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Pensar na construção de uma narrativa ficcional cinematográfica é muito mais do que simplesmente organizar uma ideia ou mesmo elaborar um esquema para nortear as ações no set de filmagens. O universo ficcional vai, a partir da elaboração do roteiro, além do delineamento dos acontecimentos. O roteiro é o coração do filme, deve traduzir as imagens, os sons e os fragmentos que serão transpostos para a tela em imagens (FIELD, 2009). A partir do roteiro o cineasta precisa entender toda a estrutura dramática do filme e organizar a história a ser contada. Field44 (2009) explica que o roteiro é um substantivo em que são apresentadas as pessoas, os lugares, os acontecimentos e os incidentes a serem vividos pelos personagens, bem como toda a ação das coisas e as velocidades das narrativas. Para o autor, a estrutura do filme deve ser capaz de “construir”, “organizar” e “agrupar” todos os componentes da narrativa cinematográfica ficcional. Tudo deve estar contido nele, as peças devem se conectar e se complementar.

Antes de tudo, para que possa ser construída a estrutura do roteiro é necessário que seja definido o argumento da história, com ele definem-se os incidentes e, assim, as ações dos personagens, suas decisões e a construção da história como um todo. Nessa relação, os personagens são os principais elementos uma vez que definem e determinam os incidentes. Neste sentido, também o personagem se revela em sua profunda natureza dramática. É, justamente, essa natureza do personagem que fará com que os espectadores se identifiquem com a história e com o percurso a ser vivenciado nas telas e, consequentemente, sentido na recepção (FIELD, 2009).

Para a construção do roteiro, Field (2009) propõe um modelo de estruturação que chama de paradigma do roteiro, o qual não muda mesmo que nossa base de apoio seja alterada.

44 Syd Field (1935-2013) era professor universitário e roteirista. Seu livro “Roteiro: os fundamentos do roteirismo”, best-seller lançado em 1979, traz métodos para a construção de roteiros para o cinema e a televisão. Era consultor dos Estúdios de Hollywood e tornou-se uma grande referência na área cinematográfica.

Começo Ato I Meio Ato II Final Ato III

Apresentação Confrontação Resolução

Ponto de virada I Ponto de virada II

Figura 2: Paradigma do Roteiro. Fonte: Field (2009, p. 33)

Field (2009) explica que as histórias têm em comum três pontos: começo, meio e fim. Porém, nem sempre as narrativas precisam adotar esta sequência. Através dos pontos a história é contada e composta por todos os elementos da mise-en-scène e, pensando na captura dos espectadores, pelos dispositivos estrategicamente utilizados pelo cineasta. O autor menciona ainda que Aristóteles, por volta de 335 a.C, já relacionava três unidades da ação dramática, sendo: tempo, lugar e ação. Mesmo que Field (2009) retrate o paradigma do roteiro para filmes com cerca de 2h de duração, este esquema não deixa de se enquadrar em propostas de obras com menor tempo, como é o nosso caso. Os atos e as ações continuam seguindo a mesma lógica como explicaremos a seguir.

Apesar de outros autores também explicarem a construção cinematográfica, nos atemos, neste tópico, à estruturação do roteiro a partir de Field (2009) já que seu paradigma trouxe grande contribuição para o cinema comercial em escala mundial. Os 3 Atos, a formatação das páginas e a extensão ideal para um roteiro são algumas de suas contribuições, bem como a contagem do tempo por páginas escritas. Apesar de sofrer críticas sob a acusação de que seus métodos engessavam as histórias e limitavam quanto às possíveis inovações, seu paradigma auxilia na construção das narrativas e permite maior controle da história, tornando-a coerente e numa sequência que leve ao desfecho da trama.

Considerando o atual cenário cinematográfico e os avanços tecnológicos que permitem a construção de diferentes narrativas ficcionais, seus métodos continuam tão válidos para elaboração de roteiros multilineares interativos quanto foram (e são) para as histórias lineares.

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Mesmo que façamos um filme interativo em que os espectadores possam fazer escolhas, os Atos e os Pontos de Virada mantêm-se já que a história continua tendo começo, meio e fim.

No Ato 1 temos a apresentação da história, no 2 a confrontação e no 3 a resolução (FIELD, 2009).

No Ato 1, uma das unidades de ação dramática, a história inicia-se e é onde são apresentados o contexto dramático, a história, os personagens e a premissa dramática (sobre o quê a história trata). As relações e os acontecimentos são relacionados neste momento, os quais tomam (em um longa metragem) não mais do que 10 minutos45. Este é o ponto fatídico da obra, tempo em que o espectador é capturado pela trama ou torna-se entediado, deixando de prestar atenção no filme. Os primeiros minutos, desta forma, devem estar bem alinhados, facilitando o entendimento do enredo e, especialmente, os acontecimentos, estimulando o interesse e a imaginação do espectador para o que está por vir.

No Ato II o contexto dramático da história deve levar à Confrontação. Nesse Ato o protagonista da história enfrenta os obstáculos, que geralmente são vários, o que o leva a não alcançar suas necessidades dramáticas. “Necessidade dramática pode ser definido como aquilo que o protagonista quer ganhar, conseguir, alcançar ou realizar ao longo da história” (FIELD, 2009, p. 36, grifos do autor). Sabendo qual a necessidade do protagonista, o roteirista têm condições de criar os obstáculos e a forma com que o personagem supera-o, levando-o à satisfação. Os impulsos, nesse caso, precisam alinhar-se a estas necessidades dramáticas, garantindo a coerência e a continuidade das ações em busca da realização dos seus desejos. Os conflitos garantem a história, fazendo com que o personagem mova-se.

O Ato III é desenvolvido no ponto do contexto dramático chamado Resolução. Field (2009) salienta que a resolução não significa que a história chegou ao fim, mas que existe solução. É nesse momento que o personagem desenvolve-se para o final, é a trajetória que o levará ao fim, mas não é o final efetivamente. O roteiro, assim, chega às suas páginas finais. Deste ponto em diante, o roteirista passa a definir o sucesso ou o fracasso do personagem frente à

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Em um roteiro a partir do método de Field, 1 minuto equivale a 1 página, ou seja, em 10 páginas (ou 10 minutos) do roteiro a captura do espectador precisa ser eficaz.

sua necessidade dramática: casa ou não; vence ou perde; morre ou vive; é inocente ou é culpado.

Segundo Field (2009, p. 37, grifos do autor) o roteiro de uma história ficcional, para fazer sentido, precisa ter “começo, meio e fim; Ato I, Ato II e Ato III; Apresentação, Confrontação, Resolução – [pois essas são] as partes que compõem o todo. É a relação entre essas partes que determina o todo”.

Contudo, Field (2009) ainda relaciona em seu Paradigma do Roteiro duas formas que auxiliam o roteirista a realizar a transição entre os Atos: o Ponto de Virada I e o Ponto de Virada II. Esses Pontos de Virada são ações, eventos ou incidentes, que podem mudar o desenvolvimento, o curso da história. O Ponto de Virada I ocorre no final do Ato I, antes da entrada para o Ato II e o Ponto de Virada II tem como objetivo realizar a transição da história para o Ato III.

Os Pontos de Virada, explica Field (2009), são realizados em função do(s) protagonista(s). São esses pontos que fazem com que a história flua, mantendo a linha narrativa. O autor ainda pontua que essas transições não precisam necessariamente serem feitas por cenas complexas e longas, mas que podem vir até mesmo sem diálogos e que esses sejam reflexos de alguma decisão do personagem principal. O importante, para ele, é que esses Pontos aconteçam, pois fazem a história girar e são a base da estrutura dramática.

O Paradigma do Roteiro de Field (2009) é a base para a elaboração do roteiro e de sua estrutura dramática. Mesmo que para o autor esse método seja destinado à “disposição linear de incidentes”, os quais levam à resolução dramática, adotamos, neste trabalho, suas diretrizes agora voltadas à elaboração de um roteiro de curta-metragem ficcional multilinear interativo. Nosso trabalho, porém não é exatamente linear se considerarmos que o espectador terá escolhas em determinados pontos definidos pelos roteiristas da narrativa. Porém, utilizamos as definições conceituais de Field como norte para a estruturação do roteiro e da linha narrativa (começo, meio e fim), sendo as opções de interação e variação da história, mesmo multilinear, também construída a partir deste esquema. Mantemos a estrutura clássica de Field na elaboração do roteiro para que a essência da obra cinematográfica seja preservada. Apesar da possibilidade de interação e do acompanhamento não linear dos incidentes na

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história pelos espectadores, desfragmentar totalmente a narrativa implicaria na criação de um gênero experimental. A principal ideia, neste trabalho, é manter a coerência na cronologia da história.

Partindo deste contexto, a construção do roteiro, os Atos, os Pontos de Viradas, os personagens e os acontecimentos são abordados no próximo tópico.