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A Constituição de 1967 e Emenda nº 1 de 1969

No documento MESTRADO EM DIREITO São Paulo 2009 (páginas 99-102)

CAPÍTULO II – EVOLUÇÃO DOS DIREITOS DOS POVOS INDÍGENAS NO

4. História constitucional brasileira dos direitos dos povos indígenas: Da

4.6. A Constituição de 1967 e Emenda nº 1 de 1969

Após a vitória, o movimento revolucionário de 1964 pretendeu instituir

novo texto constitucional, editando, para tanto, sob a chancela de C

ASTELO

B

RANCO

,

o Ato Institucional nº 4, de 7 dezembro de 1966

244

.

A nova Constituição foi promulgada em 24 de janeiro de 1967, entrando em

vigor somente em março desse ano.

Conforme J

OSÉ

A

FONSO DA

S

ILVA

, o que marca a Constituição de 1967 é a

preocupação com a segurança nacional.

245

Com relação aos direitos indígenas, a Constituição de 1967 manifesta ainda

a política integracionista, conforme se vê no artigo 8º, inciso XVII, alínea “o”:

“Compete à União: XVII – legislar sobre: o) nacionalidade, cidadania e

naturalização; incorporação dos silvícolas à comunhão nacional.”

Diferencia-se, contudo, das constituições anteriores, no atinente ao direito à

terra, ao atribuir o domínio das terras ocupadas pelos indígenas para a União, nos

termos do artigo 4º, inciso IV: “incluem-se entre os bens da União as terras ocupadas

pelos silvícolas.”

Para A

URÉLIO

W

ANDER

B

ASTOS

, essa inserção significou uma inversão

completa, pois a inclusão das terras ocupadas pelos silvícolas entre os bens da União

transforma a posse exercida, uma vez que já não se trata de posse sobre terras

devolutas, mas de posse de territórios da União.

246

       

244 As principais justificativas para a necessidade de uma nova Carta constaram no AI-4: “a

Constituição federal de 1946, além de haver recebido numerosas emendas, já não atende às exigências nacionais; que se tornou imperioso dar ao País uma Constituição que, além de uniforme e harmônica, represente a institucionalização dos ideais e princípios da Revolução; somente uma nova Constituição poderá assegurar a continuidade da obra revolucionária.” ATO INSTITUCIONAL Nº 4. H. Castello Branco. Brasília, 7 de dezembro de 1966.

245

Curso... cit., p. 89.

246

A partir desse entendimento, pode-se deduzir que, em não havendo previsão

constitucional que assegure a posse das terras aos indígenas, a União poderia

requerê-las, já que proprietária; do mesmo modo, não havendo limitação

constitucional, a União poderia aliená-las.

A Constituição de 1967 reconheceu aos indígenas a posse e o usufruto

exclusivo no artigo 186: “É assegurada aos silvícolas a posse permanente das terras

que habitam e reconhecido o seu direito ao usufruto exclusivo dos recursos naturais e

de todas as utilidades nelas existentes.”

J. C

RETELLA

J

R

., em posição que nos parece isolada, entende que essa

disposição diferencia-se das constituições anteriores que previam (exigiam) a

“permanência indígena”

247

– Constituição de 1946 (art. 216): “terras onde se achem

permanentemente localizados –, pois inverte a situação, já que assegura aos silvícolas

a posse permanente das terras que habitam, ou seja, os silvícolas que habitarem terras

durante algum tempo – dias, meses – terão a posse dessas terras assegurada”.

Não nos parece ter sido essa a vontade do constituinte. Se o foi, passou

despercebida pelo aplicador, pois mesmo com sua repetição na posterior

“Constituição de 1969”, a prova da permanência persiste como um dos pontos mais

controvertidos e dificultosos no reconhecimento de terras.

Cumpre registrar que entre a Constituição de 1967 e a Emenda

Constitucional nº 1 de 1969, sob o governo do Presidente Costa e Silva, substituindo

o SPI foi criada, pela Lei nº 5.371, de 5 dezembro de 1967, a F

UNDAÇÃO

N

ACIONAL

DO

Í

NDIO

– DIO AL

Pois bem, em 17 de outubro de 1969, sobreveio a Emenda Constitucional nº

1 que, para alguns, consistiu em nova Constituição

248

.

Apesar de ter sido ato ditatorial e pretensioso, a Emenda manteve os artigos

4º e 8º da Constituição de 1967, e também o artigo 186, acrescendo neste elementos

de garantia para os índios, consoante se vê no artigo 198: “As terras habitadas pelos

silvícolas são inalienáveis nos têrmos que a lei federal determinar, a êles cabendo a

sua posse permanente e ficando reconhecido o seu direito ao usufruto exclusivo das

riquezas naturais e de tôdas as utilidades nelas existentes.”

O acréscimo, tido como benéfico aos indígenas por juristas como D

ALMO DE

A

BREU

D

ALLARI249

,

não

obstante

a

possibilidade

de

regulamentação

       

247

Op. cit., p. 4.563.

248

infraconstitucional, concentra-se na inserção da inalienabilidade

250

. Lembre-se que

essa limitação era prevista nas constituições de 1934, 1937 e 1946 – esta última sob

a rubrica de não transferência –, mas que restou ausente na Constituição de 1967.

Além da inalienabilidade, merecem também referência as inovações

resultantes da inserção dos parágrafos 1º e 2º no artigo 198, in verbis:

“§ 1º Ficam declaradas a nulidade e a extinção dos efeitos jurídicos de qualquer natureza que tenham por objeto o domínio, a posse ou a ocupação de terras habitadas pelos silvícolas;

§ 2º A nulidade e extinção de que trata o parágrafo anterior não dão aos ocupantes direito a qualquer ação ou indenização contra a União e a Fundação Nacional do Índio.”251

A respeito desses aditamentos, M

ANOEL

G

ONÇALVES

F

ERREIRA

F

ILHO

leciona que a nulidade prevista no § 1º visava a resguardar melhor os interesses dos

indígenas, e que o § 2º previu uma exceção à indenização, pois a extinção

determinada no § 1º causaria prejuízos aos particulares, que não poderiam pleitear a

reparação em face da União e da Fundação Nacional do Índio, advertindo, todavia,

que “eventual indenização devida por particular não é excluída pelo preceito

constitucional.”

252

No período que antecede a promulgação da Constituição de 1988, os

indígenas galgaram importantes conquistas em termos de leis infraconstitucionais,

destacando-se o Estatuto do Índio, a Lei nº 6.001, de 19 de dezembro de 1973, que

regula “a situação jurídica dos índios ou silvícolas e das comunidades indígenas, com

o propósito de preservar a sua cultura e integrá-los, progressiva e harmoniosamente,

à comunhão nacional”

253

. Todavia, o fortalecimento das querelas indígenas somente

ecoou na Constituição de 1988.

       

249

Reconhecimento e proteção dos direitos dos índios. In: Revista Informação Legislativa, ano 28, n. 111, jul./set. 1991, p. 316.

250 Para Aurélio Wander Bastos, a inalienabilidade é uma proibição destinada à União e não aos

indígenas. Op. cit., p. 91.

251

Helder Girão Barreto assevera que a “Constituição” de 1969” “inovou significativamente em dois pontos: declarou nulos e extintos os efeitos jurídicos de qualquer natureza que tenham por objeto o domínio, a posse ou a ocupação de terras habitadas pelos silvícolas(§ 1.º); e, negou aos ocupantes prejudicados direito a qualquer ação ou indenização contra a União e a Fundação Nacional do Índio(§ 2.º).” Direitos indígenas: Vetores constitucionais. Curitiba: Juruá, 2003, p. 98.

252 Comentários à Constituição brasileira. Emenda Constitucional nº 1 , de 17-10-1969. 3. ed. São

Paulo: Saraiva, 1983, p. 732.

253 Em 1978 foi apresentado ao presidente ministro Rangel Reis o “Projeto de Emancipação”

pugnando por mudanças no Estatuto do Índio (1973), projeto que foi arquivado após pressão dos movimentos indígenas e sociedade civil, inclusive houve mobilização internacional, sob o argumento de que as mudanças pretendidas em verdade não queriam modificar os artigos racistas e anti-índios

do documento, mas alterar os poucos pontos do Estatuto que representam conquistas para os povos indígenas. SOUSA, Márcio et al. Os índios vão à luta. Rio de Janeiro: Marco Zero, 1981, p. 20.

No documento MESTRADO EM DIREITO São Paulo 2009 (páginas 99-102)