2. REVISÃO DE LITERATURA
2.3 A CONSTRUÇÃO DAS IDENTIDADES NA PÓS MODERNIDADE
2.3.3 A CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE SEGUNDO CASTELLS
Castells (1999) define identidade como “um processo de construção de significado com base em um atributo cultural, ou ainda em um conjunto de atributos culturais inter-relacionado, os quais prevalecem sobre outras fontes de significado”. (p. 23) Tratando de identidades individuais ou coletivas, Castells coloca que estas podem ser múltiplas, interferindo tanto na auto representação quanto na ação social do sujeito. É essa ação social que diferencia a identidade do conceito de papeis sociais, a medida que o ser identifica-se com determinadas normas definidas pelas instituições e organizações da sociedade, assumindo características relacionadas ao papel exercido em um dado momento perante os outros.
A identidade, por sua vez, estabelece-se num processo de individuação, consolidando-se a partir da assimilação e internalização de algumas características e fontes de significado pelo próprio sujeito. As identidades são auto definições atuando na organização de significados diante de um processo mais complexo que o de papeis, que organizam funções. Isto porque a finalidade da ação exercida pelo sujeito é o que define esse significado, de caráter simbólico.
As identidades são mediadas e construídas por relações de poder pois quem constrói e a função a ela atribuída depende daqueles que determinam o conteúdo simbólico bem como aqueles que a ela se identificam ou não, atribuindo-lhe significado. Entender as diversas circunstancias (históricas, biológicas, políticas, institucionais, individuais, etc) que deram origem a identidade ao serem processadas e organizadas pelos grupos e sociedades, auxiliam a compreender por quê, como, a partir de quem e pra quê as identidades se desenvolveram.
Segundo Castells (1999), elas integram-se a tendências sociais, projetos culturais e a visão de tempo/espaço dos atores sociais. Nesse contexto de construção das identidades, elas assim se agrupam em identidade legitimadora, de resistência ou de projeto. Conferem benefícios aos grupos que delas se apoderam, não sendo um fim em si mesma, podendo evoluir e transformar-se em outra categoria, cada uma resultando num modelo de sociedade.
A identidade legitimadora está ligada a origem da sociedade civil tida como um conjunto de organizações e instituições e aparatos de poder do Estado como a Igreja, a família, sindicatos, partidos, entidades cívicas, tidas como uma continuação do poder legitimador do Estado e uma estrutura enraizada entre as pessoas. Esta também pode ser formada por atores sociais estruturados e organizados, que ao reproduzirem determinados valores, reafirmam as fontes de dominação estrutural.
A identidade destinada a resistência remete a origem das comunidades que se formam a partir de um desejo de resistência coletiva a opressão, dominação, exclusão, contrária as identidades claramente definidas pela história, biologia, ou geografia, definidas de forma específica como forma de defesa as condições impostas pelas ideologias/ instituições dominantes ou reforçando os limites da resistência. Essas identidades podem ser resultado de um sentimento de alienação ou uma resposta a exclusão injusta e segregacionista que pode ser de caráter politico, econômico ou social.
Assim, o poder dominante pode estimular as identidades de resistência revertendo valores e excluindo através dos excluídos, reafirmando a dominação. Em outro contexto, pode ser superada pelas novas ideologias definindo a nova configuração da sociedade que transforma-se em diversas tribos ou comunidades pelos que se sentem alheios a ela, ou continuando do jeito que está.
A identidade de projeto atua na produção de sujeitos tidos como atores sociais coletivos através dos quais os indivíduos atingem seus objetivos. Configura-se na construção da identidade a partir de um projeto de vida alheio ao vigente, com novas regras e características que podem evoluir na constituição de outra sociedade a partir dessa identidade. Ao buscar-se uma transformação da sociedade, evidencia-se o desejo de satisfação das necessidades humanas, alterando toda a estrutura social.
Tendo em vista que as identidades são construídas, devendo estar inseridas num contexto histórico específico, Castells (1999) analisa as identidades no contexto da sociedade em rede marcada por uma desarticulação entre o local e o global para grupos e indivíduos, fazendo com que o planejamento reflexivo da auto identidade do sujeito torne-se impossível. Destaca-se a falta de referências e marcos que respondam a continuidade entre a criação do poder e a representação para sociedades específicas, não legitimando a influência das instituições e organizações dominantes.
A falta de identificação e identidades segregadas assim surge no processo de reconstrução das identidades defensivas buscando significado em meio às transformações sociais da sociedade em rede e as intercorrências contraditórias decorrentes desse contexto. Princípios comunais de
resistência orientam essa construção. As identidades de projeto dependem da sociedade que se inserem sendo os sujeitos um prolongamento da resistência comunal.
A identidade de projeto surge da resistência comunal, dando um novo significado para a política da identidade na sociedade em rede. A exemplo destaca-se o fundamentalismo islâmico que tem sua origem vinculada a extrema exposição dessa região aos processos de globalização, ao nacionalismo e ao estado nação. Nelas, as instituições e organizações e atores sociais são submetidas aos preceitos religiosos incontestáveis e aos regimentos do Corão, definindo uma mesma base cultural, política e religiosa. Além disso, os movimentos islâmicos vinculam-se a crise das sociedades tradicionais, a queda do estado nação no intuito de concluir o processo de modernização, tentando beneficiar grande parte da população, sendo a identidade islâmica uma oposição a ordem vigente pós-industrial.
Percebe-se a construção de uma nova identidade e de nova sociedade com sentimento divino e comunal, buscando reintegração das classes excluídas e marginalizadas. Realidade parecida é apresentada pelo autor ao debater o fundamentalismo cristão norte americano. Um movimento reativo e de resistência destinado a construção da identidade pessoal e social, visando um futuro utópico em defesa dos valores morais e cristãos, diante das ameaças da globalização e da queda do patriarcalismo, através de processos políticos. Tentavam restaurar o estilo de vida do passado através da religião e dos valores tementes a Deus.
Castells (1999) coloca que na configuração de sociedade em rede marcada por um mundo de redes e fluxos, na qual imagens são combinadas e novos sentidos são atribuídos, significados são reconstruídos a medida que a etnia não oferece o suporte necessário para os chamados paraísos comunais da sociedade. Esta está fundamentada em vínculos primários que não encontram suporte quando desvinculados de seu contexto histórico, não sendo uma base forte para organização das identidades. Necessitam de comunas culturais que tenham uma dimensão mais ampla que etnia como nacionalismo e religião, sendo as matrizes étnicas reordenadas, reprocessadas, estigmatizadas num mundo de acordo com a nova ordem global que produzem novos símbolos em meio a identidades em crise e incertas. A etnia produz comunidades locais e unidades de auto defesa não sendo capaz de desenvolver significados.
Catellls (1999) rebate a ideia de desaparecimento das comunidades em virtude do crescimento das cidades que, por sua vez, induzirá o surgimento de redes sociais locais ou a transformação das já existentes pela associação de outras fontes de significado e reconhecimento social. Argumenta, pois que as pessoas tendem a agrupar-se em organizações comunitárias
desenvolvendo com o tempo um sentimento de pertencimento que pode culminar numa identidade cultural através da mobilização social atuado nos movimentos urbanos que tenham interesses coletivos que são compartilhados e reproduzidos. Esses movimentos urbanos apresentariam segundo o autor três características principais: necessidades urbanas de condições de vida e consumo coletivo, afirmação da identidade cultural local, conquista da autonomia legal e participação na qualidade de cidadãos.
Diferentes efeitos foram constatados dependendo da complexidade, mas a simples existência deste já produz consequências para a comunidade e os atores envolvidos. Esses movimentos urbanos são a principal expressão de resistência a logica vigente capitalista e as transformações tecnológicas e informacionais como forma de organizar-se em busca da luta pelo território, tida como a fonte primitiva de reconhecimento de um povo. Ao gerar significado e identidade, o apego ao território garante uma proteção contra as adversidades e ameaças num mundo de desconhecimento como ocorre com os movimentos ambientalistas. De caráter reativo e defensivo, esses movimentos revelam a luta pelo seu próprio território, no que tange a conservação e garantia da sua integridade, fazendo emergir identidades distintas a medida que espaços defensivos levam ao individualismo coletivo.
Os movimentos das comunidades de baixa renda ao redor do mundo em busca da sobrevivência coletiva, gerando um sentimento de revitalização e reconhecimento, muitas vezes incorporadas a crença religiosa. Esses movimentos urbanos, uma vez que não tiverem seus apelos e anseios atendidos, retornarão com mais força, decididas a alcançar seus objetivos, gerando possibilidades alternativas para auto identificação, reforma e sobrevivência, na falta de movimentos sociais de maior dimensão capazes de culminar em transformações sociais mais efetivas.
Diante da nova configuração da sociedade em rede, o autor destaca as chamadas culturas de urgência, marcadas pela intemporalidade e incerteza diante do futuro de sua existência face a um mundo de mudanças e alterações constantes. Convive-se com a constante do fim dos tempos em que não se sabe o que será do dia de amanhã, necessitando-se que tudo seja experimentado e sentido como se fosse o último, na perspectiva de um individualismo (pois o indivíduo torna-se a medida de todas as coisas) que necessita de uma comuna para se legitimar e tornar-se uma identidade, compartilhando valores e apoio mútuo. As culturas de urgência podem emergir e consolidar-se a qualquer momento pois são a expressão de insatisfação a intemporalidade, marca maior da sociedade em rede, explodindo na figura do território.
Enfim, as comunidades locais, construídas por meio da ação coletiva e preservadas pela memória coletiva, constituem fontes específicas de identidades. Essas identidades, no
entanto, consistem em reações defensivas contra as condições impostas pela desordem global e pelas transformações, incontroláveis e em ritmo acelerado. Elas constroem abrigos e não paraísos. (CASTELLS,1999, p. 84)
As comunidades de cunho religioso, nacional ou territorial oferecem, dentro do mundo de transformações e inovações de distintas naturezas, a base necessária para a construção de significados em nossa sociedade, principalmente aqueles que resistiram ou não se adaptaram ao processo de individualização da identidade sofrida pela sociedade pós-moderna.
Dentre as marcas dessas comunidades culturais, observa-se o caráter de reação a ordem imposta e aos padrões da contemporaneidade, a natureza de identidade defensiva em meio as ameaças do mundo externo, servindo de refúgio e solidariedade além de serem “construídas culturalmente, isto é, organizadas em torno de um conjunto específico de valores cujo significado e uso compartilhado são marcados por códigos específicos de auto identificação: a comunidade dos fieis, os ícones de nacionalismo, a geografia do local. “ (p. 84) Essas comunidades são construídas, ou melhor, de forma material, por reações e projetos desenvolvidos a partir de determinantes geográficas e históricas.
Ao relacionar o fundamentalismo religioso, nacionalismo cultural e as comunas territoriais, o autor destaca o novo caráter da identidade na sociedade em rede, marcando esses movimentos como movimentos de reação, derivados a perdas e alterações drásticas as quais os indivíduos estão sujeitos na contemporaneidade.
A perda de referências no tempo e espaço levam o homem a voltar-se ao seu território e espaços específicos que remetem a memória, a queda do patriarcalismo renova os valores ligados a família e a comunidade ligados a orientação e vontade divina, a expansão do universo por meio das redes de tecnologia e informação no contexto de globalização induzem em contrapartida, como reação, ao seu tamanho original capaz de controlar.
As ameaças são de três vertentes: “a globalização, que dissolve a autonomia das instituições, organizações e sistemas de comunicação nos locais onde vivem as pessoas; a formação de redes e a flexibilidade, que tornam praticamente indistintas as fronteiras de participação e envolvimento, individualizam as redes sociais de produção e provocam a instabilidade estrutural do trabalho, do tempo e do espaço; e à crise da família patriarcal ocorrida nas bases de transformação dos mecanismos de criação de segurança , socialização, sexualidade e, consequentemente, de personalidades”. (CASTELLS, 1999, p. 85)
A medida que os novos processos de dominação e poder estão fundamentados nas redes de informação, os novos códigos e padrões de comportamento que caracterizam a identidade devem
ser construídos nos fluxos reversos de informação, voltando-se a símbolos tidos como indissociáveis como a família, Deus, a nação e a comunidade, que servirão de escudo contra a cultura da sociedade em rede. A cultura não pode sofrer com os processos de informacionalização, pois seus valores eternos não podem ser dissolvidos pela tecnologia gerando a identidade de resistência. A desarticulação das redes das sociedades civis e instituições políticas através do desaparecimento gradativo do estado nação implicaram na crise da identidade legitimadora e na eclosão de comunidades culturais marcadas pela identidade de resistência levaram ao fechamento dessas fronteiras.
Fica em voga a capacidade coletiva dessas comunidades em detrimento do interesse individual oferecendo abrigo, isolamento, certeza, e proteção para seus membros. À medida que se rompem com as instituições anteriores fechando-se num paraíso comunal, essas comunidades podem desenvolver novos sujeitos em torno de uma identidade de projeto que definirá os rumos da sociedade bem como a dimensão e complexidade da resistência cultural.
A partir da análise de movimentos sociais distintos representantes da grande diversidade de fontes de resistência a nova ordem, global, Castells (1999) define movimentos sociais por meio de suas práticas, principalmente discursivas e seus valores além dos processos sociais que os deram origem como globalização, informacionalização, crise da democracia representativa, predominância da política simbólica no espaço da mídia. São os movimentos em favor das identidades legitimadora, de resistência e de projeto. Todos eles representam o atual estagio da humanidade em busca da evolução e transformação social do mundo, de naturezas e intensidades diferentes, indicando novos conflitos sociais, demonstrando o poder e o alcance das identidades ou auto definição no contexto da mobilização coletiva, ao provocar impactos significativos nos contextos que se inserem. Grande parte desses movimentos reafirma o desejo de restauração e defesa da identidade étnica das comunidades que tiveram suas identidades originais fragmentadas e reunidas a condição de camponeses lutando pelo que compartilham contra a nova ordem econômica, política e social, sendo esta identidade, portanto, construída por meio da luta e dos objetivos de cada comunidade.
Montando um paralelo dos três movimentos sociais analisados no bojo das transformações sociais da sociedade em rede a partir das categorias por ele definidas, o autor conclui que todas elas estavam, de certa forma, contra os novos agentes da ordem vigente global que iria instaurar a dominação e submissão de determinadas potências e culturas hegemônicas aos demais países e povos. Todos eles lutam contra esse inimigo declarado como forma de reafirmar sua identidade
específica, individual ou de grupo fazendo disso sua bandeira de resistência ao verem comprometidas sua legitimidade e sobrevivência diante dessas alterações e interesses distintos, numa forma de exaltação e resgate da autenticidade de suas identidades. O uso da tecnologia da informação e o alcance de seus ideais gerado pela mídia são pontos que unificam os três movimentos analisados sob a lógica da sociedade em rede e da informacionalização que orienta a construção da identidade.
Castells debate a era atual da sociedade marcada pelo caráter diferenciado da comunicação na representação cultural ao integrar a escrita, as imagens e os sons na produção da linguagem contemporânea. Um novo sistema tecnológico responsável por mudanças drásticas na cultura cada vez mais perceptível com o passar do tempo que, juntamente a interatividade potencial e alcance global de sua configuração, evidencia sua descentralização e evolução tecnológica face a continuidade social. Esse novo sistema de comunicação define o que se caracteriza de cultura da virtualidade real, evidenciada pelo alcance e dimensão que a televisão tomou na vida das pessoas, capaz de penetrar de forma tão rápida no cotidiano sem muito esforço psicológico, preenchendo o vazio da vida moderna após árduos períodos de trabalho.
Elemento essencial da cultura de massa, a tv representa o poder e controle exercido pelos governos e lideranças diretas através do novo sistema tecnológico de comunicação eletrônica, tornando-se um objeto de centralização e doutrinação. Sua capacidade de nivelamento social e homogeneização dos telespectadores produzindo uma linguagem acessível a todos, possibilita o amplo alcance desse meio, também caracterizado pelo poder de sedução, estimulação sensorial da realidade além da facilidade de comunicação que esta estabelece.
Os meios de comunicação da mídia são a base essencial da nossa cultura, visto que vivemos numa sociedade de mídia. Influenciam e interferem no comportamento social, a medida que estes meios não são instituições neutras . dependem da autonomia da mente humana e dos sistemas culturais individualizados, além da situação sócio histórica especifica de produção e assimilação da mensagem emitida. A tv torna-se o placo em que todas os processos transmitidos a sociedade em geral são preparados, numa cultura em que símbolos e objetos são moldados e construídos pela televisão. (CASTELLS, 1999, p. 422)