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CAPÍTULO 2: DESEJO E PODER

2.1 DISCURSO E PODER EM FOUCAULT

O discurso sobre o sexo não é apenas um discurso sobre o ato sexual. Sob tal pano de fundo, é possível perceber toda uma tecnologia da vida, ao ser o sexo um ponto importante de disputa política. A sexualidade diz respeito às

disciplinas do corpo – ajustamentos, economia de energia e distribuição de

forças –, à regulação das populações, a uma série de micropoderes que

possibilitam a vigilância e o controle sobre a relação que os homens têm

consigo mesmos. É matriz das disciplinas e princípio das regulações107. Daí a

importância de se observar os discursos, pois eles são a materialidade das relações de poder.

Quero dizer que em uma sociedade como a nossa, mas no fundo em qualquer sociedade, existem relações de poder múltiplas que atravessam, caracterizam e constituem o corpo social e que estas relações de poder não podem se dissociar, se estabelecer nem funcionar sem uma produção, uma acumulação, uma circulação e um funcionamento do discurso. Não há possibilidade de exercício do poder sem uma certa

106 MEZAN, Renato. Interfaces da psicanálise. São Paulo: Companhia das Letras, 2002, p.

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economia dos discursos de verdade que funcione dentro e a partir desta dupla exigência108.

A relação de poder já se instaura no desejo. Neste sentido, o detentor do discurso (como Lacan demonstra no seu estudo sobre a relação de objeto) é o seu incitador por excelência, aquele que irá dar significado e estrutura a ele. Foucault diz que o discurso não é apenas aquilo que manifesta (ou oculta) o desejo. É aquilo que é objeto dele. “O discurso não é simplesmente aquilo que traduz as lutas ou os sistemas de dominação, mas aquilo por que, pelo que se

luta, o poder do qual nos queremos nos apoderar”109.

Outro cuidado necessário diz respeito à apreensão do discurso e ao modo de sujeição à conduta moral, ou seja, à maneira com que o indivíduo estabelece sua relação com essas regras e reconhece a exigência de colocá- las em prática.

Por moral, compreende-se um determinado conjunto de valores e regras de ação propostos aos indivíduos por meio de aparelhos normativos diversos, como a família, a igreja, a escola. A moral, no entanto, também pode ser compreendida como o comportamento real dos indivíduos em relação às regras que lhe são propostas, ou seja, a maneira pela qual obedecem ou resistem, respeitam ou negligenciam um conjunto de valores, o que demonstra certo grau de variação e de transgressão das regras que lhes são transmitidas, direta ou implicitamente, algo que sempre deve ser levado em conta.

De tal modo, Foucault distingue a regra de conduta da conduta que se

pode medir a essa regra. A não realização de determinado desejo – a

infidelidade, por exemplo – pode acontecer por respeito às regras, por temor às

punições, por empatia ou afeto ao sujeito que será afetado por essa ação ou por uma vontade de se transformar em sujeito moral da própria conduta. As justificativas pelas quais os indivíduos se sujeitam às regras de ação irão

proporcionar efeitos diversos para a economia psíquica – e isso deverá ser

sempre levado em conta.

108 FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 2005, p.179. 109 FOUCAULT, Michel. A Ordem do Discurso. São Paulo: Edições Loyola, 1996, p.10.

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Dessa forma, a austeridade sexual pode ser praticada por meio de um longo trabalho de aprendizagem, de memorização, de assimilação de um conjunto sistemático de preceitos e através de um controle regular da conduta, destinado a medir a exatidão com que se aplicam essas regras; pode-se praticá-la sob a forma de uma renúncia brusca, global e definitiva aos prazeres; como também sob a forma de um combate permanente, cujas peripécias – até os fracassos passageiros – podem ter sentido e valor; ela pode também ser exercida através de uma decifração tão cuidada, permanente e detalhada quanto possível, dos movimentos do desejo, sob todas as formas, mesmo aquelas mais obscuras sob as quais ele se oculta110.

Uma ação, portanto, não é moral somente em si mesma, mas também pelo lugar que ela ocupa no conjunto da sua conduta.

A ação moral, além de comportar uma relação ao código a que se refere, implica também a constituição de si enquanto “sujeito moral”, definindo a sua posição em relação ao preceito respeitado, pela própria natureza deste respeito e pelo seu significado para o sujeito. Em sociedade que valorizem os aspectos punitivos da insubordinação, que estimulem castigos, os efeitos psíquicos das conduta e o peso das instituições na manutenção da conduta moral são muito diferentes das sociedades em que a experiência moral faz parte de uma busca espiritual e ascética.

Se de fato for verdade que toda “moral”, no sentido amplo, comporta os dois aspectos que acabo de indicar, ou seja, o dos códigos de

comportamento e os das formas de subjetivação; se for verdade eles jamais podem estar inteiramente dissociados, mas que acontece deles se desenvolverem, tanto um quanto o outro, numa relativa autonomia, é necessário também admitir que em certas morais a importância é dada sobretudo ao código, à sua sistematicidade e riqueza, à sua capacidade de ajustar-se a todos os casos possíveis, e a cobrir todos os campos de comportamento; em tais morais a importância deve ser procurada do lado das instâncias de autoridade que fazem valer esse código, que o impõem à aprendizagem e à observação, que sancionam as infrações; nessas condições, a subjetivação se efetua, no essencial, de uma forma quase jurídica, em que o sujeito moral se refere a uma lei ou a um conjunto de leis às quais ele deve se submeter sob a pena de incorrer em faltas que o expõem a um castigo111.

O que este capítulo irá observar – após ter em mente as relações de

poder, de discurso e de moral – é quem produz o discurso sobre o sexo ao

longo de alguns momentos da história, sob que condições ele é produzido,

110 FOUCAULT, Michel; História da sexualidade v.2. São Paulo: Graal, 2003, p. 28. 111 Ibidem, p.29.

62 para quem ele é direcionado e a quem (e a o que) ele beneficia. É preciso pensar o sexo não enquanto natureza, mas enquanto história, significação, discurso, verdade. Ao procurarmos descobrir como está o sexo, descobrimos mesmo como estamos nós.

Os quatro períodos escolhidos para a análise neste capítulo são: a Grécia antiga, pela produção de uma arte erótica; o surgimento do estoicismo romano e a revolução cristã; o regime feudal da idade média; a revolução industrial, o vitorianismo e o surgimento de uma ciência do sexo. A escolha desses momentos se deve às reverberações que têm tanto na estrutura econômica de hoje quanto na relação com o corpo e com o sexo, tema do próximo capítulo.