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Período Republicano: A Constituição de 1891

No documento MESTRADO EM DIREITO São Paulo 2009 (páginas 90-93)

CAPÍTULO II – EVOLUÇÃO DOS DIREITOS DOS POVOS INDÍGENAS NO

4. História constitucional brasileira dos direitos dos povos indígenas: Da

4.2. Período Republicano: A Constituição de 1891

       

207

[sic] Anexos da obra de Manuela Carneiro da Cunha. Os direitos do índio... cit., p. 212.

208

História do direito constitucional brasileiro. Brasília: Senado Federal , Conselho Editorial, 2003, p. 55. Em baluarte a tese abraçada, Waldemar Martins Ferreira cita Sá e Benevides que, à época, defendeu que o Ato Adicional tornou o Brasil um “Império semi-federal”, p. 55.

209 Op. cit., p. 164. 210

O Decreto nº 426 de 1845 tratou das relações entre os índios e o Estado, entregando à Igreja grande parte da responsabilidade pelos indígenas. Sobre este decreto, Carlos F. M Souza Filho realça a criação em cada província do “cargo de Diretor Geral de Índios, em cada aldeia cargos de diretor, tesoureiro, almoxarife, cirurgião e missionário, com suas atribuições próprias.” Todavia, citando as palavras de João Mendes Jr., proferidas em 1902, professa que o decreto parece não ter sido aplicado.

Op. cit., p. 97.

211 Artigo 12 [sic]: “O Governo reservará das terras devolutas as que julgar necessarias: 1º, para a

colonisação dos indigenas; 2º, para a fundação de povoações, abertura de estradas, e quaesquer outras servidões, e assento de estabelecimentos publicos: 3º, para a construção naval.”

Proclamada a República, em 15 de novembro de 1889, a nova roupagem

estatal apresenta-se como resposta às contradições entre as forças econômicas do país

212

. Era (foi) a vitória dos segmentos até então tolhidos do poder decisório,

concentrado no monarca, vitória das forças descentralizadas, aliadas “aos

novos

fatores que aparecem e se afirmam na vida política brasileira: o federalismo, como

princípio constitucional do Estado, a democracia, como regime político que melhor

assegura os direitos humanos fundamentais”

213

.

Em que pese a força desses princípios anunciados por J

OSÉ

A

FONSO DA

S

ILVA

e a ruína da monarquia, repetindo a postura da Constituição Imperial de 1824,

a Constituição de 1891 também silenciou quanto aos indígenas. Fazendo lembrar o

discurso de M

ONTESUMA

, os índios não entraram (conosco) na primeira Constituição

republicana.

Não obstante a omissão, em termos histórico-constitucionais, é de se relevar

que durante a constituinte de 1890 houve intensos debates em torno da forma

federativa, erigidos a partir da proposta de Constituição dos positivistas, relacionada

com a questão indígena. A sugestão positivista veio consubstanciada no artigo 1º:

“Os Estados Ocidentais Brazileiros sistematicamente confederados e que provêm da fuzão do elemento europeu com o elemento africano e o americano aborígene. 11. Os Estados Americanos Brazileiros empiricamente confederados, constituídos pelas ordas fetichistas esparsas pelo território de toda a República. A federação deles limita-se à manutenção das relações amistózas hoje reconhecidas como um dever entre nações distintas e simpáticas, por um lado; e, por outro lado, em garantir-lhes a proteção do Governo Federal contra qualquer violência, quer em suas pessoas, quer em seus territórios. Estes não poderão jamais ser atravessados sem o seu prévio consentimento pacificamente solicitado e só pacificamente obtido.”

As idéias centrais da propugnação podem ser aferidas na doutrina de

C

ARLOS

F

REDERICO

M

ARÉS

S

OUZA

F

ILHO

:

“O Apostolado Positivista propôs à Assembléia Constituinte a organização do Estado Brasileiro como uma federação sistemática e outra empírica. A sistemática seria a organização dos Estados e a empírica seria a confederação dos índios que viviam no Brasil, cada qual com soberania sobre seu território, previamente demarcado.”214

       

212 Norte açucareiro, cafeicultores do vale da Paraíba e fazendeiros do Oeste Paulista. Cf.

GAGLIARDI, José Mauro. O índio e a República. São Paulo: HEDUCITEC/EDUSP, 1989, p. 40.

213

SILVA, José Afonso da. Curso... cit., p. 79.

214

Analisando a proposta dos positivistas, P

AULO

B

ONAVIDES

e P

AES DE

A

NDRADE

sustentam que seus idealizadores – M

IGUEL

L

EMOS

e T

EIXEIRA

M

ENDES

“produziram um esdrúxulo Projeto de Constituição, assinalado de excentricidades”,

denotando “pelos aspectos formais carência de técnica constitucional.”

215

Já por essas razões, justifica-se a conclusão de C

ARLOS

F

REDERICO

M

ARÉS

S

OUZA

F

ILHO

de que “a proposta [positivista] teve pouca influência na elaboração da

Constituição e no ulterior processo legislativo.”

216

A omissão não foi somente constitucional. Nos primeiros momentos da

República, através do Decreto nº 7, de 20 de novembro de 1889, reafirmando-se o

Ato Adicional de 1834, foi transferido aos estados a promoção da política

indigenista, condensada no encargo de promover a catequese e civilização

indígena.

217

A consequência da mudança de alçada foi o abandono indígena, conforme

os motivos apropriadamente apontados por J

OSÉ

T

HEODORO

M

ASCARENHAS

M

ENCK

:

“A transferência das responsabilidades da política indígena aos núcleos políticos que estavam mais próximos às populações indígenas significou o seu completo abandono, já que eram exatamente esses núcleos os que mais lucrariam com a dissolução dessas nações. Segundo o entendimento dominante àquela época, com a extinção das tribos, por morte de todos os seus membros ou pela completa aculturação dos mesmos, as suas terras seriam devolvidas à livre disposição dos governos estaduais, devido à sua natureza de terras devolutas.”218

O desamparo aos indígenas foi sentido por segmentos da sociedade civil

(v.g., as discussões travadas durante o 1º Congresso Brasileiro de Geografia, em

setembro de 1909, e a contribuição do Centro de Ciências, Letras e Artes de

Campinas

219

), levantando o clamor da opinião pública, que iria impulsionar o

“Estado” a rever sua política.

A reposta governamental foi a criação, em 1910, do S

ERVIÇO DE

P

ROTEÇÃO

DOS

Í

NDIOS

– SPI, pelo Decreto nº 8.072, de 20 de julho de 1909. O SPI marcaria um

novo tipo de política indigenista, prelecionando J

ULIO

C

EZAR

M

ELLATI

que

       

215

História constitucional do Brasil. 4. ed. Brasília: OAB, 2002, p. 238.

216 SOUZA FILHO, Carlos Frederico Marés. O renascer...cit., p. 88. 217 MENCK, José Theodoro Mascarenhas. Op. cit., p. 127.

218

Op. cit., p. 127.

219

“os índios passam a ter direito de viver segundo suas tradições, sem ter de abandoná-las necessariamente; a proteção é dada aos índios em seu próprio território, pois já não se defende a idéia colonial de retirar os índios de suas aldeias para fazê-los viver em aldeamentos construídos pelos civilizados; fica proibido o desmembramento da família indígena, mesmo sob o pretexto de educação e catequese dos filhos; garante-se a posse coletiva inalienável; garante-se a cada índio os direitos do cidadão comum, exigindo-se dele o cumprimento dos deveres segundo o estágio social em que se encontre.”220

Lembre-se, por oportuno, que o primeiro diretor do SPI foi C

ANDIDO

R

ONDON

, cujo lema de trabalho, notoriamente conhecido, era “morrer se preciso for,

matar nunca”. “E não era mera frase”, diz com propriedade D

ARCY

R

IBEIRO

, em obra

inclusive dedicada “a Rondon, o humanista”.

221

No documento MESTRADO EM DIREITO São Paulo 2009 (páginas 90-93)