CAPÍTULO I A EMERGÊNCIA DO ESTADO NOVO CORPORATIVO
3. A organização corporativa
3.1. A Constituição de 1933 e o Estatuto do Trabalho Nacional
O Decreto nº 22 241 insere o projeto da nova Constituição, que entra em vigor a 11 de abril de 1933 e nele se define o estado português como (Art. 5.º) “uma república unitária e corporativa, baseada na igualdade dos cidadãos perante a lei, no livre acesso de todas as classes aos benefícios da civilização e na interferência de todos os elementos estruturais da nação na vida administrativa e na feitura das leis”, garantias que seriam asseguradas por meio das corporações, a constituir.55 Incumbia ao Estado (Art. 14.º) “reconhecer as corporações morais ou económicas e as associações ou organizações sindicais, e promover e auxiliar a sua formação”.
A conciliação entre as classes decorreria da aplicação dos princípios constitucionais corporativos, que instaurariam uma nova ordem económica e social promovida, coordenada e regulada pelo Estado. Um dos objetivos desta ação catalisadora e de supervisionamento, entrevista a um tempo no diploma como obrigação e direito do Estado, consistia em (Art. 31.º) “estabelecer o equilíbrio da população, das profissões, dos empregos, do capital e do trabalho”.
Alguns meses mais tarde, em setembro de 1933, os princípios corporativos preconizados na Constituição seriam desenvolvidos, a par da definição da estrutura da organização corporativa, pelo Estatuto do Trabalho Nacional (ETN)56, constante do Decreto-Lei n.º 23 048. Como organismos primários da organização corporativa, o diploma contempla a criação de grémios – formados pelas entidades patronais –, e de sindicatos nacionais de empregados e operários. Algumas das competências destes organismos consistiam na tutela perante o Estado e demais organismos corporativos, dos interesses dos indivíduos que representavam, assim como no ajuste de contratos coletivos de trabalho e criação e organização de caixas e instituições de previdência.
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Segundo estabelecia o diploma (Art. 18.º), nas corporações deveriam estar representados todos os elementos da Nação, competindo-lhes tomar parte na eleição das câmaras municipais, dos conselhos de província e na constituição da Câmara Corporativa. Esta última funcionaria junto da Assembleia Nacional, sendo composta (Art. 102.º) “de representantes de autarquias locais e dos interesses sociais, considerados estes nos seus ramos fundamentais de ordem administrativa, moral, cultural e económica” e teria como atribuições (Art. 103.º), relatar e dar parecer por escrito, sobre todas as propostas ou projetos de lei que fossem presentes à Assembleia Nacional, antes de nesta ser iniciada a discussão.
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Como pontos prévios à definição da estrutura da organização corporativa e a título de fundamentação, o ETN realça alguns itens contemplados na Constituição, designadamente o facto de Portugal ser (Art. 3.º) “uma república unitária e corporativa” e de caber ao Estado (Art. 7.º) “o direito e a obrigação de coordenar e regular superiormente a vida económica e social”, com o fim de “promover a formação e o desenvolvimento da economia nacional corporativa”.
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Grémios e Sindicatos Nacionais seriam agrupados em Federações e Uniões, que cumpririam o papel de elementos intermédios das corporações, a criar. Estas por sua vez realizariam a forma última da organização profissional, constituindo-se como (Art. 41.º) “organização unitária das forças de produção” e representando “integralmente os seus interesses”. Refira-se que ainda antes da entrada em vigor da Constituição Política de 1933 e da promulgação do ETN, tinham sido instituídos pelos ministérios do comércio, indústria e agricultura, alguns organismos de inspiração corporativa, destinados a reorganizar certos setores económicos do país e chamados de coordenação económica, de que é exemplo a Junta Nacional de Exportação de Frutas, criada em 1931 e considerada como (Mantero, 1936, p. 279) “quase precursora da organização corporativa”.
Algumas das disposições gerais constantes do ETN, em particular as respeitantes à regulamentação da ação de grémios e de sindicatos, seriam desenvolvidas no próprio dia da promulgação do estatuto, pelos Decretos-Leis nº 23 049 e n.º 23 050, respetivamente. Todavia, de entre o conjunto de decretos relativos à organização corporativa, publicados nesta data – 23 de setembro de 1933 –, não consta nenhum dedicado aos organismos ditos intermédios ou aos superiores, ou seja, às corporações. E este facto se numa primeira leitura parece lógico, uma vez que parece ser natural que a constituição dos organismos primários ocorra numa fase anterior à dos restantes, pode também apontar para uma certa indefinição na construção do edifício corporativo. A leitura de Cadernos Corporativos, publicação periódica quinzenal com início em 20 de janeiro de 1933, dá-nos conta dessa outra realidade.
O exemplar número um da revista, no artigo “A derrota do indivíduo e a vitória do produtor”, da autoria do respetivo diretor (Costa, 1933 a), pp. 4-9), realça as vantagens do corporativismo como alternativa política em prol duma nova ordem económica e social, visualizando-o como algo ainda em construção, não apenas no que concerne às realizações práticas, ou seja, no que toca à estrutura e abrangência dos organismos corporativos a criar, mas ainda em termos conceptuais.57 E apesar de no artigo aqui referido se realçarem alguns dos pontos da Carta del Lavoro italiana, que
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A indefinição no conceito de corporativismo a adotar no país, transparece a título de exemplo, nas palavras seguintes: “Mas que vem a ser o regime corporativo, já hoje incorporado no texto da Constituição que dentro em pouco será submetida ao plebiscito? Poucos o sabem, embora muitos dele falem. Sabemo-lo nós, porventura? Seremos nós porventura os depositários da verdade corporativa? Não. […] Talvez que, por aproximações sucessivas, servindo-nos da contribuição de todos, possamos um dia tocar a verdade, converter em realidade sólida o que hoje existe apenas no estado de aspiração vaga”.
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deste modo surge apresentada como um referencial do corporativismo português, existe uma indeterminação nas coordenadas dos vetores diretores deste último, pressentida como “um estado de aspiração vaga”, facto que, para além de evidenciar uma multiplicidade de possíveis nuances futuras, denota ainda um desejo de distanciação entre os regimes corporativos dos dois países. O artigo termina com a forma de um manifesto, no qual se revelam os objetivos da revista – contribuir para afinar o conceito de corporativismo português, instituindo-o como regime de verdade, através do estudo, da doutrinação e da observação e análise dos seus resultados práticos, com o concurso da sociedade civil consubstanciada no grupo responsável pelos Cadernos Corporativos. A revista, referida pelo seu diretor, Augusto da Costa (1933 b), p. 132), como a primeira publicação da especialidade em Portugal e a (1933 c), p. 198) única dedicada aos estudos corporativos, permite tirar, pela leitura dos seus artigos e pelo peso dos colaboradores da mesma58, algumas conclusões. Estas vão não apenas no sentido de existir à época uma evidente indefinição no conceito de corporativismo59, que se queria “à portuguesa”, como ainda da subsequente afirmação de um distanciamento, face ao modelo italiano.60 E teria sido esta realidade a impor a publicação da revista, aliando o desejo de construção do estado corporativo à clarificação do conceito. De tudo o que foi dito, parece podermos ainda concluir que não poderia estar feita, nem sequer encetada a criação de uma mentalidade corporativa entre as massas, como o reclamavam alguns corporativistas, entre os quais Augusto da Costa (1933 c), p. 195), para quem a mesma
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Entre estes encontram-se corporativistas de peso como Marcelo Caetano e Pedro Teotónio Pereira, primeiro Subsecretário das Corporações e que teria sido, de acordo com Manuel Lucena (1976, p. 179), o artesão do ETN. O próprio diretor da revista, Augusto da Costa, viria a ser um dirigente da organização corporativa, ocupando o cargo de diretor de serviços do Instituto Nacional do Trabalho e Previdência (INTP), organismo que fazia parte da organização corporativa.
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A indefinição implícita que se pressente na reclamação de Augusto da Costa (1933 c), p. 201), em torno da criação de um Centro de Estudos Corporativos em Portugal, para que seja possível o estudo, a divulgação e a propaganda das doutrinas corporativas, encontra-se patente ao longo da revista, ressaltando de imediato no título de alguns artigos. Um deles, “Corporações no Estado ou Corporações do Estado?”, da autoria de Marcelo Caetano (1933, pp.151-155), interroga a forma que deve revestir o corporativismo português.
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Os Cadernos Corporativos, enquanto revista da especialidade, apontam o caráter nacional do corporativismo português, reclamando não terem sido (Lordello, 1933, p. 225) “os métodos fascistas a inspirar as nossas ideias”. Estas ter-se-iam desenvolvido em Portugal ainda antes do advento do fascismo, sendo fruto (Lordello, 1933, p. 225) “da ação intemerata e altamente patriótica de um grupo de esforçados nacionalistas”. Muito embora afirme um distanciamento do corporativismo nacional face ao modelo italiano, o título não deixa de referir que este de certo modo lhe serviu de guia, sendo (Lordello, 1933, p. 225) “difícil precisar a que ponto podem ter influído as novas regras do direito público e privado italiano nas reformas que estão em curso”. O desejo manifestado por Augusto da Costa, no sentido da criação de um Centro de Estudos Corporativos, aponta também para um corporativismo em construção, que iria sendo moldado e definido pelo estudo e pela reflexão em torno das realizações corporativas produzidas pelo regime português.
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existiria, entre a grande maioria dos apoiantes do Estado Novo, apenas “no estado de nebulosa”.
A afirmação do desejo de distanciamento do modelo italiano, proferida por alguns corporativistas e registada em Cadernos Corporativos, assim como a evidência de interrogações várias no tocante ao conceito a adotar em termos definitivos para o corporativismo português, não teriam sido alheias à situação de conflitualidade imposta pelos representantes do regime italiano à Igreja, via Ação Católica. Isto, muito embora o regime fascista tivesse contribuído numa primeira fase para a pacificação entre as relações Igreja/Estado, que se tinham vindo a deteriorar desde 1870 com o avanço do liberalismo, apaziguamento que viria a culminar com o Tratado de Latrão, firmado em 1929 entre Pio XI e Mussolini.
A carta encíclica dirigida em junho de 1931 pelo Papa Pio XI aos bispos italianos e que a revista Estudos transcreve nos dois primeiros exemplares do ano seguinte, atribuindo-lhe importância de primeira página, dá-nos conta desta nova crispação entre os poderes espiritual e temporal, representado este último pelo regime fascista. O documento vem produzir uma nova leitura da encíclica Quadragesimo Anno, publicada no mês anterior, e na qual o Papa (Pio XI, [1931 a)], pp. 127-198), muito embora tivesse realçado as virtualidades do corporativismo como contraponto às restantes formas de governo, já alertara para os perigos da atribuição de poderes excessivos ao Estado e da consequente deriva em prol de interesses políticos particulares, manifestando portanto implicitamente, o receio da Igreja perante o modelo corporativista italiano.
Na carta aos bispos de Itália, Pio XI ([1931 b), pp. 537-572) será obrigado a clarificar a sua posição perante a hierarquia da Igreja, face ao regime político vigente, isto é, ao corporativismo fascista. No documento o Papa refere-se explicitamente ao aproveitamento político de um partido e de um regime que, após ter obtido dividendos das relações amigáveis com a Santa Sé, tentava esvaziar de novo a influência da Igreja na sociedade, com o recurso a métodos que visavam o desmantelamento da Ação Católica – dissolução das Associações de Juventude e das Associações de Universitários dela dependentes, acusadas de atividade política de sentido contrário aos interesses do partido fascista. Com esta atitude, a educação da mocidade passaria a ser competência exclusiva do Estado, realidade que segundo Pio XI, tornava a conceção fascista inconciliável com a doutrina católica. Para o Papa ([1931 b)], p. 563) “uma conceção
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que faz pertencer ao Estado as gerações novas inteiramente e sem exceção […] não é conciliável para um católico com a doutrina católica”.
E assim, é presumível que, de acordo com as conclusões e orientações da Igreja plasmadas nas duas encíclicas, se pretendesse para o caso português um corporativismo que, muito embora influenciado e guiado pelo caso concreto italiano no respeitante às linhas gerais da organização corporativa, fosse moldado pelos valores cristãos, não conflituando com a Igreja e adquirindo um formato tipicamente nacional.