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Um elemento essencial no argumento consequencialista é o conceito de consequência, que pode ser entendido melhor se for estudado a partir de seu contraponto: a causa.

Determinar o que é “consequência” de uma ação ou fato requer, antes, examinar o conceito de relação de causalidade, dado que a consequência corresponde ao efeito produzido por uma causa.

É certo que o estudo da relação de causalidade está mais voltado para a noção de causa que a de efeito, de forma que influenciou a própria denominação do princípio da causa eficiente.

David Hume usou o termo “cimento do universo” para demonstrar a importância da causalidade, que está difundinda tanto no meio científico como no discurso cotidiano, quando utilizamos, por exemplo, os seguintes verbos: produzir, provocar, resultar, etc.226

O conceito de causa está associado a outros conceitos importantes para a ciência em geral (inclusive o direito), conforme o trecho a seguir:

O conceito de ação, ou de fazer, envolve a ideia de que o agente (intencionalmente) cauda mudança neste ou naquele objeto, do mesmo modo, o conceito de percepção envolve a ideia de que o objeto percebido causa no observador uma experiência perceptiva apropriada. O conceito físico de força, também parece envolver a causalidade como ingrediente essencial: a força é o agente causal de mudanças no movimento. Além disso, a causalidade está intimamente relacionada com explicação: perguntar pela explicação de um evento é, muitas vezes, perguntar pela sua causa... finalmente, os conceitos causais exercem papel decisivo no raciocínio moral e legal, por exemplo, na avaliação de responsabilidades e obrigações.227

Uma primeira classificação descreve a causalidade do evento e a causalidade do agente. Esta põe em foco o ato de um agente que produz qualquer mudança; aquela trata de forma mais objetiva e impessoal a cadeia causal, pois será formada por eventos (fatos, acontecimentos ou estados) ligados entre si, podendo-se, inclusive, reduzir a causalidade do agente a uma causalidade de evento.228

Há quatro tipos de abordagens para analisar a causação de um evento:

226 CAUSALIDADE. In: AUDI, Robert. Dicionário de filosofia de Crambridge. Tradução Edwino Aloysius Royer et al. São Paulo: Paulus, 2006. p. 123-126.

227 CAUSALIDADE. In: AUDI, Robert, loc. cit. 228 CAUSALIDADE. In: AUDI, Robert, loc. cit.

a) Análise de regularidade – busca entre os eventos uma regularidade geral, que consiste em uma conjunção constante de eventos relacionados, podendo ser definida através de uma lei de cobertura ou inclusiva (necessidade nomológica);

b) Análise contrafactual – defende que se o evento-causa não tivesse ocorrido, o evento-efeito também não ocorreria, considerando, então, a causa como

condicio sine qua non para a produção do efeito;

c) Análise de manipulação – põe em destaque a ação como causa para ocorrência de eventos, ressaltando a importância do conhecimento das conexões causais para a manipulação da natureza;

d) Análise probabilística – de acordo com esta espécie de análise, “pode-se dizer que um evento, X, é causa probabilística de um evento Y, contato que a probabilidade da ocorrência de Y, dado que X tenha ocorrido, é maior que a probabilidade anterior de Y.”229

Há menção a outras classificações de causas, além das já descritas, que possuem utilidade: a sobredeterminação causal ocorre quando há duas causas independentes, e, por si só, suficientes para a produção do efeito; causa peremptiva ou superveniente é uma causa que vem após outra, causando, o efeito; causa sustentante é aquela utilizada par conservar algo da forma como está (causa de não-mudança); causalidade retroativa é o caso de uma causa que vem depois (temporalmente) do efeito; causalidade concorrente acontece quando a causa e o efeito existem simultaneamente; e a causalidade contígua: quando o efeito vem posteriormente à causa, no tempo e no espaço.230

A palavra causa possuía no grego um sentido originariamente jurídico, significando “acusação ou imputação”, mas, com o passar do tempo, foi adquirindo a noção de “algo que passa a ser algo”, sob determinada lei ou princípio que regeria esta mudança.231

Platão faz a distinção entre causas primeiras e causas secundárias. As causas primeiras seriam as ideias, tidas por causas exemplares, que atuam não pela

229 CAUSALIDADE. In: AUDI, Robert. Dicionário de filosofia de Crambridge. Tradução Edwino Aloysius Royer et al. São Paulo: Paulus, 2006. p. 123-126.

230 CAUSALIDADE. In: AUDI, Robert, loc. cit.

231 CAUSA. In: MORA, J. Ferrater. Dicionário de filosofia. Tradução Maria Stela Gonçalves, Adail U. Sobral, Marcos Bagno e Nicolás Nyimi Campanário. 2 .ed. São Paulo: Loyola, 2005. p. 423-432. v.1.

ação, mas pela perfeição; as causas segundas seriam as causas materiais propriamente ditas, que atuam por meio da ação.232

A doutrina de Aristóteles aprofundou a noção de causa, classificando-a em quatro tipos:

a) Causa eficiente – é o princípio da mudança; b) Causa material – é a matéria de que algo surge; c) Causa formal – é a ideia ou paradigma;

d) Causa final – é aquilo para o qual a coisa tende a ser.233

No seguinte trecho da Metafísica de Aristóteles, o autor oferece alguns exemplos ilustrativos de sua classificação:

Causa, num sentido, significa a matéria de que são ditas as coisas: por exemplo, o bronze da estátua, a prata da taça e seus respectivos gêneros. Em outro sentido, causa significa a forma e o modelo, ou seja, a noção da essência e seus gêneros; por exemplo, na oitava, o número. E <causa neste sentido> são também as partes que entram na noção da essência.

Ademais, causa significa o princípio primeiro da mudança ou do repouso; por exemplo, quem tomou uma decisão é causa, o pai é causa do filho e, em geral, quem faz é a causa do que é feito e o que é capaz de produzir mudança é causa do que sofre mudança.

Além disso, a causa significa o fim, quer dizer, o propósito da coisa: por exemplo, o propósito de caminhar é a saúde. De fato, por que motivo se caminha? Respondemos: para ser saudável. E dizendo isso consideramos ter dado a causa do caminhar. E o mesmo vale para todas as coisas que são movidas por outro e são intermediárias entre o motor e o fim; por exemplo, o emagrecimento, a purgação, os remédios, os instrumentos médicos são todos causas da saúde. Com efeito, todos estão em função do fim e diferem entre si enquanto alguns são instrumentos e outros ações.234

Nesse sentido, pode-se dizer que os antigos gregos sustentavam basicamente dois princípios: o princípio da razão suficiente, que afirma que tudo tem uma causa (causa efficiens); e o princípio de que todo movimento (mudança) ocorre a partir de algo (omnia quod movetur ab alia movetur).235 Os racionalistas acrescentam o princípio de que toda causa é igual ao efeito (causa aequar

effectum), significando que o efeito deve estar incluído na causa.236

São Tomás segue a classificação aristotélica dos quatro tipos de causas (causa per modum materiae; causa formalis; causa movens, vel efficiens; causa

finis), acrescentando a diferença entre princípio e causa: princípio é aquilo de onde

232 CAUSA. In: MORA, J. Ferrater. Dicionário de filosofia. Tradução Maria Stela Gonçalves, Adail U. Sobral, Marcos Bagno e Nicolás Nyimi Campanário. 2 .ed. São Paulo: Loyola, 2005. p. 423-432. v.1. 233 CAUSA. In: MORA, J. Ferrater, loc. cit.

234 ARISTÓTELES. Metafísica. Tradução Marcelo Perine. São Paulo: Loyola, 2002, p.191. v.2. 235 CAUSA. In: MORA, J. Ferrater, op.cit., p. 423-432.

algo procede de um modo qualquer, segundo o intelecto; causa é aquilo de onde procede algo de um modo específico, segundo a coisa ou realidade.237

Hume, posteriormente, questionará que haja alguma ligação ontológica e necessária entre a causa e o efeito, pois quando observamos a sucessão entre dia e noite, e predizemos que amanhã ocorrerá da mesma forma, formando uma regularidade geral, na verdade, isso não passa de mero hábito ao qual o pensamento está acostumado, não havendo necessidade entre fatos, dado que são contingentes, exceto se a relação for entre ideias, onde é possível uma relação necessária.238

Kant concorda com Hume na sentido de que a causalidade não existe no mundo real, entretanto, ela situa a causa entre as categorias do entendimento (na subjetividade), permitindo, assim, a universalização e necessidade das leis científicas, como se pode notar da seguinte passagem, quando trata das analogias da experiência:239

Schelling defende que o problema da causa e da liberdade estão relacionados.240 De fato, se concebermos o mundo por um prisma unicamente determinista, considerando que entre fatos humanos há uma relação de causalidade necessária, não haverá espaço para a liberdade dos atos humanos.

Mário Bunge distingue três significados para a causalidade: a) Causação – refere-se à relação causal e tipos de nexo causal.

b) O princípio causal – relaciona-se com um enunciado da lei causal do tipo “as mesmas produzem os mesmos efeitos”.

c) Determinismo causal – é a causalidade propriamente dita, no sentido de uma validade universal do princípio causal do tipo “tudo tem uma causa”.241

Bunge acrescenta , ainda, que a noção de determinação é mais ampla que a de causalidade, porque a causação não é a única relação que expressa mudança e

237 CAUSA. In: MORA, J. Ferrater. Dicionário de filosofia. Tradução Maria Stela Gonçalves, Adail U. Sobral, Marcos Bagno e Nicolás Nyimi Campanário. 2 .ed. São Paulo: Loyola, 2005. p. 423-432. v.1. 238 CAUSA. In: MORA, J. Ferrater, loc. cit.

239 CAUSA. In: MORA, J. Ferrater, loc. cit. 240 CAUSA. In: MORA, J. Ferrater, loc. cit.

241 CAUSA. In: BUNGE, Mario (1971) apud MORA, J. Ferrater. Dicionário de filosofia. Tradução Maria Stela Gonçalves, Adail U. Sobral, Marcos Bagno e Nicolás Nyimi Campanário. 2 .ed. São Paulo: Loyola, 2005. p. 423-432. v.1.

novidade, dados que a determinação pode ser causal e não causal, tal como a determinação estatística, estrutural, teleológica e a dialética.242

Leibniz é um representante da metafísica tradicional, defendendo a existência de verdades necessárias e de uma relação necessária entre causa e efeito, como se deduz da seguinte passagem:

Nossos raciocínios estão fundados em dois grandes princípios, o da

contradição, em virtude do qual julgamos que é falso o que ele implica, e verdadeiro o que é oposto ou contraditório ao falso. Teodicéia, §§ 44 e 169.

E o de razão suficiente, em virtude do qual consideramos que nenhum fato pode ser verdadeiro ou existente, sem que haja uma razão suficiente para que seja assim e não de outro modo, ainda que com muita frequência estas razões não possam ser conhecidas por nós. Teodicéia, §§ 44 e 169.

Há dois tipos de verdades, as de raciocínio e as de fato. As verdades de razão são necessárias e seu oposto é impossível; e as de fato são contingentes e seu oposto é possível. Quando uma verdade é necessária pode-se encontrar sua razão pela análise, resolvendo-a em ideias e em verdades mais simples até se chegar às primitivas. Teodicéia, §§ 170, 174, 189,0280-202, 367; Resumo, 3ª Objeção.243

Hume, entretanto, questiona o postulado da metafísica tradicional, afirmando que não há uma relação de necessidade entre causa e efeito, como se percebe na seguinte passagem:

Parece então que essa idéia de uma conexão necessária entre acontecimentos surge de uma multiplicidade de casos assemelhados de ocorrência desses acontecimentos em constante conjunção, e essa idéia nunca poderia ter sido sugerida por nenhum desses casos em particular, ainda que examinado sob todos os possíveis ângulos e perspectivas. Mas não há, numa multiplicidade de casos, nada que difira de cada um dos casos individuais, os quais se supõe serem exatamente semelhantes, a não ser que após uma repetição de casos semelhantes, a mente é levada pelo hábito, quando um dos acontecimentos tem lugar, a esperar seu acompanhante habitual e a acreditar que ele existirá. Essa conexão, portanto, que nós sentimos na mente, essa transição habitual da imaginação que passa de um objeto para seu acompanhante usual, é o sentimento ou impressão a partir da qual formamos a ideia de poder ou conexão necessária. Nada mais está presente na situação. Examine-se o assunto sob todos os ângulos; não se poderá descobrir qualquer outra origem para aquela ideia. Essa é a única diferença entre um caso único, do qual nunca se obtém a ideia de conexão, e uma multiplicidade de casos assemelhados, pelos quais essa ideia é sugerida. Na primeira vez que um homem viu a comunicação de movimento por impulso, como no choque de duas bolas de bilhar, ele não poderia declarar que um acontecimento estava

conectado ao outro, apenas que estava conjugado. Depois de observar

diversos casos dessa natureza, ele então os declara conectados. Que alteração ocorreu para dar origem a essa nova ideia de conexão? Nada, senão o fato de que ele agora sente que esses acontecimentos estão

242 CAUSA. In: BUNGE, Mario (1971) apud MORA, J. Ferrater. Dicionário de filosofia. Tradução Maria Stela Gonçalves, Adail U. Sobral, Marcos Bagno e Nicolás Nyimi Campanário. 2 .ed. São Paulo: Loyola, 2005. p. 423-432. v.1

243 LEIBNIZ, G.W. Discurso de metafísica e outros textos. Tradução Tessa Moura Lacerda. São Paulo: Martins Fontes, 2004. p.136-137.

conectados em sua imaginação, e pode prontamente prever a existência de

um a partir do aparecimento de outro.244

Na norma jurídica, a relação entre o descumprimento do comando e a sanção é uma relação de imputação, não se podendo dizer que é necessária, em razão da possibilidade da revogação da lei que contém a norma. Em relação aos fatos da natureza, Kant afirmou que a causalidade não está inserida na própria realidade, mas é uma categoria do entendimento. Quanto aos fatos humanos, percebe-se um enfraquecimento enorme no elo de causalidade que ligaria esses fatos. Imagine o argumento do Fisco no sentido de que determinada decisão judicial teria por consequência a “quebra de erário” ou produziria um efeito multiplicador de ações de contribuintes. São consequências possíveis ou, no máximo, prováveis, mas não restam dúvidas de que são contingentes.

A questão é que, muitas vezes, há mera correlação entre fatos e não causalidade, como adverte Walton: “Nos argumentos que vão da correlação à causalidade, o principal problema é que, às vezes, a correlação se deve apenas a uma coincidência ou a uma relação que não é a causal.” 245

Sobre essa falsa argumentação sustentada com base na causalidade, Taleb nos adverte:

Nós gostamos de histórias, gostamos de resumir e gostamos de simplificar, ou seja, de deduzir a dimensão das questões. O primeiro dos problemas da natureza humana que examinamos nesta seção, o que acabamos de ilustrar anteriormente, é o que chamo de falácia narrativa. (na verdade, é uma fraude, mas para ser mais educado irei chama-la de falácia.) A falácia está associada à uma vulnerabilidade em relação à interpretação excessiva e à nossa predileção por histórias compactas sobre verdades cruas. Ela distorce gravemente nossa representação mental do mundo, e é particularmente aguda quando se trata de evento raro.

A falácia narrativa aborda nossa capacidade limitada de olhar para sequencias de fatos sem costurar uma explicação nelas, ou equivalentemente, forçar uma ligação lógica, uma flecha de relacionamento, sobre elas, explicações unem fatos. E tornam os fatos mais fáceis de se lembrar; e os ajudam a fazer mais sentido. Essa propensão pode dar errado quando aumenta nossa impressão de entendimento.246

244 HUME, David. Investigação sobre entendimento humano e sobre os princípios da moral. Tradução José Oscar de Almeida Marques. São Paulo: Unesp, 2004. p. 113-114.

245 WALTON, Douglas N. Lógica informal: manual de argumentação crítica. Tradução Ana Lúcia R. Franco, Carlos A. L. Salum. São Paulo: Martins Fontes, 2006. p.333.

246 TALEB, Nassim Nicholas. A lógica do cisne negro: o impacto do altamente improvável. Tradução Marcelo Schild. 4.ed. Rio de Janeiro: Best Seller, 2010. p. 100-101.

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