A elaboração do roteiro e as adaptações necessárias para chegarmos ao material finalizado aqui apresentado levou cerca de um ano e meio para ficar pronto. Tendo trabalhado na área audiovisual desde 2001, os roteiristas – Raul Inácio Busarello e Patricia Bieging, buscaram criar uma proposta que tivesse a sua produção possível frente ao mercado atual e às possibilidades de financiamento via Leis de Incentivo à Cultura municipais, estaduais e federais. Patricia Bieging trabalha com produção audiovisual (desde 2001) e projetos voltados à cultura por meio de mecanismos de fomento (editais e projetos) desde 2009. Já Raul Inácio Busarello trabalha na criação de personagens e histórias ficcionais nas áreas de audiovisual, design gráfico, publicidade e propaganda desde 1995.
A proposta inicial era trabalhar a recepção de um filme de curta-metragem já finalizado, porém o tempo para a realização de todo o processo de criação, projeto e finalização não se mostraram viáveis para o período do doutoramento. A ideia foi revista, pois sem a base de pesquisa prática e teórica não teríamos subsídios para chegar ao material apresentado. Além disso, por ser um projeto que envolve altos custos, sua produção sem a testagem por níveis de trabalho - que em nosso caso se dá na pré-produção - poderia não trazer os resultados necessários e satisfatórios quanto ao objetivo aqui proposto, que é a criação de diretrizes para a elaboração de roteiros ficcionais multilineares interativos. Outro fator preponderante para a mudança de planos foi a necessidade de discutir, primeiramente, com especialistas da área audiovisual a funcionalidade e a eficácia das etapas, das decisões criativas e dos processos interativos presentes no roteiro criado.
Vislumbrando a necessidade da criação de um mecanismo norteador e também que tivesse o “poder” de transportar os espectadores para dentro da narrativa, é que resolvemos manter a primeira etapa da pesquisa com pessoas sem formação audiovisual específica. Esta abordagem foi de extrema importância para que fossem possíveis algumas das decisões criativas incorporadas na criação do roteiro. Muito do que os 24 participantes citaram na sondagem que realizamos foi utilizado em várias etapas do roteiro e nos Links Interativos.
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Os personagens, os acontecimentos e os pontos de escolha foram elaborados a partir do questionamento realizado junto aos participantes. A criação dos personagens, que estão apresentados no tópico 6.2.1 segue não somente o modelo clássico de filmes noir, produzidos entre as décadas de 40 e 60, mas possuem elementos que contém traços atuais e ambientações que lembram os cenários reais contemporâneos. A personagem Sirena Magnus, por exemplo, apesar de mostrar-se como uma mulher sedutora e manipuladora é também o modelo de mulher sofrida que torna-se refém de uma situação atual inesperada. Não é retratada como uma golpista, apesar de alguns dos especialistas a interpretarem desta forma, mas uma viúva desesperada que foi esquecida por seu falecido marido e que precisa arrumar uma maneira para sustentar-se na situação em que se encontra.
Além de todos os cuidados descritos neste capítulo e das decisões estratégias, consideramos, especialmente, as pistas sinalizadas pelos participantes na abordagem inicial. Colocar o Detetive, sem nome, por exemplo, foi uma das formas que encontramos para que os receptores pudessem sentir o filme em primeira pessoa. Desta forma, todos os que interagem com o filme podem ser o Detetive. Esta estratégia obteve bom retorno na recepção do roteiro pelos especialistas, como poderá ser conferido no próximo capítulo.
A questão da surpresa, também apontada por alguns dos 24 participantes, foi aplicada na elaboração do roteiro, bem como outros elementos: interatividade em pontos cruciais; escolha a partir de sentimentos, conflitos ou pistas; decisões que geram consequências nem sempre esperadas, levando à surpresa; decisões da trama que levam a finais nem sempre felizes; o destino final dos personagens; escolhas amorosas, entre outras questões que foram apontadas pelos participantes já no início da pesquisa de campo. As dicas dos pesquisados pode ser conferida ao longo da leitura do roteiro tanto nas ações, quanto nos valores e atitudes dos personagens ou mesmo na estruturação da trama. Tudo isto se justifica, pois a meta era fazer com que o leitor se sentisse envolvido na história desde os primeiros minutos.
7 A VOZ DOS ESPECIALISTAS A PARTIR DO ROTEIRO CINEMATOGRÁFICO FICCIONAL MULTILINEAR INTERATIVO
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As mudanças no universo cinematográfico ficcional, desde a sua criação, nos apresentam um campo rico em significados. Com o intuito de levar o espectador a uma experiência excepcional, os cineastas e os produtores têm investido em novos formatos. Os campos criativos passaram a convergir e, como praticamente tudo precisa ser nomeado e categorizado para ter algum reconhecimento, começam as discussões sobre o quê poderia ser esta nova “coisa”. Sendo o condutor dos atos e mexendo no desenvolvimento da história, o iCinema leva a novas formas de ver e participar da narrativa.
O iCinema tem como objetivo a imersão e a participação dos indivíduos na trama, pretende, também, fazer com que os interatores se sintam responsáveis pelos acontecimentos a partir das suas escolhas, mas não possibilita que modifiquem as cenas durante o seu desenvolvimento (pelo menos não até o momento). Apesar de abrir para escolhas, as cenas e as trajetórias já estão projetadas e a intervenção está limitada ao que foi disposto para interação. Sendo este um novo campo tanto para os estudos quanto para as experiências de produção, realizamos o cruzamento de várias estratégias e dispositivos cinematográficos para a criação do nosso roteiro.
Partindo destas premissas, este capítulo aborda os dados empíricos da pesquisa de recepção realizada com os especialistas em audiovisual.58 A partir da aplicação de um questionário semi-estruturado59 as entrevistas duraram em média de 2h a 3h e foram realizadas em locais escolhidos pelos participantes. Para a categorização e a análise dos dados dividimos este capítulo em três partes, sendo que: na primeira (item 7.1) apresentamos a trajetória de escolha dos caminhos pelos sete especialistas, buscando refletir sobre relativos padrões de comportamento frente às propostas variadas dos sete Links; a segunda parte (item 7.2) está focada em questões técnicas relacionadas ao meio audiovisual, dispositivos, gerenciamento das experiências, tecnologia e interatividade; e a terceira (item 7.3) tem como foco a experiência do receptor com questões subjetivas como a identificação com os personagens, as experiências estéticas, a interatividade, a imersão e a participação.
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Informações detalhadas no subcapítulo 2.5. 59 Informações detalhadas no Anexo 2.