CAPÍTULO IV EM TORNO DA IDENTIDADE
3. A experiência do INTP
Veiga de Macedo entra no INTP, como subdelegado para o distrito de Castelo
Branco, em setembro de 1940226, permanecendo em funções neste organismo, até ser requisitado para o cargo de Subsecretário de Estado do Ministério da Educação Nacional, em 1949. Até esta altura e de acordo com o testemunho prestado pelo próprio na obra Salazar visto pelos seus próximos (Macedo, [2003], pp. 45-58), teria desempenhado vários cargos e desenvolvido um leque diferenciado de atividades dentro da organização corporativa. Nos dois primeiros anos, subdelegado do INTP na Covilhã e agente do Ministério Público junto do Tribunal de Trabalho do distrito de Castelo Branco. Entre 1942 e 1946, subdelegado do INTP e inspetor do Trabalho no Porto, período em que organizara a Caixa Sindical de Previdência e a Caixa de Abono de Família das Indústrias Têxteis, de que tinha sido o primeiro presidente. No ano seguinte e no distrito de Braga, delegado do INTP e delegado do Comissariado do Desemprego e presidente da Caixa Regional de Abono de Família. De 1947 e até assumir o cargo de Subsecretário de Estado da Educação Nacional, delegado do INTP, delegado da FNAT e da Federação de Caixas de Previdência no Porto, e vice-presidente para o norte do país, da Federação de Caixas de Previdência – Habitações Económicas.
Mais do que uma investigação centrada no aprofundamento deste currículo, interessa atribuir-lhe um sentido, tendo em conta a futura ação alfabetizadora, educativa e de completude da organização corporativa que Veiga de Macedo levará por diante, na década de cinquenta, já na qualidade de membro do Governo. De acordo com o Decreto-Lei n.º 23 053, de 23 de setembro de 1933 que criara o INTP, este organismo
composto (Base III) pelos presidentes das seções atrás referidas. A este órgão cabia, a par de uma função consultiva, “assegurar através da hierarquia, a unidade e continuidade da ação do Ministério da Educação Nacional”, acordo com o regimento da JNE, promulgado a 19 de maio de 1936, pelo Decreto-Lei n.º 26 611,
226
131
tinha como fim (Art. 2.º), “assegurar as leis de proteção ao trabalho e demais de caráter social, integrando os trabalhadores e restantes elementos da produção na organização corporativa”, em conformidade com o previsto no ETN. Cabia aos delegados respetivos, para além do dever de propagandear os princípios corporativos e de prestar assistência e inspeção aos organismos corporativos do distrito onde exerciam funções, a obrigação de exercer uma (Art. 7.º) “eficaz e permanente proteção, sob todas as formas aos trabalhadores, inquirindo da segurança dos locais de trabalho, do regime dos salários, da observância das leis sobre trabalho das mulheres e dos menores e do horário de trabalho”, ou seja, de tudo o que dissesse respeito ao “bem-estar, higiene e dignidade das famílias operárias”. Segundo destaca Fátima Patriarca (1995, p.161), os técnicos e quadros do INTP e dos Serviços de Ação Social227, pela especificidade das suas funções e no contacto com a dura realidade das condições de vida e de trabalho do operariado, assumiam na prática a ação de dirigentes dos sindicatos nacionais, litigando, negociando e pressionando os patrões.
Tal como já atrás foi referido, este exercício de tutela no tocante à promoção e cumprimento da legislação social, faria com que os assistentes e delegados do INTP fossem olhados com alguma desconfiança e incómodo por parte do patronato ainda não rendido à filosofia corporativa, na sua qualidade de (Salazar, 1933 a), p. 2) “defensores natos dos que trabalham”, categoria formalmente atribuída pelo Presidente do Conselho no discurso de 20 de dezembro de 1933, dirigido aos primeiros delegados do organismo, pouco tempo antes de terem assumido o respetivo cargo. Em tempo de guerra, a tarefa de esbater os conflitos de classe que cabia aos quadros do INTP, teria sido particularmente difícil e crucial e exigiria da parte daqueles um particular envolvimento e investimento pessoal, no tocante às realizações relativas à previdência, não apenas com o intuito de melhorar a condição social dos trabalhadores, mas ainda como forma de promover e credibilizar a organização corporativa que tinha caído em descrédito.228
O parecer elaborado pela comissão encarregada de apreciar as contas públicas relativas ao ano de 1942, no item dedicado ao Subsecretariado das Corporações e Previdência
227
De acordo com o Decreto-Lei n.º 23 053, os serviços de ação social estavam a cargo de seis assistentes e funcionavam integrados no INTP, sob a direção do seu presidente. Cabia-lhes (Art. 5.) “estudar os problemas do trabalho e de previdência e respetivas soluções”, assim como “fomentar e orientar a organização corporativa e propagar o espírito da nova ordem social”.
228
Como já atrás se disse, o descrédito teria assumido proporções consideráveis, ao ponto de ser requerida à Assembleia Nacional, em fevereiro de 1946, a constituição de uma comissão de inquérito à atuação dos organismos corporativos.
132
Social”229, apontaria esta questão como um “problema delicado e complexo” da incumbência do INTP e que exigiria mais estudos e resultados práticos.
A propaganda e defesa da organização corporativa por parte dos delegados correspondiam, na prática, à sua transformação em agentes corporatizadores. No aspeto educativo, por terem a incumbência de levar trabalhadores e patrões a servir-se das virtualidades da organização e a assimilar os seus princípios. No aspeto reprodutor e amplificador, por todo este processo tender ao desenvolvimento e completude da organização corporativa. A contribuição de Veiga de Macedo em prol destes objetivos, ainda no período em que exerce funções no INTP, parece evidente, não só pelo amplo leque de funções que assumiria dentro da organização, como ainda pelo pioneirismo demonstrado no âmbito da Previdência Social, ao organizar a Caixa Sindical de Previdência e a Caixa de Abono de Família das Indústrias Têxteis, e pelo desempenho de cargos de algum relevo – presidente da Caixa Regional de Abono de Família em Braga e vice presidente da Federação de Caixas de Previdência – Habitações Económicas, para o norte do país.
A vertente educadora de Veiga de Macedo, enquanto delegado do INTP, teria sido fortemente amplificada com o desempenho do cargo de delegado da FNAT. Esta instituição, cujas competências incidiam na promoção do aproveitamento do tempo livre dos trabalhadores, a fim de lhes garantir “o maior desenvolvimento físico e a elevação do seu nível intelectual e moral”, alargaria e aprofundaria a sua ação a partir dos anos quarenta, com a publicação dos respetivos estatutos e com o exercício de orientação da cultura popular, a ser veiculada a partir dos organismos corporativos do meio rural, por intermédio da Junta Central das Casas do Povo (JCCP).
Os estatutos da FNAT, promulgados pelo Decreto n.º 31 036, de dezembro de 1940, previam a existência de delegações em vários pontos do país, estabelecendo como competências respetivas a orientação, coordenação e fiscalização de todas as iniciativas relativas à cultura popular provindas da organização corporativa e prevendo um leque de realizações, entre as quais se incluíam a criação de cursos de cultura geral e profissional, a instalação de bibliotecas populares, a organização de conferências e palestras radiofónicas ou as sessões de cinema. A orientação e coordenação da ação das Casas do Povo, entregue à JCCP em janeiro de 1945, pelo Decreto-Lei n.º 34 373 (Art.
229
Parecer constante do n.º 70 S, sessão de 29 de março de 1944, do Diário das Sessões da Assembleia
133
3.º), permitia efetivar e alargar as competências de âmbito educativo dos organismos corporativos primários rurais, “tanto no aspeto do ensino organizado, como no aproveitamento do tempo disponível dos trabalhadores”, após reforçar e alargar ao meio rural as atribuições da FNAT relativas à cultura popular, ou seja, depois de estas terem sido devidamente enquadradas.
A JCCP era presidida pelo Subsecretário de Estado das Corporações, sendo as funções do organismo asseguradas por um vice-presidente, designado pelo Subsecretário e por três vogais – um representante da Direção Geral dos Serviços Agrícolas, um representante da FNAT e o chefe da 1.ª repartição do INTP. Os assuntos de especial importância eram entregues pela presidência da Junta a uma comissão consultiva composta por nove elementos, entre os quais se encontrava um representante da Direção Geral do Ensino Primário (DGEP), um representante do SNI – organização que superintendia a nível nacional às atividades relativas à cultura popular –, três representantes das Casas do Povo e três representantes dos Grémios da Lavoura. Observando a proveniência dos elementos diretivos da JCCP e a composição da respetiva comissão consultiva, parece poder-se perspetivar a necessidade de uma articulação entre o Ministério da Educação Nacional, o INTP e a FNAT, em ordem a estender a cultura popular ao meio rural.
Tal como já atrás foi referido, Castro Fernandes, Subsecretário de Estado das Corporações e Previdência Social e presidente da JCCP, definiria em traços largos o conceito de cultura popular, no discurso proferido por ocasião da criação da JCCP. Aquele, sujeito a orientação estatal, incluiria, para além de um conjunto de noções educativas adequadas ao meio rural e em função do género, a alfabetização dos adultos. E esta, segundo o Subsecretário das Corporações, deveria revestir a forma de uma “grande campanha”, requerendo a colaboração conjunta das estruturas e agentes do Ministério da Educação e da organização corporativa. Isto, não só porque a alfabetização se pretendia integrada na cultura popular e associada à respetiva disseminação, como ainda por que as altas taxas de analfabetismo dos adultos, à época, evidenciavam que a intervenção do Ministério da Educação Nacional não tinha sido por si só e até à data, solução para a resolução de um problema, que assumia dimensões alarmantes no meio rural.
Nesse mesmo ano e ao longo do debate da proposta de lei sobre fomento e reorganização industrial, realizado na Assembleia Nacional entre 10 e 19 de janeiro, algumas questões recorrentes e de sinal contrário, surgiam associadas ao analfabetismo.
134
Por um lado, a erradicação deste impunha-se como condição prévia de desenvolvimento económico. Por outro lado, a fuga dos campos que levava a um urbanismo associado à dissolução dos costumes e à contestação social, aparecia como consequência nefasta da alfabetização. Ora, a integração desta na definição de cultura popular, permitia a um tempo resolver ambos os problemas, pois, muito embora a criação de novas indústrias e a reorganização das já existentes potenciasse o abandono do trabalho agrícola, permitia por outro lado, que ao serem aplicadas novas técnicas na agricultura, fosse sentida a necessidade de alfabetização, bem como de um leque de noções educativas adequadas e necessárias ao meio rural. A estas, juntar-se-iam por arrasto mais algumas, como era o caso da educação corporativa, esbatendo-se os perigos e desvantagens do domínio das competências do abc. E assim, ao invés da inevitável fuga massiva dos campos, poderia antes resultar de todo este movimento educativo, uma valorização do trabalho agrícola em termos simbólicos e económicos, com a subsequente fixação à terra e assimilação e acatamento dos princípios do Estado Novo. Em qualquer dos casos, as regalias sociais que derivavam da organização corporativa, também ela potencialmente ampliada nos seus propósitos de negação e oposição à luta de classes, com o fomento industrial, permitiriam prevenir e controlar os efeitos perversos do abandono rural decorrente da alfabetização.230
A escolha de Veiga de Macedo para ocupar o cargo de Subsecretário de Estado do Ministério da Educação Nacional em 1949, parece ter tido em conta todas estas considerações. A questão do analfabetismo deveria ser solucionada no interior do Ministério da Educação e ter como polo catalisador, alguém cujo espírito de iniciativa, já comprovado, se mostrasse capaz de efetivar os desígnios alfabetizadores referidos por Castro Fernandes e impostos pela industrialização, integrando-os num programa de cultura popular, cuja implementação seria otimizada na razão direta do conhecimento e experiência ganhos no interior da organização corporativa.
230
Esta problemática seria tratada na Assembleia Nacional, ao longo das sessões dedicadas à discussão da proposta de lei de fomento e reorganização industrial. Na sessão n.º 117, realizada em 10 de janeiro de 1945 e que inaugura este debate, o deputado Alçada Guimarães (p. 102) refere-se à organização corporativa como dispositivo seguro cuja expansão, potenciada pelos efeitos da lei agora em apreciação, permitiria sossegar os que se inquietavam com a vaga industrializadora em perspetiva: “quanto aos inconvenientes de uma proliferação de massas operárias, é preciso encará-los dentro de um quadro de realidades. […] o lugar em que o Estatuto do Trabalho Nacional situou o operário, as regalias que lhe conferiu e os deveres de solidariedade que dele reclama, já não consentem certas críticas formuladas. Limitemo-nos a atender aos aspetos de higiene, de previdência, de salários, de saúde física e moral que a reorganização há-de despertar, para lhes darmos as soluções de que carecerem”.
135
Enquanto delegado do INTP, Veiga de Macedo teria tido alguma projeção, esperando-se por consequência o desenrolar de uma ação educativa, inerente ao cargo de delegado da FNAT, no momento em que assumisse estas funções. Logo após a tomada de posse, o seu nome viria à baila como referência a ter em conta, no decurso do debate gerado pelo aviso prévio acerca do exercício do comércio retalhista de vinho e outras bebidas alcoólicas, lançado pelo deputado Mendes de Matos e realizado entre 7 e 14 desse mês, na Assembleia Nacional. O deputado reclamava a regulamentação e fiscalização do funcionamento das tabernas, alegando que a sua abertura aos domingos apesar de permitida por lei231
, vinha potenciar a ação das mesmas enquanto focos de imoralidade, perversão e instabilidade social.232
A contrariar a procura destes locais de reunião, existiam as sessões da FNAT, organismo que, segundo o deputado Pinheiro Torres (1948, pp. 138-139) fora “criado precisamente para entreter, para levar alegria aos que trabalham, nas horas de descanso, entretenimento e alegria sãs, educativas, desviando-os de ambientes que são ou podem vir a ser-lhes funestos”. E, como suporte das suas alegações, referiria: “ainda ontem o Dr. Veiga de Macedo, no ato da sua posse de delegado da FNAT no Porto, disse no seu discurso que era preciso desviar o trabalhador do vício e da taberna”.233
A requisição para o Ministério da Educação teria ocorrido pela mão de Joaquim Trigo de Negreiros, Subsecretário de Estado das Corporações entre 1940 e 1944. Segundo Veiga de Macedo ([2003], p. 48), aquele ter-lhe-ia confidenciado, por ocasião da sua saída do governo em 1961, haver indicado o seu nome a Salazar, havendo ainda fortes razões para supor que esta decisão houvesse sido suportada, por influência de Fernando Pires de Lima e de Mário de Figueiredo. A ser assim, existiriam fortes expectativas de que no desempenho do seu novo cargo, Veiga de Macedo viesse a cumprir as metas do Estado Novo para a cultura popular, com dinamismo e determinação. Tanto Trigo de Negreiros como os seus dois antigos professores de
231
De acordo com o Decreto n.º 24 402, de 24 de agosto de 1934, todos os estabelecimentos industriais e comerciais deveriam encerrar um dia por semana. Este, só em casos excecionais poderia deixar de ser o domingo, ficando neste caso, a fixação do dia de descanso semanal a cargo da respetiva câmara municipal, depois de ouvidos os organismos corporativos interessados e após sujeição à aprovação do INTP. As tabernas ficavam no entanto isentas destas disposições, assim como um conjunto de outros estabelecimentos entre os quais se incluíam os de laboração contínua.
232
Na sessão n.º 120, de 7 de janeiro, Mendes de Matos (1948, pp. 97-102) refere-se aos malefícios provocados pela frequência das tabernas, realçando que “não faltam tabernas que funcionam ao domingo como pequenos clubes revolucionários […]. Fala-se muito do despovoamento dos campos e com razão, mas esquece-se este outro despovoamento de mais funestas consequências ainda e que é o abastardamento das qualidades cívicas e morais do nosso povo”.
233
136
Coimbra teriam atestado as suas qualidades de trabalho e dedicação ao regime corporativo. Parece significativo o facto de Pires de Lima ser à data o Ministro da Educação Nacional a quem iria assessorar, e que o antigo Subsecretário das Corporações, de quem fora subordinado durante os primeiros anos do INTP, o tivesse indicado para a pasta da educação, numa altura em que a organização corporativa se propunha difundir o que definira como cultura popular.
No depoimento acima referido, Veiga de Macedo refere ter ficado surpreendido quando em meados de julho de 1949, Salazar o mandara chamar ao Forte de Santo António no Estoril, comunicando-lhe o “seu empenho” em vê-lo ocupar o cargo de Subsecretário. Tal como acontecera com o episódio da indicação do seu nome por Trigo de Negreiros, só anos mais tarde ao ler a obra Salazar, de Franco Nogueira, havia tomado conhecimento “dos termos honrosos” em que fora proposto pelo Presidente do Conselho, na carta por este enviada a Carmona. Os termos referidos por Nogueira (1980, p. 152) e que talvez por uma questão de modéstia não cita, são elucidativos no que toca à representação da personalidade de Veiga de Macedo e do que dele espera no desempenho do novo cargo: “pessoa modesta, inteligente e de grandes qualidades de trabalho”.
O dinamismo e a determinação com que o novo Subsecretário de Estado da Educação Nacional teria encarado as tarefas em prol da cultura popular que tomaria a seu cargo, e que levariam à elaboração e dinamização do Plano de Educação Popular, estão expressos no rótulo de “novo cavaleiro do abc” e na referência a uma mistura de “leninismo e evangelismo” presentes na sua ação alfabetizadora, atributos conferidos por Rui Ramos (1993, p. 61). Todavia, embora a extinção do analfabetismo se constituísse em termos oficiais como um objetivo a alcançar, todo este percurso não se faria sem a ocorrência de algumas desconfianças e resistências.
138