, é necessário que ela nos torne razão desses surpreendentes contrastes.

Para tornar o homem feliz, é necessário que ela lhe mostre que existe um Deus; que somos obrigados a amá-lo; que nossa única felicidade é a de estar nele, e nosso único mal de estarmos separados dele; que ela reconheça que somos cheios de trevas que nos impedem de conhecê-lo e amá-lo; e que assim nossos deveres nos obrigando a amar a Deus, e nossas concupiscências nos desviando disso, estamos cheio de injustiça. (...)

(...) Qual religião nos ensina, pois, a curar o orgulho e a concupiscência? (...)28 [tradução da autora]

28Les grandeurs et les misères de l’homme sont tellement visibles, qu’il faut nécessairement que la véritable

religion nous enseigne et qu’il y a quelque grand principe de grandeur en l’homme, et qu’il y a un grand principe de misère. Il faut donc qu’elle nous rende raison de ces étonnantes contrariétés. Il faut que, pour rend l’homme heureux, elle lui montre qu’il y a un Dieu ; qu’on est obligé de l’aimer ; que notre unique félicité est d’être en lui ; qu’elle reconnaisse que nous sommes pleins de ténèbres qui nous empêchent de le connaître et de l’aimer ; et qu’ainsi nos devoirs nous obligeant d’aimer Dieu, et nos concupiscences nous en détournant, nous sommes pleins d’injustice. (...) Quelle religion nous enseignera donc à guérir l’orgueil et la concupiscence ?

O propósito aqui não é sugerir, ratificar ou estabelecer que só a religião ou Deus pode salvar o ser humano da concupiscência. Os trechos do Pensées em que o termo “concupiscência” surge em contextos de Pascal, são para registro. Lembrando sempre que o termo é empregado no sentido da atração natural do ser humano pelos bens terrestres, acarretando um desregramento dos sentidos e da razão, consequência do pecado original; desejo intenso dos prazeres sensuais ou paixão por um bem material.

Em continuação, no maço 453, p. 541, o filósofo escreveu: “Estabeleceram-se e retiraram-se da concupiscência regras admiráveis de polícia, de moral e de justiça; mas no fundo, este fundo desprezível, este figmentum malum, está apenas coberto: ele não foi retirado.”29 [tradução da autora] Aqui cumpre acrescentar que as expressões “estabeleceram-se” e “retiraram-se” , conforme a nota de rodapé, constituem um exemplo de atração, que Pascal considera mais como sendo negligência do que incorreção.

Na página 543, maço 458, Pascal afirmou: “Tudo o que se encontra no mundo é concupiscência da carne, ou concupiscência dos olhos, ou orgulho da vida: libido

sentiendi, libido sciendi, libido dominandi” (...).30 [tradução da autora].

Mais adiante, na página 544, maço 460, ele escreveu: “Concupiscência da carne,

concupiscência dos olhos, do orgulho etc. – Há três tipos de coisas: a carne, o espírito, a

vontade. As carnais são os ricos, os reis: eles têm o corpo como objeto. Os curiosos e os sábios: têm por objeto o espírito. Os sábios: eles têm por objeto a justiça.”31 [tradução da autora]. (...)

No maço 461, pp. 544-545, ele continua com seu pensamento: “As três concupiscências fizeram três seitas, e os filósofos não fizeram outra coisa a não ser seguir uma das três concupiscências.”32 [tradução da autora]. Em uma nota de rodapé, está escrito que o sentido da própria concupiscência entre os filósofos não reside na curiosidade, mas no orgulho.

No maço 479, na página 551, a concupiscência aparece vinculada ao mal:

Se existe um Deus, é necessário amar somente a ele e não as criaturas passageiras. O raciocínio dos ímpios, na Sabedoria, é fundamentado

29On a fondé et tiré de la concupiscence des règles admirables de police, de morale et de justice ; mais dans

le fond, ce vilain fond de l’homme, ce figmentum malum, n’est que couvert : il n’est pas ôté.

30Tout ce qui est au monde est concupiscence de la chair, ou concupiscence des yeux, ou orgueil de la vie:

libido sentiendi, libido sciendi, libido dominandi.

31 Concupiscence de la chair, concupiscence des yeux, orgueil, etc. – Il y a trois ordres de choses : la chair,

l’esprit, la volonté. Les charnels sont les riches, les rois : ils ont pour l’objeto le corps. Les curieux et savants : ils ont pour objet l’esprit. Les sages : ils ont pour objet la justice.

32Les trois concupiscences ont fait trois sectes, et les philosophes n’ont fait autre chose que suivre une des

apenas naquilo em que não Deus. ‘Isto posto, diz ele, regozijemo-nos portanto das criaturas’. (...)

Logo, tudo o que nos incita a nos apegar às criaturas é ruim, uma vez que isso nos impede, ou de servir a Deus, se nós o conhecemos, ou de procurá-lo, caso nós o ignoramos. Ou nós somos plenos de concupiscência; portanto, nós somos plenos de mal; logo, nós devemos nos odiar a nós mesmos, e tudo o que nos anima a outro elo que não seja somente a Deus.33 [tradução da autora].

Na Seção X, maço 660, página 628, Pascal escreveu: “A concupiscência tornou- se natural para nós e formou nossa segunda natureza. Assim, há duas naturezas em nós: uma boa, outra, má. Onde está Deus? Onde vocês não estão, e o reino de Deus está em vocês. Rabinos.”34 [tradução da autora]

Já no maço 692, página 643, há um trecho que diz: “Há quem vê bem que não há outro inimigo do homem do que a concupiscência, que o desvia de Deus, e não afasta Deus” (...) (Il y en a qui voient bien qu’il n’y a pas d’autre ennemi de l’homme que la concupiscence, qui le détourne de Dieu, et non pas Dieu (...). »

O maço 772, página 689, mostra a concupiscência vinculada à infidelidade:

Effundam spiritum meum. Todos os povos estavam na infidelidade e na

concupiscência, toda a terra era ardorosa na caridade, os príncipes deixam suas grandezas, as jovens sofrem o martírio. De onde vem esta força? É que o Messias chegou; eis o efeito e as marcas de sua vinda.35

[tradução da autora]

A concupiscência, portanto, em Pascal, aborda alguns aspectos, mas o que se pretende aqui é apontar os ecos pascalianos nas obras objeto da presente tese no que se referem à concupiscência da carne, ou concupiscência dos olhos, ou orgulho da vida.

Importa relembrar que não é o propósito aqui estabelecer uma discussão religiosa sobre como o filósofo relaciona a concupiscência com Deus, mas mostrar a concupiscência em contextos aliados à queda e à miséria do ser humano.

33S’il y a un Dieu, il ne faut aimer que lui, et non les créatures passagères. Le raisonnement des impies, dans

la Sagesse, n’est fondé que sur ce qu’il n’y a point de Dieu. « Cela posé, dit-il, jouissons donc des créatures. » C’est le pis aller. Mais s’il y avait un Dieu à aimer, ils n’auraient pas conclu cela, mais bien le contraire. Et c’est la conclusion des sages : « Il y a un Dieu, ne jouissons donc pas des créatures. » Donc tout ce qui nous incite à nous attacher aux créatures est mauvais, puisque cela nous empêche, ou de servir Dieu, si nous le connaissons, ou de le chercher, si nous l’ignorons. Or nous sommes pleins de concupiscence ; donc nous sommes pleins de mal ; donc nous devons nous haïr nous-mêmes, et tout ce qui nous excite à autre attache qu’à Dieu seul.

34La concupiscence nous est devenue naturelle, et a fait notre seconde nature. Ainsi il y a deux natures en

nous : l’une bonne, l’autre mauvaise. Où est Dieu ? où vous n’êtes pas, et le royaume de Dieu est dans vous. Rabbins.

35 Effundam spiritum meum. Tous les peuples étaient dans l’infidélité et dans la concupiscence, toute la terre

fut ardent de charité, les princes quittent leurs grandeurs, les filles souffrent le martyre. D’où vient cette force ? C’est que le Messie est arrivé ; voilà l’effet et les marques de sa venue.

Contextualizando o século em que Pascal viveu, o século XVII, é relevante apontar que as ciências partiam da análise do homem e de sua constituição, conforme escreveu Francesco Paolo Adorno, em seu livro Pascal (2008). Em outras palavras, é no ser humano que se encontram todos os dados que permitem estabelecer “um conhecimento verdadeiro e explicar como se pode atingi-lo” (ADORNO, 2008, p. 33). Contudo, nessa mesma época, era vigente entre a maioria dos filósofos clássicos o entendimento de que “o conhecimento pode ser alterado pelo trabalho das paixões” (ADORNO, 2008, p. 33). E disso decorreria a indispensabilidade “de purificar o pensamento de todos os elementos provenientes do conhecimento sensível” (ADORNO, 2008, p. 33).

Não obstante, Pascal não abraça o discurso sobre as paixões. Nele, inexiste o conflito entre a alma e a razão. Para ele não é possível mudar o intelecto “purificando-o da influência das paixões, pois essa modificação exigiria uma perfectibilidade virtual do homem, ao passo que o pecado original lhe retirou em definitivo toda e qualquer capacidade de progresso” (ADORNO, 2008, p. 33). A noção de pecado original em Pascal, inspirada pela doutrina agostiniana, assinala para uma diferença entre o homem antes e depois do pecado, e cada fase diz respeito a uma visão do homem, e é isso que constitui o projeto antropológico pascaliano.

Consoante Adorno, para Pascal, antes do pecado, Adão estava em um estado de santidade bem como de inteligência completa e total. Uma vez que Adão se encontrava em estado de perfeição, suas faculdades lhe permitiam alcançar a felicidade a qual se concretiza por meio da visão e do conhecimento de Deus. Para o autor de Pensées, o conhecimento total e perfeito de Deus advinha do fato de que a natureza estava criada em função de Deus e é essa natureza que hierarquizava todos os seres e todas as suas faculdades. Por conseguinte, as faculdades humanas também estavam subordinadas umas às outras de acordo com “seu grau de perfeição e de participação na felicidade total de Adão” (ADORNO, 2008, p. 39). Uma vez que a concupiscência não passava de um desejo de bens materiais (cuja finalidade era permitir a continuidade do funcionamento das funções vitais), ela estava submetida à vontade, que era direcionada pelo intelecto. O intelecto proporciona uma visão e um conhecimento perfeito de Deus, o que levava à felicidade completa. No que lhe diz respeito, os membros do homem “obedeciam completamente e sem oposição às ordens que vinham da vontade, pois não eram o lugar de aplicação de uma lei oposta à que neles estava presentes” (ADORNO, 2008, p.40).

Complementando as reflexões de Adorno, cabe mencionar o artigo de Michael Moriarty, Grace and religious belief in Pascal, publicado em The Cambridge Companion

to Pascal (2003, p. 147), em que Moriarty discorre sobre o pensamento pascaliano acerca

do pecado adâmico. Consoante Pascal, os primeiros seres humanos foram criados com uma vontade que era atraída particularmente nem para o bem nem para o mal (ela era flexível, conforme Pascal afirma). Eles podiam atuar de qualquer maneira que eles achavam que melhor os conduzisse à felicidade. Entretanto, ao pecarem, suas mentes ficaram nubladas, de modo que não mais tivessem uma percepção clara do bem. Além do mais, eles foram infectados com a concupiscência, uma atração indelével para criar coisas pelo bem deles próprios. Uma vez que estas agora são desejadas independentemente de qualquer relação com Deus como o supremo Deus, o desejo por elas tornou-se uma atração que se dirige ao mal. A vontade, dessa maneira, perdeu sua flexibilidade: o mal, agora, é o infrator.

Interrompendo um pouco o fluxo das considerações de Adorno sobre o pensamento de Pascal sobre vontade, concupiscência, pecado original, faz-se necessário mencionar o conceito de vontade em Machado de Assis. Este não traçou qualquer princípio e mostrou que é impossível buscar uma razão que ordene a existência humana. O escritor se distancia da ideia de que tudo esteja subordinado a uma “ordenação preconcebida, uma razão qualquer, um princípio”. Se não há um princípio preconcebido, é o acaso que vai ditar os fatos. Por conseguinte, não há espaço para a vontade de o homem ser agente de transformação do mundo. Segundo Rogério de Almeida (2010, p. 22), em seu artigo O trágico em Machado de Assis: uma pedagogia da escolha: “[...] a vontade do homem é incapaz [...] de provocar qualquer alteração, apenas somando acaso ao acaso, ou seja, escolhendo as possibilidades que o acaso determina possíveis”. De acordo com o autor, a filosofia na obra machadiana apresenta dois extremos: existência desprovida de razão e “o homem jogando com as convenções, agarrando-se ao desejo de conservação, atribuindo sentido de acordo com a conveniência“ (ALMEIDA, 2010, p. 23). Atendo-se às convenções, percebe-se em Machado de Assis que não existe uma crença efetiva de valores, mas valores convencionados já que para ele o mundo é representação e não vontade. Em outras palavras, as convenções são para serem sempre subjugadas pelo desejo. Dessa forma, em Machado de Assis a convenção é uma questão moral introjetada e sempre se opõe ao desejo. Este sempre vence aquela. Em outros termos, o aspecto moral é convenção e, em sua obra, sempre se dá vazão ao desejo.

Voltando a Adorno, em sua interpretação do pensamento de Pascal, entre a concupiscência e a caridade, havia subordinação. Há um estado de inocência natural que se identifica com a natureza original do homem. Tal estado é igualmente visto como “uma ordem de submissão justa das partes inferiores do corpo às partes superiores” (ADORNO, 2008, p. 40). Em Pascal, segundo Adorno, a vontade possui o desejo de fazer o que o intelecto lhe indica a fim de lhe fornecer um bem supremo.

Consoante Pascal, a vontade não passa do desejo de querer atingir o que a satisfaz, independentemente de qualquer objeto particular. Já que o desejo natural dos seres humanos é a felicidade, a vontade vai se direcionar para “os objetos que o intelecto lhe indica como podendo dar-lhe um máximo de ventura” (ADORNO, 2008, p. 40). Deus é o centro do seu amor já que o ser humano dedica um amor às criaturas e a si mesmo tendo

No documento Download/Open (páginas 160-169)