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A implantação paroquial explicada

A IMPLANTAÇÃO DA REDE PAROQUIAL

3.3. A implantação paroquial explicada

podemos intuir esta questão através da hagionímia, mas esta não constitui, por si só, base sólida para se apurar o que realmente ocorreu. É necessário procurar lógicas de instalação no território e conjugá-las com a hagionímia do orago.

foi a escolha de D. Afonso Henriques, e D. Bernardo, um monge cluniacense, foi o escolhido por Afonso VI.138 Além disso, em ambas as situações, os bens pertencentes às mesquitas transitaram directamente para o recém-chegado clero cristão.139

Na zona intramuros, a instalação da rede paroquial poderá, possivelmente, ter tido como antecessora a rede de mesquitas, sendo que apenas existem dados concretos sobre o principal templo da cidade, a mesquita maior, que se tornou a sé catedral, e uma suspeita fundada sobre S. Julião. Relativamente ao arrabalde ociden-tal, poderá ter existido uma comunidade de cristãos arabizados, entre o local das posteriores igrejas de S. Maria do Alcamim (S. Cristóvão), S. Mamede e Santa Justa.

No que respeita à Igreja de S. Maria da Madalena e a de S. Nicolau, a sua localização insere-se numa zona que estaria já densamente urbanizada no século XII, tal como atestam quer a confirmação visual do cruzado Raul, quer as evidências arqueológi-cas.140 A situação da Igreja de S. Maria Madalena, junto à saída da porta principal da cidade em época islâmica, leva-nos a supor que ali teria existido uma mesquita que poderia ter sido posteriormente convertida, pois essa localização é muito comum nas cidades medievais islâmicas.141 No entanto, sem mais evidências neste sentido, apenas é possível supor que a Igreja de Santa Maria Madalena se terá construído no local de um templo anterior. Relativamente a S. Nicolau, não dispomos de dados para elaborar qualquer hipótese, apenas podemos afirmar que a sua localização – junto a uma das principais vias que ligava a cidade ao seu termo, e também próxima do provável centro comercial do arrabalde142 – é ideal para qualquer templo, mesquita, igreja ou até sinagoga. No que se refere a S. Julião, é provável que a igreja paroquial tivesse existido, numa primeira fase, no local onde tinha funcionado uma mesquita e, numa segunda fase, tivesse sido erguida uma igreja de raiz, não muito longe do local do templo original. Em 2012, foi por nós proposto que teria existido uma mesquita no local da Igreja de S. Julião,143 com base numa notícia do século XVIII, onde se afirmava que D. Afonso Henriques “mandara modificar e dedicara aos gloriosos Mártires de Cristo S. Julião, e Santa Basalisa, sendo sagrada depois a nova igreja pelo Ilustríssimo D. João Pardo, sexto bispo de Lisboa, no ano de 1241, reinando

138 Sobre a fundação da catedral de Toledo, ver: González Palencia 1930, 155-157.

139 Cunha 1642 fls. 71-72; ver também a carta de instituição da Sé Catedral de Toledo publicada em: González Palencia 1930, 155-157.

140 “Os arrabaldes ficam albergados sob as muralhas, a modo de bairros recortados nas rochas, de tal forma que cada bairro se toma por castelo bem fortificado, tais são os obstáculos de que está rodeado” (A Conquista de Lisboa aos Mouros: Relato de Um Cruzado 2001, 79). Para as evidências produzidas pela análise aos dados arqueológicos, ver: G. Silva 2012a; R. B.

Silva et al. 2011; 2015; Bugalhão et Folgado 2001.

141 Ver, entre muitos outros exemplos: a mesquita situada junto ao Bab Bayyana em Almeria (Cara Barrionuevo 1990b, 455);

a mesquita junto ao Bab Ibn Ahmad (Porta de S. Eulália) em Múrcia (Navarro Palazón et Jiménez Castillo 2012, 783);

a mesquita de Bab al-Mardun em Toledo (Calvo Capilla 1999, 299).

142 Sobre o centro comercial do arrabalde, ver, Parte III, subcapítulo 5.1 – O suq do arrabalde.

143 Sobre esta questão, ver: M. F. Silva 2012, 8-27.

D. Sancho II”.144 O nosso conhecimento sobre esta questão ganhou solidez com a descoberta de vestígios de um templo islâmico, não no local exacto onde depois funcionou a igreja paroquial, mas muito perto desse mesmo local.145 A explicação para que o templo tenha sido deslocalizado consta na referida notícia do século XVIII, onde se menciona uma “nova igreja”, sagrada em 1241. Ou seja, o que anteriormente considerámos ter sido uma remodelação arquitectónica profunda, poderá afinal ter consistido numa construção de um novo edifício, enquanto o edifício do templo original era cuidadosamente selado numa “acção posterior e planeada”, tal como nos informa os resultados da escavação arqueológica de 2015.146

No que respeita ao arrabalde oriental, a situação poderá não ter sido muito diferente do que ocorreu dentro de muros, com a diferença de que neste caso a hagionímia nos encaminha para uma situação mais dúbia e complexa. Na parte oriental fora de muros, encontramos tanto hagiónimos aparentemente de tradição moçárabe (S. Marinha, S. Estêvão) e outros mais típicos do período da reconquista (S. Pedro, S. Miguel) e outros ainda que não conseguimos encaixar em qualquer destas categorias (S. Salvador, S. Tomé, S. André).147 Considerando a lógica da ocupação do espaço, a hipótese de que a população muçulmana tenha ocupado a zona oriental da cidade ganha algum sentido.148 No De Expugnatione Lyxbonensi, afirma-se que os muçulmanos saíram da zona murada da medina, o que nos leva a supor que estes podem não ter abandonado a cidade propriamente dita, instalando-se no arrabalde menos apetecível para os novos senhores da cidade, ou seja, o arrabalde oriental. Esta parte da cidade tem menor exposição solar e situa-se numa posição mais periférica relativamente ao centro comercial da urbe, que se situaria junto à Porta do Ferro, no lado ocidental da medina, como veremos posteriormente.

144 Relaçam da solene procissam do Corpo de Deus, que aos 2 de Setembro de 1582 fez a Irmandade do SS. Sacramento da freguesia de S. Ju-lião, etc. por Joaquim Roberto da Sylva. 1731. Trata-se de uma obra de carácter laudatório sobre uma procissão do Corpus Christi realizada em 1582.

145 Os resultados arqueológicos permitem afirmar que se tratava, provavelmente, de uma mesquita: “Na sondagem 1, abaixo desta realidade de Época Moderna detectaram-se vestígios de um edifício construído em Época Medieval, que pela sua configuração, poderá corresponder a uma pequena mesquita. Os depósitos escavados no seu interior, com um elevado grau de compactação e espólio arqueológico muito fragmentado, remetem para um enchimento que parece não cor-responder ao seu colapso ou abandono, mas antes a uma acção posterior e planeada, eventualmente, em época tardo-medieval, com base nos materiais analisados. Do edifício religioso restam a estrutura pétrea de base, com vestígios de revestimento interno a reboco e estuque, e o arranque da parede em taipa marcada por uma fiada de telha reaproveitada, da qual se encontraram vários nódulos no enchimento acima descrito” (Caessa et al. 2015, 29).

146 Caessa et al. 2015.

147 Sobre a hagionímia, ver: A. O. Leitão et Santos 2013, 98-99; P. C. Serra 1957; Boisselier 2005.

148 “Do ponto de vista urbano esta comuna não foi substancialmente transformada pela ocupação do espaço pelos cristãos.

A população islâmica deve, em larga medida, ter permanecido em Alfama após a Reconquista” (J. L. Matos 2001, 84).