CAPÍTULO II – EVOLUÇÃO DOS DIREITOS DOS POVOS INDÍGENAS NO
4. História constitucional brasileira dos direitos dos povos indígenas: Da
4.6. A Constituição de 1967 e Emenda nº 1 de 1969
Após a vitória, o movimento revolucionário de 1964 pretendeu instituir
novo texto constitucional, editando, para tanto, sob a chancela de C
ASTELOB
RANCO,
o Ato Institucional nº 4, de 7 dezembro de 1966
244.
A nova Constituição foi promulgada em 24 de janeiro de 1967, entrando em
vigor somente em março desse ano.
Conforme J
OSÉA
FONSO DAS
ILVA, o que marca a Constituição de 1967 é a
preocupação com a segurança nacional.
245Com relação aos direitos indígenas, a Constituição de 1967 manifesta ainda
a política integracionista, conforme se vê no artigo 8º, inciso XVII, alínea “o”:
“Compete à União: XVII – legislar sobre: o) nacionalidade, cidadania e
naturalização; incorporação dos silvícolas à comunhão nacional.”
Diferencia-se, contudo, das constituições anteriores, no atinente ao direito à
terra, ao atribuir o domínio das terras ocupadas pelos indígenas para a União, nos
termos do artigo 4º, inciso IV: “incluem-se entre os bens da União as terras ocupadas
pelos silvícolas.”
Para A
URÉLIOW
ANDERB
ASTOS, essa inserção significou uma inversão
completa, pois a inclusão das terras ocupadas pelos silvícolas entre os bens da União
transforma a posse exercida, uma vez que já não se trata de posse sobre terras
devolutas, mas de posse de territórios da União.
246244 As principais justificativas para a necessidade de uma nova Carta constaram no AI-4: “a
Constituição federal de 1946, além de haver recebido numerosas emendas, já não atende às exigências nacionais; que se tornou imperioso dar ao País uma Constituição que, além de uniforme e harmônica, represente a institucionalização dos ideais e princípios da Revolução; somente uma nova Constituição poderá assegurar a continuidade da obra revolucionária.” ATO INSTITUCIONAL Nº 4. H. Castello Branco. Brasília, 7 de dezembro de 1966.
245
Curso... cit., p. 89.
246
A partir desse entendimento, pode-se deduzir que, em não havendo previsão
constitucional que assegure a posse das terras aos indígenas, a União poderia
requerê-las, já que proprietária; do mesmo modo, não havendo limitação
constitucional, a União poderia aliená-las.
A Constituição de 1967 reconheceu aos indígenas a posse e o usufruto
exclusivo no artigo 186: “É assegurada aos silvícolas a posse permanente das terras
que habitam e reconhecido o seu direito ao usufruto exclusivo dos recursos naturais e
de todas as utilidades nelas existentes.”
J. C
RETELLAJ
R., em posição que nos parece isolada, entende que essa
disposição diferencia-se das constituições anteriores que previam (exigiam) a
“permanência indígena”
247– Constituição de 1946 (art. 216): “terras onde se achem
permanentemente localizados –, pois inverte a situação, já que assegura aos silvícolas
a posse permanente das terras que habitam, ou seja, os silvícolas que habitarem terras
durante algum tempo – dias, meses – terão a posse dessas terras assegurada”.
Não nos parece ter sido essa a vontade do constituinte. Se o foi, passou
despercebida pelo aplicador, pois mesmo com sua repetição na posterior
“Constituição de 1969”, a prova da permanência persiste como um dos pontos mais
controvertidos e dificultosos no reconhecimento de terras.
Cumpre registrar que entre a Constituição de 1967 e a Emenda
Constitucional nº 1 de 1969, sob o governo do Presidente Costa e Silva, substituindo
o SPI foi criada, pela Lei nº 5.371, de 5 dezembro de 1967, a F
UNDAÇÃON
ACIONALDO
Í
NDIO– DIO AL
Pois bem, em 17 de outubro de 1969, sobreveio a Emenda Constitucional nº
1 que, para alguns, consistiu em nova Constituição
248.
Apesar de ter sido ato ditatorial e pretensioso, a Emenda manteve os artigos
4º e 8º da Constituição de 1967, e também o artigo 186, acrescendo neste elementos
de garantia para os índios, consoante se vê no artigo 198: “As terras habitadas pelos
silvícolas são inalienáveis nos têrmos que a lei federal determinar, a êles cabendo a
sua posse permanente e ficando reconhecido o seu direito ao usufruto exclusivo das
riquezas naturais e de tôdas as utilidades nelas existentes.”
O acréscimo, tido como benéfico aos indígenas por juristas como D
ALMO DEA
BREUD
ALLARI249,
não
obstante
a
possibilidade
de
regulamentação
247
Op. cit., p. 4.563.
248
infraconstitucional, concentra-se na inserção da inalienabilidade
250. Lembre-se que
essa limitação era prevista nas constituições de 1934, 1937 e 1946 – esta última sob
a rubrica de não transferência –, mas que restou ausente na Constituição de 1967.
Além da inalienabilidade, merecem também referência as inovações
resultantes da inserção dos parágrafos 1º e 2º no artigo 198, in verbis:
“§ 1º Ficam declaradas a nulidade e a extinção dos efeitos jurídicos de qualquer natureza que tenham por objeto o domínio, a posse ou a ocupação de terras habitadas pelos silvícolas;
§ 2º A nulidade e extinção de que trata o parágrafo anterior não dão aos ocupantes direito a qualquer ação ou indenização contra a União e a Fundação Nacional do Índio.”251
A respeito desses aditamentos, M
ANOELG
ONÇALVESF
ERREIRAF
ILHOleciona que a nulidade prevista no § 1º visava a resguardar melhor os interesses dos
indígenas, e que o § 2º previu uma exceção à indenização, pois a extinção
determinada no § 1º causaria prejuízos aos particulares, que não poderiam pleitear a
reparação em face da União e da Fundação Nacional do Índio, advertindo, todavia,
que “eventual indenização devida por particular não é excluída pelo preceito
constitucional.”
252No período que antecede a promulgação da Constituição de 1988, os
indígenas galgaram importantes conquistas em termos de leis infraconstitucionais,
destacando-se o Estatuto do Índio, a Lei nº 6.001, de 19 de dezembro de 1973, que
regula “a situação jurídica dos índios ou silvícolas e das comunidades indígenas, com
o propósito de preservar a sua cultura e integrá-los, progressiva e harmoniosamente,
à comunhão nacional”
253. Todavia, o fortalecimento das querelas indígenas somente
ecoou na Constituição de 1988.
249
Reconhecimento e proteção dos direitos dos índios. In: Revista Informação Legislativa, ano 28, n. 111, jul./set. 1991, p. 316.
250 Para Aurélio Wander Bastos, a inalienabilidade é uma proibição destinada à União e não aos
indígenas. Op. cit., p. 91.
251
Helder Girão Barreto assevera que a “Constituição” de 1969” “inovou significativamente em dois pontos: declarou nulos e extintos os efeitos jurídicos de qualquer natureza que tenham por objeto o domínio, a posse ou a ocupação de terras habitadas pelos silvícolas(§ 1.º); e, negou aos ocupantes prejudicados direito a qualquer ação ou indenização contra a União e a Fundação Nacional do Índio(§ 2.º).” Direitos indígenas: Vetores constitucionais. Curitiba: Juruá, 2003, p. 98.
252 Comentários à Constituição brasileira. Emenda Constitucional nº 1 , de 17-10-1969. 3. ed. São
Paulo: Saraiva, 1983, p. 732.
253 Em 1978 foi apresentado ao presidente ministro Rangel Reis o “Projeto de Emancipação”
pugnando por mudanças no Estatuto do Índio (1973), projeto que foi arquivado após pressão dos movimentos indígenas e sociedade civil, inclusive houve mobilização internacional, sob o argumento de que as mudanças pretendidas em verdade não queriam modificar os artigos racistas e anti-índios
do documento, mas alterar os poucos pontos do Estatuto que representam conquistas para os povos indígenas. SOUSA, Márcio et al. Os índios vão à luta. Rio de Janeiro: Marco Zero, 1981, p. 20.