CAPÍTULO I – A CONSTITUIÇÃO DO SUJEITO E A ESTIMULAÇÃO PRECOCE:
1.1 A CONSTITUIÇÃO DO SUJEITO
1.1.1 A constituição do sujeito com possibilidade de risco psíquico
O acesso à condição de sujeito depende do filhote humano ter passado por este processo: pela função materna, que permite existir através do desejo desse outro da espécie; e pela função paterna que, ao desviar o foco do desejo da mãe, que até então incidia exclusivamente na criança, deixa um espaço livre para a criança ocupar, inaugurando seu próprio desejo e seu próprio questionamento sobre si (BERNARDINO, 2007, p.55).
Na criança com problema no desenvolvimento (decorrente de uma lesão, de uma incapacidade genética ou constitucional), as dificuldades podem situar-se tanto na função materna quanto na função paterna.
Quando este problema revela-se muito cedo, na gestação ou no período em que o bebê está num estado ainda fusional com a mãe, ele afasta-a do lugar de falo materno. Quem exerce a função materna tem, então, seu narcisismo abalado e, por isso, poderá apresentar reações inconscientes de negação, rejeição ou superproteção, prejudicando o aparecimento das quatro operações constituintes do sujeito (estabelecimento da demanda, suposição do sujeito, alternância e alteridade). Battikha (2008) entrevistou mães de bebês que nasceram com alterações orgânicas graves durante o período de internação do bebê na UTIN e constatou que, independentemente da gravidade da alteração sofrida, a marca já a afasta da normalidade e a diferença é o que a denomina. “A maior parte das entrevistadas iniciou seu discurso pelo momento da comunicação diagnóstica: foi quando este bebê passou a ser referido [...]” (BATTIKHA, 2008, p.137). O bebê deixa de ser o objeto de desejo da mãe e passa a ser um objeto de cuidado. Segundo Oliveira (2008), o saber médico é promovido à condição de único saber sobre a criança e o discurso parental é substituído por um discurso científico que passa a orientar o fazer da mãe, “[...] não em nome do desejo, mas em nome do que deve ser feito [...]” (p.4).
A permissão de entrada que a mãe dá ao pai nesta relação para que aconteça o complexo de Édipo, a castração e a entrada da criança no universo simbólico fica limitada na medida em que há um nível fantasmático operante na nossa cultura afirmando que, de um filho deficiente, é a mãe quem cuida. Instaura- se, pois, uma situação de dependência absoluta da criança, que passa a apresentar dificuldade em romper essa relação dual com a mãe e ingressar na cultura. Assim,
acrescenta-se ao quadro da deficiência orgânica, uma estruturação psicótica (BERNARDINO, 2007).
Segundo uma pesquisa realizada por Gomes (2007) para investigar o impacto da psicoterapia breve sobre as representações maternas acerca do desenvolvimento de um bebê com malformação cardíaca detectada intraútero, as representações maternas podem estar distorcidas, havendo necessidade de intervenções psicológicas que adequem estas representações de modo a facilitar o desenvolvimento físico e psíquico do bebê. Diante de uma malformação, de acordo com este estudo, os pais ficam impossibilitados, por uma realidade médica, de ter uma formulação mais concreta de futuro para a criança. Assim, um dos fatores que prejudica o estímulo e o investimento das mães no desenvolvimento dos filhos com malformação tem a ver com a ameaça constante de perdê-los. O afeto fica suspenso, até que haja mais certeza a respeito da sobrevida do bebê (GOMES, 2007).
Existe um tempo de reconhecimento primordial, que possibilita o encontro entre o bebê real e o bebê que foi imaginado e esperado. Esse tempo permite que a mãe atribua os objetos de seu desejo a este bebê que se tornou seu. Qualquer evento que coloque em risco as aquisições do bebê pode interromper este tempo de reconhecimento (CRESPIN, 2004).
Assim, o risco corresponde, além da doença ou da malformação propriamente dita, ao fato que o anúncio do diagnóstico, ou da possibilidade de um, acentua o abismo entre o bebê que foi imaginado e esperado e o bebê real, tornando este encontro impossível. Crespin (2004) pontua que este anúncio, portanto, é capaz de provocar uma “catástrofe subjetiva”, ou seja, um desinvestimento do bebê real, que pode ser traduzido tanto por um abandono como uma superproteção, já que, neste último caso, é a deficiência que se encontra superinvestida, e não o bebê enquanto sujeito que se torna um objeto mero de cuidados.
Podemos, então, considerar que não só uma malformação orgânica detectada nos períodos pré, peri e pós-natal, mas qualquer intercorrência que coloque em risco o desenvolvimento físico do bebê, o colocará também em risco quanto ao seu desenvolvimento psíquico. Portanto, basta que haja um parto prematuro para que estas formulações sobre o futuro estejam ameaçadas e coloquem em risco o processo de filiação e constituição do sujeito.
Partindo deste pressuposto, podemos afirmar que, não é propriamente uma limitação do bebê, mas uma limitação da mãe em reconhecê-lo como objeto de seu desejo, como falo (BERNARDINO, 2007). Segundo Crespin (2004), uma mãe deprimida ou psiquicamente ausente na relação passa para o bebê uma imagem dele mesmo que é problemática. O bebê não recebe de volta o que oferece à mãe, produzindo um retraimento, passando a olhar para o nada.
A limitação pode ser também física, no caso de internações da mãe ou do bebê que impossibilitam o contato entre eles, ou até mesmo nos casos em que o bebê, apesar de estar junto à mãe, não pode ser amamentado por ela. Para Farias (1998),
A mãe que se distancia do seu filho nos momentos iniciais de vida, não se oferece à especularidade. Ao não se situar na função materna, uma insuficiente inscrição pulsional, ocasiona irregularidades no funcionamento das funções. O funcionamento fica desprovido de todo registro imaginário e simbólico, ficando impossibilitada a organização das funções instrumentais (p. 91).
Uma pesquisa, realizada em 2005 pelo Instituto de Saúde Coletiva, pelo Departamento de Psicologia e pelo Departamento de Fonoaudiologia da Universidade Federal da Bahia, analisou a associação entre a qualidade do estímulo doméstico e o desempenho cognitivo infantil e revelou a importância da dinâmica familiar para o desenvolvimento global da criança. Os pesquisadores apontaram a pertinência de ações de intervenção que favoreçam a relação cuidador-criança para o desenvolvimento (ANDRADE, 2005). Embora não seja um estudo com base teórica psicanalítica, podemos usá-lo para refletir acerca das relações estabelecidas entre crianças e seus cuidadores como catalisadoras do desenvolvimento cognitivo infantil e a necessidade de compreender um problema do desenvolvimento também no âmbito simbólico, para melhor fundamentar uma intervenção voltada para bebês e crianças, seja ela no campo clínico ou educacional.
Ao dar ênfase no déficit em si, à lesão orgânica, à incapacidade constitucional, adotamos uma concepção de homem puramente biológico. Além disso, modelos de intervenção que colocam o quadro clínico acima do sujeito, exercem um papel dessubjetivante, pois impedem que os movimentos de antecipação e inscrição no campo Simbólico tornem-se efetivos. Em outras palavras,
um diagnóstico preciso pode ter efeitos iatrogênicos quando passa a representar uma verdade única, absoluta e imutável.
Atualmente, as neurociências, com a descoberta da plasticidade neuronal, possibilitam a articulação entre o organismo e os conceitos de sujeito e desejo já que permitem compreender como as intervenções, sejam elas clínicas ou educacionais, quando aplicadas em um contexto de significações capaz de despertar o interesse da criança, dando lugar ao desejo, podem ser eficazes até mesmo reorganizando a estrutura cerebral antes lesionada (BERNARDINO, 2007).
Cada ser humano pertence a uma família na qual recebe um lugar e passa a fazer parte de uma história. Tem direito a apropriar-se desses elementos simbólicos e a estruturar sua personalidade a partir das relações que vivencia. Esse é o ponto essencial a ser considerado, quer se trate de uma criança que tem um curso de desenvolvimento considerado normal, quer tenha recebido um diagnóstico de deficiência, lesão cerebral, psicose, delinquência, neurose (BERNARDINO, 2007, p.50).
1.2 A ESTIMULAÇÃO PRECOCE