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ASPECTOS HISTÓRICOS DO DIREITO E DO TRABALHO

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Academic year: 2019

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GERSON LACERDA PISTORI

ASPECTOS HISTÓRICOS DO DIREITO E DO TRABALHO

UM BREVE OLHAR JURISTRABALHISTA SOBRE A

I

DADE

M

ÉDIA

Dissertação apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para obtenção do título de MESTREEMDIREITO DO TRABALHO

sob a orientação do Prof. Dr. Pedro Paulo Teixeira Manus

PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO

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Toujours tisserons drap de soie, Jamais n’en serons mieux vêtues, Toujours serons pauvres et nues, Et toujours aurons faim et soif... Nous avons du pain à grand’peine, Peu le matin et le soir moins... Mais notre travail enrichit Celui pour qui nous travaillons. Des nuits veillons grande partie, Veillons tout le jour pour gagner.

Chrestien de Troyes, por volta de 11701

1 “Sempre teceremos a seda, nunca estaremos mais bem vestidas, sempre estaremos pobres e desnudas, e

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Dedico este trabalho à Maria Helena: continente de amor, inteligência e solidariedade

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Agradecimentos

Tenho que agradecer, em primeiro lugar, a meu orientador, o professor doutor Pedro Paulo Teixeira Manus, por seu incentivo ao estudo do Direito do Trabalho, dando exemplo a todos de sua dedicação.

Em seguida, devo agradecer ao professor doutor José Antônio de Camargo Rodrigues de Souza, grande historiador brasileiro dedicado ao estudo da Idade Média, que, com lhaneza, me possibilitou olhar com atenção vários aspectos históricos fundamentais nesse período, além de indicar diversos textos sobre a história medieval.

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Resumo

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Abstract

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO... 10

A–UM OLHAR INDAGADOR. ... 12

I - Objetivos desse olhar histórico jurídico-trabalhista sobre a Idade Média ... 12

1 - O porquê do tema... 12

2 - O porquê do período de tempo escolhido ... 14

3- O porquê do espaço escolhido ... 17

B–UM OLHAR PANORÂMICO (OU A GRANDE ANGULAR) ... 19

I – O conjunto de interesses denominado Cristandade ... 19

II - A sociedade medieval ... 24

1- Características ... 24

2- Feudalismo ... 28

3- As cidades e a relação feudal... 31

III - As instituições políticas ... 35

1 - A organização do reino ... 35

2- A organização da Igreja: ... 40

3- Os conflitos políticos entre os reinados e o papado ... 43

IV – O contexto jurídico... 49

1- O direito costumeiro ... 49

2- O direito romano... 50

3- O direito canônico... 53

4- A aplicação da justiça ... 55

5- O pensamento jurídico: formação e transformação ... 61

V – Os estertores da Idade Média ... 69

C–UM OLHAR DE APROXIMAÇÃO (ZOOM)... 74

I – As organizações urbanas ... 74

1- Associações mercantis ... 74

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II - A organização das corporações... 79

1- Uma corporação especial: a universidade ... 80

2- Corporação de ofício: o ateliê ... 83

3- A Juranda ... 86

4- A Confraria ... 86

5 - Tipos de ofícios ... 88

III – Os regramentos das corporações ... 90

1- Regulamentos de trabalho: ... 92

2- Regulamentos da produção:... 92

IV – O contexto das corporações de ofício... 93

1- Aspectos do cotidiano corporativo: a produção ... 95

2- Aspectos das condições de trabalho ... 97

3- O relógio e sua relação com o trabalho ... 100

V - Os conflitos relativos ao trabalho...101

VI - A interferência real nas corporações...105

CONSIDERAÇÕES FINAIS: UM OLHAR EM PERSPECTIVA...108

(10)

INTRODUÇÃO

Um dos objetivos deste trabalho é apresentar um painel histórico de um período da Idade Média, com destaque a aspectos jurídicos e trabalhistas, tendo em foco principalmente a Idade Média baixa, entre os séculos XIII e XV, embora apresentando situações precedentes a esse período quando se entender necessário. O outro objetivo é destacar a relevância da relação entre o período medieval enfocado e o atual momento histórico, visando a apresentar a importância subestimada dessa época para o atual Direito do Trabalho.

O método empregado é o que parte do geral para o particular, estabelecendo-se como geral uma visão histórica mais ampla, com os aspectos religiosos, econômicos, sociais e jurídicos do período apontado e, como particular, uma visão mais objetiva da forma e condições do trabalho naquele contexto apresentado. Portanto, não se optou por um prisma dogmático, mas adotou-se um aspecto zetético, de verificação de um quadro histórico e análise de algumas situações apresentadas para exemplos.

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perspectiva do trabalho contemporâneo, mais interessante, julgamos, é a exposição de reflexões.

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A–UM OLHAR INDAGADOR.

I - Objetivos desse olhar histórico jurídico-trabalhista sobre a Idade Média

1 - O porquê do tema

Temos visto na maioria das obras que tratam do Direito do Trabalho um reduzido espaço para a análise do trabalho humano anterior ao século XIX, notadamente o período da Idade Média.

De fato, quando observado o início da História do Direito do Trabalho por diversos autores2, vê-se uma delimitação de sua formação a partir do período industrial, principalmente com relação ao século XIX. Assim, o período anterior à chamada Revolução Industrial não é visto como parte da história do juristrabalhismo, mas como sua pré-história ou proto-história, pois se afirma, entre vários argumentos: que a relação de trabalho até o momento industrial não é uma relação de emprego, não há o típico assalariamento, não ocorre um trabalho com conjunto humano fixo em determinado espaço físico, não há regulamentação e subordinação mais efetiva na forma do trabalho e sua contraprestação, além de não haver liberdade para a contratação do trabalhador pelo empregador nem regulamentação das condições de trabalho, bem como por faltar a interferência do Estado ou de seus entrepostos nessas relações (cf. Martins: 2001, p. 34).

Godinho Delgado (2002: p. 81), que dá ênfase ao sistema capitalista como o cerne para a caracterização do Direito do Trabalho como ciência, nos diz:

O elemento nuclear da relação empregatícia (trabalho subordinado) somente surgiria, entretanto, séculos após a crescente destruição das relações servis. De fato, apenas já no período da Revolução Industrial é que esse trabalhador seria reconectado, de modo permanente, ao sistema produtivo, através de uma relação de produção inovadora, hábil a combinar liberdade (ou melhor, a separação em face dos meios de produção e seu titular) e subordinação. Trabalhador separado dos meios de produção (portanto juridicamente livre), mas subordinado no âmbito da relação empregatícia ao proprietário (ou possuidor, a qualquer título) desses mesmos meios produtivos – eis a nova equação jurídica do sistema produtivo dos últimos dois séculos.

2 Pedro Paulo Teixeira Manus, ao descrever a ubiquação do Direito do Trabalho na História, apresenta uma

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Vemos, assim, que há uma concepção industrialista pela qual apenas a revolução industrial propiciou a situação atendida pelo Direito do Trabalho tal qual a conhecemos e estudamos.

Como mais um exemplo desta concepção industrialista, temos a destacar Martins Catharino que, em sua obra Tratado Elementar de Direito Sindical (1982: pp. 14-19), distingue os períodos de pré-história e proto-história do Direito do Trabalho. Ali, este jurista conceituado fixa a pré-história como o período em que se cuida da Antigüidade e da escravidão (período que chama do trabalhador-objeto ou coisas) e se inicia a proto-história de forma mais concreta no Ocidente europeu com o advento das corporações de ofício.

Orlando Gomes e Élson Gottschalk (1975: pp. 20-21) também vinculam o Direito do Trabalho à Revolução Industrial, mais precisamente como um seu efeito. Assim destacam:

A história do movimento operário é uma lição de sociologia, que nos fornece a precisa idéia do grupo social oprimido. O envilecimento da taxa salarial, o prolongamento da jornada de trabalho, o livre jogo da lei da oferta e da procura, o trabalho do menor de seis, oito e dez anos em longas jornadas e o da mulher em idênticas condições criaram aquele estado de détresse sociale de que nos fala Durand, no qual as condições de vida social se uniformizaram no mais ínfimo nível.

... O associacionismo, clandestino a princípio, tolerado numa etapa média e reconhecido pela autoridade pública afinal, foi a concretização material de uma consciência de classe, que foi se formando, lentamente, no seio das sofridas massas trabalhadoras, em vários países da Europa, no curso do século XIX.

São estes exemplos paradigmáticos da concepção de que o Direito do Trabalho surge em decorrência da Revolução Industrial e, mais precisamente, em razão do segundo período desse mesmo evento, em que ocorreu uma concentração maior do capital produtivo e, em conseqüência, a formação do proletariado industrial. E também fazem transparecer a visão de uma cortina de interesses jurídicos e históricos do Direito do Trabalho entre o período pré e pós Revolução Industrial e, mais precisamente, antes e depois do século XIX, em detrimento ao estudo do período anterior referido.

(14)

um critério meramente de curiosidade, e sem interferência mais efetiva sobre o Direito do Trabalho, ou pelo contrário, como parte a merecer uma reflexão maior pela História do Direito do Trabalho.

Visamos, assim, a uma tentativa de observação de um período da Idade Média logo após aquele em que se organiza o trabalho livre, com repovoação e criação de cidades, a fim de procurar perceber, naquele período, que tipos de formas de trabalho e atividades podem ser relacionados com o trabalho a partir da Revolução Industrial e, se nessa relação, há possibilidade de uma concepção mais extensiva de período histórico para o Direito do Trabalho. Afinal, cabe verificar se o trabalho em época pré-mercantil ou mercantil merece também a preocupação do Direito do Trabalho como parte de uma observação mais prolongada, ainda que em um período longínquo e sob outros paradigmas econômicos e sociais.

Por fim, cabe destacar mais um dos principais motivos de análise do trabalho humano neste período escolhido da Idade Média: relaciona-se a uma das atuais preocupações do estudo do Estado por vários setores científicos humanos, em que se observa contemporaneamente um movimento pendular de diminuição do poder centralizador do Estado, cristalizado e aperfeiçoado desde o Renascimento Ocidental. Tal diminuição de poder estatal centralizado, de acordo com esses estudos, leva à sua atomização em diversos graus e setores existentes na sociedade civil contemporânea. E, em alteração semelhante e contemporânea no mundo do trabalho, vemos o chamado toyotismo como forma de produção diferenciada (descentralizada e setorializada) do tradicional modelo fordista-taylorista (centralizado, hierarquizado).

Toda essa situação assemelha-se em muito à forma do poder e de relações sociais existentes durante a Idade Média, o que torna o objeto deste estudo, longe de se tornar diletante, algo atual, comparativo e objetivo para efeito de extraírem-se lições.

2 - O porquê do período de tempo escolhido

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(sem nos referirmos a várias instituições feudais que perduraram por séculos). Por certo que o período da Idade Média alta, reconhecido de forma mais uníssona como tal, entre o século VI e o século X3, possui um grande interesse histórico, mas não um correspondente interesse jurídico e trabalhista, pois o esfacelamento do Império Romano e de suas instituições afetou a aplicação do Direito estruturada naquele Império, prevalecendo principalmente costumes, quer do período romano, quer das tribos invasoras, majoritariamente germânicas4. Além disso, ocorre apenas após o século X uma maior presença do trabalho livre e organizado em grupos, em função do crescimento e ampliação das cidades.

Constata-se que somente após a tentativa de uma rearticulação do antigo Império Romano, com a instauração do Sacro Império Romano-Germânico a partir de Carlos Magno, e com o apoio integral da Igreja Católica, é que ocorreu uma paulatina segurança dos espaços ocupados e reconquista dos territórios perdidos aos muçulmanos, húngaros e normandos. Observa-se uma contínua mudança na sociedade de então, desde a fragmentação do império carolíngio, o que Le Goff (1995: p. 75) chama de esboço de futuras nações, à fragmentação da autoridade e do poder político, com um tipo de concentração de poderes pelos mais fortes beneficiados pela divisão de terras e submetidos ao conceito de vassalagem no período de Carlos Magno5.

Mesmo a tentativa de reconsolidação do Sacro Império Romano-Germânico pelos otonianos6 resultou em uma frustração daquele projeto de restauração pela expulsão, por Roma sublevada, de Oto III, e o retorno ao reino dos germânicos de Henrique II. No entanto, por força do período carolíngio, já ocorria uma mudança econômica, quer pela renovação do comércio desde o século VIII, com a importância da região dos hoje Países Baixos (Frísia), a exportação de panos, e a reforma monetária de Carlos Magno.

A economia desse período, essencialmente rural, vai se beneficiando da melhoria da tecnologia agrícola, com a ampliação das terras cultivadas, novo sistema de

3 Há corrente de pensamento que entende ser o início da Idade Média baixa o século XIII; outra, o século

XIV, assim como quem defende a existência da Idade Média central entre o século X e XIII, além de outros posicionamentos paralelos. Optamos por entender como período da Idade Média baixa o período entre o século XIII e XV para efeito do tempo a ser observado neste trabalho.

4 E com resolução de litígios de forma rudimentar em comparação ao Direito Romano.

5 Como diz Le Goff (1995: pp. 78-79): “O homem antigo tinha de ser justo ou reto; o homem medieval terá de

ser fiel. Maus doravante serão os infiéis”.

6 Oto (Otão ou Othon) I, II e III, reis germânicos, coroados pelos papas romanos como sucessores de Carlos

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atrelamento dos animais para plantio, nova forma de arar, aperfeiçoamento do uso do moinho, preparação de pães com novos ingredientes de plantio, a adoção de plantas mais ricas em proteínas (legumes em favas, lentilhas, ervilhas, por exemplo), propiciando maior poder energético aos seres humanos que as utilizavam, o que resultou em ações humanas mais efetivas para construções e desbravamentos (cf. Le Goff, 1995: pp. 83-84).

A par disso, também se observa, a partir do século X, um fortalecimento do comércio escandinavo, que se relaciona com o comércio judeu e árabe, que por sua vez se movimentava trazendo e levando madeiras, ferro e estanho para as espadas francas, além de mel e escravos7 (geralmente eslavos - slaves), por estradas entre Córdoba (então muçulmana) e Kiev (através da Europa Oriental), incluindo-se como beneficiárias dessa rota comercial a região do Reno e a região das cidades de Pádua e Milão.

O fim das invasões à Europa Ocidental e o desenvolvimento de acordos e regulações de paz, estimulados pela Igreja Católica (Paz de Deus), que permitiam o respeito da atividade militar aos setores da população não combatentes (como os padres, mulheres, crianças, camponeses, mercadores e até animais de trabalho), além de uma melhoria das condições climáticas por um grande período de tempo, propiciaram um aumento da demografia, a ponto de a população da Europa Ocidental, entre os séculos XI e XIII, ter dobrado e, em algumas regiões, triplicado o número de seus habitantes (cf. Jerôme Baschet, 2004: p.89). E o aumento da população propulsionou a atividade de construção de novos tetos, com a ampliação das cidades, além da criação de novas cidades.

Uma população maior exigia, em um ambiente profundamente clerical e religioso, igrejas maiores e mais igrejas. Essa produção exigia a obtenção de matérias-primas como pedra, madeira e ferro; foram surgindo, assim, novas técnicas de construção, aperfeiçoamento de transporte, novos canteiros construtivos, novas pontes, celeiros, mercados, novas casas com material melhor para os mais ricos, tudo isso formando uma espiral de crescimento econômico e formando novas situações a serem pensadas, conflitos a serem resolvidos, interesses afetados e assim por diante.

7 A escravidão, em descenso desde o final do Império Romano, foi sendo por etapas substituída por situações

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Esse fenômeno repercutiu nas instituições de poder, alterando os horizontes políticos e sociais, criando-se, a partir daí, universidades e recuperando-se o Direito de sua herança romana.

Toda essa movimentação econômica e social propiciou, a partir do século XI, um fenômeno denominado pelos historiadores de “Renascença medieval”, momento em que se dá uma maior importância e atenção ao trabalho humano. Afinal, até então predominava a concepção de que a sociedade era formada pelos oradores (os clérigos), os guerreiros (os cavaleiros nobres) e por fim, e de derradeira importância, os trabalhadores (o povo, os plebeus) - a estes últimos restava arcar com a maldição do pecado original: o trabalho. A mudança dessa concepção nos permite, então, observar as relações de trabalho a partir do período apontado, com ênfase na Idade Média baixa, ou Idade Média tardia, época em que o trabalho livre se estrutura e também se modifica paulatinamente nas cidades novas ou repovoadas desde a chamada “Renascença medieval”.

Assim, o período da Idade Média baixa representa um momento de crise na Igreja, de crise de poder político na mudança nas relações entre a Igreja e os reinos, de estruturação dos reinos nacionais emergentes, de transformações nas concepções jurídicas e suas aplicações, de crise em razão de guerras entre reinos e revoltas internas (a guerra dos cem anos, por exemplo), de crise econômica e financeira interna e entre os reinos existentes, de sérias crises causadas pelas epidemias (peste negra, por exemplo), de formação e ampliação da burguesia nas cidades, agudização das tensões existentes no âmbito das cidades e das corporações existentes, de modificações nas relações corporativas, e assim por diante.

Trata-se, portanto, de um período rico de situações e de transformações sociais, institucionais e jurídicas que merece uma atenção especial.

3- O porquê do espaço escolhido

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Católica: a região em que os francos haviam se instalado, após sua invasão, sobre o declinante Império Romano, ou seja, preponderantemente a Gália (mais tarde, França).

Podemos constatar, assim, que o espaço central relativo ao Sacro Império Romano-Germânico, mais precisamente as atuais regiões da França e circunvizinhança (inclusive parte da Península Ibérica8), constituem o centro político e territorial principal do período de tempo escolhido. Destaque-se que essa região continuou sendo, durante todo o período da Idade Média, ponto irradiante de fatos e posturas para os povos próximos, inclusive local de onde partiu a primeira cruzada cristã9, no século XI.

Aqui, portanto, a razão de se adotar esse espaço como lugar a ser observado em primeiro plano. Cabe notar, ainda, que é a França o território em que, pela primeira vez na Europa Ocidental, um rei se torna rei de um espaço relacionado a um povo: é o caso de Felipe Augusto, que bem no início do século XIII (entre 1204 e 1205) não se coloca mais como rei dos francos, mas rei dos franceses10 (Basdevant-Gaudemet, e Gaudemet, 2003: p. 15).

Por fim, deve ser destacado que, embora Roma fosse a sede espiritual da Igreja Católica, tanto ela como as cidades da hoje Itália, possuíram uma importância secundária na Idade Média. A sede espiritual da Cristandade, Roma, possuía um destaque religioso, como era, por exemplo, Santiago de Compostela, só que com um contingente populacional bem maior.

Dessa maneira o destaque político, social e econômico nesse período corresponde ao centro geográfico escolhido acima.

8 Aqui também em razão da influência ibérica para nós, brasileiros.

9 Promovida pelo papa Urbano II, a partir de região central do reino dos francos.

10 L’expression est nouvelle. En 1204 Philippe Auguste se reconnaît Rex Franciae, Regnum Franciae

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B–UM OLHAR PANORÂMICO (OU A GRANDE ANGULAR)

I – O conjunto de interesses denominado Cristandade

Durante a Alta Idade Média, na região acima destacada, foi sendo forjada uma estreita relação entre os poderes locais, a povoação existente nas terras e os representantes da Igreja Católica. O desenvolvimento desse conjunto resultou em um fenômeno geográfico, político, social, cultural e religioso (ou teológico-filosófico) denominado Cristandade11. À frente da Cristandade, a Igreja Católica ligada a Roma e remanescente do período final do Império Romano, com uma proposta universalista, representando as crenças e as ideologias durante o período medieval12, com autoridade intelectual ilimitada e detentora de grande poder econômico (vastos domínios e grandioso tesouro).

Assim, a par do crescimento econômico na Idade Média Ocidental rapidamente apresentado acima, temos a expansão interior da cristandade européia a partir do desbravamento das terras sobre matos e pastagens13 e formação de novas cidades. Sob o prisma exterior, o uso da via militar para ampliação de fronteiras e as longínquas e as nem tão longínquas expedições contra os muçulmanos e outros “infiéis” através das cruzadas.

Vê-se como parte dessa expansão a cristianização de povos chamados pagãos, como os normandos (homens do norte: escandinavos) instalados também no noroeste da França e na Grã-Bretanha, além de conquistadores de terras muçulmanas ocupadas, no sul da Itália e Sicília. Também a cristianização ocorreu na parte centro-oriental da Europa, nas regiões germânicas e eslavas. Aliás, vale destacar que a reconquista da Península Ibérica sobre os muçulmanos teve uma estreita relação com a emigração francesa e a atuação numerosa de cavaleiros franceses de regiões próximas dos Pirineus: eles atuaram junto aos reis cristãos locais e com apoio dos monges de Cluny, diante de sua estreita relação com Santiago de Compostela.

11 Utilizamos nesta parte do trabalho, como referência principal, a obra de Jacques Le Goff, A Civilização do

Ocidente Medieval, volume I, que é ímpar, detalhada e rica em informações e análises sobre o período aqui objeto, principalmente sobre a cristandade medieval.

12 Vide Ellul, 1999: p. 237.

13 As florestas foram por muito tempo poupadas como lugar de caça dos nobres senhores ou como fator de

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Essa guerra militar de reconquista religiosa serviu como elemento de ambientação às cruzadas em direção ao Oriente Próximo, que acabaram se tornando uma quimera de saída para o excedente populacional do Ocidente, busca de terras e feudos, riquezas e as mais variadas ambições latentes. Mas também representaram um dos fatores de crises políticas, sociais e econômicas na Idade Média baixa, ainda que tenham permanecido como um ícone da expansão da cristandade medieval.

Vemos que não foram as cruzadas que proporcionaram desenvolvimento comercial com lugares mais longínquos, já que havia anteriormente relações comerciais, assim como contato com tecnologia e produtos com o mundo muçulmano, inclusive com rotas de comércio já referidas supra. Da mesma forma, as informações de cunho intelectual e erudito sobre o Islã (ou Islão), Roma e a Grécia eram obtidas por centros de tradução e bibliotecas na Grécia, Sicília e Espanha, com muito maiores contatos, do que na Palestina.

As expedições dos cruzados trouxeram o empobrecimento dos nobres cavaleiros (outro motivo de crise na Idade Média baixa), trouxeram as rixas entre nações (por exemplo, na segunda cruzada, efervesceu o ódio entre franceses e alemães) e entre latinos e gregos (o que resultou na quarta cruzada de cristãos sob o signo de Roma contra Constantinopla/Bizâncio, em 1204). Também foram nas cruzadas que se iniciaram os excessos de morticínios, como os pogroms contra os judeus, e as pilhagens. Para financiamento dessas campanhas, a Igreja aumentou os impostos pontifícios e deu destaque à venda de indulgências, com repercussões sérias para sua divisão futura. E a breve permanência dos cruzados em Jerusalém é considerada por Le Goff o “primeiro exemplo do colonialismo europeu” (1995: p. 98).

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Se as cruzadas representam a atividade externa principal do conjunto de interesses a que se dá o nome de Cristandade, temos no âmbito interno desse coletivo uma Igreja que também conviveu e participou das mudanças ocorridas a partir do período denominado de Renascimento medieval. Embora no plano de desbravamento de terras para plantio e construções os monges das abadias tradicionais (como os cluniacences, de formação beneditina), por sua postura senhorial e ociosa, não incentivassem a instalação e uso de terras para o trabalho14, o surgimento de novas ordens com novas posturas tiveram caminhos diferentes: ou de característica mendicante, sem vínculos com espaços maiores; ou de caráter eremita, sendo que nesses casos não havia preocupação com as novas terras e novas construções; ou então, ligadas aos conglomerados urbanos, com relações com as igrejas nas cidades ou com relação mais próximas com as universidades nascentes, aí sim, ligadas com os novos tempos15.

O grande crescimento e desenvolvimento das cidades levam a Igreja a caminhar pelo apoio às ordens que se coadunam com os novos ares, deixando em plano secundário as ordens eremitas e mendicantes, muito próximas a uma estrutura mais agrária e feudal. Mas mesmo algumas delas passaram, com o tempo, a se aproximar dos centros populacionais e da linha oficial da Igreja de então, em compasso com o momento histórico: como exemplo, temos Tomás de Aquino e Boaventura, mestres com atuação destacada na Universidade de Paris16, sendo um dominicano (frade predicante) e outro franciscano (frade menor). Como destacado por Le Goff (1995: p. 120), no século XIII se vê a Igreja, que conduzia a sociedade, passar a se adequar à sociedade.

Merece ser observada a ênfase na construção das igrejas em forma de basílicas, em contraponto às abadias do período anterior. Essa opção possui direta relação com a presença da Igreja nos locais com maior conglomerado urbano. Da mesma forma, esse conglomerado urbano relaciona-se com a laicização e, em paralelo, com a maior vigilância da Igreja sobre esse fenômeno que envolvia população urbana, universidades, discussões filosófico-religiosas e posicionamentos práticos; daí as sumas escolásticas e

14 Em função da visão de que o trabalho relacionava-se à maldição do pecado original de Adão e Eva, que

foram expulsos do Paraíso e condenados ao trabalho; a utilização do trabalho manual era empregada como forma de expiação do pecado e de sofrimento, como na frase “trabalho de beneditino”.

15 “A oposição entre o monaquismo antigo e o novo monaquismo é simbolizada pela polémica entre o

cluniacense Pedro, o Venerável, abade de Cluny (1122-1156) e o cisterciense S. Bernardo, abade de Clairvaux (1115-1154)” (Le Goff, 1995: p.118)

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atitudes mais severas de disciplina teológica, resultando disso a “Santa Inquisição”17. E foram várias as heresias formadas nesse período aqui retratado.

Vale lembrar que essa preocupação com a disciplina ideológico-religiosa da Igreja Católica se dá de forma dura e forte, a ponto de ter ocorrido uma cruzada e um massacre dentro própria França, mais precisamente na região do Languedoc do território francês, tendo como alvo principal a cidade de Albi. Tal cruzada sobre os albigenses uniu o interesse centralizador e disciplinar da Igreja, com uma preliminar postura centralizadora de poder do reino, no início do século XIII, afastando e subjugando à força os principais senhores feudais daquela região, muito fortes econômica e politicamente, e intimamente ligados à doutrina catarista18.

Sendo a Igreja Católica o ponto referencial do que se denomina Cristandade, vale a pena observar sua presença política no período destacado. No que se chama de Igreja Católica (universal) “Imperial” 19, a partir do século XI passa a ocorrer o que se denomina de reforma da Igreja. É que, após a fracassada tentativa de retomada do Sacro Império Romano pelos reis germânicos, com influência papal, mais de cem anos depois o papa Gregório VII adota uma conduta política de separação e supremacia do reino temporal pela Igreja Católica. É dele o Dictatus Papae (declaração papal sobre seu papel e da Igreja no mundo), assim como o início da estruturação concreta e temporal do poder papal e da organização do Direito Canônico.

É ainda importante destacar que, desde a relação de protetorado entre Gregório, o Grande, e os reis merovíngios, no final do século VI, completando-se com o período carolíngio (século VIII em diante), a relação de poder da Igreja se situava, de um lado, no plano espiritual, e de outro, na influência que a nobreza exercia sobre os estamentos do clero, ocorrendo mesmo uma inter-relação de bispos nobres e nobres bispos. Afinal, os reis desse período influenciavam nas escolhas das direções eclesiásticas, inclusive colocando nos cargos de direção pessoas diretamente ligadas à nobreza local, ou então, influenciando na escolha dos bispos locais, havendo até bispos laicos. E as leis

17 Merece destacar que a Inquisição como instrumento oficial surge no século XIII e permanece bem atuante

até o século XV, diminuindo sua atuação paulatinamente nos séculos posteriores; na Península Ibérica perdurou atuando com apoio dos reis locais até o século XVIII.

18 Grupo heterogêneo e maniqueísta com influência de concepção bizantina dissidente, composto em parte de

nobres, artífices e de gente do povo nas cidades; formaram uma anti-igreja, com bispos, clero e ritual – denominavam-se os “perfeitos”.

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canônicas sofriam total incorporação da liturgia e da teologia, sendo mais regras comuns, que por sua vez eram vagas e, portanto, de aplicação abstrata, com influência política óbvia. Lima Lopes (2002: pp. 85-86) destaca que Gregório VII representou uma tomada de posição de libertação da Igreja do chamado poder secular, formando um poder burocrático, com aspectos de racionalidade, legalidade e formalidade20. Centrou assim sua luta contra a simonia (venda dos símbolos sagrados, como cargos e ordenações clericais), casamentos dos padres (nicolaísmo) e nomeação dos leigos para os cargos mais altos do clero, que recebiam rendas pelo uso das terras e bens da Igreja. Também representou um conflito que se tornou crônico por séculos21 diante de sua proposta de centralização de poder e de supremacia do poder papal diante dos reinos temporais. Este marco sela a estruturação do direito canônico sob a égide papal como a fonte legitimadora desse poder, sendo o Decreto de Graciano seu ícone principal (utilizado pelos decretistas ou canonistas).

José Antônio C. R. de Souza e João Morais Barbosa (1997: p. 30) destacam Gregório VII como aquele que “lançou os alicerces inovadores da teoria segundo a qual o sacerdócio tem uma missão mais relevante, do que a realeza, no interior da cristandade, tese esta progressivamente enriquecida até alcançar a maturidade no século XIV”. A esse fenômeno estes autores denominam hierocracia.

A presença da Igreja Católica com uma política centralizadora de poder a partir daquele momento causou uma grande alteração na sociedade medieval. Isso porque havia uma sociedade que pode se chamar de anárquica, no sentido de haver uma plêiade de poderes e jurisdições, típica do período feudal, e essa nova postura de aspecto burocrático, aglutinador e subordinador é um contraponto àquele momento da sociedade. Vale aqui observar então a sociedade medieval.

20 Entende-se até que lança aí as bases para a futura concepção do estado moderno.

21 O conflito se iniciou com o germânico Henrique IV e se denominou de “querela das investiduras”, por força

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II - A sociedade medieval

1- Características

Jacques Ellul22 (1999: pp. 130-136) destaca que a sociedade medieval, desde o final do império carolíngio, sofreu diversas influências. Em primeiro lugar a cristã, através de um conjunto de doutrinas políticas e jurídicas de um sistema organizativo tal como o poder político sob a concepção da vontade de Deus e escolha de soberanos, as noções de justiça sob o critério religioso e, nesse contexto, a eqüidade, compaixão, fidelidade, etc., que formam as bases do pensamento elaborado pelos canonistas e teólogos da Igreja. Em seguida, a presença da Igreja como instituição própria, impondo-se como uma sociedade com suas próprias regras jurídicas e com influência direta na sociedade ao redor de sua presença, quer pelo ensino, assistência aos pobres, jurisdição nas questões relacionadas com a Igreja, e quer mesmo por propostas de pacificação entre os poderes laicos e respeito destes à paz declarada pela Igreja em seus espaços.

Em segundo lugar, observa esse autor a influência oriental, que aponta ser, de um lado, negativa e de outro, positiva. Como negativa, destaca o cerco político e econômico provocado pela civilização árabe, impedindo o acesso à região mediterrânea, o que ocasionou profundo prejuízo econômico às regiões ao derredor que não possuíam uma relação de identidade com aquela civilização. E, como positiva, destaca uma nova postura de relacionamento com o mundo muçulmano, principalmente após o ano 1000 de nossa era, com obtenção, pelas regiões européias denominadas cristãs, de contato com moeda, comércio, importação de métodos agrícolas e de novos tipos de plantas, além de contatos culturais, políticos e sociais.

Em terceiro lugar, Ellul destaca a influência romana, a partir da redescoberta do direito romano; e aí passa a ser conhecida uma sociedade anterior unitária e uniforme, com um poder político centralizado e um sistema jurídico racional, o que, no caminhar da Idade Média, representará um elemento instrumentador da centralização política nas mãos dos reis locais.

Por fim, são de se destacar os pontos internos de influência da própria sociedade medieval no Ocidente, como a região de Flandres, cidades italianas e francesas,

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quanto ao desenvolvimento urbano; a região da Grã-Bretanha, com aspectos de organização monárquica (como o sistema financeiro e organização militar); e a importância das relações internacionais de comércio, com uma estratificação do chamado jus mercatorum.

O mesmo autor supra aponta como características gerais da sociedade medieval os seguintes aspectos: trata-se de uma sociedade anárquica, pois não possui um poder centralizado e único ou mesmo uma concepção abstrata do que seria um Estado; mesmo os direitos e poderes do que hoje se relaciona ao Estado são divididos entre várias autoridades, como os senhores feudais, a igreja, as cidades e assim por diante. E essas autoridades exercem os poderes e os direitos relativos à justiça, às finanças, à moeda e o exercício do poder militar. Como essas autoridades não prestam contas a um poder central, os diferentes grupos que a compõem equilibram-se mutuamente, ocorrendo uma dispersão de direitos políticos e uma fragmentação do direito em cada estamento, com o que se pode nomear de sistema jurídico próprio e particular de cada grupo de poder.

Ao mesmo tempo em que anárquica, abundando de grupos políticos e com fragmentação de poderes, não se trata de uma sociedade desordenada, pois é profundamente hierarquizada. Dessa forma se observa que a sociedade medieval convive com o princípio da ordem e da organização: de uma parte, o rei como órgão de coordenação, usando o bem comum para aplicá-lo na forma de instrumento de conciliação e arbitragem; de outra parte, os grupos locais, unidos uns aos outros através de hierarquias. E é a hierarquia o modo de organização do mundo feudal; mais uma hierarquia de grupos do que de pessoas que se encadeiam por princípios sistemáticos, espontâneos, por ações individuais seguidas de modelos associativos. E esse espírito associativo se desenvolve entre indivíduos, mas tendo em conta indivíduos associados a um grupo, pois não se visualiza o indivíduo sem o seu grupo; essa associação ocorre não de forma arbitrária, de escolha própria, mas de forma orgânica, pois para viver naquela sociedade é preciso estar ligado a um grupamento. Ocorrem associações internas e também entre grupos distintos, como entre senhores, entre comunidades de trabalho, entre cidades e comunidades de habitantes, entre poderes senhoriais e eclesiásticos, em um encadeamento próprio e hierárquico.

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sua Igreja e a ela se subordina. E ocorre aí uma duplicidade relacionada entre o poder temporal e o espiritual, pois essa convivência gera conflitos típicos da concomitância do exercício de poderes por setores distintos. Como segunda resultante, temos uma concepção de que para fazer parte dessa sociedade é fundamental ser cristão e quem diz quem é cristão é a Igreja; os participantes desse conjunto possuem uma mesma linha de visão do homem e do mundo, e uma mesma fé. Quem desse conjunto enfrentasse ou rejeitasse a concepção apontada pela Igreja era submetido à pecha de heresia e isso o levaria à excomunhão; para os de fora desse conjunto, e sem fé, havia o rótulo de pagãos e infiéis, que eram, no máximo, tolerados, como os judeus, que viviam em comunidades sem direitos ou deveres cívicos.

O autor referido ainda destaca que a sociedade medieval é universalista, malgrado sua fragmentação. Isso se observa por meio de três pontos principais: primeiro, não há a divisão dessa sociedade em nações ainda, não havendo, portanto, uma sociedade feudal francesa, outra inglesa ou alemã, pois as fronteiras existentes são por demais flexíveis. Como exemplo disso, temos que um senhorio pode estar em um território de um reino mas, em razão de um mecanismo de vassalagem, por força do sistema de feudos, submete-se por juramento a um príncipe de outro reino. Segundo, é a Igreja o fator de unidade entre os diversos setores da sociedade fragmentada política e economicamente; e a Igreja detém a conduta espiritual a ser seguida e também um poderio econômico, político, social e intelectual. De um lado, há a identidade pela fé, pelos ritos religiosos e instituições (como ordens religiosas); de outro, a unidade pela língua, ou seja, o latim, signo de universalidade intelectual dessa sociedade e que não representa uma língua popular. É o retrato desse mundo social.

Como terceiro, o aspecto do cunho internacionalista daquela sociedade relaciona-se a um tipo de nomadismo constante, quer de forma externa, como as peregrinações a lugares religiosos ou expedições de cruzadas e expedições de comércio externo, quer de forma interna naquele espaço, com a presença de monges peregrinos e sucessivas migrações de trabalhadores avulsos ou mercenários, e viagens de comércio interno cruzando sucessivamente todo aquele lugar já apontado acima.

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entre esses dois termos é a seguinte: a classe é um fenômeno sócio-econômico (habitat, forma de viver, nível de vida, maneira de trabalhar, etc.); a ordem é um fenômeno funcional e jurídico. Uma ordem responde a certa função da sociedade e a repartição segundo as funções é regulada juridicamente. Cada ordem tem um estatuto jurídico particular correspondente à sua função (enquanto na divisão por classes todos têm a mesma situação jurídica)” 23.

Nesse contexto, a sociedade medieval possui uma divisão de basicamente três ordens: a dos clérigos, com funções religiosas, intelectuais e de assistência aos necessitados, possuindo um estatuto jurídico próprio; a da nobreza, com uma função militar e política; e os plebeus, entre estes os servos e os vilãos (habitantes das vilas ou cidades). Neste último estamento, que atendia materialmente as outras ordens, foram sendo criados grupos em forma de corpos que passam a se estabelecer como classe com o decorrer do tempo: como a dos burgueses (principalmente negociantes), a dos chamados vilãos (trabalhadores livres das cidades) e a dos servos (no âmbito rural); estabelecidos nas cidades, os burgueses foram obtendo um estatuto jurídico próprio, com os privilégios especiais conquistados.

Destaque-se que havia a possibilidade de mudança de status de ordens por cooptação. Tais corpos sociais atuam corporativamente, em grupamentos ou associações na qual o indivíduo participa institucionalmente, como parte do todo; ali tem sua função, sua proteção, seu estatuto jurídico e o meio de se desenvolver naquela comunidade. Esses corpos ou corporações atuam de forma simples, buscando seu próprio fim, como os monastérios, a comunidade de mercadores ou de trabalhadores e a universidade. Há também relações mais complexas, como entre os diversos corpos e ordens em função de uma região ou de uma cidade.

23 Ellul, 1999: p. 135: Elle est divisée en ‘corps’ et en ‘ordres’, mais non en classes. La différence entre ces

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2- Feudalismo

Na sociedade medieval, merece ainda ser objeto de observação a figura do denominado senhorio e sua relação com os habitantes do feudo, centro da estrutura feudal. Dominique Barthélemy, ao escrever sobre o vocábulo “Senhorio” no Dicionário Temático do Ocidente Medieval II (2002: pp. 465-466), afirma ser “o ‘senhorio’, um tipo de poder não estatal, próximo, rude e privatizado”. Aponta ser o conceito relativo a “um domínio rural e uma célula da vida social de enorme pujança, na qual os homens aproximam-se de seu chefe”, ou então, ao “despotismo de um castelão, gerador de fratura social”; ou então, “a relação de homem a homem entre um senhor medieval e seu servo”, ou mais ainda, “a relação fundiária estabelecida, a diversos títulos, entre o possessor de uma terra e seus ‘tenancieiros’”. Elenca que, após o século XII, “pode consistir na administração implacável, porém legal, do todo ou de parte de um ‘senhorio de aldeia’ pelos agentes (ministeriais) do nobre senhor que detém o título e a torre”.

Marc Bloch (2002: p. 335) nos diz que um senhorio é, antes de tudo, uma terra, um terreno composto por pessoas24. E esse terreno compartilhado de forma própria possui duas partes integradas entre si: uma, de domínio ou reserva do senhor feudal, de onde recolhe diretamente todos os frutos; outra, chamada tenure, pequena ou média concessão de terra a ser explorada por colono (servo) em conjunto a outras tenures em volta do centro dominial. Bloch descreve a relação jurídica como proveniente de um direito real (da coisa) superior, que o senhor possui sobre a casa rústica do servo e o seu trabalho.

Monique Bourin e Robert Durant (2000: p. 91) conceituam juridicamente o senhorio como o conjunto de direitos exercidos por um homem sobre outros homens, sendo que os direitos relativos ao poder de comandar, julgar e castigar são conhecidos por ban (daí, seignerie banale), e correspondem a direitos coercitivos; há ainda os chamados direitos senhoriais imobiliários (la seigneurie foncière), que se relacionam aos direitos de um proprietário sobre suas terras e sobre o trabalho daqueles que cultivam ali.

Le Goff (1995: p. 125) nos diz que o feudalismo

é, em primeiro lugar, o conjunto dos laços pessoais que unem entre si, numa hierarquia, os membros das camadas dominantes da sociedade. Esses laços baseiam-se num fundamento ‘real’: o benefício que o senhor outorga ao vassalo em

24 Destacamos o original: Une segnorie est donc, avant tout, une ‘terre’ – le français parlé ne lui connaissait

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troca de um certo número de serviços e de um juramento de fidelidade. O feudalismo, em sentido estrito, é a homenagem e o feudo.

Vale lembrar que a figura do senhorio feudal remonta à estruturação carolíngia do poder político. Relaciona-se à cavalaria e à guerra a partir dos condados (domínios dos condes) 25: é deles a concessão de terras e poderes proporcionais aos seus prepostos (vice-condes ou viscondes) que, por sua vez, passaram a organizar outros prepostos, e assim sucessivamente. O sistema do senhorio feudal26 era composto de oficiais para atuação administrativa, como a administração de armas, a administração jurídica e a notarial, a par de conselhos entre os pares e oitiva de vassalos para resolução de problemas, como guerra e paz, aumento de impostos, etc. A base dessa estruturação era a terra, seu uso e seu domínio, e a vassalagem relativa a essa estrutura27.

A população na base da estrutura senhorial é principalmente de colonos de serviço rústico e, entre estes, os servos e os trabalhadores livres (rurículas). Tais plebeus situavam-se no contraponto dos nobres, que possuíam como principais características de seus deveres de nobreza, em primeiro lugar, não precisarem fazer qualquer trabalho servil, de contraprestação por dinheiro, conforme Ellul (1999: p.182) destaca de forma sintética e profunda: “O nobre que trabalha abre mão da sua nobreza” 28. Em segundo lugar, segundo o mesmo autor, existia o dever da obediência a seu senhor, sendo tal dever a absoluta fidelidade; o homem que faltasse com tal dever era considerado traidor e poderia ser punido

25 Há regiões em que há ducados sobre os condados.

26 Destaque-se aqui um documento contido na Introdução Histórica ao Direito (Gilissen, 2001: p. 193): “CONTRATO VASSÁLICO; acto de fé e homenagem dos vassalos do conde da Flandres ao novo conde, Guilherme da Normandia (1127); relação feita por Galbert de Bruges, notário flamengo do condado.

Em primeiro lugar, fizeram homenagem da maneira seguinte. O conde perguntou ao futuro vassalo se ele queria tornar-se seu homem, sem reserva, e este respondeu-lhe: ‘Quero’, depois com as suas mãos apertadas nas do conde, aliaram-se com um beijo. Em segundo lugar, aquele que tinha prestado homenagem comprometeu a sua fé ao delegado do conde nestes termos: ‘Prometo por minha fé ser, a partir deste instante, fiel ao conde Guilherme e de lhe guardar contra todos, e inteiramente, a minha homenagem, de boa fé e sem embustes’; e em terceiro lugar, jurou o mesmo sobre as relíquias dos santos.”

27 Hespanha e Macaísta Malheiros, em Nota do Tradutor, destacam na mesma obra de John Gilissen (2001:

pp. 191-192) que a existência de feudalismo em Portugal corresponde a um debate clássico; apontam como posição mais próxima da realidade aquela que distingue dois planos quanto ao que seria feudalismo ali: “o das relações entre os grupos sociais dominantes e os grupos sociais dominados (pelas quais os primeiros se apropriam , nomeadamente, dos excedentes produzidos pelos segundos) e o das relações que estruturam o interior dos grupos dominantes (que organizam o bloco social dominante). O primeiro plano seria o domínio de vigência do regime ‘senhorial’, com uma definição próxima da que lhe é dada pela historiografia marxista (temperado, apenas, o exclusivismo economicista de algumas das suas versões). O segundo, o da vigência do regime ‘feudal’, como forma de organização interna dos grupos dominantes, neste plano sem diferenças decisivas em relação aos modelos centro-europeus”.

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com a morte. Em terceiro lugar, havia o dever de seguir o código de cavalaria, rigoroso e preciso, ao qual se aderia por juramento; tal código de honra tinha como premissas a lealdade, o desdém pela morte, a fidelidade ao juramento, a proteção aos fracos, aos pobres e viúvas, o combate à injustiça e aos malfeitores e ser generoso29. Quem prevaricasse em seu juramento perderia seu título de cavaleiro.

Tal situação de nobreza comportava em obtenção de privilégios ou vantagens, ao que se denominava de “estatuto jurídico particular” 30. Por exemplo, a dispensa de pagamento de impostos (já que havia o pagamento de “imposto de sangue”), o direito de promover e participar de guerras privadas, o direito de ser livre e julgado apenas por seus pares e com penalidades especiais (sem castigos corporais).

Já os chamados plebeus, mais precisamente trabalhadores livres ou vilãos (relativos às vilas ou cidades), que viviam principalmente nas aldeias próximas aos castelos feudais, subordinados a eles, recebiam serviços ou mesmo terra para trabalharem, mas não eram servos: eram livres para mudarem-se, circularem e trabalharem para outro senhor feudal, ainda que permanentemente vivessem sob dependência política de um senhorio. Possivelmente essa característica de liberdade era originária dos antecedentes colonos ou precários, ou estrangeiros livres, originários do período merovíngio (sucedâneo do fim do Império Romano).

Os vilãos tinham que pagar tributos ao senhorio, como a taille, ou incisura, ou questus ou sauvement (nomes dependentes da região), que era devida ao senhor feudal pelo exercício de poder de política, segurança e exercício de justiça a todos os habitantes do local, salvo os clérigos e nobres. Estes habitantes sob um senhorio não poderiam se casar com habitantes sob a proteção de outro senhorio sem autorização conjunta deles, havendo lugares em que deveriam pagar uma taxa de casamento para essa situação.

Os servos, que eram nascidos como tais ou se transformavam servos por casamento, ou desde que vivessem como agregados ao senhorio por um período certo de costume, ou por força de um contrato de servitude, etc., sofreram uma modificação com o passar dos tempos, pois aqueles com dominação próxima da forma escrava (principalmente ao final do período carolíngio, em que havia castigos corporais e exigência de trabalho

29 Aqui sob óbvia influência da Igreja.

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seguido), tiveram uma melhoria de tratamento e condições entre os séculos XI e XII. Isso se deveu principalmente pelo convívio com os chamados trabalhadores vilãos vistos acima, que viviam nos mesmos locais, pela influência da Igreja exigindo melhor tratamento aos pobres, e trabalhadores, a par do aumento de cidades e utilização da produção rural para o comércio dessas cidades.

Havia duas categorias principais de servos: uma chamada de servitude corporal (ou de corpo), pela qual o servo é servo em qualquer circunstância e ligado diretamente à terra em que serve, inclusive sua descendência; outra, a chamada servitude em razão da coisa (ou real), em que há a servidão relativa a determinado lugar e terreno cedido para ser trabalhado: se esse servo tem aceita a mudança de local para outro senhorio ou quita o pagamento relativo àquele local em que serve, deixa de ter a condição de servo e passa a ser um trabalhador livre ou vilão.

3- As cidades e a relação feudal

Em contraponto à economia fundada na terra e seu domínio, as cidades passaram a conter uma economia monetária em decorrência da renovação comercial, com a estruturação de comércio e indústrias em seus meios31. Vale observar que o comércio nas regiões de Flandres e da Itália possuía característica mais fortemente pré-capitalista do que na França, que detinha, por seu passado de maior influência clerical, associações de comércio e indústria mais influenciadas por elementos religiosos, o que obstaculizava o desenvolvimento de um capitalismo mais individual. E esse viés provocava uma ênfase para que os comerciantes nas regiões francesas, desde o final do século XII, se preocupassem em colocar o dinheiro ganho preferentemente em terras, e não em novos investimentos comerciais. As atividades de crédito e empréstimo de numerários do Norte da região francesa eram mais simples, diferentemente das dos negociantes italianos.

31 Ellul (1999: pp. 200-201) destaca a renovação comercial desde o século X na Europa Ocidental, a partir de

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Entre os negociantes italianos, viam-se cada vez mais as atividades de comércio de dinheiro, operando o crédito com empréstimos e complexificando essa relação com a criação de sociedades comanditárias, letras de câmbio, etc. 32. Passaram então a suplantar os negociantes judeus, que se mantiveram mais localizados e restritos, inclusive em razão de suas condição de “não fiéis”. Cabe destaque a inclusão de créditos imobiliários, com a obtenção de rendas financeiras e a concessão de arrendamentos de terras e imóveis a terceiros.

O comércio e as cidades trouxeram uma modificação para a agricultura: a concentração de pessoas passou a exigir mais provisões. E aquilo que era produzido para sustento passou a ser produzido para servir também para venda, fazendo que o dinheiro passasse a circular cada vez mais no campo, e os servos passassem a receber dinheiro e comprar sua liberação das terras; assim como os vilãos e os burgueses, que também passaram a comprar terras para explorá-las. Os senhores feudais passaram a vender terras ou a emprestá-las para exploração aos banqueiros ou burgueses comerciantes, bem como foram transformando suas reservas próprias em terrenos para uso rural (tenures). Ocorreram, portanto, grandes modificações na forma de exploração da terra dominial sob a influência das novas cidades, que se multiplicaram entre os séculos XII e XIII e passaram a ser autônomas a partir de cartas de franquia de senhores feudais, que cobravam tributos como a talle, mas passaram a admitir uma direção própria para essas comunidades.

Vale destacar que essa passagem do direito potestativo senhorial para a autonomia das novas cidades não se realizou de forma homogênea e pacífica. Há vários relatos de insubmissões e contestações de camponeses, vilãos e burgueses contra senhores feudais na formação de diversas cidades, além de arbitragens pelos representantes da Igreja e até processos perante as cortes reais. Ocorreram, ainda, algumas revoltas armadas em regiões francesas, inglesas, italianas e principalmente espanholas; nessa última região, chegaram a existir combates de guerrilha por moradores castilhenses em meados do século XIII contra o bispo de Osma, por “pirataria senhorial” 33.

32 Assim como na Provence e em Barcelona.

33 Bourin e Durant (2000: p. 107) descrevem a revolta castilhense de Osma como contraponto à “pirataria

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Entretanto, mesmo que obtidas conflituosamente, os termos dessas cartas de franquia possuíam um ideal cristão e de “cavalaria”, facetado nas suas proposições. Bourin e Durant (2000: p. 108) descrevem a utilização do vocábulo benevolência nas introduções dos termos, em contraposição ao estigma de arbítrio pelo poder senhorial existente. Dão como exemplo a carta de franquia outorgada pelo senhor de Tintinnano, na Úmbria, em 1207, que destaca em seu intróito a “liberdade, a justiça e a igualdade, motivos do triunfo de Roma, que quer ser aplicado a suas terras e a seus fiéis, a fim de se retornar às boas condições antigas” 34.

Os mesmos autores ainda descrevem que, no Norte da atual França, um quarto das franquias é de período anterior a 1190; a metade foi redigida entre 1190 e 1240, e o outro quarto delas depois de 1240. Mas as primeiras franquias apareceram na região da Itália, Espanha e Flandres, sendo raras na Normandia, tardias no Sul e praticamente inexistentes no Oeste francês e na Bretanha. Apontam também que as nuances regionais reforçam os resultados mais precoces ou não da existência das autonomias nas cidades mais novas. Destacam (p. 16) 35: “De uma cidade a outra, de uma região para outra, tal ou tal setor possui uma forma própria de estimular o acerto. Aqui, a forma de fechar as entradas da cidade, ali, os problemas fiscais, acolá, a melhor forma de se ministrar a justiça. As diversas maneiras de se prestar solidariedade comunitária confluem para criar administrações públicas municipais e formas de institucionalização da vida política local”.

A estruturação das novas cidades inter-relaciona-se com um tipo social: o burguês. Régine Pernaud (1995: p. 27) nos informa que o burguês habita a cidade e se relaciona a seu desenvolvimento na Idade Média; e a primeira vez que o termo burguês aparece em um documento histórico como tal ocorre para designar os habitantes de uma nova cidade, no início do século XI (1007) através de uma carta de franquia em que o Conde de Anjou garante as isenções de imposto para esses habitantes. A palavra burguês aparece na forma latina: burgensis.

34 ...la liberté, la justice et l’égalité, moteurs du triomphe de Rome, qu’il veut appliquer à sa terre et ses

fidèles afin de revenir au bon estaut d’autrefois.

35D’un village à l’autre, d’une région à l’autre, tel ou tel secteur a joué le rôle de catalyseur. Ici la clôture

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Essa categoria não representava um tipo abstrato, ou indeterminado, mas em cada cidade os membros da comuna que faziam o juramento de convívio e participação eram burgueses daquela comunidade específica. Quem era burguês não era nobre, nem clérigo, nem servo ou ligado ao serviço real. O termo burguês em seu início tinha relações diretas ou de até sinonímia à de negociante, ou seja, aquele que comerciava bens que não necessariamente produzia. A condição de burguês era reconhecida por origem de nascimento familiar, ou por cerimônia de entronização na cidade e, nesse caso, teria de ser paga uma taxa de entrada, prestar juramento de cumprir a carta de franquia daquela localidade e construir uma casa de moradia (o que permitia que um ex-servo que cumprisse essas obrigações pudesse se tornar burguês).

Havia, para os burgueses nessas cidades, uma característica urbana que diferia da rural, provinda de costumes de comércio internacional (em razão dos mercadores): as relações jurídicas eram cumpridas com base na tradição do direito romano; deveria o burguês participar das festas de Natal, Páscoa, do santo padroeiro da cidade, além de poder participar da escolha da administração da comunidade, a par dos pagamentos de taxas pela sua situação no burgo.

A burguesia passou a enriquecer pela ampliação das atividades de comércio e indústria, e começou a se organizar como classe, estruturando-se para fazer a defesa de seus interesses em relação à nobreza e até mesmo ao clero. Como exemplo da capacidade de aglutinação, temos a formação de confrarias burguesas, com características religiosas, porém de cunho disciplinar, organizativo e de defesa do grupo, quer abrangendo um setor, quer abrangendo uma região.

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III - As instituições políticas

1 - A organização do reino

Em primeiro lugar, cabe destacar que em um grande período, durante a Idade Média, alterando-se a partir da baixa Idade Média, a concepção da realeza representava menos a atribuição de direitos e poderes do rei, do que considerar o rei como um titular de uma função, portador de um grande número de deveres perante a Cristandade e os súditos.

A dinastia dos Capetos36 conquistou um prestígio ímpar no reino da França, devendo se destacar que, embora tenha sido eleita, é a partir dessa dinastia a opção da sucessão pelo filho mais velho, em razão de lei sálica37 readotada quanto a esse tema. Sua sucessão tinha também um caráter sacro pois, a partir da morte do rei, imediatamente se declarava rei o descendente direto38, com duas cerimônias interligadas pelo arcebispado, que fazia a transmissão da coroa. Esse ato correspondia ao que se entende como sacralização do poder real, o que levava à concepção do poder divino do rei. Deve ser destacado ainda que, a partir do século XII, o rei francês não presta homenagem ou qualquer tipo de subserviência a qualquer outro senhor; e, durante o reinado de Felipe Augusto, no início do século XIII, ele chega a proibir que se ensine direito romano em Paris, pois tal ensino propaga a supremacia imperial e ele, rei de França, não se subordina a império.

É interessante notar que o caminho da concentração do poder real é proporcional ao caminho inverso do poder feudal, pois à medida que diminuem as esferas de poder, diminuem as forças políticas dos senhores que as exercem, substituídas pelo maior ângulo de força real centralizada. Embora integrado ao sistema feudal, o rei é um suserano especial: recebe as homenagens de seus vassalos, aplica a justiça senhorial, mas não presta homenagens, tendo sido fortalecido com o passar do tempo o princípio de que todo o senhor feudal dependeria ao menos mediatamente do rei. Curtis Giordani (1987: p. 50) lembra Ellul ao destacar que o poder de administrar e de exercer a autoridade não sofre

36 Um tal Hugo, que foi eleito em uma reunião de nobres rei dos francos no final do século X, adquiriu o

sobrenome de Capeto (Capetien), ou “aquele da capa”, por ter sido escolhido numa abadia em que havia a guarda de uma capa de um santo.

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efetiva contestação por parte dos senhores feudais, mas é na administração da justiça que seu poder é inabalável, pois controla as justiças senhoriais e as subordina por meio das apelações39. E, a partir do século XIII, retorna com força a noção de súdito: todos os habitantes do reino devem obediência ao rei pelo simples fato de serem habitantes; tal situação chega a seu extremo durante os séculos XIV e XV, principalmente em função da guerra dos Cem Anos.

O rei possui deveres para com seus súditos fundamentado no mito construído pela sucessão e sagração: proteger o próprio reino e a Igreja, quer de forma interna, na proteção de igrejas, no atendimento aos apelos contra injustiças, no arbitramento de questões entre senhores feudais, quer de forma externa, formulando e exercendo a defesa do reino, organizando negociações com outros reinos, etc.

O reino possuía, no período que também é denominado central da Idade Média40, duas categorias de pessoas em seu torno: a domus regia, composta pela sua família, notadamente o príncipe herdeiro, e os palatinos, habitantes junto à corte, como cavaleiros sem feudo, clérigos íntimos e colaboradores do rei, além dos oficiais reais, como o senescal (chefe do palácio), o copeiro (com relação direta ao fornecimento do palácio, depois suprimido), o camareiro (depois substituído na prática pela ordem dos templários no tempo de Luís IX), o condestável (conselheiro militar e cavaleiro) e o chanceler (um secretário-geral); e a curia regis, que tinha a forma de assembléia real e era composta de vassalos: senhores feudais, bispos e abades, geralmente convocados para discutirem problemas de ordem política, judiciária e financeira.

A partir do século XII, ocorreu uma mudança com alteração na curia regis: foi criada a figura dos “Pares de França” (Pares Franciae), os principais senhores feudais colocados acima hierarquicamente na assembléia41, assim como se iniciou um recrutamento de pessoal especializado para dar andamento a situações que se faziam necessárias no âmbito jurídico, administrativo e financeiro. Também se aperfeiçoou a curia regis com a criação nela de novos órgãos, como os “bailios” (baillis), que eram delegados do órgão, utilizados a partir de Felipe Augusto e tendo como modelo os xerifes ingleses (cf.

39 Cabe lembrar que foi S. Luís (Luís IX), no início do século XIII, quem proibiu o duelo de armas como

instrumento recursal, o que foi implantado de forma paulatina, desde os domínios reais até seu completo cumprimento.

40 Utiliza-se aqui a referência de Idade Média entre o período do século X e o século XIII.

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Martin, 2005: p. 232); o “parlamento”, que era a composição de juízes para atender as tecnicidades processuais; e a “câmara das contas”, composta por pessoal especializado para examinar as contas apresentadas pelos agentes reais. Curtis Giordani (1987: p. 56) destaca que, no século XIV, a “câmara das contas” separou-se da curia regis.

Esse autor ainda destaca que foram criados os “estados gerais” a partir do destacamento da curia regis pela curia in concilio, que era um conselho mais próximo do rei, mais precisamente formado por prelados e barões representantes das principais cidades do reino. Tal figura surgiu42 no início do século XIV, na época do conflito entre Felipe, o Belo, e o papa Bonifácio VIII. Esse conselho foi reconvocado para tratar das questões oriundas dos templários e passou a ser composto como assembléia consultiva por três ordens do reino: grandes senhores, prelados e representantes das cidades principais. Davam apoio à monarquia e deliberavam sob a alçada de cada ordem respectiva.

Nos domínios reais havia uma administração local que era realizada pelo “preboste”. Este era escolhido em um tipo de leilão: aquele que oferecesse maior soma pecuniária ao rei era arrendatário do prebostado, por um período pré-fixado, que não poderia ser disputado por nobres ou clérigos para evitar a feudalização desse poder diretamente subordinado ao rei. A partir do século XIII, o preboste passou a ser escolhido e demitido pelo rei de forma direta; tinha como circunscrição territorial uma região específica, cabendo a ele dar a conhecer e fazer cumprir as ordens reais, recrutar soldados para o rei, administrar a justiça real, receber rendas e cuidar dos bens do domínio real do qual era encarregado (cf. Curtis Giordani, 1987: p. 58).

Além dos prebostes, a partir da “guerra dos Cem Anos”, surgiu a figura dos “governadores”, que inicialmente eram escolhidos pelo rei entre seus nobres principais e eram enviados como delegados reais para manter a ordem em uma região ampla e distante quando isso se fazia necessário. Com o tempo esses delegados reais são fixados por regiões e passam a dirigir a administração que se denomina província.

Sob o prisma financeiro, o reino utilizava as taxas denominadas tonlieu, que também correspondiam a rendas régias com base no direito de exercer a mercancia sobre a venda de comestíveis, roupas, vendas em feiras, etc. Havia também outras taxas, como o pedágio de viajantes e circulação de mercadorias, passagens sobre pontes, entradas e saídas

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de bens e mercadorias pelas cidades, etc. Havia também taxas de distribuição de justiça, recursos provenientes de rendas sobre os domínios e contribuições dos súditos. Foram sendo criadas várias taxas durante os séculos, muitas delas tendo sido objeto de reclamações e revoltas, como aquela contra a taxa criada no final do século XIII, em função dos estoques de vinho; tal taxa foi denominada de maltôte, muito embora tal termo designasse uma taxação mais extensiva. Aliás, esse termo acabou denominando a amplidão dos impostos indiretos.

Já no século XIV, há na França dois tipos principais de impostos: o chamado fouage, que incidia para cada sede da família (feu); e o imposto indireto, denominado maltôte, que correspondia a taxas de múltiplos aspectos, como as taxas criadas sobre o uso de vestes, combustíveis, as décimas cobradas do clero, venda do sal, etc.

A cobrança de impostos reais foi sendo progressivamente substitutiva daquelas cobradas pelos senhores feudais, impedindo-se ampliativamente a concorrência de tributos do rei e dos senhores feudais, passando a ocorrer um monopólio real, caminho para o absolutismo político. Esse também foi o caminho na Península Ibérica, havendo um típico exemplo no texto das Partidas de Afonso XI, no Ordenamiento de Alcalá, em que se declara que são dos imperadores e dos reis as águas e poços salgados que produzam sal (Cf. Curtis Giordani, 1987: p. 190).

Cabe ainda observar rapidamente a moeda: com o chamado Renascimento medieval, já visto acima, diante da evolução econômica e transformações sociais ocorridas a partir das cidades repovoadas e criadas, surgiu uma efetiva necessidade de dinheiro. Curtis Giordani (1987: pp.191-192) elenca alguns fatores que deram origem a essa necessidade: novas exigências no campo militar (armamento metálico mais custoso, construção de fortalezas com material mais durável, novas armas), no campo religioso (novas igrejas, peregrinações e as cruzadas), no campo tecnológico (vários tipos de moinhos e uso de roda específica, novas formas construtivas, como abóbadas, escadas em caracol e formas de pavimentação), e no campo doméstico (com melhor conforto e condições de vida, uso de tecidos, etc.).

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muçulmanas) e do retorno das peças de tesouro saqueadas pelos húngaros e vikings (normandos). Diante de tal situação, as oficinas de cunhagem de moeda foram sendo multiplicadas, por interesses da Igreja, dos senhores feudais e mesmo das cidades, tornando o jus monetae um elemento a mais para a anarquia monetária existente no período feudal até a Idade Média baixa.

A partir do século XIII, mais precisamente com o rei Felipe Augusto (no início desse século), passou a ocorrer uma política de unificação monetária em seu domínio43, com o fechamento das oficinas de cunhagem regionais e centralizando Paris como ponto de cunhagem do reino, sob sua supervisão. Seu descendente, Luís IX (S. Luís), regulamentou a cunhagem de moedas, devendo ser notado que este rei incentivou a circulação de moeda pela população, com a cunhagem de uma peça de prata, o gros. O mesmo Luís IX passou a cunhar moedas de ouro em 1257, o que ocorreu quase um século depois na região de Castela, por Afonso XI.

A organização política na Península Ibérica, tendo como base Leão e Castela, obteve com Afonso X, no início do século XIII, a criação de texto primordial para a organização política do reino. Trata-se das “Siete Partidas” 44, que estabelecem a sucessão do reino pela primogenitura, e nesse contexto se consagram ao rei o direito à promulgação de leis e sua interpretação, recebimento de impostos ordinários, a responsabilidade direta pela cunhagem de moedas, a nomeação de altos funcionários palacianos e judiciários, o comando supremo do exército e a administração da justiça e indulto de penas.

Em Portugal, que recebeu influência marcante das Siete Partidas, principalmente a partir do século XIV, o papel do rei como monarca e centralizador do poder nacional é deflagrado pela redução dos direitos dos nobres e do clero, com o espaçamento das reuniões das cortes e o aumento de delegados e funcionários reais45.

43 A partir do momento em que a ordem dos Templários passa a ser utilizada como base financeira para o

reino.

44 “... (assim chamadas, por a partir da sua terceira redacção, se acharem divididas em sete partes – obra que,

em Castela, começa por ter um caráter legislativo que, depois, passa a ter uma feição doutrinal e que, em 1348, adquire o valor de direito subsidiário) – é ela um código ou tratado onde se abarca o direito, em geral, nomeadamente romano, de que constitui uma notabilíssima síntese.” (in História do Direito Português, de Nuno J. Espinosa Gomes da Silva, 2000: pp. 230-231).

45 A centralização do poder em torno do rei, quer na França, Inglaterra, Espanha, Portugal, etc., representa um

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