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A história como resultado da vontade de Deus

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1 O JESUS PROFETA NOS EVANGELHOS SINÓTICOS

1.4 A COSMOVISÃO PROFÉTICA EM JESUS

1.4.1 A Filosofia da História

1.4.1.1 A história como resultado da vontade de Deus

Conforme esclarecido por Sicre (1996, p. 413), o profeta tem uma visão estritamente teológica da história. Para ele, a história não é determinada por uma relação de causas e efeitos. Além disso, a história não tem existência independente, como uma entidade autodeterminada. Pelo contrário, todo o percurso histórico está sob o controle de Yahweh e é por Ele dirigido segundo uma finalidade soberana e obrigatória (VON RAD, 1974, p. 103). Deus dirige a história para que esta cumpra os propósitos e finalidades que ele, de antemão, determinou. Deste modo, os acontecimentos históricos não se dão por uma casuística aleatória nem por uma razão impessoal, mas mediante a ação planejada daquele que tem a história, por assim dizer, em suas mãos. Mesmo as grandes potências e seus orgulhosos soberanos em sua teimosia e arrogância, servem como instrumentos do agir soberano do Senhor (cf. Is 7,18-20; 18,4; 10,5.6.15) (EICHRODT, 2004, p. 342; SICRE, 1996, p. 413). Von Rad (1974, p. 173) afirma que uma das mais surpreendentes características do profetismo está em relacionar as agitações da política mundial com a ação de Yahweh. O mesmo autor declara: “a obra de Yahweh preenche todo o campo da história universal” (p. 153). Ele tem o controle absoluto de tudo que acontece no cenário mundial (Is 14,24-27; 45,11-13.18; 48,12-16) (BRIGHT, 1978, p. 481). Todas as potências que se levantaram para dominar, sabendo-o ou não, são apenas instrumentos nas mãos de Yahweh, e no final das contas, embora agindo movidos por seu próprio egoísmo e crueldade, executam Sua vontade (cf. Is 9,7-20; 10,5-12; 14,26.27; 45,1-6; Jr 4,5ss; 25,1-14; 27,4ss; 43,10; Os 5,14; Am 6,14; 9,7; Hc 1,6). Por exemplo, Isaías vê na invasão assíria à Palestina uma ação punitiva de Deus (Is 5,25-29; 7,18-20; 10,5-6.15; 28,1-4). O exílio na Babilônia foi visto pelos profetas do exílio como uma ação de Yahweh (Is 42,24ss; 48,17-19; Jr 1,13-14; 29,4.7). Jeremias vai além e vê Nabucodonosor como eleito por Deus para governar a terra e pede a submissão das nações ao seu domínio (Jr 25,9; 27; 29; 43,10). Porém, sempre que estas nações excediam em suas atribuições e ultrapassavam os limites estabelecidos pelo Senhor, elas mesmas se tornavam objetos do Seu juízo (cf. Is 10,5ss; 13; 14,24-27; 21,1-10; 30,27-33; 47; Jr 50; 51; Na 1-3; Hb 2,6-20; Sf 2,13-15). Para os profetas, a final e definitiva intervenção histórica de Deus para a concretização de seu projeto se dará no evento denominado por eles como o “dia de Yahweh” (REIMER, 2008, p. 814).

De acordo com o segundo Isaías (43,9-10), a prova mais evidente de que Yahweh é o Senhor da história está no fato de que somente Ele pode predizer o futuro. Porém, Deus não tem apenas um conhecimento antecipado do futuro, pelo contrário, é Ele quem traz este futuro à existência. É neste sentido que Ele declara, antecipadamente, que levantará Ciro e lhe entregará as nações, a fim de que sirva de instrumento na restauração de Israel (Is 41,2-4.25ss; 44,24–45,7; 45,1-3.13; 46,8- 11; 48,14; cf. 24,2.25). Portanto, no desenrolar dos eventos internacionais, Ciro é apenas mais um instrumento inconsciente da vontade soberana de Yahweh.

Desta perspectiva, a resposta que o indivíduo desse a Deus poderia levá-lo a alterar o seu próprio destino.35 Talvez, por isso, a pregação profética se reveste sempre de uma feição exortativa e urgente. Porém, o futuro nunca é criado pelo ser humano, pelo contrário, ele o recebe como um dom divino e apenas se compromete com ele (SICRE, 1996, p. 415).

De acordo com a descrição sinótica, Jesus compartilha a visão profética de Deus como Senhor absoluto da história. Uma das mais claras manifestações do entendimento de Jesus acerca da ação histórica de Deus se encontra na chamada oração dominical (Mt 6,9-13 e paral.). Nesta oração modelar, ensinada por Jesus aos discípulos, podemos destacar alguns aspectos importantes acerca da visão histórica de Jesus: Primeiramente, há o reconhecimento da soberania cósmica de Deus – “Pai nosso, que estás nos céus…venha o teu reino; faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu…pois teu é o reino, o poder e a glória para sempre”. Deus é retratado nesta oração como soberanamente entronizado no céu. Ele tem uma vontade (thelēma) que se estende e que, com certeza absoluta, será realizada em todo o universo. Em segundo lugar, Jesus reconhece que é Deus quem supre todas as necessidades humanas, tanto na área física quanto na área espiritual – “o pão nosso de cada dia dá-nos hoje; […] e não nos deixes cair em tentação; mas livra-nos do mal.” Até as necessidades humanas mais básicas, como alimento e vestes, são bondosamente supridas por Deus (Mt 6,25-34 e paral.).

Do ponto de vista de Jesus, Deus está operando um propósito em relação à história humana. Porém, para ele, este propósito divino recebe em sua própria vida e ministério seu pleno cumprimento (MORRIS, 2005, p. 34). É nele e através dele que Deus trará a efeito Seu grande projeto de restauração para a humanidade. Além

35 É neste sentido que podemos compreender as atribuições de “arrependimento” aplicadas ao Senhor (cf. Jr 4,28; 18,8.10; 26,3.13.19; 42,10; Ez 24,14; Jl 2,13.14; Am 7,3.6; Jn 3,9.10; 4,2, etc.).

disso, toda a história passada, presente e futura passa a ser julgada à luz desta obra redentora (CULLMANN, 2003, p. 59). A urgência e importância deste plano na vida e ministério de Jesus é expresso pelo emprego do termo grego dei (“é inevitável”), presente especialmente em Lucas (2,49; 4,43; 9,22; 13,33; 17,25; 22,37; 24,7.26.44). Neste sentido, embora o termo não deva ser visto como “uma necessidade fatalista ou masoquista de Deus” (RICHTER REIMER, 2012a, p. 59), ele serve para expressar a compreensão evangélica de que o caminhar de Jesus se dá dentro de um projeto salvífico que ele entende ser o propósito de Deus. Este caminho apontava “inevitavelmente” (dei) “para o Calvário, para a traição, acusação, condenação e morte” do Nazareno (RICHTER REIMER, 2012a, p. 149). Portanto, para Jesus, há um plano de atividades que Deus deseja seja realizado através de suas ações e palavras. Por isso, exortou seus discípulos a encararem com urgência e prioridade este projeto (Lc 9,60).

Em sua pregação, Jesus enfatiza que este projeto salvífico não é novo e está claramente expresso nas Escrituras veterotestamentárias. Por isso, há ênfase nos Evangelhos Sinóticos de que os atos e palavras de Jesus são o cumprimento de antigas promessas expressas nas Escrituras hebraicas (Mt 26,31.54; Lc 2,49; 4,21; 18,31; 22,37; 24,27.44).

Na pregação de Jesus a soberania de Deus diante de sua criação se manifesta através do “Reino de Deus”. De acordo com a descrição sinótica, Jesus interpretou a história sagrada como constituindo-se de dois períodos, tendo João Batista como marco referencial (Mt 11,11-13; Lc 16,16). Deste ponto de vista, o Reino havia chegado e se fazia presente entre as pessoas. Portanto, a mensagem de Jesus é que, através de sua própria pessoa e ministério, Deus soberanamente invadiu a história humana, triunfou sobre o poder maligno e estabeleceu seu domínio histórico, embora, a plena manifestação desta soberania aguarde uma consumação no final dos tempos (Mt 12,28.29; Lc 17,20) (LADD, 1993, p. 65).

De acordo com o ensino de Jesus, a soberania de Deus sobre a história também pode ser vista na maneira como ele implanta seu Reino. Neste sentido, as parábolas da semente de mostarda, do fermento e da semente que cresce por si mesma, enfatizam o caráter sobrenatural do Reino de Deus. Especialmente a última parábola, salienta que a implantação e crescimento do Reino não são uma realização da vontade e do empenho humano, mas unicamente da vontade e da

ação do próprio Deus.36 É Deus, através de seu representante autorizado, que implanta o Reino, e soberanamente o faz crescer, por meio da operação do seu Espírito. O indivíduo é convidado a participar dele, mas nunca de estabelecê-lo.

Pode-se perceber, entretanto, que Jesus reconhece, não somente nas grandes ações coletivas, mas também nos atos dos indivíduos, a expressão da soberania de Deus. Deste modo, embora esteja ciente da ação universal de Deus na história, Jesus enfatiza mais o propósito divino para o indivíduo. É neste sentido, que reconhece, por por trás da expressão de fé de Simão Pedro em Cesaréia de Filipe, a manifestação da vontade divina (Mt 16,17). Além disso, conforme a descrição sinótica e a percepção das primeiras comunidades cristãs, Jesus viu a sua morte, não como resultante apenas de forças políticas e religiosas, mas como o cumprimento do plano e desígnio de Deus (Lc 22,22; cf. At 2,23).

Portanto, para Jesus, como igualmente para os profetas veterotestamentários, tanto a história individual quanto a coletiva são o resultado da vontade de Deus. Neste sentido, tanto o destino das nações quanto o destino dos indivíduos, no final das contas, são dirigidos para cumprirem o propósito divino, embora, ao agirem, exerçam sua própria liberdade e responsabilidade.

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