CAPÍTULO 2: DESEJO E PODER
2.3 A CONSTITUIÇÃO ERÓTICA NA ROMA ANTIGA
A guerra tinha uma importância enorme para a economia do império. Delas, os romanos conseguiam escravos e extraiam riquezas das colônias. Por conta disso, a formação do povo tinha de girar em torno desse meio de sustento. Era preciso preparar os espíritos dos romanos para a guerra, fortalecê-los com ideais que enaltecem a unidade e à pátria.
E se Roma atingiu tão rapidamente essa espécie de invulnerabilidade que a protege diante dos inimigos, é porque as tradições e os costumes lhe asseguram uma superioridade de fato sobre todos os outros homens: austeridade, disciplina, fidelidade aos compromissos, uma honestidade rígida fazem dela uma cidade única entre todas as outras125.
O historiador Pierre Grimal cita que os romanos sempre exibiram atitudes de elevada exigência moral. Eles haviam fixado para si um ideal de virtude que remeteram para o passado, dando a este valor de mito a ser alcançado. Essa virtude dos romanos é feita de uma dedicação extrema aos valores da pátria. O fim dessa moral romana é claro: a subordinação da pessoa à cidade, que necessitava de habitantes dispostos a se sacrificar por ela nas guerras.
É muito provável que esta concepção tirânica do dever cívico tivesse sido imposta, sobretudo pela sociedade patrícia que tomou o poder em 509 a.C; foi a gens que contribuiu para manter a hierarquia estrita dos elementos sociais, assegurando materialmente a dependência dos indivíduos em relação ao clã126.
124 FOUCAULT, Michel; História da sexualidade v.2. São Paulo: Graal, 2003, p.190 125 GRIMAL, Pierre. A Civilização Romana. Lisboa: Edições 70, 2001, p.65
74 A disciplina, o respeito e a fidelidade aos compromissos constituíam um ideal para os romanos. É fundamental para homem de Roma ter uma boa reputação e um bom nome e deixar, após a morte, a lição de virtude para sua família e seus conhecidos. O túmulo é um monumento para recordar as ações do falecido. O reconhecimento por uma vida dedicada aos valores de Roma era uma das formas que o império encontrava de estimular em sua população os valores que eram tão fundamentais a sua economia.
Este desejo de glória, de renome eterno, é sem dúvida a vingança do indivíduo que a sociedade reprimia, em vida, de mil maneiras: magistrado, não podia prosseguir a sua obra para além de um ano, chefe militar, se não tinha a sorte de obter qualquer vitória decisiva durante o seu comando, cabia ao sucessor a colheita dos louros. É perante a morte que volta a ser ele próprio, que a vida adquire valor exemplar na medida em que respeitou a disciplina em todas as suas formas: virtus, pietas e fides127.
Na Grécia, os jovens se formavam no ginásio e a sua cultura intelectual vinha para completar a educação do corpo. Os esportes eram um exercício com um fim em si, uma arte. Em Roma, essa prática de ginástica pura foi ignorada. Os exercícios dos jovens eram uma preparação para a guerra, sem arte, sem preocupação estética.
Os ganhos das guerras e da exploração das colônias eram concentrados nas mãos de pouquíssimos habitantes. Assim como na Grécia, havia uma distinção entre os homens livres e os escravos. Estes eram o despojo das vitórias do império, que serviam a seus senhores como lhes conviesse. Com a enorme concentração de renda, os romanos tinham prazer em esbanjar luxo e riqueza.
Roma, a mais rica de todas [as cidades], era aquela em que se ostentavam um luxo por vezes incrível – embora pareça muito mesquinho ao lado do esbanjamento que outros séculos conheceram – mas o resto do povo fazia mais do que recolher as migalhas ou, pior ainda, do que obter pequenas parcelas à custa de um trabalho esgotante e sem tréguas128.
As mulheres tinham uma paixão tão exagerada pelo luxo a ponto de alguns historiadores terem atribuído a isso o declínio do império, devido ao enorme gasto com importações. Elas se contentavam com isso frente ao fato de não terem direitos plenos e de ficarem basicamente restritas ao lar. As
127 Ibidem, p.72
75 esposas supervisionavam os cuidados com a casa e se ocupavam com futilidades. Não se diferenciava muito do papel das gregas. Já as mulheres pobres não tinham escolha. Sob condições precárias de vida, eram obrigadas a vender o que quisesse que se comprasse, inclusive elas mesmas.
Diferente da Grécia, em que o casamento servia para fins de procriação e para se garantir uma segurança na velhice, em Roma o matrimônio era a forma de se legitimar a descendência. Era, antes de tudo, um contrato por motivos econômicos ou políticos. A forma mais comum era a de usus, que só tornava a união legal depois de um ano de convivência. Enquanto isso, a mulher continuava pertencendo ao pai. Essa espécie de estágio probatório era benéfica aos dois cônjuges. Outro tipo de matrimônio era o coemptio, em que se comprava a mulher pagando em dinheiro ao pai da noiva.
O exagero prevalecia entre os homens livres. Era uma forma de se extrapolar a repressão e as exigências da vida pública, cheia de moralidades e demandas por virtude e severidade. Se na vida pública, havia uma série de restrições, no sexo tudo era permitido.
O conto do romano casto, corrompido pelos “maus vizinhos” – os gregos –, realmente é um conto. Deleitar-se em fartura de comida, de bebida e orgias não significa “viver à grega”, pois alugar, comprar mulheres e viver entregue aos prazeres era costume comum entre os romanos129.
Gregos e romanos consideravam a prostituição uma peça importante na ordem social. Garantia a segurança das mulheres casadas e era vista como uma necessidade à higiene pública. Contando que os homens e as mulheres que se prostituíssem não fossem de nascimento livre, tudo era permitido, como comprar, alugar, raptar. Até as crianças que fossem escravas poderiam servir para a prostituição.
O império romano dependia substancialmente da guerra para sua manutenção. Para isso, era necessário que os homens estivessem dispostos a lutar e a morrer pela pátria. O comportamento que era encorajado era justamente o que reforçava essa servidão. Os romanos tinham de ser austeros, disciplinados e fiéis às causas de Roma. Exigia-se muito, mas quem estivesse
129 CABRAL, Juçara Teresinha. A Sexualidade no Mundo Ocidental. São Paulo: Papirus,
76 disposto a cumprir as demandas tinha a glória eterna de seu nome como
recompensa. As orgias que os romanos participavam – e que contavam com
pessoas de todas as classes – ajudavam a diminuir tensão da severidade que
era exigida. Tudo era feito com muito exagero e além do sexo, havia comida e principalmente muita bebida. Terminava com vômitos; como que se para limpar a alma e se preparar novamente para as obrigações da vida pública. O luxo e a luxúria eram válvulas de escape das tensões de Roma. Para os ricos, ao menos.