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Limitação do direito face à amplitude do humano

A primeira dimensão da cidadania a entrar em cena foi a civil seguida da política – mas estas dimensões apresentam um caráter muito abstrato dado que sem as condições para a efetivação destes direitos, estes são meras intenções. A sua promoção exige os meios para o exercício da cidadania e passam pela aquisição de bens indispensáveis ao usufruto da vida digna em todos os domínios da vida social o que obriga a que a cidadania passe a inscrever-se num duplo registo: o registo dos espaços territoriais e o registo dos direitos do homem.

Sem esta articulação, na perspetiva de Turner (1986), a cidadania continuará a apresentar diferentes formas de fechamento social ao assentar em critérios de inclusão mas também de exclusão. Ao mesmo tempo que estabelece um conjunto de princípios igualitários que asseguram o acesso de todos os membros aos recursos que são produzidos, distribuídos e dados a usufruir na sociedade, a cidadania exclui da participação plena da vida em comunidade aqueles que, não são reconhecidos legitimamente como membros de direitos. A cidadania moderna precisa reforçar a base tanto do direito a viver em sociedade, como da obrigação de desenvolver uma atividade coletiva. De tal forma, os direitos sociais necessitam de ser redefinidos de acordo com uma relação de direitos e obrigações, direitos em relação às pessoas e obrigações em relação à sociedade. O exercício da cidadania

Indivíduos LEGITIMIDADE DIREITOS DEVERES Estado Organização de Estados RESPONSABILIZAÇÃO

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pressupõe a existência de indivíduos ativos, participativos e empenhados na vida coletiva e na prossecução do bem comum.

Só a articulação/conjugação da cidadania com a dignidade humana assente em direitos, mas sobretudo em deveres, obrigações em relação à comunidade e ao meio ambiente podem promover a vida plena agora e no futuro. Os desafios que se colocam à cidadania deslocam-se para o sistema social e exigem, cada vez mais, a participação coletiva, as condições sociais e materiais que possibilitem uma vida digna para todos, na expressão total da sua humanitude.

Assim, urge promover a passagem da cidadania do domínio político para o interior da sociedade, para o campo económico e social. A questão desloca-se do exercício da soberania para a garantia dos direitos individuais, de forma que, a cidadania passe a ser um estado de suficiente e real autonomia, com o desenvolvimento e o exercício das plenas capacidades de cada um, fazendo jus à noção de responsabilidade cívica apresentada por Turner (2000), como princípio de ligação impessoal ou tipo particular de interação social, promotor de simplicidade, parcimónia, solidariedade recíproca, respeito pelos direitos e deveres que na nossa perspetiva, teria por base a conceção de deveres de obrigação de natureza imperfeita. Ou seja, como deveres de obrigação perfeitos temos todos os imperativos morais ou normativos claros e precisos não dando, por isso, margem para considerações ou ambiguidades. As obrigações de natureza imperfeita, ao contrário, são de tipo indefinido, no sentido de não se prescreverem com clareza os limites e as condições sob as quais esse ato ético e humanamente louvável deve ser conduzido. Por exemplo o imperativo moral “tu não matarás” traduz um dever perfeito enquanto “tu farás tudo para que o outro viva” traduz uma obrigação de dever imperfeito. Assim, as normas de reciprocidade generosidade, afetividade, amizade entram neste campo dos deveres imperfeitos. Efetivamente, os sistemas perfeitos encerram em si mesmos a compreensão dos atos que defendem, proclamam ou concedem. Os sistemas imperfeitos concedem maior liberdade e amplitude comportamental propiciando liberdade e campo de ação sem limites. Os deveres imperfeitos assumem um caráter mais problemático ligado ao campo das virtudes, beneficência ou generosidade cujo grau de exigência é sempre indeterminado e ilimitado.

Estas ideias corroboram o pensamento de Ghai (2000), que entende que o facto de o regime internacional de direitos humanos desvalorizar o “dever” submetendo-o ao absolutismo do “direito” prejudica a reciprocidade entre direitos e deveres. Ou seja, os direitos humanos não são, na opinião do autor, desejáveis, uma vez que elevam o indivíduo acima da sociedade e podem prejudicar a construção e coesão da mesma. Os deveres, segundo a opinião do autor, constituem uma via melhor para se alcançarem os objetivos visados pelos direitos, são menos propensos a rivalidades e alimentam o cultivo das virtudes, logo dos deveres de natureza imperfeita estabelecendo as condições para uma solidariedade recíproca entre direitos e deveres.

Efetivamente, o sistema da reciprocidade para funcionar precisa assentar num compromisso entre todos, centrado na reciprocidade entre direitos e deveres pelo que muitos autores defendem a passagem da nomenclatura “direitos humanos” para “direitos/deveres humanos”, pois como nos disse Gandhi “O Ganges dos direitos corre dos deveres dos Himalais”

A cidadania moderna precisa reforçar a base tanto do direito a viver em sociedade, como da obrigação de desenvolver uma consciência coletiva. De forma que, os direitos sociais necessitam de ser redefinidos de acordo com uma relação de direitos e obrigações, o exercício da cidadania pressupõe a existência de indivíduos ativos, participativos e empenhados na vida coletiva e na prossecução do bem comum.

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Só a articulação/conjugação da cidadania com a dignidade humana assente em direitos e em deveres podem promover as condições sociais e materiais que possibilitam uma vida digna para todos, necessitando de promover a passagem da cidadania do domínio político para o interior da sociedade, para o campo económico e social. A questão desloca-se do exercício da soberania para a garantia dos direitos individuais onde a cidadania passa a ser um estado de suficiente e real autonomia, com o desenvolvimento e o exercício das plenas capacidades de cada e consciência crítica capaz de uma reflexão sobre a abrangência universal dos Direitos Humanos que conduzem a uma constante reivindicação pela sua efetivação bem como a uma análise crítica construtiva e desconstrutiva na medida, em que constatamos que a hegemonia da verticalidade das normas exprime uma ética de direitos e deveres de natureza mais abstrata do que humana no sentido concreto da ação no quotidiano da vida social. Sendo que, essa normatividade cria uma certa alienação do próprio Eu e do Outro humano o que remete para a necessidade de consolidação dos direitos a adquirir, os direitos de solidariedade apresentados como direitos de 3ª geração em paralelo com os de 2ª, os direitos sociais buscam o bem estar e o desenvolvimento social e humano com empenho em ultrapassar a contradição criada pelo capitalismo internacional, privado e estatal, urge um novo compromisso social capaz de articular Estado(s), capital/mercados, sociedade civil e as pessoas em si mesmo.

Em paralelo impõe-se, pela voz de alguns autores, uma reflexão sobre a abrangência universal dos direitos humanos que conduzem a uma constante reivindicação pela sua efetivação bem como, a uma análise crítica, construtiva e desconstrutiva, na medida em que o ser humano, não sendo um produto acabado e final, está permeável à transformação política, cultural, económica e social. Neste sentido, Sousa Santos (2002), com o intuito de ultrapassar o dualismo universalismo e relativismo cultural, apresenta uma conceção multicultural de direitos humanos. Pois, como refere Ghai (2000), a universalidade dos direitos humanos está ancorada no pressuposto da existência de uma natureza humana universal e essencialmente diferente de qualquer outra realidade. Postulado que os relativistas contestam ao considerarem que a natureza humana não é uma abstração, mas um produto resultante da relação entre seres humanos num determinado contexto espacial, temporal e histórico.

Efetivamente, Sousa Santos (2003) chama a atenção para as dissonâncias quanto à imposição de um modelo de dignidade humana elaborado pelos países ocidentais como um valor exterior e universal, pois, segundo Suresh (1999), os discursos contemporâneos sobre direitos humanos baseiam-se na tradição da modernidade ocidental e da democracia liberal que evidencia o universalismo dos direitos, reduzindo a expressão do pluralismo cultural ou da comunidade, enquanto centro de direito e de justiça; pelo que, uma abordagem positiva dos direitos humanos requer uma reconciliação construtiva entre indivíduos e comunidade, universalidade e especificidade, com base na justiça social e cultural.

Pois, como afirma Panikkar (1984: 28), “nenhuma cultura, tradição, ideologia ou religião pode hoje falar em nome de toda a humanidade, quanto mais resolver os seus problemas”. Este etnocentrismo e egocentrismo em torno da concepção humana só poderão ser atenuados quando cada cultura reconhecer a sua incompletude, e perceber que os aspetos de outras culturas poderão completar ou enriquecer a sua. “Aumentar a consciência de incompletude cultural até ao seu máximo possível é uma das tarefas mais cruciais para a construção de uma conceção multicultural de direitos humanos” (Santos, 2003: 442).

Neste sentido, o autor propõe que, contra o universalismo, se proponham diálogos interculturais, que contra o relativismo se desenvolvam critérios que permitam distinguir uma política progressista de uma política conservadora de direitos humanos, uma política de

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capacitação de uma política castradora, uma política emancipadora de uma política reguladora. Aspetos que apresentam, como que, os pilares necessários para a construção de uma agenda de direitos humanos baseada em constelações de sentidos locais, nacionais e globais que, sendo mutuamente inteligíveis, constituam redes normativas e capacitantes de democracia e cidadania.

Efetivamente, a substituição do princípio de igualdade ou diferença pelo princípio de igualdade e diferença coloca o enfoque da análise sobre a diversidade enquanto valor patrimonial da humanidade, exigindo que a cidadania, a participação e a democracia sejam consequentemente mais inclusivas e dialogantes na preservação e instauração da paz em sentido alargado, dado que paz é algo mais do que ausência de conflitos, é o sentimento de si, de estar e sentir-se em paz consigo e com os outros, é um estado de consciência do dever cumprido para a prossecução do bem comum.

Referências Bibliográficas

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Santos, Boaventura de Sousa (2002), Democracia e Participação. Porto: Edições Afrontamento.

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