2. ENQUADRAMENTO PESSOAL
2.3. A corrida: confronto com a realidade
Depois de dado o tiro de partida e de ter formulado todas as minhas expectativas iniciais para a corrida que estava prestes a começar, foi tempo de enfrentar os longos metros da pista de Atletismo que, no fundo, foram todas as experiências que vivi na escola. Ao longo de toda a corrida, que durou de setembro de 2018 a junho de 2019, apercebi-me que não estava a experienciar uma simples corrida de resistência, mas sim uma corrida de obstáculos, tendo sido necessário transpô-los para poder prosseguir e alcançar a meta final. Foi uma prova longa, dura e difícil, mas que eu adorei realizar. Quando a terminei, senti-me feliz e enriquecida. No início deste percurso era uma pessoa (e uma profissional); agora, indubitavelmente, sou outra. Este ano de aprendizagem contribuiu para esta mudança tão positiva na minha vida.
18
Os frutos do compromisso, do brio e da dedicação
Apesar de o estágio não acontecer durante um período de tempo muito longo, é um momento marcante na vida de qualquer professor (Simões, 2008) e uma parte essencial do processo de aprender a ensinar (Fletcher & Kosnik, 2016). Segundo Lave e Wenger (cit. por Queirós, 2014, p. 68), “é no contacto com os espaços reais que o estudante estagiário conhece os contornos da profissão, tornando-se, pouco a pouco, um membro dessa comunidade educativa”. Há muito que eu esperava por este momento! Queria experimentar o que é ser professora; o que é assumir um compromisso com os alunos e com a escola. No início, todas as experiências vivenciadas pelo docente têm influência na sua decisão de permanecer ou não na profissão que escolheu, isto porque vive momentos caracterizados por sentimentos que poderão ser contraditórios e que o desafiam constantemente (Queirós, 2014). De facto, todos esses sentimentos e desafios incessantes foram acontecendo ao longo do meu EP, mas tudo o que vivenciei contribuiu não para a decisão, mas sim para a confirmação de que é (e só poderia ser) esta a minha profissão.
A forma como encarei o estágio – com compromisso, brio e dedicação – foi preponderantes para o desenrolar do ano letivo, onde na base da minha atuação esteve o cuidado em preparar as aulas, em estudar a matéria de ensino e em transmiti-la da melhor forma:
(…) procurei preparar-me ao máximo para todas as aulas e tive a preocupação de estudar os critérios de êxito dos diferentes conteúdos. (DB nº13 – Unidade Didática de Voleibol) … a necessidade de terminar todas as aulas com a ideia de dever cumprido e com o sentimento de que os alunos gostaram e aprenderam:
Senti que os alunos gostaram e que trabalharam, o que para mim é bastante recompensador. (RA 87-88 / 12 de março de 2019)
… a preocupação em proporcionar a todos os estudantes e à comunidade atividades inovadoras e enriquecedoras:
No que toca ao plano de atividades do NE, a professora apelou à diferença e à originalidade, de forma a que conseguíssemos deixar a “nossa marca”. (Reflexão da atividade Urban Workout)
19
… a necessidade e o querer crescer enquanto professora, desenvolver a minha criatividade, saber mais, aprender mais:
As conversas, as dúvidas que me surgiam e lhe colocava, a discussão sobre qual o melhor exercício para trabalhar este conteúdo, os conselhos da sua parte… Estes e muitos outros aspetos contribuíram em muito para o meu crescimento, não só ao meu conhecimento da modalidade, como também à minha evolução enquanto professora. (DB nº13 – Unidade Didática de Voleibol)
Todos estes exemplos práticos foram desafios enormes; obstáculos que fui transpondo e que me provocaram sentimentos antagónicos, pois nem sempre correu tudo bem, como nem sempre correu tudo mal:
Existiram aulas que correram muito bem e onde me envolvi por completo, e outras em que a desilusão foi total, por sentir que não consegui assumir o papel de professora da forma como gostaria. (DB nº13 – Unidade Didática de Voleibol)
No entanto, foram aspetos que me permitiram crescer e tornar-me cada vez melhor. Tudo contribuiu para a realização deste ano tão importante e imprescindível na conclusão da minha formação inicial que, nas palavras de Mesquita (2010, p. 5) “é, por excelência, o período de iniciação do futuro profissional”.
De aluna a professora
Este ano confrontei-me verdadeiramente com a passagem de aluna para professora, à qual todos os docentes estão sujeitos. Segundo Queirós (2014), o professor sente-se como se de um momento para o outro deixasse de ser estudante e sobre os seus ombros caísse uma responsabilidade profissional acrescida. A verdade é que desde setembro que sentia que estava a sofrer um processo de transformação enorme. Sabia que esta profissão é difícil, complexa e exigente, porque desde sempre contactei muito com ela no meu ambiente familiar. No entanto, foi ao longo deste último ano, no contacto com os contornos reais da profissão, que me apercebi, verdadeiramente, da sua complexidade, e da importância de o docente adquirir uma “bagagem considerável de autonomia e responsabilidade para que possa actuar na complexidade que envolve a condição do ser-se professor” (Alves, cit. por Mesquita, 2010, p. 14).
Deparei-me com uma profissão que, na minha opinião, é extremamente especial, pela enorme responsabilidade que apresenta e pela imprevisibilidade
20
constante. As turmas são distintas, os alunos são igualmente diferentes, as motivações variam, os interesses não são os mesmos, e, por isso, o professor terá de saber adaptar-se a todas essas realidades e trabalhar em cima delas. “A imprevisibilidade faz, assim, parte dos ambientes de ensino e aprendizagem” (Rosado & Ferreira, 2015, p. 204), sendo fundamental que o docente saiba lidar com ela. Posso afirmar que esta característica da docência é, provavelmente, aquela que mais me fascina e, simultaneamente, a que mais me inquieta, já que estamos a falar de um “ambiente claramente dinâmico, complexo e não-linear” (Rosado & Ferreira, 2015, p. 204). Contudo, todos os momentos vividos – seja em contexto de aula como fora dela (atividades promovidas, envolvimento com a comunidade, direção de turma, reuniões…) – proporcionaram-me uma nova visão sobre a prática profissional e permitiram-me adquirir um olhar crítico sobre esta área. Foi, em suma, um ano em que tive a oportunidade de aprender a resolver os problemas emergentes da profissão e entender o papel fundamental que o professor tem na formação dos alunos.
O ano de estágio… o encontrado
Quando utilizamos o conceito de “profissional”, estamos a falar de uma realidade que é preciso definir, utilizando, para isso, alguns critérios (Alonso, s.d.), sendo um desses critérios a competência docente. Apesar de todas as possíveis definições que podia dar sobre o que eu achava ser um professor competente (aquele que consegue chegar aos alunos, que os ensina verdadeiramente; mais do que ensinar determinado assunto, educa os alunos, incute-lhes valores, regras; cumpre os seus objetivos com sucesso e os alunos sentem que aprenderam e evoluíram), a verdade é que, na profissão docente, é extremamente difícil definir o que é a competência, pois esta depende das diferentes situações com que nos confrontamos. Acima de tudo, aprendi durante este ano de estágio que o professor deve sempre possuir o “como”, o “porquê” e o “para quê” da sua atuação, sendo questões que andarão sempre comigo ao longo do meu futuro.
No seguimento do pensamento anterior, o ano de estágio permitiu-me melhorar a minha capacidade crítica e reflexiva O desenvolvimento destas atitudes na identidade profissional dos docentes permite que os professores construam as suas próprias iniciativas em função dos alunos, do meio ambiente,
21
das relações, dos recursos, do local de trabalho ou dos obstáculos encontrados (Perrenoud, 1999). Consequentemente, todo esse desenvolvimento e crescimento produziram efeitos benéficos na minha prática profissional, pois o meu olhar sobre a escola, sobre os alunos, sobre o ensino e sobre aquilo que deverá ser um bom professor tornou-se cada vez mais profundo e crítico, ajudando-me a alcançar uma atuação cada vez mais profissional e com maior qualidade.
Desde o início que a peça principal desta grande experiência se centrou nos alunos. Estes meninos foram, e serão sempre, a minha primeira turma; aquela que irei recordar no futuro com alegria e saudade. Foram eles que me fizeram descobrir verdadeiramente o ensino e me ajudaram a vivenciá-lo pela primeira vez. Foram eles que me permitiram apaixonar-me ainda mais por esta profissão. Aqueles que eu mais temia tornaram-se naqueles que levarei comigo para o resto da vida. Nunca esquecerei cada nome, cada cara, cada personalidade. Foram alunos que me proporcionaram um EP fantástico, tornando-se, deste modo, num dos pilares mais importantes do ano letivo que passou.
O envolvimento com a comunidade, com a escola e com os professores foi igualmente enriquecedor para a conclusão da minha formação. Este ano fez- me ter certezas de que a partilha e o envolvimento são fundamentais na construção, melhoria e evolução da profissão, da escola e de todos os membros que dela fazem parte.
Em relação ao NE e à PC, superaram a todos os níveis as expectativas iniciais que havia criado e tiveram uma importância enorme no meu estágio. Segundo Gomes et al. (2014), o EE melhora as suas capacidades de ensino quando trabalha dentro de uma comunidade de prática, e, de facto, a partilha, a entreajuda e o trabalho colaborativo foram uma constante ao longo do ano, permitindo que todos pudéssemos aprender uns com os outros e crescer profissional e pessoalmente. Tal como refere Queirós (2014), a relação com o PC é fundamental e a união do NE revela-se como indispensável para o bom desenrolar de todo o ano letivo.
No fundo, e fazendo a ponte para a corrida que percorri, a PC foi a minha treinadora, estando presente em todos os momentos importantes, ajudando-me a superar as minhas maiores dificuldades, a realçar as minhas maiores
22
qualidades e fazendo-me perceber que o ensino e a EF são, afinal, ainda mais fantásticos do que aquilo que eu pensava. Os meus colegas do NE foram os meus parceiros de equipa, aqueles que correram comigo, que ultrapassaram os obstáculos comigo e que nunca me abandonaram. Sem eles, nada disto teria sido possível. Partimos juntos e cruzámos a meta ainda mais unidos.
A tentativa de expressar por palavras aquilo que o EP me proporcionou é extremamente difícil. Todas as experiências vividas permitiram (re)descobrir-me e (re)construir-me pessoal e profissionalmente, tendo sido a paixão, a entrega e a dedicação fundamentais na concretização deste ano excecional. No entanto, tenho plena consciência de que a minha formação ainda só agora começou, pois ela “vai acontecendo ao longo da vida”, e tem “um papel determinante no desenvolvimento profissional dos professores” (Neves, 2007, p. 89).
23