CAPÍTULO II – EVOLUÇÃO DOS DIREITOS DOS POVOS INDÍGENAS NO
4. História constitucional brasileira dos direitos dos povos indígenas: Da
4.2. Período Republicano: A Constituição de 1891
207
[sic] Anexos da obra de Manuela Carneiro da Cunha. Os direitos do índio... cit., p. 212.
208
História do direito constitucional brasileiro. Brasília: Senado Federal , Conselho Editorial, 2003, p. 55. Em baluarte a tese abraçada, Waldemar Martins Ferreira cita Sá e Benevides que, à época, defendeu que o Ato Adicional tornou o Brasil um “Império semi-federal”, p. 55.
209 Op. cit., p. 164. 210
O Decreto nº 426 de 1845 tratou das relações entre os índios e o Estado, entregando à Igreja grande parte da responsabilidade pelos indígenas. Sobre este decreto, Carlos F. M Souza Filho realça a criação em cada província do “cargo de Diretor Geral de Índios, em cada aldeia cargos de diretor, tesoureiro, almoxarife, cirurgião e missionário, com suas atribuições próprias.” Todavia, citando as palavras de João Mendes Jr., proferidas em 1902, professa que o decreto parece não ter sido aplicado.
Op. cit., p. 97.
211 Artigo 12 [sic]: “O Governo reservará das terras devolutas as que julgar necessarias: 1º, para a
colonisação dos indigenas; 2º, para a fundação de povoações, abertura de estradas, e quaesquer outras servidões, e assento de estabelecimentos publicos: 3º, para a construção naval.”
Proclamada a República, em 15 de novembro de 1889, a nova roupagem
estatal apresenta-se como resposta às contradições entre as forças econômicas do país
212
. Era (foi) a vitória dos segmentos até então tolhidos do poder decisório,
concentrado no monarca, vitória das forças descentralizadas, aliadas “aos
novos
fatores que aparecem e se afirmam na vida política brasileira: o federalismo, como
princípio constitucional do Estado, a democracia, como regime político que melhor
assegura os direitos humanos fundamentais”
213.
Em que pese a força desses princípios anunciados por J
OSÉA
FONSO DAS
ILVAe a ruína da monarquia, repetindo a postura da Constituição Imperial de 1824,
a Constituição de 1891 também silenciou quanto aos indígenas. Fazendo lembrar o
discurso de M
ONTESUMA, os índios não entraram (conosco) na primeira Constituição
republicana.
Não obstante a omissão, em termos histórico-constitucionais, é de se relevar
que durante a constituinte de 1890 houve intensos debates em torno da forma
federativa, erigidos a partir da proposta de Constituição dos positivistas, relacionada
com a questão indígena. A sugestão positivista veio consubstanciada no artigo 1º:
“Os Estados Ocidentais Brazileiros sistematicamente confederados e que provêm da fuzão do elemento europeu com o elemento africano e o americano aborígene. 11. Os Estados Americanos Brazileiros empiricamente confederados, constituídos pelas ordas fetichistas esparsas pelo território de toda a República. A federação deles limita-se à manutenção das relações amistózas hoje reconhecidas como um dever entre nações distintas e simpáticas, por um lado; e, por outro lado, em garantir-lhes a proteção do Governo Federal contra qualquer violência, quer em suas pessoas, quer em seus territórios. Estes não poderão jamais ser atravessados sem o seu prévio consentimento pacificamente solicitado e só pacificamente obtido.”
As idéias centrais da propugnação podem ser aferidas na doutrina de
C
ARLOSF
REDERICOM
ARÉSS
OUZAF
ILHO:
“O Apostolado Positivista propôs à Assembléia Constituinte a organização do Estado Brasileiro como uma federação sistemática e outra empírica. A sistemática seria a organização dos Estados e a empírica seria a confederação dos índios que viviam no Brasil, cada qual com soberania sobre seu território, previamente demarcado.”214
212 Norte açucareiro, cafeicultores do vale da Paraíba e fazendeiros do Oeste Paulista. Cf.
GAGLIARDI, José Mauro. O índio e a República. São Paulo: HEDUCITEC/EDUSP, 1989, p. 40.
213
SILVA, José Afonso da. Curso... cit., p. 79.
214
Analisando a proposta dos positivistas, P
AULOB
ONAVIDESe P
AES DEA
NDRADEsustentam que seus idealizadores – M
IGUELL
EMOSe T
EIXEIRAM
ENDES–
“produziram um esdrúxulo Projeto de Constituição, assinalado de excentricidades”,
denotando “pelos aspectos formais carência de técnica constitucional.”
215Já por essas razões, justifica-se a conclusão de C
ARLOSF
REDERICOM
ARÉSS
OUZAF
ILHOde que “a proposta [positivista] teve pouca influência na elaboração da
Constituição e no ulterior processo legislativo.”
216A omissão não foi somente constitucional. Nos primeiros momentos da
República, através do Decreto nº 7, de 20 de novembro de 1889, reafirmando-se o
Ato Adicional de 1834, foi transferido aos estados a promoção da política
indigenista, condensada no encargo de promover a catequese e civilização
indígena.
217A consequência da mudança de alçada foi o abandono indígena, conforme
os motivos apropriadamente apontados por J
OSÉT
HEODOROM
ASCARENHASM
ENCK:
“A transferência das responsabilidades da política indígena aos núcleos políticos que estavam mais próximos às populações indígenas significou o seu completo abandono, já que eram exatamente esses núcleos os que mais lucrariam com a dissolução dessas nações. Segundo o entendimento dominante àquela época, com a extinção das tribos, por morte de todos os seus membros ou pela completa aculturação dos mesmos, as suas terras seriam devolvidas à livre disposição dos governos estaduais, devido à sua natureza de terras devolutas.”218
O desamparo aos indígenas foi sentido por segmentos da sociedade civil
(v.g., as discussões travadas durante o 1º Congresso Brasileiro de Geografia, em
setembro de 1909, e a contribuição do Centro de Ciências, Letras e Artes de
Campinas
219), levantando o clamor da opinião pública, que iria impulsionar o
“Estado” a rever sua política.
A reposta governamental foi a criação, em 1910, do S
ERVIÇO DEP
ROTEÇÃODOS
Í
NDIOS– SPI, pelo Decreto nº 8.072, de 20 de julho de 1909. O SPI marcaria um
novo tipo de política indigenista, prelecionando J
ULIOC
EZARM
ELLATIque
215
História constitucional do Brasil. 4. ed. Brasília: OAB, 2002, p. 238.
216 SOUZA FILHO, Carlos Frederico Marés. O renascer...cit., p. 88. 217 MENCK, José Theodoro Mascarenhas. Op. cit., p. 127.
218
Op. cit., p. 127.
219
“os índios passam a ter direito de viver segundo suas tradições, sem ter de abandoná-las necessariamente; a proteção é dada aos índios em seu próprio território, pois já não se defende a idéia colonial de retirar os índios de suas aldeias para fazê-los viver em aldeamentos construídos pelos civilizados; fica proibido o desmembramento da família indígena, mesmo sob o pretexto de educação e catequese dos filhos; garante-se a posse coletiva inalienável; garante-se a cada índio os direitos do cidadão comum, exigindo-se dele o cumprimento dos deveres segundo o estágio social em que se encontre.”220