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António Nóvoa18, historiador da Educação e reitor da Universidade de Lisboa, é atualmente considerado um dos intelectuais de maior circulação internacional no debate pedagógico. Ele pertence a uma geração que concentra atenções em aspectos intraescolares, como currículos e competências, formação inicial e continuada, processos de aprendizagem e capacitação de professores

Em seu artigo “Firmar a posição como professor, afirmar a profissão como docente”, Antônio Nóvoa (2017) nos faz pensar sobre a Importância da profissionalização do professor. O autor argumenta que há uma constante desprofissionalização e até uma desmoralização do professor. O que se aprende nas universidades, nas licenciaturas, estão distantes das realidades dentro da sala de aula. Quando o profissional formado assume a condição de professor, este chega a fácil conclusão de que é tudo muito diferente do que considerou na universidade (NÓVOA, 2017, p. 1108).

18 FERRARI, Márcio. António Nóvoa, o garimpador de vida. Nova Escola, 2008. Disponível em:

<https://novaescola.org.br/conteudo/1666/antonio-novoa-o-garimpador-de-historias-de-vida>.

Acesso em: 15 Jun 2021.

A pergunta que Nóvoa nos apresenta é “Como recuperar essa formação para que o licenciado exerça na sala de aula exatamente o que aprendeu”?

Nóvoa (2017, p. 1109) compara a necessidade de uma afirmação profissional como a mesma necessidade de um médico ou um engenheiro. O que se aprende na formação é justamente o que se precisa para exercer a profissão, mas essa realidade entre a formação do professor e a profissão de professor estão distanciadas.

Antes de responder, Nóvoa questiona o como essa desvalorização se dá, o que ele chama de desprofissionalização. Ele cita salários baixos, condições inadequadas de trabalho, intensificação do trabalho por meio de burocracias de controle, funções docentes atribuídas à profissionais experientes em suas áreas, mas sem uma formação docente específica. O que essas questões todas em comum possuem, é a crítica às universidades e a irrelevância da sua formação.

Para Nóvoa, há uma conspiração para desmantelar a formação do professor e, dentre as visões sobre o processo de deformação do professor, ele disserta sobre reconhecer a necessidade de mudança e de transformação, e afirma a necessidade do contínuo papel das instituições na formação do professor. Nóvoa conclui que:

Precisamos repensar, com coragem e ousadia, as nossas instituições e as nossas práticas. Se não o fizermos, estaremos a reforçar, nem que seja por inércia, tendências nefastas de desregulação e privatização. A formação dos professores é um problema político, e não apenas técnico ou institucional (NÓVOA, 2017, p. 1111).

Para mudar é preciso uma formação profissional dos professores e o primeiro passo é reconhecer que a formação dos professores tem um problema. À esse problema, respondemos que ela deve ter como matriz a formação para uma profissão.

Nóvoa (2017, p. 1111-1112) considera que a profissão do professor é descaracterizada como profissão diante de questões cotidianas, como se definir a profissão não como a renda principal, mas uma profissão-extra, o que significa dizer

não é a profissão principal, é só algo que faço pra ganhar um dinheiro extra”, outras

situações como dizer “educador” ou “pedagogo” para não usar o termo professor, como se “ser professor” fosse menos importante, por fim, Nóvoa nos lembra que até mesmo dentro das universidades a própria profissão é tratada com descaso, quando os professores insistem em desqualificar a profissão e passa a orientar os alunos a procurarem outra opção de ganhar a vida. Entendemos que há uma desapropriação etimológica do próprio substantivo, que já não significa a importância do seu próprio significado de outrora.

Diante dessa mesma desconstrução de significado, está a escola pública, geralmente vista como a escola problemática, de ambiente nocivo, porém Nóvoa nos lembra que elas:

[...] desempenham um papel muito importante não só na formação dos professores, mas também no desenvolvimento de meios e métodos de ensino, na produção de materiais didáticos e na inovação pedagógica, no lançamento de iniciativas de aperfeiçoamento do professorado, no associativismo docente, nas publicações sobre educação e ensino (livros e jornais) e no apoio às políticas públicas. As escolas normais consagraram processos de mobilidade social e afirmação do papel das mulheres, tendo sido fundamental para construir o modelo escolar, para consolidar a escola pública e para produzir a profissão de professor (NÓVOA, 2017, p. 1112-1113).

É preciso construir modelos que valorizem a preparação, o ingresso e o desenvolvimento do profissional docente.

Dentre os modelos que valorizam a formação docente está a formação continuada, independente da formação inicial, pois é importante continuar a aprender, a se desenvolver, a se questionar, a pesquisar e produzir academicamente, na tentativa de aproximar a formação acadêmica do exercício profissional, “a inovação, a partilha enquanto vamos nos formando com a colaboração dos colegas” (NÓVOA, 2017, p. 1113).

Refletir sobre a necessidade de uma formação continuada, nos remete às palavras quase poéticas de Paulo Freire que conclui que a necessidade contínua de se questionar e aprender nos revela mais humanos, ele diz que:

Aqui chegamos ao ponto de que talvez devêssemos ter partido. O do inacabamento do ser humano. Na verdade, o inacabamento do ser ou sua inconclusão é próprio da experiência vital. Onde há vida, há

inacabamento. Mas só entre mulheres e homens o inacabamento se tornou consciente (FREIRE, 2013, p. 50).

Outro modelo que ajuda na valorização da formação docente é olhar para outras profissões como fonte de inspiração, e uma terceira forma é definir a especificidade da formação docente.

Nesse terceiro momento, Nóvoa nos lembra Lee Shulman19, quando este define os contornos da pedagogia própria de cada profissão, lembrando que segundo Shulman:

[...] há sempre uma síntese de três aprendizagens: uma aprendizagem cognitiva, na qual se aprende a pensar como um profissional; uma aprendizagem prática, na qual se aprende a agir como profissional; e uma aprendizagem moral, na qual se aprende a pensar e a agir de maneira responsável e ética (SHULMAN in NÓVOA, 2017, p. 1114).

A formação profissional do professor necessita de um novo local institucional que sincretize o ambiente acadêmico com as várias realidades da docência e as realidades externas. Um ambiente de aprendizado estimulado por forte influência profissional, baseado no conhecimento, equilibrando seus valores teóricos disciplinares, ciência da educação enquanto se experimenta prática e pesquisa.

Outro processo que acompanha o desenvolvimento do professor é a convergência, pois os conhecimentos de cada disciplina são distintos, não menores, maiores, melhores ou menos importantes, mas são diferentes, e na convergência há uma integração desses saberes, e esse desenvolvimento acontece de forma colaborativa.

Além de um lugar institucional, aplicado no trabalho formador, há ainda um lugar de encontro, de fusão podemos dizer, onde universidades e professores possam dialogar e trocar experiências. Essa proximidade entre o profissional e o formador traz dignidade para todos no processo, Nóvoa afirma que:

Sem isso, não há verdadeira cooperação ou participação, mas apenas paternalismo ou autoridade dos universitários sobre os professores. É

19 SHULMAN, Lee S. Signature Pedagogies in the Professions. Daedalus, vol. 134, no. 3, The MIT Press, 2005, pp. 5259. Disponível em: <http://www.jstor.org/stable/20027998>. Acesso em: 12 Jun 2021.

fundamental que haja mobilidade entre as universidades e as escolas. É preciso que todos tenham um estatuto formador, universitários e professores da educação básica (NÓVOA, 2017, 1117).

Parece haver uma tensão velada entre os universitários e os profissionais da educação, aqueles que formam e aqueles que ensinam, e apenas com igualdade de tratamento é possível ter um lugar de encontro entre esses dois mundos, formando uma comunidade docente de formação e aprendizagem.

A formação do professor sempre se dá num lugar, numa sala de aula, num ambiente de discussão e esclarecimento, para Nóvoa (2017, p.1115-1117) esse ambiente precisa ser renovado, recriado ou talvez construído, pois ele define esse lugar de uma casa comum, um lugar onde a teoria dos universitários se encontre com a prática dos professores, assim como um médico antes de se formar experimenta uma intersecção social com os pacientes, tendo contato, tendo relacionamento.

Este lugar tem de juntar pessoas comprometidas tanto com o trabalho universitário como com o futuro da profissão docente. Há uma pergunta central que deve orientar este lugar: como acolher os estudantes das licenciaturas e torná-los professores, capazes de interagirem na profissão e contribuírem para a sua renovação? (NÓVOA, 2017, p. 1115).

Nóvoa sugere quatro características deste novo lugar, que resumidamente são:

• um lugar híbrido onde se encontram profissionais atuantes na educação e universitários formadores da educação;

Figura 1 – Modelo lugar híbrido

Fonte: acervo do autor.

• um lugar de entrelaçamento onde há igualdade e respeito, pois esses dois grupos se distinguem, porém ambientalizam uma prática comum.

Neste local de entrelaçamento a formação passa por três estágios que promovem um ciclo contínuo da formação, onde cada etapa alimenta a etapa seguinte;

Figura 2 – Lugar de entrelaçamento

Fonte: acervo do autor.

• um lugar de encontro que é construído entre as partes e não no lugar de um ou lugar do outro, mas um terceiro lugar, distinto que “obriga a dar igual dignidade a todos intervenientes no processo de formação” (NÓVOA, 2017, p. 1117); que:

sejam comunidades de aprendizagem e de formação e não meras reproduções de uma teoria vazia, que tantas vezes marca o pensamento universitário, ou de uma “prática vazia”, infelizmente tão presente nas escolas (NÓVOA, 2017, p. 1117);

Figura 3 – Terceiro lugar

Fonte: acervo do autor.

• e por fim, um lugar de ação pública, onde se insere uma terceira persona à equação, a sociedade, onde é possível conhecer sua realidade, sua cultura, seus valores, sua linguagem e diversas formas de comunicação.

Figura 4 – Lugar de ação pública

Fonte: acervo do autor.

Nóvoa estabelece a necessidade dialógica entre esses três grupos, profissionais, universitários e sociedade, onde há um conjunto de perguntas que emergem da relação entre elas, as quais podem ser respondidas no terceiro lugar, onde há o entrelaçamento entre o teórico prático, ciência da educação e o trabalho nas escolas, mas para tudo isso seja possível, este lugar precisa ser híbrido.

Nóvoa constrói sua hipótese dentro do conceito de posição que, segundo ele

“contém grandes possibilidades para compreender o processo como cada um se torna profissional e como a própria profissão se organiza interna e externamente” (NÓVOA, 2017, p. 1119), que se aplica a qualquer tipo de formação, e ele aponta como princípios o conhecimento científico e cultural e as bases sociais. Sendo assim, e com essas bases, aponta-se a formação dentro de cinco posições:

Figura 5 – Cinco entradas a partir do conceito e posição

Fonte: acervo do autor.

Disposição pessoal - Como aprender a ser professor?

Para se saber que alguém escolhe de fato a profissão de professor é preciso conhecer as motivações para essa escolha, ela não deveria surgir de uma segunda escolha, ou de forma casual. Ou seja, o professor profissional deve estar impregnado de vontade e disposição, afinal, deve lidar com a ciência, o ethos profissional que enquanto ser moral se dispõe a resolver e a ajudar e por fim, o enfrentamento na profissão acontece num ambiente de incerteza e imprevisibilidade. Para tal função, é preciso mais do que conhecimento, mas uma específica vocação.

Interposição profissional – Como aprender a ser professor?

Não é possível formar um professor sem viver entre professores e não estar presente na vida da comunidade escolar. O trabalho universitário é insubstituível, mas é preciso complementá-lo com o trabalho dentro das escolas, pois o professor evolui de uma matriz individual para uma coletiva. De forma geral, as instituições formadoras inserem em seus programas o intercâmbio entre a universidade e a escola por meio de estágios, mas infelizmente, são períodos pouco observados ou até mesmo negligenciados.

Composição pedagógica - Como aprender a agir como um professor?

Cada profissional é diferente do outro, e se constituem de maneira diferente.

Após a formação esse profissional continua se formando, às exigências e problematizações de aquisição do conhecimento vão se modificando, e o professor ampliando seus saberes. O conhecimento pedagógico se distingue do conhecimento profissional docente.

É importante destacar que para concluir a ideia de composição pedagógica, Nóvoa (2017, p. 1126) divide o conhecimento pedagógico em três grupos de disciplinas: i) as de raiz psicológica; ii) as relacionadas com os contextos sociais;

iii) e as metodologias e as didáticas. E nas categorias que distinguem o conhecimento pedagógico, as metodologias e as didáticas, são importantes nesse processo de composição pedagógica, pois além de ser o elo entre as duas anteriores e sem as quais elas não se subsistem, essa categoria, se atrela ao

discernimento, afinal, o pressor tem que lidar com o conhecimento em situações de relação humana.

Recomposição investigativa – Como aprender a conhecer como professor?

Para uma recomposição o professor precisa conhecer a realidade escolares e do trabalho docente, uma autorreflexão do seu ambiente e da sua atuação docente. O trabalho do professor carece desse interesse em pesquisas que podem induzir até há uma melhor prática pedagógica, para que haja registro e constantes publicações sobre cada assunto investigado, Nóvoa assevera que:

Uma profissão precisa registrar seu patrimônio, o seu arquivo de casos, as suas reflexões, pois só assim poderá ir acumulando conhecimento e renovando as práticas. É uma questão decisiva que deve estar presente desde o início da formação dos professores (NÓVOA, 2017, p. 1133).

Exposição pública – Como aprender a intervir como professor?

Diante das constantes mudanças na educação, nos distanciamos cada vez mais da realidade do século XIX e sua formação, as iniciativas para novas oportunidades educativas são constantes, principalmente na questão digital que promoverá um constante estreitamento entre a comunidade escolar e a sociedade facilitando as mudanças dentro da escola.

No contexto comunitário entendemos que o ambiente escolar é, apesar das nossas identidades próprias, um espaço comum, lugar de reflexão, de discussão e de decisão. Fazer parte dessa comunidade comum, traz consigo responsabilidade, momento em que a profissão do professor incluir tomar posição pública diante dos grandes temas da educação e então participar e intervir ativamente na construção das políticas públicas de educação.

Nóvoa (2017, p. 1130-1131) conclui que defende a necessidade de pensar a formação do professor como uma formação profissional universitária, a partir do conceito de posição e sugere cinco dimensões que precisam de atenção na formação desse profissional. Acrescenta que não pode haver formação de professor, se a profissão estiver fragilizada, ou se estiver desvalorizada e reduzida ao domínio de disciplinas e técnicas pedagógicas, são essas duas faces da mesma

moeda, pois “a formação dos professores depende da profissão docente. E vice-versa” (NÓVOA, 2017, p. 1131).