3 A CONDUÇÃO COERCITIVA DE ADOLESCENTES PARA AUDIÊNCIA DE
3.1 A CONDUÇÃO COERCITIVA E O CÓDIGO DE PROCESSO PENAL
A previsão de condução coercitiva no Código de Processo Penal está insculpida no artigo 260, o qual dispõe que: “Se o acusado não atender à intimação para o interrogatório, reconhecimento ou qualquer outro ato que, sem ele, não possa ser realizado, a autoridade poderá mandar conduzi-lo à sua presença.”
Cumpre ressaltar que essa não é a única menção ao instrumento no ordenamento processual penal, havendo outras possibilidades em que não se refere ao acusado, como, por exemplo, em relação à vitima (artigo 201, §1º) 159,testemunhas
159 Art. 201, §1o. Se, intimado para esse fim, deixar de comparecer sem motivo justo, o ofendido poderá
(artigo 218, caput)160 e peritos (artigo 278, caput)161, não sendo objeto de análise
nesse trabalho.
Condução coercitiva é um instrumento oriundo do Código de Processo Criminal do Império162, definida por Erick Rodrigues da Silva e Sávio Oliveira Lopes como o “meio pelo qual o indivíduo tem a sua liberdade restringida ao ser levado contra a sua vontade para comparecer perante a autoridade policial ou judiciária a fim de prestar esclarecimentos acerca de determinada conduta criminosa.” 163
Outrossim, possui natureza jurídica de medida cautelar autônoma de natureza pessoal164, ainda que não esteja prevista no rol constante do artigo 319 do ordenamento processual penal165, não se confunde com a prisão cautelar, uma vez que consiste na restrição da liberdade por curto período de tempo, com a finalidade de que compareça ao ato de interrogatório.
A Doutrina processual penal, por sua vez, apresenta fortes críticas ao instrumento da condução coercitiva e afirma majoritariamente sua impossibilidade,
160 Art. 218. Se, regularmente intimada, a testemunha deixar de comparecer sem motivo justificado, o
juiz poderá requisitar à autoridade policial a sua apresentação ou determinar seja conduzida por oficial de justiça, que poderá solicitar o auxílio da força pública.
161 Art. 278. No caso de não-comparecimento do perito, sem justa causa, a autoridade poderá
determinar a sua condução.
162 Art. 95. As testemunhas, que não comparecerem sem motivo justificado, tendo sido citadas, serão
conduzidas debaixo de vara, e soffrerão a pena de desobediência.
163 SILVA, Erick Rodrigues; LOPES, Sávio Oliveira. O instituto da condução coercitiva a luz da
Constituição Federal e do Código de Processo Penal. Disponível em https://jus.com.br/artigos/40519/o- instituto-da-conducao-coercitiva-a-luz-daconstituicao-federal-e-do-codigo-de-processo-penal. Acesso em: 04 jun. 2019.
164 ARAS, Vladimir. Debaixo de vara: a condução coercitiva como cautelar pessoal autônoma.
Disponível em: http://zip.net/bjtyB3 ou https://vladimiraras.blog/2013/07/16/a-conducao-coercitiva- comocautelar-pessoal-autonoma/; acesso em 05 jun. 2019.
165 Art. 319. São medidas cautelares diversas da prisão: I – comparecimento periódico em juízo, no
prazo e nas condições fixadas pelo juiz, para informar e justificar atividades; II - proibição de acesso ou frequência a determinados lugares quando, por circunstâncias relacionadas ao fato, deva o indiciado ou acusado permanecer distante desses locais para evitar o risco de novas infrações; III - proibição de manter contato com pessoa determinada quando, por circunstâncias relacionadas ao fato, deva o indiciado ou acusado dela permanecer distante; IV - proibição de ausentar-se da Comarca quando a permanência seja conveniente ou necessária para a investigação ou instrução; V - recolhimento domiciliar no período noturno e nos dias de folga quando o investigado ou acusado tenha residência e trabalho fixos; VI - suspensão do exercício de função pública ou de atividade de natureza econômica ou financeira quando houver justo receio de sua utilização para a prática de infrações penais; VII - internação provisória do acusado nas hipóteses de crimes praticados com violência ou grave ameaça, quando os peritos concluírem ser inimputável ou semi-imputável (art. 26 do Código Penal) e houver risco de reiteração; VIII - fiança, nas infrações que a admitem, para assegurar o comparecimento a atos do processo, evitar a obstrução do seu andamento ou em caso de resistência injustificada à ordem judicial; IX - monitoração eletrônica.
entendimento que foi adotado pelo Supremo Tribunal Federal, como será demonstrado logo adiante.
Com a promulgação da Constituição de 1988, foi definido o processo penal acusatório, constituindo direitos e garantias, com respeito ao devido processo legal e alicerçado no contraditório e ampla defesa.166
O processo penal acusatório é caracterizado pela distinção entre julgador e acusador, impossibilidade de iniciativa probatória por parte do juiz, tratamento igualitário entre as partes e, em especial, respeito ao contraditório e ampla defesa, modo pelo qual o juiz imparcial pode analisar as provas sem uma opinião pré- determinada e decidir com base nas provas produzidas.167
Já no inquisitório há confusão entre a figura de acusador e julgador, o que acaba por tornar o julgamento parcial. Nesse sentido, Aury Lopes Júnior argumenta que “o sistema inquisitório foi desacreditado – principalmente – por incidir em um erro psicológico: crer que uma mesma pessoa possa exercer funções tão antagônicas como investigar, acusar, defender e julgar.”168
O sistema inquisitório restou superado com o advento da Constituição. Entretanto, diversos elementos inquisitórios são constatados no Código de Processo Penal, como a condução coercitiva, uma vez que foi outorgado no ano de 1941. Desse modo, ao analisar o processo penal, necessário fazê-lo à luz da Constituição, concebendo-o como um sistema de direitos e garantias.
Entre os direitos assegurados pelo texto constitucional, há o de não produzir prova contra si mesmo, observado no artigo 5º, inciso LXIII, da Constituição Federal: “o preso será informado de seus direitos, entre os quais o de permanecer calado, sendo-lhe assegurada a assistência da família e de advogado”, e também na Convenção Americana sobre Direitos Humanos169 – Pacto de San José da Costa Rica – em seu artigo 8º, n. 2, letra g: “
2. Toda pessoa acusada de um delito tem direito a que se presuma sua inocência, enquanto não for legalmente comprovada sua culpa. Durante o processo, toda pessoa tem direito, em plena igualdade, às seguintes
166 LOPES JÚNIOR, AURY. Direito processual penal. 13. ed. São Paulo: Saraiva, 2016, p. 28-29. 167 LOPES JÚNIOR, AURY. Direito processual penal. 13. ed. São Paulo: Saraiva, 2016, p. 48. 168 LOPES JÚNIOR, AURY. Direito processual penal. 13. ed. São Paulo: Saraiva, 2016. p. 46-57. 169 Ratificada pelo Brasil através do Decreto n. 678, de 6 de novembro de 1992.
garantias mínimas: g) direito de não ser obrigada a depor contra si mesma, nem a confessar-se culpada.170
Importante afirmar que, apesar de o dispositivo constitucional utilizar o termo “preso”, o direito a não autoincriminação deve ser compreendido como uma garantia de todos e presente em qualquer momento processual, independentemente da privação ou não da liberdade do acusado.171
Essa, inclusive, é a disposição do caput do artigo 186 do Código de Processo Penal: “Depois de devidamente qualificado e cientificado do inteiro teor da acusação, o acusado será informado pelo juiz, antes de iniciar o interrogatório, do seu direito de permanecer calado e de não responder perguntas que lhe forem formuladas.”172
Desse modo, claramente assentada na legislação a garantia de que o acusado não será compelido a produzir provas contra si mesmo. Ademais, o direito ao silêncio consiste em direito público subjetivo173 e, por corresponder a um direito, não pode ser interpretado de maneira negativa em relação ao acusado.174
A partir da compreensão desse direito e de suas implicações, a doutrina tece diversas críticas ao instrumento da condução coercitiva, como a de que a determinação da condução do acusado configura prejuízo para a defesa, que pode decidir pelo não comparecimento como estratégia.175
Até porque, como explicam Alexandre Morais da Rosa e Michelle Aguiar:
Ninguém faz com que outra pessoa seja deslocada do local em que se encontra para permanecer em silêncio, porque ao se optar pelo silêncio, tem- se a mesma consequência de que se o investigado não comparece ao ato previsto em lei: exercício de autodefesa manifestada através da opção por
170 Convenção Americana sobre Direitos Humanos. Disponível em:
https://www.cidh.oas.org/basicos/portugues/c.convencao_americana.htm; Acesso em 05 jun. 2019.
171 Conforme definido pelo Supremo Tribunal Federal no voto concorrente do Ministro Celso de Mello
no Habeas Corpus no 68.742-3/DF, Pleno. Julgado em 28 de junho de 1991. Relator originário: Ministro Octávio Gallotti; Relator para o acórdão: Ministro Ilmar Galvão.
172 Redação dada pela Lei n. 10.792/03.
173 Conforme definido pelo Supremo Tribunal Federal no voto concorrente do Ministro Celso de Mello
no Habeas Corpus no 68.742-3/DF, Pleno. Julgado em 28 de junho de 1991. Relator originário: Ministro Octávio Gallotti; Relator para o acórdão: Ministro Ilmar Galvão.
174 Art. 186, parágrafo único. O silêncio, que não importará em confissão, não poderá ser interpretado
em prejuízo da defesa.
175 MOREIRA, Rômulo de Andrade; MORAIS DA ROSA, Alexandre. Condução coercitiva é prática ilegal
e odiosa nas operações plim-plim. Disponível em: https://emporiododireito.com.br/leitura/conducao- coercitiva-e-pratica-odiosa-e-ilegal-nas-operacoes-plim-plim; acesso em 05 de jun. 2019.
não falar, ou seja, desdobramento direto do princípio da ampla defesa concretizada através da vontade do acusado de não se auto incriminar.
No mesmo sentido é o exposto por Aury Lopes Junior ao afirmar que “mais do que nunca, é preciso compreender que o estar presente no processo é um direito do acusado; nunca um dever” e, ainda, que “o imputado não é objeto do processo e que não está obrigado a submeter-se a qualquer tipo de ato probatório (pois protegido pelo nemo tenetur se detegere), sua presença física ou não é uma opção dele.”176
Dessa forma, a condução coercitiva é um instrumento inquisitivo e violador de direitos fundamentais.
Esses foram alguns dos fundamentos utilizados durante o julgamento das Arguições de Descumprimento de Preceito Fundamental n. 395 e n. 444, conforme será demonstrado a seguir.