30 de outubro de 2010. Desde Zurich, na Suíça, os “donos do futebol” decidem que depois de mais de 60 anos a Copa do Mundo voltará ao Brasil em 2014.
Os jornais e a televisão anunciam a grande festa do futebol ao som do samba e aos pés do Pão de açucar e do Cristo Redentor. Mas os megaprojetos urbanísticos exigidos pela FIFA e levados a cabo pelos governos municipais, estaduais e federal têm gerado mega-violações de
1 Isabella Gonçalves Miranda é doutoranda em Pós Colonialismos e Cidadania Global pelo Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra; Bacharel em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Minas Gerais. É pesquisadora do projeto de pesquisa binacional "Cidade e Alteridade: convivência multicultural e justiça urbana", coordenado pela Professora Miracy Gustine pelo Professor Boaventura de Sousa Santos. Participa como intelectual militante do Comitê Popular dos Atingidos pela Copa, em Belo Horizonte.
2 Fábio André Diniz Merladet é doutorando em Pós Colonialismos e Cidadania Global pelo Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra; Bacharel em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Minas Gerais. É Pesquisador do Projeto binacional Brasil-Portugal da Universidade Federal de Minas Gerais em parceria com a Universidade de Coimbra: Cidade e alteridade: convivência multicultural e justiça urbana, coordenado por Boaventura de Sousa Santos e Miracy Gustin.
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direitos e mega-desigualdades. Desde que a Copa do Mundo da FIFA no Brasil foi anunciada, uma turbulência de violações de direitos relacionadas a reestruturação e modernização das cidades-sede dos jogos chegaram a órgãos como o Ministério Público, a Defensoria Pública e a diversos movimentos sociais do Brasil.
Remoções forçadas, despejos ilegais, políticas de higienização dos espaços públicos e dos centros urbanos, proibição do trabalho informal, militarização das favelas, extermínio de moradores de rua, criminalização do protesto social e outros muitos casos de segregação social dos excluídos têm vindo a ocorrer por causa da Copa do Mundo que tem servido sistematicamente como pretexto para intensificar a divisão das cidades em “zonas civilizadas” (onde o Estado e o Direito atuam de forma democrática) e “zonas selvagens” (onde o Estado e o Direito atuam de forma fasciscizante sem a menor consideração pela dignidade humana) (Santos, 2003). Moradores de vilas e favelas, população de rua, prostitutas, ambulantes, trabalhadores informais e barraqueiros já começam a sentir os efeitos negativos das operações urbanas e do avanço da especulação imobiliária nas regiões centrais das cidades e nas regiões próximas aos estádios. Para essas pessoas a Copa do Mundo provavelmente não será uma grande festa e sim um indigno tormento, o pesadelo de serem removidas dos espaços urbanos em que durante anos moraram, trabalharam e construíram suas vidas.
O que mais impressiona neste caso é o fato de que todas essas violações sistemáticas de direitos ocorrem diante da mais profunda indiferença social, já que, em geral, se entende que para garantir as condições de realização da Copa do Mundo vale a pena qualquer medida e qualquer esforço. Tal situação tem-se caracterizado como um “Estado de Excepção” permanente, ou seja, uma “condição jurídico-política na qual a erosão dos direitos civis e políticos ocorre abaixo do radar da Constituição, isto é, sem a suspensão desses direitos” (Santos, 2007). Na mesma linha, Carlos Vainer (2011b) utiliza o termo “Estado de Excepção” para definir “situações excepcionais nas quais as regras que regem o estado de direito ficam suspensas” permitindo, assim, violações de direitos que em outras circunstâncias seriam inaceitáveis.
Desse modo, sem que seja preciso suspender formalmente os direitos e garantias constitucionais, tais direitos e garantias são violados com a flexibilização de leis e legislações, com a alteração dos mapas de planejamento urbano e zoneamento do solo sem a participação democrática como prevê a Constituição, com a concessão de espaços públicos a grandes corporações, com a instauração de “áreas de restrição comercial”, com operações urbanas consorciadas que operam através de parcerias público-privadas, com a criação de tribunais extraordinários e secretarias especiais, e também com a proibição do trabalho informal, com a intensificação da repressão, com a volta de grupos de extermínio e com políticas públicas de segurança como o “choque de ordem” e a “pacificação de favelas”.
Os trabalhadores informais, cuja presença na economia e na cultura das cidades é tão importante, não fazem parte do projeto de “Cidade Global”, ou cidade espetáculo, que o país quer mostrar ao mundo durante os jogos. A Lei Geral da Copa, atinge de forma particularmente forte essa categoria ao instaurar “áreas de restrição comercial” no entorno dos estádios, locais oficiais do evento, zonas turísticas e vias de acesso, territórios nos quais a FIFA e seus patrocinadores passam a ter o monopólio da publicidade e de qualquer atividade comercial.
Isso implica no fato de que os trabalhadores informais estarão proibidos de trabalhar durante os eventos relacionados a Copa do Mundo. Mas os efeitos ultrapassam o período dos jogos. Feirantes, ambulantes e artesãos de rua já estão sendo fortemente reprimidos nos centros das cidades em uma clara intensão de limpeza e higienização dos espaços urbanos. Estimativas apontam que mais de 300.000 pessoas têm o seu direito ao trabalho ameaçado em
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decorrência da realização do Mundial segundo pesquisa realizada pela StreetNet Internacional em abril de 2012. (StreetNet é uma rede de trabalhadores de rua que tem se organizado globalmente contra as violações de direitos dos trabalhadores informais e precários causadas por megaeventos como a Copa do Mundo ou as Olimpiadas).
Os barraqueiros do Mineirão, foco principal deste estudo, vendem alimentos em torno do estádio desde que este foi fundado em 1964. Ao longo de todas essas décadas o grupo desenvolveu uma forma de trabalho e produção de alimentos que poderia ser descrita como artesanal, popular e de pequena escala, além de toda uma relação com as torcidas, com a cultura do futebol e com a cidade em geral, o que lhes confere ampla legitimidade junto a população que frequenta os estádios.
Entretanto, se depender do governo e dos organizadores do evento, não haverá espaço para os barraqueiros nem antes, nem durante e nem depois da Copa do Mundo. De acordo com a Secretaria Especial para Assunptos da Copa:
Agora não há porque o estádio está em obras. Durante a Copa não há porque o território será da FIFA. Depois da Copa não haverá, pois o público dos estádios terá mudado e é preciso que o comércio evolua com este público.
Implícita a essa afirmação está o desejo de elitizar o público e mercantilizar ainda mais o futebol.
Desde o encerramento das atividades esportivas no Mineirão para fins de reforma e modernização para a Copa do Mundo Fifa de 2014 os Barraqueiros vivem um momento peculiar em que a continuidade de sua atividade está ameaçada, bem como as suas vidas pessoais, tendo em vista que muitos ficaram desempregados e sem fonte de renda. Com contas a pagar e bocas a alimentar, os barraqueiros estão verdadeiramente desesperados: muitos não conseguem se sustentar vendo-se obrigados, inclusive, a deixarem suas casas e abandorarem tratamentos médicos, outros são obrigados a trabalhar na ilegalidade em condições precárias e inseguras.
Estes trabalhadores, ao verem-se sem sua única fonte de subsistência, estão a se organizar para pleitear o direito ao trabalho, assegurado no artigo 5° da Constituição Federal e no artigo 23° da Declaração Universal dos Direitos Humanos, além do seu reconhecimento diante do poder público e da justiça como previsto na Constituição Federal, que reconhece o papel de tais atores e de suas formas próprias de trato com o urbano nos artigos 215 e 216, que tratam dos direitos culturais, do patrimônio cultural brasileiro e da importância de tais grupos sociais e das diferentes manifestações culturais como participantes do processo civilizatório nacional. Esta pesquisa justifica-se, em primeiro lugar, como uma forma de denunciar as violações de direitos e a situação de vulnerabilidade social em que foram deixados os barraqueiros do Mineirão. Em segundo lugar pretende-se alertar para um possível projeto de transformação da cultura do futebol. Busca-se ainda dar visibilidade à história e à tradição dos barraqueiros do Mineirão que, embora seja reconhecida por todos aqueles que frequêntam os estádios, praticamente não possui registros bibliográficos ou filmográficos.
Por fim, esta pesquisa pode contribuir para recentes estudos acadêmicos sobre os impactos dos mega-eventos e ajudar a entender as dinâmicas que permeiam a transformação das cidades segundo um projeto que, como indica Rolnik (2010), Vainer (2011) e o dossiê produzido pela Articulação Nacional de Comitês Populares da Copa (2011); está orientado para um modelo hegemônico de cidade: limpa, moderna, desenvolvida, eficiente e sem pobreza; um modelo de cidade espetáculo.
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