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Afinal, o que há de fundamental nos direitos fundamentais?

Essa pergunta parece habitar pelo menos dois centros de atenção e interesse daqueles que defendem que há algo de inderrogável na experiência social dos direitos, legada pela modernidade: de um lado, o conceito de dignidade, que opera como status civilizatório, e que, portanto, impulsiona políticas públicas de equalização das diferenças, como critério de igualdade; mas, de outro, uma dimensão libertária, que tende a evitar os excessos de regramento do Estado, de maneira a possibilitar a maximização da individualidade como potência concretizadora de sonhos e de destinos.

Ronald Dworkin lida muito bem com o que ele define como moral rights de uma comunidade de direitos126. Para ele, o respeito ao indivíduo pressupõe que, a cada um, seja dada a liberdade das escolhas e a responsabilidade pelas consequências127. Portanto, igualdade, em um contexto de liberdade, tem mais a ver com equalização de diferenças que tornam injusta uma disputa ou impõem obstáculos desproporcionais para a realização de sonhos e projetos de vida. Não está, portanto, no campo legítimo de atuação da igualdade a concretização do destino das pessoas.

As discussões sobre a dimensão do direito à vida exemplificam esse ponto128. Poder-se-ia opor uma fundada resistência a esse direito, por mais relevante que ele seja, por critério de liberdade, sempre que um contexto de problema torne mais relevante a escolha individual por uma morte digna, por exemplo, sobretudo em casos difíceis, como o das doenças terminais sem cura e sem lenitivo terapêutico viável.

É que, quando se define a existência de direitos em uma comunidade jurídica fundada por princípios institutivos de moralidade política, o encontro da arena de debates cidadã com situações singulares de vida, ou seja, com casos que desafiam o óbvio em termos de conhecimento jurídico comunitário, demanda dos intérpretes soluções customizadas, que não podem se fundar em mero casuísmo ou em discricionariedade, mas sim em critérios de

126 DWORKIN, Ronald. O domínio da vida: aborto, eutanásia e liberdades individuais. 2. ed. São Paulo:

Martins Fontes, 2009, passim.

127 DWORKIN, Ronald. O domínio da vida: aborto, eutanásia e liberdades individuais. 2. ed. São Paulo:

Martins Fontes, 2009, p. 268-276.

128 DWORKIN, Ronald. O domínio da vida: aborto, eutanásia e liberdades individuais. 2. ed. São Paulo:

Martins Fontes, 2009, p. 251-268.

justiça inseridos no contexto de verificação de uma moralidade socialmente compartilhada que transcende a mera ética das subjetividades.

Morrer pode ser uma escolha legítima, essa é a questão, e, nesse sentido, morrer pode ser um direito ligado à liberdade individual, o que não anula o direito à vida, mas tão somente problematiza o conceito de supremacia da vida sobre a morte, em termos de direitos. Quando morrer aparece como solução digna para o problema da doença terminal, não há como negar, no âmbito do direito de liberdade, que essa escolha subjetiva do homem livre, que se viu privado de sua dignidade exatamente pela vida que se viu obrigado a levar, seja, do ponto de vista dignitário, uma expressão autêntica de um direito de liberdade, e não um simples atentado ao direito inalienável à vida.

A doença terminal incurável e não mais tratável aparece, aqui, como um elemento de problema com status inalterável, cuja implicação moral no tipo de interpretação que se deve conferir ao direito aparece diretamente como condicionante para o discurso.

Um contexto de problema como esse, no qual a dignidade perdida, somada à inviabilidade da vida que se mantém contra a vontade do sujeito de direitos, por critérios éticos de medicina, sugere que morrer dignamente, para aquele indivíduo que fez a escolha, pode ser considerado um desejo legítimo, fundado em um direito de liberdade, e não uma violação ao direito à vida, já que morrer de forma digna, para aquele indivíduo, fará cessar a condição indigna de vida na qual ele se vê imerso com sua moléstia incurável e não tratável.

Situação distinta, contudo, é aquela do cidadão que escolhe a morte por motivo de crença ou convicção moral subjetiva. Aqui, em tese, a possibilidade de intervenção médica capaz de salvar a vida do indivíduo e de recuperar a sua saúde biológica não está descartada de imediato, e o debate se coloca como algo sensível à convicção íntima do sujeito.

Não há nada que recomende, a priori, por critério de justiça e integridade, que a situação do doente terminal não tratável seja igualada à do paciente renitente à terapia por motivo de convicção íntima, de modo que o contexto no qual o discurso sobre a liberdade é inserido influencia diretamente no sentido legítimo que a expressão liberdade pode ostentar na solução de uma disputa de sentidos sobre o direito.

Toda essa discussão, até aqui, tem como objetivo específico mostrar que a defesa da liberdade só tem espaço legítimo de vocalização de um direito em contextos nos quais a comunidade moral enxerga dignidade naquilo que se defende como expressão autêntica de uma liberdade. Do contrário, a liberdade se converte em vilipêndio, e os efeitos libertários em anarquia.

Para que se possa falar, portanto, em trabalho 5.0 em um nível de manifestação legítima do direito à liberdade, é preciso definir como cerne fundamental das relações de trabalho que se inspiram nesses direitos libertários a noção de preservação da dignidade obreira, o que parece ser algo inafastável do real sentido da expressão trabalho 5.0, como visto em outros recortes desta investigação, na exata medida em que a sociedade 5.0 é caracterizada por elementos éticos de responsabilidade socioambiental ligados aos avanços tecnológicos.

Mas como a dignidade de seres livres e iguais é uma noção política que recorre a elementos de princípio que não podem ser bem compreendidos sem contornos fáticos de problema para sua verificação, existe uma impossibilidade ínsita ao discurso abstrato que tenta impor uma definição estática ao conceito de liberdade igualitária, já que os princípios, diversamente das regras, são mais bem compreendidos por níveis de incidência, a depender dos contextos sociais de aplicação da norma.

Recorrendo uma vez mais a Ronald Dworkin, é possível perceber que as regras operam pelo modo do “tudo ou nada”, ao passo que os princípios são sempre sopesados em circunstâncias concretas de verificação de sua normatividade129, o que coloca o problema da interpretação como gênese constitutiva da própria normatividade do direito centrado em princípios.

Não é possível, portanto, definir o que é o dignitário, enquanto gênese abstrata do direito fundamental à dignidade de sujeitos livres e iguais. Para considerar algo digno, é necessário, pois, ter em observação as circunstâncias que cercam o discurso sobre a dignidade.

Considerar essas questões é importante para verificar se, em matéria de liberdade do trabalho, há, de fato, ou não, algo predeterminado no sentido da violação a um direito de proteção, como algumas doutrinas tradicionais sobre os direitos sociais costumam defender, ou se a liberdade do trabalho pode ser operada de modo a produzir um incremento individual da cidadania, capaz de impulsionar a realização de um autêntico direito de liberdade.

Feita essa ponderação, é possível rejeitar, de plano, qualquer conclusão precipitada em um sentido ou no outro, já que, conforme exaustivamente defendido, são as circunstâncias de deflagração dessa suposta liberdade que influenciarão, em seu conjunto analítico, a própria determinação do que pode ser considerado o exercício legítimo de um

129 DWORKIN, Ronald. Levando os direitos a sério. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2010, p. 35-46.

direito de liberdade, em um dado contexto de trabalho, separando-se e definindo-se, a fortiori, como é próprio da interpretação de princípios, o que é direito daquilo que é violação a direitos.

A necessidade de segurança jurídica, aqui, importante registrar, opera como elemento de tensão, mas não tem condições de impor uma definição prévia e precisa para a questão. Apesar de o anseio por segurança tornar um pouco mais problemática a discussão sobre a legitimidade do trabalho 5.0, o fato é que não existe uma panaceia para o problema social e ambiental que a permanente inovação dos métodos de trabalho e de produção produzem no campo jurídico. Afinal, novos problemas têm uma tendência natural de impulsionar novos questionamentos e respostas inéditas, esse é o ponto.

Algum nível de indeterminação dos direitos, portanto, parece sempre permear a atividade daquele que interpreta a norma. Por isso é importante focar nos critérios procedimentais de definição da legitimidade do trabalho 5.0, e não em um compêndio de soluções pré-moldadas para problemas no campo das novas formas de trabalho, já que a inovação atrelada à sustentabilidade é o cerne do movimento de ressignificação inerente à sociedade 5.0, e não há nada mais desconexo do universo da inovação sustentável do que o engessamento das respostas para problemas singulares, inéditos e desafiadores.

Disso se conclui que a criatividade do discurso doutrinário e forense, tangenciada por critérios de integridade da comunidade de princípios, é o norte que deve guiar as discussões sobre a legitimidade do trabalho 5.0.

A constatação deságua na conclusão de que esse nível comum de indeterminação dos direitos na sociedade contemporânea deve ser trabalhado como uma janela que se abre para a inovação no campo do conhecimento jurídico, e não como uma porta que se fecha em um quarto escuro, um quadrado que se mantém inerte e recluso em conceitos tradicionais que não conversam com a realidade que se impõe como necessidade atual e permanente de adaptação das estruturas sociais.

Entretanto, para que disso não resulte uma insegurança paralisante da própria economia, é necessário estabelecer no campo do conhecimento algumas premissas gerais legitimadoras dessa relação de trabalho que nasce como desafio dignitário no contexto da revolução 4.0.

Emular a viabilidade de um conceito de trabalho 5.0 à altura da vocação da revolução que lhe inspira é o desafio, já que a expressão 5.0 significa assunção de responsabilidade social e ambiental em um contexto de inovação tecnológica inexorável, o

que ocorre na relação de trabalho pela concretização da liberdade do trabalhador, e não pela precarização do trabalho.

A liberdade de gerenciamento de carreira surge nesse contexto como um dos pilares dessa nova feição do trabalho 5.0, o que não pode significar, no entanto, a supressão de conquistas dignitárias históricas, atinentes aos direitos sociais mínimos previstos na Constituição. Esse núcleo duro de direitos, portanto, deve tangenciar de modo programático, e ético-normativo, o exercício de uma prerrogativa de liberdade que opera por meio da disponibilidade de direitos por parte dos trabalhadores.

Como dito acima, só faz sentido falar em modalidade legítima de trabalho, inspirada pela sociedade 5.0, se as potências desse conceito 5.0 estiverem na própria manifestação de liberdade do trabalho, já que a filosofia envolvendo essa reformatação impõe a compatibilização dos avanços tecnológicos da revolução 4.0 com critérios ético-sustentáveis de conformação dos métodos de produção.

Para que essa compatibilização se dê na esfera dos direitos sociais, é preciso identificar pelo menos três elementos gerais conformadores da legitimidade do trabalho 5.0: a predisposição das novas modalidades de trabalho para a qualificação permanente e abrangente do trabalhador, o que opera como pressuposto da liberdade professada pelo conceito de trabalho 5.0; o compartilhamento do risco das parceiras que cercam o trabalho realizado na esfera 5.0, o qual deve ser mitigado pelas garantias fundamentais atinentes aos direitos sociais mínimos (previstos expressamente na Constituição); a existência concreta de condições potenciais de maximização dos ganhos e das utilidades de vida para o trabalhador, a partir das experiências agregadas pelas novas modalidades de trabalho.

Esses critérios, de feição procedimental, devem habitar de modo central o exame da legitimidade de qualquer modalidade inédita de trabalho, cuja inovação tecnológica ou o engenho humano sejam capazes de produzir como solução adequada para problemas e demandas de vanguarda da sociedade 5.0.

Em síntese, só se pode considerar legítima uma modalidade alternativa de trabalho na exata medida em que ela promova adequadamente esses três pilares da liberdade do trabalho, intimamente ligados à dignidade da pessoa humana no contexto de exploração sustentável das experiências inovadoras surgidas no campo do trabalho com a sociedade 5.0.

Contudo, para que esse conceito emancipatório tenha reais condições de impulsionar um discurso viável de promoção da revolução 4.0 no campo do trabalho, é necessário estabelecer um diálogo hermenêutico com os paradigmas trabalhistas tradicionais, o que irá ser objeto de atenção desta investigação científica nas próximas seções.

4.2 TRABALHO VERSUS EMPREGO: A DISTINÇÃO ESSENCIAL ENTRE O GÊNERO