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Sensualidade e concupiscência em Machado de Assis

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CAPÍTULO IV – O CONCEITO DE CONCUPISCÊNCIA

4.2 Sensualidade e concupiscência em Machado de Assis

Augusto Meyer, já mencionado nesta tese, no capítulo Da Sensualidade, relaciona a sensualidade machadiana às próprias ideias do escritor. E é neste viés que é possível falar sobre concupiscência em um romancista que sabia empregar o ar sensual e lascivo de alguns personagens. Para Machado de Assis “(...) poderia haver uma volúpia mais aguda do que essa alegria de caçar as essências que transparecem na obra dos moralistas e psicólogos?” (MEYER, 2008, p. 105). Na descrição de alguns de seus personagens, com um estilo impecável, sempre insinuando, às vezes sendo mais explícito, vai despindo Bentinho, Capitu, Virgília, Brás Cubas, Palha, Sofia, só para citar os principais.

Para Meyer e para outros estudiosos machadianos, nada é simples no escritor e não vai ser em única leitura que ocorrerá uma visão de toda a obra.

Meyer escreve que a sensualidade de Machado de Assis vai-se insinuando, na penumbra, em segundo plano. Uma vez que essa sensualidade apresenta-se recalcada e profunda, certas vezes alcança os limites da morbidez. Consoante o estudioso de Machado de Assis, o escritor usa uma sensualidade imaginativa. A sensualidade no autor de

Quincas Borba é “uma curiosidade insaciável a desnudar todas as cousas, a despir as

idéias (sic) e os corpos, revelando a nudez essencial sob a roupagem mentirosa” (MEYER, 2008, p. 107).

Pascal escrevera: “Tudo o que está no mundo é concupiscência da carne, ou concupiscência dos olhos, ou orgulho da vida, libido sentiendi, libido sciendi, libido dominandi (João, II, 16). Infeliz a terra de maldição que esses três rios de fogo abrasam em lugar de regarem! (...) (Seção VII, maço 458, p. 543). Parte deste trecho já havia sido mencionada, mas foi relevante reproduzi-la com mais um detalhe para desenvolver o raciocínio. Em Pascal, conforme Meyer, prepondera a libido sciendi (desejo por conhecimento ou de conhecer). A libido sentiendi (desejo sensual em sentido mais amplo) seria menos profunda e, portanto recatada. É possível, de fato, perceber o desejo sensual nas três obras objeto da presente tese mais recatado, diga-se, pudico. Todavia, isso não ocorre sempre em toda a obra machadiana. Embora esta tese privilegie os três romances já exaustivamente mencionados, não é possível continuar sem citar, pelo menos, um

trecho de um conto de Machado de Assis, Missa de Galo, que é, apesar dos meios-tons, bastante sensual e provocativo. Como dizem alguns estudiosos, este conto é uma verdadeira aula de sedução:

Comecei a dizer-lhe os nomes de alguns. Conceição ouvia-me com a cabeça reclinada no espaldar, enfiando os olhos por entre as pálpebras meio-cerradas, sem os tirar de mim. De vez em quando passava a língua pelos beiços, para umedecê-los. Quando acabei de falar, não me disse nada; ficamos assim alguns segundos. Em seguida, vi-a endireitar a cabeça, cruzar os dedos e sobre eles pousar o queixo, tendo os cotovelos nos braços da cadeira, tudo sem desviar de mim os grandes olhos espertos. (MACHADO DE ASSIS, 2007, p. 435).

De qualquer maneira é sempre importante ter em mente que a época de Machado de Assis é o século XIX, em que os desejos geralmente são expressos de maneira recalcada ou sublimada, mas estão lá, encobertos. E, por conta disso, arrisca-se dizer que a concupiscência vai estar latente, sob uma aparência de calma e indiferença, mas pronta para se manifestar a fim de atender a algum desejo ou vontade. Há outro trecho que explica a essência da sensualidade/concupiscência em Machado de Assis:

(...) A sensualidade na obra de Machado de Assis é como um rio profundo que parece muito manso, a um golpe de vista panorâmico, e não obstante, possui os seus segredos de correnteza, os seus caprichos de redemoinhos, toda uma acidentação de curso longo. Há uma que outra zona de transparência em que a superfície entremostra o fundo. Assim, por exemplo, com certa insistência tátil e visual matizada de fetichismo, entrega-se não sei quantas vezes, à voluptuosa obsessão dos braços. (MEYER, 2008, p.109).

A concupiscência/sensualidade está relacionada a algum desejo ou necessidade que precisa ser satisfeita. É sempre pertinente salientar que, nos personagens machadianos das obras estudadas para a presente tese, a concupiscência vai ser o meio empregado para se alcançar algum objetivo. Os personagens dos três romances usam sua concupiscência para satisfazer sua vaidade, sua ânsia de ascender socialmente. Dessa maneira, é viável afirmar que o escritor revelou um quadro social caracterizado por diferenças e assimetrias, mas que ele se negou a descrever como uma realidade puramente local. Ele dirigiu seu olhar para um horizonte ao mesmo tempo local e universal, e seu interesse se localiza na profundeza da alma humana, mas sempre valorizando a singularidade de cada homem e de cada mulher. Dessa forma, ele se desvencilhou da ideia

de querer igualar o Brasil à Europa de Darwin, Comte, Spencer, entre outros. Ao apontar para a condição humana com suas torpezas, afastou-se dos condicionamentos locais e sugeriu que o ser humano, independentemente de sua classe social, condição financeira ou nível de educação é capaz, sim, de ser concupiscente desde que seus interesses e desejos sejam sempre satisfeitos.

Para tanto, o autor de Quincas Borba abandonou as explicações “racionais” (não se pode esquecer que os anos 1870 se caracterizam igualmente pela supremacia da Ciência, a qual desempenhava um significativo papel para auxiliar no aperfeiçoamento da espécie). Para tal coisa acontecer, estabeleceu-se uma onda de otimismo, que se apresentava diante do escritor como uma enorme ilusão. Machado de Assis ateve-se a observar a condição humana, que ora é movida pelo interesse, pelo desejo, pela vaidade, em um contexto em que as relações apresentam um traço mercantilista através do qual tudo é cambiável e o ser humano, reificado. Os interesses, a vaidade, a hipocrisia e a infração das normas supostamente civilizadas contribuem para o estabelecimento de um egoísmo universal em cujo âmago residem o instinto e o cálculo.

Lúcia Miguel Pereira considera Machado de Assis “um grande sensual” (PEREIRA, 1955, p. 239), e a sensualidade, para ela, surge sempre que aparece uma mulher bela e, junto, uma pessoa possuidora de grande ciúme.

Por conseguinte, os ecos pascalianos no que se refere à concupiscência irão sempre se manifestar em Machado de Assis em forma de sedução, dissimulação, vaidade, ausência de escrúpulos, sem haver quaisquer indícios de julgamentos e é nisso também que reside toda a grandeza da obra machadiana. Afinal, em Machado de Assis, tanto homem quanto mulher são decaídos, imperfeitos, limitados e, portanto, estão sujeitos às mesmas vicissitudes e baixezas. Ele sempre foi avesso aos “ismos” de sua época. Sem se perturbar e indiferente à euforia que se propagava em seu século, caracterizado pelo progresso da Ciência, pelo Positivismo e tantos outros ismos, procurou escrever uma obra em que o leitor se depara com uma narrativa dubitativa, produzindo uma complexificação de significados.

Tais significados podem, por exemplo, ser expressos por meio de citações “modificadas” ou alusões que tornam a obra machadiana sempre surpreendente e inspiradora. Embora não haja originalidade absoluta em literatura na opinião de Afrânio Coutinho, arrisca-se, ao mesmo tempo, lembrar uma frase dita pelo escritor carioca, citada na obra Machado de Assis na Literatura Brasileira (1966), de Afrânio Coutinho:

“Quando Machado de Assis afirmou que ‘pode buscar a especiaria alheia, mas há de ser para temperá-la com o môlho (sic) de sua fábrica’, estava gravando num aforismo tôda (sic) a sua teoria da originalidade da literatura” (COUTINHO, 1966, p. 33). Em outras palavras, a originalidade na obra machadiana é decorrente da maneira como ele vai sugerir ao leitor o quanto o mundo é mau, o mal sobrepujando o bem, a dor sobre o prazer. Nas palavras de Afrânio Coutinho, “o mundo era obra de uma natureza indiferente ao bem e ao mal moral, antes má do que boa, mãe e inimiga, essencialmente egoísta nos seus motivos” (COUTINHO, 1966, p. 57). Essa visão de mundo é expressa não só pelo estilo próprio do escritor, mas também das leituras que Machado de Assis fez durante sua vida. As leituras de Machado de Assis influenciaram ou corroboraram o que ele já havia vislumbrado na condição humana mediante sua experiência. É bom não esquecer que ele também foi leitor. O capítulo 3, A fórmula de Pascal é inferior à minha – o caniço

pensante, publicado na obra Machado de Assis leitor: uma viagem à roda de livros, dos

autores Ruth Silviano Brandão e José Marcos Resende Oliveira (2011) dedica-se justamente a mostrar que todo escritor é leitor e que Machado de Assis não fugiu à regra. Conforme já foi mencionado na presente tese, o autor de Dom Casmurro foi assíduo leitor de Blaise Pascal, sobretudo da obra Pensées, conforme os autores escreveram. Embora tenha sido leitor de outros autores, a ênfase aqui é dada somente a Pascal, de quem Machado de Assis herdou a visão trágica do mundo.

Consoante Brandão e Oliveira, o que importa é ter como referência o “lugar dado ao homem por Machado de Assis através de seus personagens (...)” (BRANDÃO; OLIVEIRA, 2011, p. 39). Baseados na frase emitida pelo personagem Bento Santiago, em Dom Casmurro, “mas falto eu mesmo e esta falta é tudo”, os autores escrevem que o homem machadiano é o homem da falta e que ele tem consciência desta falta. Talvez o personagem Bentinho tenha noção dessa falta e a expressa claramente. Os demais personagens podem ressentir-se dessa falta, mas não o explicitam, conforme fez Bentinho. A percepção dessa falta se dá pela busca de prazeres e por se entediarem tanto.

O que Machado de Assis está sempre abordando é a condição humana. Um dos melhores exemplos de sua visão sobre a condição humana é justamente o do “caniço pensante”, em que o escritor diz que o homem é, na verdade, uma errata pensante que vai sendo corrigida, de edição em edição, até a edição definitiva, que será entregue aos vermes. Isso nada mais é do que o conceito pascaliano segundo o qual o ser humano é um doente, moral e psicologicamente. Nas palavras de Afrânio Coutinho:

(...) a vida é má porque o homem é um ser enigmático, incompreensível, contraditório, corrompido, incapaz de praticar, por si mesmo, boas ações, e até quando acredita agir bem, nunca se tem a segurança de que não se misturem aos seus atos concupiscência, orgulho ou egoísmo. O homem é um doente, pela sua natureza decaída, impotente de se curar sozinho, e poristo (sic) necessita de um apôio (sic) superior para ser salvo. (COUTINHO, 1966, p. 13).

Por conseguinte, não há muito que se esperar do ser humano, que sempre vai ser inspirado, movido ou estimulado pela concupiscência, orgulho ou egoísmo. Em outros termos, as ações do ser humano, mesmo que aparentemente sejam boas, sempre serão movidas por uma causa secreta. Esta é que explica e dá origem às ações, que serão alicerçadas no egoísmo, nos sentimentos desprezíveis e concupiscência. Arrisca-se, pois, até a escrever que a concupiscência é que comanda o caráter dos personagens machadianos. É quando o escritor nos presenteia com personagens masculinos e femininos cercados de abismo, contradição, enigma (cf. Coutinho) ou quando o estudioso de Machado de Assis escreve que o ser humano é

(...) tarado, cheio de vícios, incerto, dubitativo, inconstante, incoerente, contraditório, flutuante, agitado; de espírito volúvel e inteligência fraca, sem nenhum apôio (sic) moral, com uma tendência imperiosa para o mal e o crime; escravo da sensibilidade e da imaginação que o extraviam e o enganam, de leis arbitrárias, de um hábito tirano, da opinião. (COUTINHO, 1966, pp.142-143).

É possível depreender que, no ser humano, tanto para Machado de Assis quanto para Pascal, as virtudes terão uma finalidade inconfessável, conduzidas pelo egoísmo, sensualidade ou amor-próprio. Por conseguinte, testemunham-se, nas obras machadianas, alusões, sugestões, citações que denunciam essa secreta mola que move toda e qualquer ação. É como o próprio Machado de Assis escreveu: “Eu a tempo advirto que as mais claras águas podem levar de enxurro alguma palha podre, se é que é podre, se é que é mesmo palha” (MACHADO DE ASSIS apud COUTINHO, 1940, p. 150).

Complementando o pensamento, acrescenta-se um trecho do livro já mencionado,

Machado de Assis na literatura brasileira (1966), de Afrânio Coutinho, para corroborar

a significativa influência de Blaise Pascal, que foi uma das fontes intelectuais de Machado de Assis:

Acresce ainda o tom de tristeza e desencanto que se evola de suas páginas, de desconsôlo (sic) e amargura, de tédio ou saciedade, o laivo de desespêro (sic), desilusão, melancolia, miséria universal, o perfume da flor amarela e mórbida do desencanto, aquêle (sic) ‘travo amargo da gôta (sic) da baba de Caim’, para têrmos (sic) bem nítida a sua maneira de ver as coisas e a atmosfera em que êle (sic) coloca o homem essencialmente mau, egoísta e libertino, mimado de concupiscência, êsse (sic) homem que êle (sic) acha digno sòmente (sic) da nossa ‘indiferença e em alguns casos do nosso ódio ou desprêzo’ (sic). (COUTINHO, 1966, p. 56).

A tristeza, o desencanto, o desconsolo, a amargura do tédio, o desespero, a desilusão, a melancolia, a miséria vão dar contornos nítidos ao ser humano machadiano- pascaliano, que, levado e inspirado pelo egoísmo, ou será portador de uma indiferença que o torna alvo do ódio, ou do desprezo da parte da sociedade. E é dessa forma que se dá ao longo da leitura dos três romances, sobretudo no que tange os personagens principais e alguns caracteres coadjuvantes.

Refletindo sobre o pensamento de Pascal e lendo os romances estudados nesta tese, os ecos pascalianos se entrelaçam, levando à conclusão de que pouco resta – ou nada resta – ao ser humano, a não ser ficar reduzido à miséria moral, espiritual e intelectual.

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