3.3 A construção do ethos de credibilidade em São Bernardo de Claraval
3.3.2 A construção do ethos de virtude em São Bernardo de Claraval: a imagem da
Bernardo de Claraval: a imagem da honestidade
pessoal
Os traços do ethos de virtude igualmente constitutivos do ethos de
credibilidade supõem um representante que dê exemplo, exigindo que a pessoa demonstre sinceridade e fidelidade, devendo-se acrescentar a imagem de honestidade pessoal. É preciso constatar que ele segue a mesma linha de
pensamento e de ação. De maneira geral, o ethos de virtude se faz
acompanhar por uma atitude de respeito para com as pessoas (CHARAUDEAU, 2008).
Deste modo, em relação à constituição do ethos de credibilidade,
sobre o Cântico 16.4 nos quais o sujeito-enunciador São Bernardo de Claraval
utiliza o traço do ethos de virtude, constitutivo do ethos de credibilidade para
persuadir os seus enunciatários.
Analisa-se, o primeiro recorte, o Sermão sobre o Cântico 43.2, do
sujeito-enunciador São Bernardo de Claraval.
“Eu também, irmãos, quando me converti me dei conta de que me faltavam toda classe de méritos”.
O modo de dizer autoriza a construção de uma imagem de si, e as representações sociais impõem ao sujeito-enunciador não só o que ele deve e pode dizer, mas também a maneira como ele deve e pode se representar no mundo. Diante disto, acredita-se que o sujeito-enunciador São Bernardo de
Claraval se utiliza da imagem de honestidade pessoal, traço do ethos de
virtude ao fazer a seguinte afirmação a respeito de si mesmo no início da sua
caminhada monacal: “Eu também, irmãos, quando me converti me dei
conta de que me faltavam toda classe de méritos”.
Ancorado no procedimento enunciativo elocutivo , usando do pronome
da primeira pessoa do singular “eu”, e o pronome oblíquo “me”, ao enunciar:
“eu também, irmãos, quando me converti me dei conta de que me faltavam
toda classe de méritos”, o sujeito-enunciador compartilha com seus enunciatários sobre as suas dificuldades pessoais no início da sua caminhada religiosa.
O sujeito-enunciador de maneira realista se apresenta como alguém que sabe, por experiência própria, os problemas, as aflições e as lutas que seus enunciatários enfrentam, sendo por isso mesmo percebido como uma
pessoa sincera a respeito daquilo que enuncia quando confessa: “eu também,
irmãos, quando me converti me dei conta de que me faltavam toda classe de méritos”. Ele utiliza da imagem de honestidade ao confessar a sua dificuldade no início da sua caminhada. Ele se da conta de que lhe falta toda classe de méritos para cumprir o propósito que havia traçado, isto é, seguir a carreira monacal.
A enunciação: “eu também, irmãos, quando me converti me dei
um Abade, em um ato de culto, na hora da mensagem para os seus discípulos. Acredita-se que com essa atitude o sujeito-enunciador pretende incentivar seus enunciatários a terem coragem de confessar as suas fraquezas a Deus.
Conforme aponta o enunciado, não se chega perfeito ao mosteiro, “eu
também, irmãos, quando me converti me dei conta de que me faltavam toda classe de méritos”. Ninguém chega pronto ao mosteiro para seguir a carreira monacal, ou seja, os méritos vêm com o passar do tempo, são coisas a serem alcançadas.
Nesta expressão: “eu também, irmãos”, percebe-se,
intencionalmente, o tom religioso do discurso que sujeito-enunciador usa para
expressar proximidade e familiaridade com os seus enunciatários. O “eu” do
discurso se aproxima dos seus enunciatários para compartilhar eles algo muito sério sobre o início da sua carreira. É isso que ele de declara na sequência do
enunciado: “quando me converti me dei conta de que me faltavam toda
classe de méritos”, o sujeito-enunciador se inclui na cena enunciativa para mostrar que ele tem consciência da dificuldade que cada um deles enfrenta nessa nova jornada da vida. Ele fala com propriedade, com conhecimento de causa. Ele é alguém experiente.
O sujeito-enunciador trabalha com o conceito teológico da conversão e
da santificação em seu enunciado, ao afirmar: “quando me converti me dei
conta de que me faltavam toda classe de méritos”. Ele ensina que a
conversão é um ato único na vida da pessoa “quando me converti”, ou seja,
ocorre apenas uma vez; mas, a santificação não. Ela é um processo de vida,
devendo ser desenvolvido a cada dia, “me dei conta de que me faltavam
toda classe de méritos”. A santidade é algo a ser buscado.
Entretanto, a ausência de méritos no início da conversão não deve ser empecilho para aqueles que desejam uma vida de consagração a Deus, para aqueles que desejam dedicar-se ao serviço religioso. Deve-se viver uma vida que agrade a Deus para servi-lo com humildade. Acredita-se que seja essa a lição que o sujeito-enunciador quer ensinar para os seus enunciatários, já que ele mesmo confessa que no início não tinha mérito algum.
Evidencia-se com esta postura de reconhecer a ausência de méritos no início da sua caminhada monacal à pretensão do sujeito-enunciador de
construir o ethos de virtude, utilizando-se da imagem de honestidade pessoal,
reconhecendo a sua fraqueza e confessando-a publicamente.
Passa-se à análise do segundo recorte, o Sermão sobre o Cântico
16.4, de São Bernardo de Claraval.
“envergonha-me ter me comportado tão indignamente com meu progenitor, ter sido tão degenerado para com meu pai”.
Seguindo a mesma linha do enunciado anteriormente, o sujeito-enunciador, de maneira realista, se utiliza da imagem de honestidade pessoal
para construir o ethos de virtude ao confessar agora a sua vergonha por ter
vivido tão indignamente diante Deus, “envergonha-me ter me comportado
tão indignamente com meu progenitor, ter sido tão degenerado para com meu pai”.
O sentimento de vergonha alcança uma proporção maior pela consciência que o sujeito-enunciador tem da sua relação afetiva com Deus, a
quem ele se refere primeiro chamando de: “meu progenitor”, e logo em
seguida, de modo carinhoso, de: “meu pai”.
Ao usar o pronome possessivo “meu” para formar as expressões:
“meu progenitor” e “meu pai” nota-se que o sujeito-enunciador está convencido de que ele pertence à família de Deus. Ele é um filho de Deus.
Deus o adotou. Deus não o abandonará, pois é o seu “pai”, o seu
“progenitor”.
No enunciado: “Eu também, irmãos, quando me converti me dei
conta de que me faltavam toda classe de méritos”, o sujeito-enunciador trabalhou com o conceito teológico de conversão e santidade, agora ele trabalha com o conceito teológico de adoção. Ele ensina para os seus enunciatários que pelo processo da adoção passou a ser filho de Deus, sendo herdeiro de todas as coisas. Sua relação com Deus é filial, chamando-o de:
“meu progenitor” e de: “meu pai”.
A atitude de chamar Deus de: “meu progenitor” e de: “meu pai”
demonstra que o sujeito-enunciador tem certeza da sua adoção, embora, por algum tempo, não tenha vivido como um filho de Deus, conforme sua
confissão: “envergonha-me ter me comportado tão indignamente com meu progenitor, ter sido tão degenerado para com meu pai”.
Outra verdade para ser observada no enunciado: “envergonha-me ter
me comportado tão indignamente com meu progenitor, ter sido tão degenerado para com meu pai” é a consciência que o sujeito-enunciador tem sobre o modo correto de viver perante Deus. O sentimento de vergonha é
intensificado pelo uso do advérbio “tão”, acentuando o quanto o seu
comportamento era indigno.
Declarando a sua vergonha por ter vivido de modo indigno para com
Deus, o sujeito-enunciador constrói o ethos de virtude, utilizando-se da imagem
de honestidade. O abade deve dar exemplo de humildade para os seus monges, por isso mesmo não pode ter medo de confessar os seus pecados, as suas fraquezas nem diante de Deus, nem diante dos homens. Ele se desprende de todo ritualismo e ortodoxia da Igreja, quebrando toda formalidade imposta e exigida para simplesmente deixar claro para os seus enunciatários que ele não é perfeito, ele é humano.
Apoiando-se na orientação dos conceitos teóricos de Charaudeau,
quanto à construção do ethos de virtude, os dois textos analisados: “Eu
também, irmãos, quando me converti me dei conta de que me faltavam toda classe de méritos”, e “envergonha-me ter me comportado tão indignamente com meu progenitor, ter sido tão degenerado para com meu
pai”, apresentam um sujeito-enunciador que constrói o ethos de virtude, de
uma pessoa sincera, honesta que não tem medo de confessar as suas fraquezas para os seus enunciatários.