2.2 A Formação de São Bernardo de Claraval
2.2.3 Chamado para mediar: o reconhecimento e o prestígio
No ano de 1130, morre o papa Honório II, e a sua sucessão provoca uma forte crise interna na Igreja de Roma. A Igreja vive um momento delicado, conhecido como o “Cisma de Anacleto” (MONTENEGRO, 2001, p. 16), pois são eleitos dois papas ao mesmo tempo: Anacleto II e Inocêncio II. “A Cristandade está com duas cabeças. Canonicamente, o conflito é insolúvel, porque as duas eleições estão manchadas de irregularidades” (ROPS, 1993, p. 122).
Com essa atitude, a Igreja demonstra claramente estar dividida em sua liderança eclesiástica e administrativa. Assim, se instaura a luta pelo poder e domínio eclesiástico; e, isso, sem dúvida, é motivo de escândalos para a maioria dos fiéis.
Ao se dar conta da divisão que se estabelece e do perigo que ela representa não apenas para os fiéis, mas principalmente para a Igreja tanto no que diz respeito a sua autoridade como poder, Luis VI, “rei da França, reuniu um concílio especial na cidade de Étampes, convocando como conselheiro especial desse concílio o abade de Claraval que teve uma atuação decisiva” (SANTOS, 2001, p. 27). Nesse concílio estão reunidos “bispos, abades e grandes feudatários para reconhecerem o papa legítimo” (BARTHELET, 2001, p. 105).
São Bernardo de Claraval, com autoridade e discernimento, invoca argumentos de três espécies a favor de Inocêncio II: é moralmente mais digno; é eleito pela parte mais saudável do Sacro Colégio, a maioria dos cardeais-bispos, aos quais o decreto de Nicolau II confere, desde 1059, um papel eminente na eleição de Pontífice; e é sagrado pelo bispo e Óstia, segundo a tradição (ROPS, 1993).
O concílio aceita a sentença, e Luis VI proclama a sua fidelidade a
Inocêncio II, selando com isso a sua eleição. E os “partidários de Anacleto II
passaram a ser considerados oficialmente como cismáticos” (SANTOS, 2001, p. 27).
Esse acontecimento é decisivo na vida do abade de Claraval, dando-lhe condições de viajar por vários países da Europa, tornando-o ainda mais conhecido e popular, pois “durante uns trinta anos foi chamado constantemente
por eclesiásticos e civis para resolver os distintos problemas que surgiam”
(MONTENEGRO, 2001, p. 89).
A influência de São Bernardo na política eclesiástica pode ser percebida com mais evidência em 1145, por ocasião da morte do papa Inocêncio II. Nesse ano, “um antigo monge de Claraval, Bernardo Paganelli é eleito papa sob o nome de Eugênio III” (RICHÉ, 1991, p. 57).
Atento a esse acontecimento, em sua carta 238, ao recém eleito papa
Eugênio29 III, São Bernardo, usando uma linguagem paternal afirma:
Não ouso mais dizer a meu filho, pois o filho transformou-se em pai, e o pai tornou-se filho. Aquele que veio depois de mim passou à minha frente, mas não o invejo, pois o que me faltava, espero encontrar naquele que veio não apenas depois de mim, mas para mim, pois se me permites dizê-lo, fui eu que te gerei de certa maneira pelo Evangelho. Qual é, com efeito, minha esperança, minha alegria e minha coroa de glória? Não és acaso tu diante de Deus? Na verdade um filho sábio é a glória de seu pai. De agora em diante não mais serás chamado meu filho, dar-te-ão um nome novo, aquele que recebeste do Senhor. [...] Tudo isto é a obra de Deus, que tira o pobre do monturo e levanta da poeira o indigente, para fazê-lo sentar-se com os nobres de seu povo e cofazê-locá-fazê-lo num trono de glória.
É possível perceber, nessa missiva, a humildade, o reconhecimento, a alegria e a satisfação de São Bernardo de Claraval em ter e ver um dos seus filhos, gerado pela graça de Deus, na pregação do Evangelho, no posto mais elevado da hierarquia da Igreja, ou seja, o papado.
São Bernardo de Claraval tem plena consciência, independentemente do sucesso que a carreira monacal pode oferecer, que o monge deve se dedicar ao silêncio o qual “ocupa um lugar destacado para criar um ambiente propício para a oração, uma vez que é resultado dela, pois a aproximação de Deus incita manter essa relação de intimidade, evitando o que possa distrair” (MONTENEGRO, 2001, p. 38), e à prática do jejum e da oração para crescer na sua vida espiritual, na piedade e no amor.
Por isso, em sua carta 142 endereçada aos monges de Aulps, França,
São Bernardo de Claraval expressa-se desta maneira:
Nossa Ordem é abnegação, é humildade, é pobreza voluntária, é obediência, paz, alegria no Espírito Santo. Nossa
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Eugênio III nasceu em Montemano, Pisa, Itália. Foi ele ito em 18 de fevereiro de 1145, substituto do Papa Lúcio II (1144-1145), fo i o promotor da Segunda Cruzada. Entrou mu ito jovem para o convento, tornando-se abade de Santa Atanásio, e m Ro ma, e foi no meado cônego na catedral de Pisa, mas depois resolveu abandonar sua vida de cônego (1138) para se tornar monge da Orde m Cisterciense e discípulo de São Bernardo de Claraval, refo rmador da vida monástica e fundador do mosteiro de Cla raval, na França. Crescendo espiritualmente junto a São Bernardo, fo i enviado como superior do mosteiro dos santos Vicente e Anastácio, em Ro ma , onde se tornou conhecido por seus dotes da virtude, de sabedoria e santidade (Cf. http://www.dec.ufcg.edu.br/biografias/PPEugen3.ht ml - capturado em 27/ 05/ 2009, às 09h 40).
Ordem é ser submisso ao mestre, ao abade, à regra, à disciplina. Nossa ordem é amar o silêncio, praticar o jejum, as vigílias, as orações, o trabalho manual e, sobretudo seguir o mais excelente caminho, que é o amor. Em uma palavra: progredir em tudo isso dia a dia, e perseverar assim até o fim da vida.
Na declaração acima, é possível perceber como é vivida a ordem no mosteiro e como São Bernardo vê na disciplina, na observação da regra o meio de alcançar a graça divina.