O segundo ponto diz respeito ao nosso texto constitucional. As constitui ções federais do ocidente são documentos históricos políticos ideológicos que refletem o andamento do pensamento jurídico da humanidade. Tanto é verda de que a primeira Constituição do pósguerra, da Segunda Grande Guerra, a Constituição alemã, traz exatamente, por força desse movimento, desse pen samento jurídico humanitário, no seu art. 1º, que a dignidade da pessoa huma na é um bem intangível. Foi a experiência com o nazismo da Segunda Guerra Mundial que fez com que as nações escrevessem, produzissem textos consti tucionais reconhecendo esse elemento da história. Não tem sentido que o di reito não venha reconhecer esse avanço do pensamento humano.
Isto foi feito, como dito, logo pela Constituição Federal alemã. Agora, a Constituição Federal brasileira de 1988 também o fez no art. 1º, III: a dignidade da pessoa humana é um bem intangível.
Quando examinamos o texto da Constituição Federal brasileira de 1988, percebemos que ela inteligentemente aprendeu com a história e tam bém com o modelo de produção industrial que acabamos de relatar. Podemos perceber que os fundamentos da República Federativa do Brasil são de um regime capitalista, mas de um tipo definido pela Carta Magna. Esta, em seu art. 1º, diz que a República Federativa é formada com alguns fundamentos, dentre eles a cidadania, a dignidade da pessoa humana e, como elencados no inc. IV do art. 1º, os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa2.
E sobre esse último aspecto, devese fazer um comentário específico. Temse dito, de forma equivocada, que esse fundamento da livre iniciativa na República Federativa do Brasil é o de uma livre iniciativa ampla, total e
2. “Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constituise em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos: I — a soberania; II — a cidadania; III — a dignidade da pessoa humana; IV — os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa; V — o pluralismo políti co. Parágrafo único. Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição.”
irrestrita. Na verdade, é uma leitura errada e uma interpretação errônea do texto. O inciso IV do art. 1º é composto de duas proposições ligadas por uma conjuntiva “e”: “os valores sociais do trabalho ‘e’ da livre iniciativa”. Para interpretar o texto adequadamente basta lançar mão do primeiro crité rio de interpretação, qual seja, o gramatical. Ora, essas duas proposições ligadas pela conjuntiva fazem surgir duas dicotomias: tratase dos valores sociais do trabalho “e” dos valores sociais da livre iniciativa. Logo, a inter pretação somente pode ser que a República Federativa do Brasil está fun dada nos valores sociais do trabalho e nos valores sociais da livre ini ciativa, isto é, quando se fala em regime capitalista brasileiro, a livre iniciativa sempre gera responsabilidade social. Ela não é ilimitada.
Assim, quando chegarmos ao art. 170 da Constituição Federal, que trata dos princípios gerais da atividade econômica, com seus nove princí pios, esses elementos iniciais têm de ser levados em conta. O regime é capitalis ta, logo há livre iniciativa, ela é possível, e aquele que tem patrimônio e/ou que tem condições de adquirir crédito no mercado pode, caso queira, em preender algum negócio3.
3. Mais adiante comentaremos os Princípios Gerais da Atividade Econômica, no Capítulo 3, item 3.10.
2. PRINCÍPIOS E NORMAS CONSTITUCIONAIS
Veremos adiante que o sistema da Lei n. 8.078/90 é, ele próprio, for mado por princípios que hão de ser respeitados pelo intérprete.
Porém, antes de ingressarmos no exame do arcabouço dogmático do CDC, é necessário que conheçamos as normas constitucionais às quais ele está ligado e que, portanto, devem dirigilo. Além disso, é forçoso que se reconheça, da mesma forma, os princípios constitucionais que conduzam à interpretação não só do próprio texto magno como também do CDC.
A Constituição, como se sabe, no Estado de Direito Democrático, é a lei máxima, que submete todas as pessoas, bem como os próprios Poderes Legislativo, Executivo e Judiciário.
As normas constitucionais, além de ocuparem o ápice da “pirâmide jurídica”, caracterizamse pela imperatividade de seus comandos, que obri gam não só as pessoas físicas ou jurídicas, de direito público ou de direito privado, como o próprio Estado.
O que se está procurando ressaltar é que a Carta Magna exprime um conjunto de normas supremas, que demandam incondicional observância, inclusive pelo legislador infraconstitucional. Não é por outro motivo que se diz que a Constituição é a lei fundamental do Estado.
A título de nota leiase o que diz Canotilho a respeito. Para ele a su perioridade hierárquica da Constituição revelase em três perspectivas:
“(1) as normas do direito constitucional constituem uma ‘lex superior’ que recolhe o fundamento de validade em si própria (‘autoprimazia normativa’); (2) as normas de direito constitucional são ‘normas de normas’ (‘norma nor marum’), afirmandose como fontes de produção jurídica de outras normas (normas legais, normas regulamentares, normas estatutárias, etc.); (3) a supe rioridade normativa das normas constitucionais implica o princípio da confor midade de todos os actos dos poderes políticos com a constituição”4.
Logo, não há como duvidar que as normas jurídicas mais importantes encontramse na Constituição. É ela que indica quem detém os poderes estatais, quais são esses poderes, como devem ser exercidos e quais os di reitos e garantias que as pessoas têm em relação a eles.
Mas mesmo na Constituição existem normas mais relevantes que outras. Essas, mais importantes, são as que veiculam princípios, verdadeiras dire trizes do ordenamento jurídico. É deles que nos ocuparemos.
Naturalmente, não vamos aqui fazer uma abordagem completa de todos os princípios constitucionais que norteiam a interpretação do texto consti tucional. O que nos interessa são os princípios — e também as normas constitucionais — que afetam o sentido das normas e princípios estatuídos no CDC5, na parte do direito material6. Por isso vamos intitulálos princí pios do direito material do consumidor na Constituição Federal.