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CAPÍTULO IV OS ANTECEDENTES, A REVOLUÇÃO E AS REDES DE RELAÇÕES

4.2 Redes Exógenas

4.2.3 A conexão com os dissidentes e com a Armada

Não iremos aqui aprofundar o estudo sobre as redes formadas com os dissidentes republicanos e com os revoltosos da Armada, entretanto achamos fundamental indicá-las, para que futuras pesquisas esclareçam melhor essas articulações.

Como vimos, os liberais-federalistas possuíam profundas diferenças em relação aos dissidentes republicanos, porém, durante a Revolução de 1893- 1895, procuraram se articular com esse grupo, buscando fortalecer o movimento. Essa aproximação era apontada pelos próprios castilhistas na seguinte afirmação: “o conselheiro Silveira Martins está unido ao Dr. Cassal”663. A aproximação dos dois grupos era estratégica, o objetivo era depor Castilhos e também, se possível, Floriano Peixoto, que o apoiava. As diferenças de projeto, entre os dois grupos, eram gritantes e aflorariam a partir da instalação do Governo Revolucionário Provisório em Santa Catarina.

A articulação com a Armada Revoltada também foi estratégica. A Marinha havia sido a principal arma do Império, profundamente elitista com sua oficialidade formada por pessoas oriundas da nobreza imperial, via-se colocada em

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CASTILHOS, 1895, p 3-4.

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segundo plano pela República, governada pelos militares do exército. Além disso, oficiais passaram a exigir que o país realizasse um plebiscito para escolher a forma de governo mais adequada.

No momento que iniciou a Revolta da Armada (setembro de 1893), Gaspar Silveira Martins estabeleceu contatos com o Almirante José Custódio de Mello, buscando aproximar e unificar os dois movimentos. Essa tentativa sempre foi problemática e repleta de tensões entre os líderes, porém em determinados momentos, houve uma unidade, pelo menos discursiva664, através de uma carata, em que Gaspar Silveira Martins propunha ao Almirante José Custódio de Mello possibilidade de um Governo Provisório.Portanto, era imperativo que os revolucionários constituíssem um governo e que este o nomeasse embaixador na Confederação Argentina, na Republica Oriental do Uruguai e no Paraguai. O objetivo era que os governos desses países reconhecessem os revolucionários como beligerantes e não como rebeldes, o que lhes garantiria empréstimos para a revolução. 665

As dificuldades de relação entre os liberais-federalistas e os setores da Armada surgiram principalmente devido à instalação do Governo Provisório de Santa Catarina. Com a Proclamação da República, o Partido Republicano Catarinense havia assumido o governo do Estado. Os liberais, que eram maioria política e que haviam dominado a última Assembléia Provincial do Império, rearticularam-se e passaram a pressionar, buscando maior espaço político. O governo republicano apoiou o golpe de Deodoro da Fonseca, em novembro de 1891. Em conseqüência, os liberais-federalistas catarinenses depuseram o governo do Estado. Assim, os rebeldes da Armada e os liberais-federalistas do Rio Grande do Sul dirigiram-se para Santa Catarina, onde já existia um governo favorável à Revolução. Em outubro de 1893, foi instalado, em Desterro, o Governo Provisório Revolucionário666, para Cuma presidência, foi nomeado o Capitão de Mar e Guerra Francisco Guilherme Lorena, tido como contista fanático. Segundo Carlos Humberto P. Correa, Lorena cometeu 5 erros que prejudicaram as relações entre o novo governo instalado e os revolucionários liberal-federalistas do Rio Grande do Sul:

664 MARTINS, 1929. 665 Ibidem, p. 387 et seq. 666

CORRÊA, Carlos Humberto P. O Governo Provisório da República dos Estados Unidos do Brasil em Santa Catarina. 1893-1894. In: ANAIS Seminário Fontes Para a Revolução de 1893. Bagé, RS: Fundação Atila Taborda/URCAMP, 1990. pp. 14-22.

[...] primeiro, era um Governo caracteristicamente militar, contrário a todo o discurso da oposição civil a Floriano Peixoto; segundo, não oferecia nenhuma oportunidade aos federalistas gaúchos de participarem do Governo; terceiro, era constituído exclusivamente por oficiais inferiores totalmente desconhecidos dos superiores revoltosos; quarto, era um Governo profundamente centralizado em somente dois ministros, o que também não estava de acordo com as propostas democráticas da oposição e, quinto, também não dava oportunidade aos federalistas catarinenses [...]

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Além disso, Lorena nomeou Gaspar Silveira Martins como representante diplomático do novo governo na República Oriental do Uruguai e Demétrio Nunes Ribeiro como representante na Confederação Argentina. Nessa época, Gaspar Silveira Martins já havia sido expulso do Uruguai e estava exilado em Buenos Aires, capital da Argentina.

As principais críticas de Gaspar S. Martins ocorriam devido ao fato de o governo ter sido composto por simpatizantes de Barros Cassal, de Demetrio Ribeiro e do positivismo. Em entrevista concedida após o término da revolução ao jornal Comercio, o Tribuno explicou as divergências nos seguintes termos:

O Almirante Mello combinou comigo um governo, e depois aceitou o inqualificável governo que, sem sua aciência, se ergueu em Santa Catarina, e nem mais se comunicou comigo. Esse governo era a discórdia; não só guerreava a Revolução do Rio Grande, mas também a Saldanha no porto do Rio de Janeiro.668

Gaspar Silveira Martins também não aceitou a forma como o governo foi organizado: presidencialista e não parlamentarista, com forte influência da doutrina contista e constituído de militares. Devido a isso, ele se recusou a representar o novo governo no exterior e exigiu que este fosse reorganizado, pois o Governo Provisório não deveria admitir "nem militarismo nem contismo"669.

Para tentar solucionar o impasse, Gaspar Silveira Martins enviou o Conselheiro Maciel e o Dr. Seabra. Em conferência, o Almirante Custódio José de Melo mostrou-se disposto a sustentar o governo de Lorena, o que era inaceitável. As posições positivistas de elementos que compunham o governo provisório instalado

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CORRÊA, Carlos Humberto P. O Governo Provisório Revolucionário de Desterro, SC. 1893-1894. In: Anais

da XIII Reunião da SBPH/Sociedade Brasileira de Pesquisa Histórica. Curitiba: SBPH, 1994. 344p. pp. 41-

44. p.42.

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MARTINS, 1929, p. 381-382.

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em Santa Catarina repercutiram no interior da oficialidade do Exército Libertador, que passou a pressionar seus comandantes para que estes voltassem a operar no Rio Grande do Sul. No final de dezembro de 1893 e início de janeiro de 1894, os emissários de Gaspar Silveira Martins retiraram-se sem ter conseguido um acordo e retornaram para Montevidéu.670

Seabra declarou que se retirava e que o "exército rio-grandense [...] não obedecia mais ao governo do Lorena"671. Em março de 1893, Lorena foi substituído por uma Junta Governativa que deveria ter sido composta por um representante de Santa Catarina, um do Paraná e um do Rio Grande do Sul. Pelo Estado do Paraná, o representante foi Emygdio Westphalen672; por Santa Catarina, José Ferreira de Mello e, pelo do Rio Grande do Sul, não chegou a ser indicado por Gaspar Silveira Martins, pois em março as forças da Armada eram derrotadas no Rio de Janeiro e, em abril, a nova Armada comprada por Floriano Peixoto nos Estados Unidos da América (EUA) e na Alemanha tomava Desterro. Apesar das divergências de propostas e de ação, a aliança com os rebeldes da Armada foi mantida através da figura do Almirante Luís Felipe Saldanha da Gama.

No próximo capítulo, veremos que esses diversos personagens e grupos envolvidos na Revolução Federalista de 1893 tinham pontos de convergência e de divergência e que podem ser percebidos através da análise dos discursos por eles proferidos. 670 TAVARES, Tomo I, 2004. 671 MARTINS, 1929, P. 393. 672

Westphalen realizou estudos secundários em São Paulo e diplomou-se, assim como Gaspar Silveira Martins, na Faculdade de Direito de São Paulo, era liberal radical, já havia assumido em 25 de fevereiro de 1894 a pasta de Ministro da Fazenda do Governo Provisório de Desterro, e em 5 de março as pastas de Viação e Obras Públicas, e interinamente, a de Justiça e interior e de Relações Exteriores. Em 12 de março assumiu, ao lado de José Ferreira de Mello, a Junta Governativa. Com o fim do Governo Provisório se exila na Argentina. WESTPHALEN, Cecília Maria. Da Lapa ao Desterro: Trajetória Política de Emydio Westphalen. In: Anais da