A Confraria, embora tivesse uma característica de associação religiosa com feitio social e até influência política, possuía, desde sua origem, uma inter-relação com a corporação de ofício: é que o trabalho nos ateliês, desde sua formação anterior às cidades (quando ainda interligadas aos feudos), utilizava-se da proteção de “santos padroeiros” adotados, e a atividade religiosa e social era toda concebida em função dos patronos religiosos. Desse modo, à medida que os ofícios se organizaram nas cidades, continuaram a manter essa relação de confrades do mesmo ideal religioso. Assim, embora a confraria não fosse da corporação, era imanente a ela; os membros das corporações de ofício eram agrupados em confrarias, devendo executar os deveres religiosos e sociais, que passavam a ser da própria corporação, como, por exemplo, as festas religiosas, os cerimoniais relativos à devoção, promoção das missas relativas aos eventos de santos patronos, procissões, ajuda a promoções de caridade (órfãos, viúvas, miseráveis), etc.
Continuando a citar Ellul (1999: pp. 228-229), a confraria se exprimia pela vontade de união e integração ao meio urbano e pela via natural daquele ambiente: a religião, sendo que tinha a boa vontade das autoridades políticas e religiosas. O elemento econômico era ausente na confraria, pois nela estava contido o elemento de associação humana que inexistia no trabalho cotidiano em si; afinal, o ofício era uma organização econômica da profissão, mas a confraria representava uma personagem montada por irmãos nomeados por seus co-irmãos, não necessariamente da forma hierárquica existente na atividade profissional no ateliê. Mas era possível que essas confrarias tivessem mais ou menos densidade política quando, por exemplo, pertencessem a ofícios mais pobres, como tecelões, e pudessem se antagonizar com aquelas em que participassem os burgueses dirigentes da administração municipal; nesse contexto, as confrarias vieram a representar setores distintos na comunidade e, no final do século XIII, algumas delas passaram a ser observadas com reserva pelos poderes locais.
Demurger (2003: pp. 108-111) lembra que as confrarias representaram a principal forma associativa do final da Idade Média e destaca alguns nomes de confraria: fraternidade, companhia, caridade (na Normandia), escola (em Veneza). Distingue três grandes tipos: as confrarias penitenciais, de cunho restrito aos penitentes ou que adotavam a autoflagelação (mais presentes na Europa meridional); as confrarias de caridade, que atuavam junto às ações urbanas sociais; e as mais numerosas, as confrarias de devoção, com santo protetor, ligadas às atividades de homenagens religiosas, que atuavam também junto às exéquias, missas e aniversários e possuíam relação direta com as corporações profissionais, com quem também compartilhavam as características de auxílio-mútuo entre os membros corporativos.
As confrarias possuíam formas de auto-sustento e orçamento próprio a partir de cotizações anuais e semanais de seus membros, a par de arrecadar fundos nas festas promovidas aos santos. Também havia lugares (Paris, por exemplo) em que, para cada venda de bem produzido pela corporação, uma pequena parcela de seu valor era encaminhada para a confraria correspondente; as confrarias também recebiam multas por descumprimento de regras, como faltar na procissão do santo padroeiro, sair da missa antes do fim, recusa de velar o corpo de um companheiro, etc.
5 - Tipos de ofícios
Os tipos de ofícios correspondiam a uma característica proveniente da destinação pretendida: havia a predominância daqueles mais voltados ao interesse comercial, e neles estavam os padeiros, açougueiros, comerciantes de vinho, merceeiros, e aqueles voltados ao interesse industrial, como os ferreiros, carpinteiros, seleiros, etc. Como exemplos de tipos de ofícios artesanais, vamos escolher duas profissões descritas por Brizon (1921: pp.104-131): os que trabalhavam basicamente com as pedras e aqueles que trabalhavam com o metal.
Em função da construção das catedrais, símbolos do período medieval, o trabalho dos construtores se apresentava como muito importante. Os pedreiros (franc- maçons) tinham uma característica interessante: o anonimato – isso porque atuavam de forma coletiva nessas construções, e faziam segredo da transmissão em segredo das técnicas do uso das pedras e das madeiras para tais construções. Atuavam em conjunto entre várias regiões e eram chamados por bispos, príncipes ou reis para seu mister; instalavam-se em vilas provisórias construídas por eles, geralmente ao pé da obra da catedral a ser construída, e ali permaneciam por longo período de tempo, só se mudando quando a parte da catedral encomendada estava erguida, ou faltasse dinheiro para continuar a obra, ou então quando havia necessidade de um grupo iniciar outra obra em outro local. Tais trabalhos, entretanto, não eram completos, mas por partes: assim, geralmente um grupo iniciava a obra pelas muradas e bases; se houvesse falta de dinheiro, esse grupo emigrava; depois de um tempo (até dez ou vinte anos depois), um outro grupo iniciava a construção das torres, e assim por diante. Houve pouquíssimos casos de um mesmo grupo iniciar e terminar uma obra completa.
Outro tipo de trabalho de importância no período medieval era aquele relativo aos metais. Geralmente esses artesãos trabalhavam com o bronze e o estanho, como placas de tumbas, pés de candelabros, vasos de metais; nesta especialidade, o artesanato de sinos passou a significar a organização de uma pequena indústria manufatureira, incrementada pela construção de muitas igrejas a partir do século XIII. Assim, por exemplo, em Paris, surgiu um forno para refundição dos sinos, em que havia cerca de cento e vinte trabalhadores, que recebiam salários e refeição ao chegar, para almoçar e após o trabalho do dia. Esse tipo de artesanato de metais também foi sendo organizado em
corporações para a construção de armas e armaduras para combates e torneios, possuindo muitos detalhamentos e especificidades, que correspondiam a vestes metálicas de cavaleiros e de cavalos, além de alegorias, estribos, proteção de selas, etc.. Os artesãos de canhões (corporação de artilheiros) só se organizam no século XV.
Merece destaque aqui um tipo de trabalho que logo significou a presença do comerciante burguês à frente do empreendimento, predomínio esse conseguido contra o senhorio feudal por força dos lugares rurais em que se situavam as minas; ali eram extraídos os minérios e iniciada a preparação dos metais. Eram locais geralmente montanhosos, com tecnologias e trabalhos específicos, e estrutura própria. À medida que foi sendo necessário mais ferro simples ou fundido para peças de moinho, máquinas (aumento de armamentos, ampliação da construção de navios, além dos sinos das igrejas, etc.), os comerciantes passaram a organizar o trabalho nas minas de forma mais racional e produtiva. Eram organizados grupos de trabalhadores que cavavam poços profundos e daí formavam galerias horizontais, com a utilização de ferramentas como esquadria, fio-de- prumo e bússola; eram utilizados operários com picaretas e carregadores que se alternavam. O minério retirado era triturado por máquinas e, em seguida, lavado e depois refinado em diversos tipos de fundições. Tudo era feito de forma a não perder tempo. As regulamentações do serviço expedidas pelos responsáveis pela mina descrevem o tipo de exigências aos trabalhadores, conforme partes de textos de regulamentos de minas nas regiões de Lyon e Beaujolais (cf. Heers, 1965: p. 105):
Que todos os operários de martelo serão obrigados a fazer inteiramente o seu turno todos os dias, tal como ultimamente se acostumaram a fazer. E serão todos reunidos juntos um pouco antes da hora do dito turno diante das entradas das montanhas, onde pegarão nas suas velas, e entrarão de uma só vez por ordem do interior das ditas montanhas. E se houver algum que lá não esteja a essa hora com eles e venha depois, não terá qualquer vela e não entrará na dita montanha no dito dia; perderá assim o seu turno, que lhe será abatido no salário.”
“Quando os ditos operários estiverem dentro da dita montanha, terão de esperar o outro turno que deve vir depois deles, e não se mexerão dos seus postos até o outro turno ter vindo e entrado, na dita montanha, sob pena de perderem o dito turno.” “Que cada um dos ditos operários esteja sempre munido para o seu labor de um martelo e de uma dúzia de segures93 que lhe serão entregues na forja de tal maneira que, por falta dos ditos martelo e segures, não haja motivo para cessar o trabalho nem perder tempo.”
III – Os regramentos das corporações
As corporações de ofício tinham, cada uma ao seu modo, estatutos regulamentando o trabalho e a produção de forma detalhada ou nem tanto; tais regulamentos possuíam origem no costume e passaram a ser redigidos principalmente em meados do século XIII. Essas regulamentações possuíam especificidades e precisão, sendo certo que tais regulamentos eram essenciais para a apreciação judicial pelo juizado senhorial ou real em caso de conflito.
Temos aqui uma tradução de parte do texto de estatuto dos ourives de Paris (1261), extraído do Livre des Métiers, d’Éttienne Boileau94, apud Fourquin (1969: pp. 289- 290):
A- Dos Ourives.
1. É para os ourives de Paris que querem fazer parte do conjunto de nosso trabalho:
2. Nós ourives só podemos trabalhar ouro em Paris ou em seus arredores (...); 3. Nós ourives só podemos trabalhar em Paris com a prata que seja boa como a moeda de prata (esterlins);
4. Nós ourives só podemos ter um aprendiz estrangeiro (...); quando for de linhagem estrangeira por parte de mãe, será possível tê-los sem limites...;
5. Nós ourives não podemos ter aprendiz particular ou estrangeiro com menos de dez anos (...);
6. Nós ourives não podemos abrir de noite, a não ser para trabalho do rei, da rainha, de seus filhos, seus irmãos ou do bispo; ...95
Extraído da História da Riqueza do Homem, de Leo Huberman (1986: p. 56), vale também transcrever trecho do estatuto da corporação de ofício de couros brancos, do século XIV, em Londres:
[1] ... se qualquer pessoa do dito ofício sofrer de pobreza pela idade, ou porque não possa trabalhar... terá toda semana 7 dinheiros para seu sustento, se for homem de boa reputação.
[2] E nenhum estrangeiro trabalhará no dito ofício ... se não for aprendiz, ou homem admitido à cidadania de dito lugar.
94 O Livre des Métiers, de Éttienne Boileau, foi editado pela primeira vez em meados do século XIII, por ordem de S. Luís (rei Luís IX): infelizmente não se conseguiu uma cópia integral do texto para este trabalho. 95 Transcrevemos aqui o texto traduzido acima e escrito em francês antigo: “A Des Orfreves: 1. Il est a Paris Orfrevres qui veut et qui faire le set, pour que il oevre ad us et as coustumes du mestier, qui text sunt: 2. Nus Orfevres ne puet ouvrer d’or a Paris, qu’il ne soit a la touche de Paris ou mieudres: laquele touche passe touz les ors de quoi en oevre en nulle terre. 3. Nus Orfevres ne puet ouvrer a Paris d’argent, que il ne soit ausi bons come esterlins ou mieudres. 4. Nus Orfevres ne puet avoir que un aprentis estrange; mès de son lignage ou du lignage de sa fame, soit de loing, soit de près, en puet il avoir tant come il li plaist. 5. Nus Orfevres ne puet avoir aprentis privez ne estrange, a mains de 10 ans, se li aprentis n’est tex qu’il sache gaingnier 100 s. l’an, et son despens de boivre et de mangier. 6. Nus Orfevres ne puet ouvrer de nuit, se ce n’est a l’euvre lou Roy, la Roine, leur anfans, leus freres, et l’evesque de Paris».
[3] E ninguém tomará o aprendiz de outrem para seu trabalho durante o aprendizado, a menos que seja com a permissão de seu mestre. E se alguém do dito ofício tiver em sua casa trabalho que não possa completar... os demais do mesmo ofício o ajudarão para que o dito trabalho não se perca.
[4] E se qualquer aprendiz se comportar impropriamente para com seu mestre, e agir de forma rebelde para com ele, ninguém do dito ofício lhe dará trabalho, até que tenha feito as reparações perante o alcaide e os intendentes.
[5] Também a boa gente do mesmo ofício uma vez por ano escolherá dois homens para serem supervisores do trabalho e de todas as outras coisas relacionadas com as transações daquele ano, pessoas que serão apresentadas ao alcaide e intendentes... prestando perante eles o juramento de indagar e pesquisar, e apresentar lealmente ao dito alcaide e intendentes os erros que encontrarem no dito comércio, sem poupar ninguém, por amizade ou ódio.
Todas as peles falsas e mal trabalhadas serão denunciadas.
[6] Ninguém que não tenha sido aprendiz e não tenha concluído seu termos de aprendizado do dito ofício poderá exercer o mesmo.
Há ainda um trecho da Historia General del Trabalho, dirigida por Louis- Henri Parias (1965: pp. 164-165) em que se observa o regulamento dos paneleiros96 de estanho de Paris (com base também no Livre des Métiers); ali constava a liberdade para ser paneleiro de estanho, desde que fizesse uma obra reconhecida de alto nível e cumprisse as obrigações necessárias. Também consta ali a proibição ao trabalho noturno, assim como a proibição de trabalho nos dias festivos, a não ser que houvesse feira naquele dia, sob pena de multa a ser paga ao tesouro real (havia no estatuto um comentário sobre o malefício do trabalho sob a claridade noturna). No texto também havia regulamento sobre a obrigação de obra de boa qualidade sob pena de multa, assim como proibição da venda de produtos daquele artesanato de panelas de estanho por estranhos, também com multa a ser paga ao tesouro real; também determinava que dois mestres jurados da corporação, como membros da burguesia, deveriam ser indicados para atuarem na administração da cidade de Paris.
Vemos, nestes exemplos, a preocupação de limitação de espaço geográfico e da atividade profissional, próprios para a especificação do monopólio da atividade profissional; da mesma forma, tendo em conta o monopólio, fica evidente a preocupação da exclusividade da região demarcada para os habitantes do lugar, o que denota também preocupação com a manutenção restrita dos conhecimentos exigidos para a atividade profissional; também se nota uma restrição, ainda que incipiente, com a utilização de crianças para o trabalho corporativo, além do aspecto da jornada, a par da preocupação
96 O termo paneleiro é de português no Brasil, pois em Portugal tem outro sentido; em espanhol é olleiro; em francês, poêlier.
assistencialista para com os idosos, de cunho misericordioso. Tais preocupações revelam a sociedade daquele momento histórico europeu, profundamente influenciada pelo sentimento religioso e de hierarquia social, embora já com a presença da burguesia na administração das cidades.