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A Consciência do Papel de Servo Sofredor de Yahweh

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1 O JESUS PROFETA NOS EVANGELHOS SINÓTICOS

1.2 A AUTOCOMPREENSÃO PROFÉTICA DE JESUS NOS

1.2.5 A Consciência do Papel de Servo Sofredor de Yahweh

Outro fator importante da autocompreensão profética de Jesus é a visão que tinha de sua própria missão. De acordo com os Evangelhos Sinóticos, Jesus estava consciente de que viera realizar o papel do servo sofredor de Yahweh. Este papel, que tanto Jesus quanto a igreja das origens compreenderam em sua missão, também estabelece uma estreita conexão entre o ministério de Jesus e o profetismo veterotestamentário.26

Uma das principais características dos profetas era o reconhecimento de que sua mensagem não seria aceita pela maioria do povo e que tal rejeição lhes traria perseguição e sofrimento. Esta característica já pode ser observada no chamado do

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Ver exemplos: Is 1,3; Jr 1,5; Am 3,2; Os 6,2.3. 25

Para uma discussão mais abrangente do uso desta expressão por Jesus, consultar J. Jeremias (2004, p. 113-122).

26 Von Rad (1974, p. 264) afirma: “Partimos da constatação de que o ministério deste servo de Deus é claramente um ministério profético.”

próprio Moisés – “[...] não crerão, nem acudirão à minha voz” (Ex 4,1). Esta rejeição por parte do povo aparece como fator característico em praticamente todos os relatos de vocação profética (cf. Is 6,9-13; Jr 1,13-19; Ez 3,4-15; Am 7,10-17), recebendo, porém, sua forma final e definitiva no ministério do profeta Jeremias (Jr 6,27-30; 8,18–9,6; 11,18-23; 20,1-6; 26,7-9. 20-24; 28; 37; 38,1-13; 44,15-19) (VON RAD, 1974, p. 56). Ele identifica, o anúncio do juízo divino – o que constituía a principal razão da rejeição da mensagem profética por parte do povo – como uma das marcas autenticadoras do próprio ministério profético (cf. Jr 28,8.9). Deste modo, a maioria do povo não estava disposto a ouvir a mensagem anunciada pelo profeta porque esta não condizia com o que desejava ouvir.

A partir de Jeremias, a vida do profeta, e especialmente seus sofrimentos, passam a ter valor de testemunho (VON RAD, 1974, p. 38; FÜGLISTER, 2004b. p. 257,258). O profeta sofre, por um lado, como representante de Deus e por causa da mensagem que anuncia e, por outro lado, por causa do pecado e da rebelião do próprio povo. Em Isaías este sofrimento passa a ter um efeito vicário, uma vez que, como representante do povo, o profeta assume (Is 6,5) e sofre (Is 53,1-12) por este pecado. É neste contexto que surge o conceito de ‘ebed Yahweh, tão característico do Terceiro Isaías (Is 42,1-4; 49,1-7; 50,4-11; 52,13-53,12). Nestes textos, o servo do Senhor sofre em lugar dos seres humanos, e através deste ato restabelece a aliança firmada por Deus com seu povo (CULLMANN, 2001, p. 80).

Porém, esta característica de sofrer em prol e por causa de Deus e de sua obra, antecede aos profetas escritores e já se faz presente no profeta normativo, Moisés. Especialmente no livro de Deuteronômio, Moisés é apresentado como o mediador que sofre por causa do Senhor e de sua obra (Dt 9,9.18ss.25ss; cf. Nm 11,11-17). Entretanto, de acordo com Von Rad (VON RAD, 1974, p. 287,288), o papel de Moisés como servo sofredor de Yahweh vai além de simplesmente sofrer por causa do trabalho que realiza. Sua identificação com o povo pecador em contraste à santidade do Senhor, o impede de entrar na terra prometida (Dt 1,37; 4,21s). O juízo do qual é objeto é visto como sendo por causa e no lugar da nação rebelde.

Não se pode deixar de notar a semelhança entre a oração de Jesus no Getsêmani (Mt 26,39.42) e o pedido de Moisés para entrar na terra prometida (Dt 3,24; 34,5). Tanto Jesus quanto Moisés pedem o livramento de um juízo divino. Em ambos, há uma insistência e até uma certa angústia no pedido. Porém, tanto um

quanto o outro recebem uma resposta negativa de Deus. Finalmente, tanto Jesus quanto Moisés se submetem humildemente à vontade de Yahweh (VON RAD, 1974, p. 288).

Além disso, há uma associação contínua no Novo Testamento entre o assassinato dos profetas e a morte de Jesus (At 7,52; cf. Mt 23,31.37 e paral. Lc 13,34). Jesus entendia que uma marca característica dos profetas foi o sofrer perseguição por causa da justiça (Mt 5,12; 23,29ss). Quando fala de sua própria morte, ele a conecta diretamente ao assassinato dos profetas veterotestamentários (Mt 23,31.37 e paral. Lc 13,34; At 7,52). Se coloca como a figura culminante de todos os servos do Senhor que haviam sido rejeitados e martirizados por sua própria justiça (Mt 23,35; Lc 11,51). Na tradição dos grandes profetas, ele seria rejeitado, perseguido e morto por realizar a obra de Deus (PEISKER, 2000b. p. 1884). Deste modo, iniciando em Marcos o tema da rejeição, sofrimento e morte do Filho do Homem se constitui no eixo central da apresentação evangélica da vida de Jesus (RICHTER REIMER, 2012a, p. 57,58). De modo que a morte do Nazareno nada mais é que o resultado de uma vida toda entregue ao serviço de Deus e dos outros (p. 193). Todavia, Jesus entendia que o juízo pela rejeição de sua missão traria o acerto de contas final pelo assassinato de todos os justos e profetas desde Abel até Zacarias (cf. Lc 11,49-51; 13,34.35). Além disso, de acordo com Schnackenburg (2001, p. 25), toda a história da paixão, conforme apresentada nos Evangelhos (Mc 14-15 e paral.), está construída segundo o modelo do justo sofredor, que deposita sua confiança e obediência em Deus e é amparado e, finalmente, justificado e exaltado por ele.

Provavelmente, foi o próprio Jesus quem primeirio atribuiu a si o papel de ‘ebed Yahweh. É provável que esta consciência de ser o servo sofredor que morreria em prol da salvação de muitos, tenha sido comunicada a Jesus no momento de seu batismo.27 De acordo com Lc 22,37 ele aplicou ao seu sofrimento e morte a passagem de Is 53,12, referente ao Servo sofredor. Cullmann (2001, p. 91,92) acredita que nas palavras da instituição da Ceia (Mc 14,24 e paral.; 1Cor 11,24) e na maior parte dos logia em que fala da necessidade de sua morte, Jesus tem em

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De acordo com a narrativa evangélica, a voz celestial ouvida por Jesus durante o batismo no Jordão (cf. Mc 1,11 e paral.) é uma citação de Is 42,1. No contexto veterotestamentário, estas palavras foram dirigidas ao ‘ebed Yahweh e forma a introdução de todos os cânticos do Servo

mente Is 53. Ao referir-se à sua missão em Mc 10,45 está certamente aludindo a Is 53,5.28

Portanto, como definido por Goppelt (2002, p. 275), a aplicação do termo ‘ebed Yahweh para designar a atividade terrena do Nazareno, demonstra que “o caminho terreno de Jesus foi interpretado por ele mesmo ou pelas testemunhas, desde as mais antigas camadas da tradição sinótica, como o caminho do „profeta‟ […]”.

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