O PATAMAR INTERMÉDIO
3.7. A construção do claustro
Regressando ao claustro da catedral lisboeta, atentemos sobre o processo da sua génese. Ao contrário de outro claustro desta época, acerca do qual possuímos informação detalhada, o conhecimento sobre o processo que esteve na origem do claustro da Sé de Lisboa é muito limitado.134 O patrocínio da obra da “crasta da Sé”
é uma incógnita que terá de permanecer sem solução. A datação da construção do claustro é um outro problema também de difícil solução. Mal-amado pelos historia-dores da arte, desde que Mário Chicó o definiu como “ingénuo e rude, experiência difícil e fruste”,135 mais recentemente classificado como “uma obra relativamente modesta”,136 o claustro tem sido subalternizado em relação à cabeceira da Sé, cons-truída já no reinado de D. Afonso IV e normalmente considerada um dos expoentes do gótico português.137
Esta aparente desvalorização pode explicar parcialmente o facto de não se ter observado com a atenção merecida as, já há muito conhecidas, evidências epigráficas que indicam as datas de instituição das capelas do claustro. Conhecemos as instituições e datas de quatro. Por ordem cronológica, a primeira é a capela de Nossa Senhora da Piedade, também conhecida como Capela da Terra Solta, actualmente ligada à antiga sala do cabido.138 Foi instituída entre 1290 e 1300, por Nuno Fernandes Cogominho, almirante de D. Dinis, e por sua mulher D. Margarida Albernaz, cujo túmulo ainda aí persiste.139 A segunda é a Capela de S. Estêvão, instituída em 1305, por Estêvão Domingos, dito de “Loulee”, e Maior Martins, sua esposa.140 Deste casal apenas é
134 Referimo-nos ao claustro de Alcobaça, erguido entre 1308 e 1311, sob o patrocínio de D. Dinis (P. Dias 1994, 83-86).
135 Chicó 1981, 135.
136 P. Dias 1994, 105.
137 Sobre a charola da Sé de Lisboa, note-se as palavras de Pedro Dias: “A cabeceira da Sé de Lisboa tem um nível excep-cional e deve considerar-se como o corolário lógico da gradual evolução da nossa arquitectura gótica, desde o início do século XIII” (1994, 107).
138 Tal como se observa no aditamento de Augusto Vieira da Silva em Castilho 1934-1938, 6:59-62.
139 Saraiva 1934, 11. Sobre Nuno Fernandes Cogominho, ver: Pizzaro 1997, 2:660-662.
140 Uma inscrição comemorativa encontrada na capela não nos deixa qualquer dúvida sobre os seus instituidores (Barroca 2000, 2 [2]:1282-1285).
conhecido que possuíam uma vinha na Charneca, na primeira década de Trezentos, a qual foi destinada a suportar os aniversários da sua capela, e que renunciaram, em 1306, aos direitos que detinham sobre a lezíria dos Francos, em favor de D. Dinis.141 São vários os homónimos deste Estêvão Domingos que surgem na documentação da época, por isso, torna-se muito difícil distingui-lo e mais ainda perceber os contornos da sua posição na sociedade lisboeta de Trezentos, sendo apenas possível entrever uma personagem abastada, pois tinha poder económico para suportar a instituição de uma capela no claustro da catedral. A terceira capela é instituída em 1308, por Pero Vicente – clérigo da infanta D. Branca, filha primogénita de D. Afonso III e irmã de D. Dinis –, segundo uma inscrição que se encontra embutida numa das paredes da Capela de Santa Cruz, posteriormente designada como Capela de S. Miguel.142 Finalmente, a quarta, em 1316, instituída por D. Maria, viúva de Lourenço Escola, um proeminente membro da elite lisboeta, funda a Capela da Trindade, tal como refere frei Francisco Brandão.143 No mesmo período, mais precisamente em 1314, também foram erguidos dois cruzeiros no claustro da Sé por Pero Martins de Alfama, almoxarife de Lisboa.144
As datas das instituições destas capelas, entre 1290 e 1316 são coerentes com a possível edificação do claustro durante os finais do século XIII e as primeiras décadas do seguinte. No entanto, estas informações têm sido ignoradas pela maioria dos historiadores da arte, que apenas têm referido um documento, supostamente produzido em 1332, que se refere às obras do claustro lisboeta. Este documento foi finalmente publicado nas actas da terceira edição do colóquio internacional Nova Lisboa Medieval, que decorreu em Lisboa, em 2013.145 No entanto, analisando o documento observa-se que não está datado e que nele não se mencionam obras para a construção do claustro, mas sim uma oficina de pedreiros existente na crasta, uma diferença aparentemente inócua. Contudo, visto que a construção da cabeceira da Sé terá ocorrido na década de 40 do reinado de D. Afonso IV, a qual obrigou a
141 Nas confrontações a ocidente de um aforamento realizado em 1300 de uma outra vinha na Charneca, pertencente a Freio Pedro de Alcobaça (ANTT, Mosteiro de Alcobaça, 2.ª Incorporação, mç. 35, n.º 834). Numa contenda que ocorre em 1313 ou 1343, entre vigários de Lisboa e o prior de S. Marinha do Outeiro: “quinta na Charneca e vinha no lugar das Canoas(?) que foram de Estêvão Domingues de Loulé” (ANTT, Colegiada de S. Marinha de Lisboa, mç. 2, n.º 56). Na visitação transcrita em Cabido da Sé. Sumários de Lousada. Apontamentos dos Brandões (1954, 27), surge uma referência à vinha da Charneca para esta sustentar os aniversários da capela; no Livro das Lezírias de D. Dinis doc. 53 (Livro das Lezírias d’el Rei D. Dinis 2003, 170; e também: ANTT, Chancelaria de D. Dinis, liv. 5, fl. 64).
142 Castilho 1934-1938, 6:52-54; Barroca 2000, 2 (2):1352-1359.
143 O Autor da Monarchia Lusitana (Brandão 1672, fl. 235) fundamenta-se no registo da capela da Trindade existente no Arquivo do Cabido da Sé de Lisboa, Livro 2.º de Testamentos e Capelas (BNP, cód. 8952, fl. 23; publicado em Cabido da Sé. Sumários de Lousada. Apontamentos dos Brandões 1954, 27).
144 Barroca 2000, 1400-1402.
145 O artigo de José Augusto Oliveira, apresentado nesse colóquio, intitulado “A organização do trabalho nos estaleiros das obras do claustro da Sé de Lisboa”, tem como base um documento já há muito conhecido, mas até agora inédito, que terá sido, nos anos de 1930, “descoberto por Alberto Feio, quando se procedia a obras de restauro na Capela da Glória da Sé de Braga” (P. Dias 1994, 37; J. A. Oliveira 2016).
alterações substanciais do próprio claustro e obviamente à existência de uma oficina de pedreiros aí localizada, levanta-se a seguinte questão: o vasto estaleiro descrito no documento refere-se às obras do claustro ou às obras de construção da cabeceira?
Parece-nos que a segunda hipótese não pode ser descartada e oferece até maior solidez. Deste modo, a questão da datação do claustro deverá ser reconsiderada, sobretudo tendo em conta as datas das instituições das capelas, tal como verificou Paulo Almeida Fernandes e tal como acabámos de observar.146
3.7.1. A oficina da obra do claustro
Apesar de não sabermos exactamente quem patrocinou a obra do claustro, a documentação revela-nos alguns dos nomes dos principais responsáveis e executantes desta grande obra que alterou profundamente a morfologia urbana daquela parte da cidade. A presença de Miguel Martins num documento referido por Sousa Viterbo em que este é mencionado como aquele que “tem a obra da Sé”, em 1281, é um dado bem conhecido, todavia não se conhecia o nome de alguns dos homens que com ele trabalhavam no claustro da Sé.147 Em 1304, foi realizado um aforamento de uma vinha pertencente ao Mosteiro de S. Vicente de Fora, localizada na Charneca, a Estêvão Domingues, referido como comendador da obra da Sé e raçoeiro da mesma igreja, em que uma das condições colocadas ao comendador é a seguinte:
“vos devedes dar-nos 500 libras por vossa alma e de Miguel Martins para fazermos um poço”.148 No mesmo documento, assinam como testemunhas: “Vicente Duraes pintor, João Domingues mestre ameeyro, Afonso Pires batedor, Domingos Carnide, Estêvão Martins, Francisco Esteves, Fernando Mendes pintor”. Ou seja, estes homens fariam muito provavelmente parte da oficina que trabalhava com Estêvão Domingues e Miguel Martins na obra da Sé que decorria nessa altura, a obra do claustro. Numa doação de uma casa à Igreja de S. Pedro, em 1324, testemunha um Francisco Esteves, identificado como o filho de Estêvão Domingues da obra. Visto que também no documento de 1308 surge uma referência a um Francisco Esteves,
146 P. A. Fernandes 2006, 18-69. Também Catarina Villamariz chegou à conclusão de que “o grande estaleiro de 1332 não deveria, portanto, relacionar-se com o claustro muito possivelmente já terminado” (Villamariz 2012, 445).
147 O documento transcrito por Sousa Viterbo encontra-se em ANTT, Colecção Especial, caixa 86. Este documento tem sido erroneamente usado para datar o período em que Miguel Martins esteve à frente das obras do claustro da Sé, supostamente entre 1281 e 1319, mas como notou Paulo Almeida Fernandes, a data mais tardia não é mais do que o ano de 1281 no sistema de datação medieval, que difere 38 anos do sistema actual (Pereira 1995, 379; P. Dias 1994, 105; P. A. Fernandes 2006, 58, n. 21).
148 Cf. ANTT, Mosteiro de S. Vicente de Fora, 1.ª Incorporação, mç. 5, doc. 11; copiado em: 2.ª Inc., Cx. 2, doc. 9.
será bem possível que o filho do comendador da obra também fizesse parte da oficina da obra do claustro.