3.1 O SISTEMA AMERICANO DE PROTEÇÃO AOS DIREITOS HUMANOS
3.1.3 A Corte Interamericana de Direitos Humanos
O segundo órgão da Convenção Americana de Direitos Humanos, assim definido por seu art. 33, é a Corte Interamericana de Direitos Humanos, criada diretamente pela Convenção para implementar os direitos ali reconhecido. A Convenção estabelece, nos arts. 52 a 69, a organização, competência, funções e procedimentos da Corte Interamericana, dispondo ainda, no art. 60, que a própria Corte elaborará seu Estatuto, que “deverá ser submetido à aprovação da Assembléia Geral da OEA, e ditará seu Regimento Interno”, esse sem interferência ou ingerência externa185.
Trata-se, pois, de uma instituição judicial autônoma, não dependente ou submissa às deliberações e demais tratados da OEA, embora exerça papel consultivo à OEA na interpretação e aplicação dos tratados do sistema americano, em especial nos instrumentos que versem, ainda que indiretamente, sobre direitos humanos, nos termos do art. 62.3 da Convenção (ALVES, 1994, p. 80). No entanto, a principal função da Corte Interamericana é atuar consultiva e contenciosamente na implementação dos direitos consagrados na Convenção Americana, ou seja, o papel da Corte é garantir que a Convenção seja cumprida, ainda que por meio de mecanismos coletivos de sanção internacional (HERNÁNDEZ GÓMES, 2002, p. 192).
Embora a criação da Corte e a reformulação das funções e competências da Comissão integrem o texto da Convenção Americana de Direitos Humanos, adotou-se186
, diversamente do sistema europeu187
, o critério de conferir aos Estados
185
Dados sobre os textos da Convenção Americana de Direitos Humanos, do Estatuto e Regimento Interno da Corte Interamericana de Direitos Humanos podem ser encontrados no site da OEA: <www.corteidh.or.br>
186
Nos termos do art. 62.1 da Convenção Americana de Direitos Humanos, onde dispõe: “Art. 62. 1. Todo Estado-parte puede, en el momento del depósito de su instrumento de ratificación o adhesión de esta Convención, o en cualquier momento posterior, declarar que reconoce como obligatoria de pleno derecho y sin convención especial, la competencia de la Corte sobre todos los casos relativos a la interpretación o aplicación de esta Convención”. (grifo nosso) Disponível em: <www.corteidh.or.br>.
187
No sistema europeu, a ratificação da Convenção Européia de Direitos Humanos implica a obrigatoriedade de ratificação da competência do Tribunal Europeu de Direitos Humanos. Contudo, essa obrigatoriedade não se aplicou à ratificação do Protocolo 11 à Convenção, que garantiu direito de acesso direto aos indivíduos ao Tribunal e, por conseguinte, extinguiu o papel de triagem da Comissão Européia de Direitos Humanos, exceto para os Estados que aderiram à Convenção Européia após a entrada em vigor do Protocolo 11, em 1998. Cabe ressaltar,
membros da OEA a faculdade de ratificar o texto da Convenção sem reconhecer, ao mesmo tempo, a competência contenciosa da Corte. A título de exemplo, pode-se citar o caso brasileiro, que ratificou a Convenção em 1992 e a competência da Corte apenas em 1998. Antes de 1992, o Brasil só poderia ser demandado pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos por ofensa à Declaração dos Direitos e Deveres do Homem da OEA. Entre 1992 e 1998, também competia apenas à Comissão Interamericana demandar o país por ofensa à Convenção Americana de Direitos Humanos, contudo sem o poder de atribuir-lhe sanção internacional. Apenas a partir do final de 1998 o Brasil pôde ser demandado por um órgão judicial contencioso internacional188
.
Os reflexos dessa disparidade são evidentes. Apenas após reconhecer a competência da Corte Interamericana de Direitos Humanos podem os Estados sofrer as sanções impostas pela Convenção aos violadores dos direitos ali consagrados. Em respeito ao princípio da legalidade nulla paena, sine lege, os Estados também só poderão ser demandados pelas violações ocorridas após a data de sua ratificação da competência da Corte, ficando impunes, ao menos pelo sistema interamericano, das violações de direitos humanos ocorridas anteriormente189.
contudo, que os 46 atuais Estados-parte da Convenção Européia de Direitos Humanos ratificaram a competência do Tribunal e são também parte do Protocolo 11. Disponível em: <http://conventions.coe.int/Treaty/Commun/QueVoulezVous.asp?NT=155&CM=7&DF=9/30/2006 &CL=ENG>. Acesso em: 30 set. 2006.
188
Conforme nota anterior, dos atuais 24 Estados signatários da Convenção Americana de Direitos Humanos, apenas 20 Estados se submetem à jurisdição da Corte Interamericana de Direitos Humanos: Argentina, Chile, Barbados, El Salvador, Honduras, Bolívia, Brasil, Nicarágua, Panamá, Haiti, Colômbia, Paraguai, Costa Rica, México, Equador, Suriname, Guatemala, República Dominicana, Uruguai e Venezuela. No que se refere ao Brasil, é importante destacar que, somente em 1998, reconheceu a jurisdição da Corte Interamericana de Direitos Humanos. Dados no site da Corte Interamericana de Direitos Humanos. Disponível em: <www.corteidh.or.cr>. Acesso em: 20 jun. 2006.
189
Ainda citando o exemplo brasileiro, os casos de violação de direitos humanos anteriores a 1998 jamais poderão ser julgados pela Corte Interamericana de Direitos Humanos; como: a) Chacina do Carandiru: a chacina que resultou na morte de 111 detentos do Pavilhão 9 da Casa de Detenção do Carandiru, em São Paulo, em 02 de outubro de 1992, com a invasão de tropas da polícia militar, visando conter a rebelião dos presos que reivindicavam melhores condições de tratamento e respeito aos direitos humanos. Os presos foram massacrados. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u60163.shtml>; b) Chacina da Candelária: Em 23 de julho de 1993, no centro da cidade do Rio de Janeiro, mais precisamente em frente à Igreja da Candelária, onde 50 crianças dormiam sobre uma marquise, foram executados pela polícia militar sete crianças (meninos) e um adolescente. Os sobreviventes denunciaram o caso, que somente foi julgado no Brasil 1996. Dados disponíveis em: <http://www1.folha.uol.com.br/ folha/especial/2004/massacreemsp/candelaria.shtml>; c) Massacre de Eldorado dos Carajás: Em 17 de abril de 1996, no sul do Estado do Pará, 19 sem-terra foram executadas pela polícia militar. O confronto ocorreu em virtude de uma reivindicação pela reforma agrária. A polícia foi autorizada a usar a força, “inclusive atirar”, para desobstruir a Rodovia Estadual PA 150, local
A possibilidade conferida pelo sistema americano de opção aos Estados americanos em ratificar conjuntamente ou em separado o texto da Convenção e a competência da Corte gera, ainda, problemas futuros, como o caso do Peru, que, após ter sido sancionado diversas vezes pela Corte em razão de violações de direitos humanos em seu território, denunciou a competência da Corte Interamericana, embora permaneça como Estado parte da Convenção e Estado membro da OEA.
A Convenção Americana de Direitos Humanos estabelece, nos arts. 61 a 65, a competência da Corte, dispondo, especificamente no art. 62.3, que “a Corte tem competência para conhecer de qualquer caso relativo à interpretação e aplicação das disposições da Convenção, sempre que os Estados parte do caso tenham reconhecido ou reconheçam dita competência”. No entanto, a Corte também pode ser acionada por qualquer Estado membro da OEA para interpretar norma relativa a tratados de direitos humanos no sistema interamericano, ainda que tal Estado não seja parte da Convenção ou que não tenha ratificado a competência da Corte.
Ao efetuar tal reconhecimento, os Estados comprometem-se a aceitar, como obrigatória e de pleno direito, a decisão da Corte relativa à interpretação e aplicação da Convenção Americana de Direitos Humanos. Assim, a Corte fixa a responsabilidade internacional do Estado por violação de direitos humanos protegidos pela Convenção, independentemente do órgão interno ou da pessoa responsável pela violação.
A Corte Interamericana de Direitos Humanos foi criada em 1979, com sede em San José, capital da Costa Rica, e compõe-se no único órgão judicial internacional de defesa dos direitos humanos da região, apesar de a Corte Internacional de Justiça, órgão da ONU, já ter analisado, subsidiariamente, casos que versassem sobre a violação de direitos humanos no continente americano (SANCHES RODRÍGUÉZ, 1997, p. 508).
onde se encontravam cerca 1.500 pessoas em manifestação. Resultado do confronto: 19 pessoas morrem no local, 2 morrem anos depois, e outras 67 ficaram feridas e mutiladas para sempre. Dados disponíveis em: <www.pt.wikipedia.org/Massacre_de_Eldorado_dos_Caraj%C3% A1s. Acesso em: 30 set. 2006.
Nos termos do art. 52.1 da Convenção, a Corte é composta por sete juízes, nacionais dos Estados membros da OEA, eleitos a título pessoal entre juristas da mais alta autoridade moral e reconhecida competência em matéria de direitos humanos.
Os juízes da Corte são eleitos por um período de seis anos (art. 54.1 da Convenção) e somente poderão ser reeleitos uma única vez. Todavia, o mandato de três dos juízes eleitos na primeira eleição expirará ao término de três anos. A escolha dos juízes, cujos mandatos serão de três anos, é determinada por sorteio, realizado pela Assembléia Geral da OEA, imediatamente após a eleição do corpo de magistrados. O juiz que venha a ser eleito apenas para substituir outro magistrado, cujo mandato não haja expirado, completará o período desse, conforme preceitua o art. 54.2 da Convenção.
O art. 64 da Convenção dispõe que a Corte tem competência consultiva e contenciosa. A competência contenciosa é restrita à Convenção Americana de Direitos e ao Protocolo Adicional de San Salvador, como visto. Já a competência consultiva alcança ambos os sistemas interamericanos, podendo a Corte interpretar qualquer tratado sobre direitos humanos em vigor nos Estados americanos.
Além dos Estados membros, podem apresentar consulta à Corte o Conselho Permanente da OEA; a Comissão Consultiva de Defesa da OEA; o Órgão de Consulta, resultado da Reunião de Consultas dos Ministros das Relações Exteriores dos Estados membros da OEA e, é claro, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos190.
Os Estados membros da OEA podem, ainda, realizar consultas sobre a interpretação da Convenção, de outros tratados, de uma lei interna de determinado Estado ou, ainda, de uma sentença proferida pela Corte, nos termos do art. 67 da Convenção. Quando a consulta versar sobre uma sentença proferida pela Corte, essa consulta deverá respeitar os requisitos dispostos pelo art. 59 do Regimento Interno da Corte, quais sejam: a) a sentença deverá ser de mérito ou de reparação; b) a formulação dos pedidos deverá ser precisa, consignando as perguntas
190
CORTE INTERAMERICANA DE DERECHOS HUMANOS. Parecer Consultivo del 24 de septiembre de 1982. San José, Costa Rica: Corte Interamericana de Derechos Humanos, 1982, Serie A, n. 2, § 29.
específicas em relação à matéria sobre a qual está se solicitando a explicação; c) a consulta não suspenderá a execução da sentença191
.
Nos pedidos de opinião consultiva apresentados por um Estado membro ou pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos, é necessária ainda a indicação das considerações que originaram a consulta, bem como o nome do agente192
e dos delegados193
. A opinião consultiva tem efeito vinculante a todos os Estados, sob pena de os Estados violadores incorrerem em responsabilização internacional194
.
Em ambos os Sistemas Regionais de Proteção aos Direitos Humanos, dois são os atos que contêm as decisões das Cortes acerca das questões que lhes são submetidas: as sentenças e os pareceres. As sentenças decidem dos litígios envolvendo as violações às Convenções, enquanto que os pareceres são opiniões emitidas pelo Plenário das Cortes, quando consultadas pelos Estados signatários da Convenção (no sistema europeu) ou da OEA (no sistema interamericano) (FIORATI, 1994, p. 13).
191
O Regimento da Corte Interamericana de Direitos Humanos foi aprovado em seu XLIX período ordinário de sessões, celebrado entre 15 a 25 de novembro de 2000 e reformulado parcialmente pela Corte em seu LXI período de sessões ordinárias, celebrado de 20 de novembro a 04 de dezembro de 2003 e em vigor desde 1º de janeiro de 2004. Disponível em: <www.corteidh.or.cr/sistemas.cfm?id=2>. Outra fonte de informação sobre os textos do Regimento Interno e Estatuto da Corte Interamericana de Direitos Humanos, bem como outras fontes bibliográficas sobre o assunto, é a Biblioteca Virtual de Direitos Humanos da Universidade de São Paulo:< www.direitoshumanos.usp.br>.
192
O art. 2º do Regimento Interno da Corte Interamericana de Direitos estabelece as definições para os termos usualmente empregados no sistema interamericano de direitos humanos; dentre eles define-se agente como “a pessoa designada por um Estado para representá-lo perante a Corte Interamericana de Direitos Humanos”, e delegado como “a pessoa designada pela Comissão para representá-la diante da Corte”.
193
Nos termos do Título III – Das Opiniões Consultivas, art. 60 – Interpretação da Convenção, do Regimento Interno da Corte Interamericana de Direitos Humanos: “1. Las solicitudes de opinión consultiva previstas en el artículo 64.1 de la Convención deberán formular con precisión las preguntas específicas sobre las cuales se pretende obtener la opinión de la Corte. 2. Las solicitudes de opinión consultiva formuladas por un Estado-miembro o por la Comisión, deberán indicar, además, las disposiciones cuya interpretación se pide, las consideraciones que originan la consulta y el nombre y dirección del Agente o de los Delegados. 3. Si la iniciativa de la opinión consultiva es de otro órgano de la OEA distinto de la Comisión, la solicitud deberá precisar, además de lo mencionado en el párrafo anterior, la manera en que la consulta se refiere a su esfera de competencia.” Disponível em: <www.corteidh.or.cr>.
194
A exemplo, cita-se o caso da consulta formulada pela Guatemala sobre a instituição da pena de morte no país. A Corte se manifestou terminantemente contra, seguindo a interpretação da Convenção Americana de Direitos Humanos. Os pareceres da Corte sobre a matéria são válidos erga omnes, e não apenas para o Estado que fez a consulta, como, no caso, a Guatemala. Ver o caso em: CORTE INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS. Parecer Consultivo n. 3 OC-3- 83, de 8 de setembro de 1983. Restrições à pena de morte (arts. 4.2 e 4.4 da Convenção Americana de Direitos Humanos), Série A.
No que se refere ainda à competência contenciosa da Corte, essa sempre se manifestará sobre o julgamento dos casos de violação aos direitos humanos encaminhados pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos.
Assim, compete à Comissão, após o não-acatamento das conclusões do seu primeiro relatório pelo Estado requerido, acionar o Estado perante a Corte Interamericana de Direitos Humanos, desde que esse Estado tenha previamente reconhecido a jurisdição da Corte. Essa regra vale também para os demais Estados que queiram apresentar denúncia contra outro Estado pela violação de direitos humanos, uma vez que a garantia dos direitos humanos resguardados pela Convenção é obrigação objetiva de interesse conjunto (TRAVIESO, 1996, p. 429).
A fase de postulação perante a Corte se inicia com a apresentação da demanda à sua Secretaria (Regimento Interno da Corte, art. 32). Cabe ao Secretário da Corte fazer as notificações de recebimento da demanda formalmente ao seu presidente e aos demais juízes, ao Estado requerido, à Comissão e ao denunciante ou a seus familiares e representantes (Regimento Interno da Corte, art. 35.1). Cabe, ainda, informar aos demais Estados membros da OEA e ao Secretário Geral da OEA a apreciação da demanda (Regimento Interno da Corte, art. 35.2).
O presidente da Corte procederá ao exame prévio sobre a admissibilidade da demanda, verificando o cumprimento dos requisitos fundamentais. Constando o não-cumprimento, o presidente solicitará que o demandante supra as lacunas no prazo de vinte dias, nos termos do art. 34 do Regimento Interno da Corte.
A defesa do Estado demandado se fará mediante à contestação, que deverá ser apresentada no prazo dos quatro meses que se seguirem à notificação, e ao atendimento dos mesmos requisitos da petição inicial, nos termos do art. 38 do Regimento Interno da Corte. Após a fase escrita, dá-se início à fase oral, com a fixação de audiências.
Perante a Corte, a Comissão e o Estado requerido têm a possibilidade de produzir provas e exercitar todas as faculdades processuais do devido processo legal. Admite-se, também, tal qual no sistema europeu, a solução conciliatória. O
acordo deve, contudo, ser homologado pela Corte, que nesse caso representa a defesa dos direitos consagrados pela Convenção195
.
A Corte assegura às supostas vítimas, seus familiares e representantes o direito de participarem e de serem ouvidos durante todo o processo de apuração de responsabilidade pela violação de direitos humanos (Regimento Interno da Corte, arts. 23 e 41). Do mesmo modo, além das testemunhas e dos peritos, toda e qualquer pessoa poderá ser ouvida pela Corte, no sentido de apurar os fatos denunciados (Regimento Interno da Corte, art. 42).
Durante o processo, todos os envolvidos poderão requerer a produção de provas, desde que respeitados os prazos e os momentos dispostos nos arts. 36, 37.5 e 44.1 do Regimento Interno da Corte. Em casos excepcionais, a Corte poderá aceitar provas produzidas ou colacionadas intempestivamente, desde que seja demonstrado que a produção da prova não se fez ao tempo devido em virtude de força maior, impedimento grave ou fatos supervenientes (Regimento Interno da Corte, art. 44.3).
Ressalta-se que, além dos recursos procedimentais de apuração dos fatos, dos pareceres, opiniões consultivas e sentenças de reparação, compete à Corte também zelar pela cessação dos casos de violação de direitos humanos. Nesse sentido, em se tratando de casos de violação iminente, de extrema gravidade ou de urgência, ou ainda casos em que a violação não foi interrompida, apesar da denúncia à Comissão e à Corte, essa poderá dispor de medidas provisórias (cautelares), visando impedir o Estado de seguir com as violações196.
As medidas provisórias poderão ser requeridas a qualquer tempo (Regimento da Corte, art. 25) e deverão ser incluídas nos Informes Anuais da
195
Como exemplo de conciliação bem-sucedida perante a Corte, pode-se citar o caso Maqueda, no qual a Comissão e o governo argentino acordaram pela libertação de Guillermo Maqueda. A Corte analisou o acordo, homologando-o, pois considerou que, “teniendo en cuenta lo anterior y considerando que la cuestión central en el caso es la violación del derecho a la libertad del señor Maqueda y que ese derecho ha sido restituido mediante el acuerdo a que han llegado las partes, la Corte estima que éste no viola la letra y el espíritu de la Convención Americana”. (CORTE INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS. Caso Maqueda, resolução de 17 de janeiro de 1995, Série C, n.18, parágrafo 27, p. 12)
196
Nos termos do art. 63.2 da Convenção Americana de Direitos Humanos, que dispõe: “Art. 63.2. En casos de extrema gravedad y urgencia, y cuando se haga necesario evitar daños irreparables a las personas, la Corte, en los asuntos que esté conociendo, podrá tomar las medidas provisionales que considere pertinentes. Si se tratare de asuntos que aún no estén sometidos a su conocimiento, podrá actuar a solicitud de la Comisión”.
Assembléia Geral da OEA, e, quando não forem cumpridas pelo Estado violador, a Corte formulará as recomendações que julgar pertinentes (Regimento da Corte, art. 25.8).
Recentemente, em 28 de julho de 2006, o Estado brasileiro foi demandado, em virtude de uma medida provisória requerida ela Comissão Interamericana de Direitos Humanos, em 25 de julho do mesmo ano, visando proteger, em caráter emergencial, a vida e a integridade das pessoas aprisionadas na Penitenciária “Dr. Sebastião Martins Silveira”, situada em Araraquara, São Paulo197
. As medidas cautelares foram propostas em 11 e 14 de julho de 2006 e registradas pela Comissão sob os protocolos MC-166/06 e MC-173/06, tendo sido apresentadas pelas organizações não-governamentais Fundação Interamericana de Defesa dos Direitos Humanos (fidDH), Justiça Global, Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH) – São Paulo, Pastoral Carcerária, Ação dos Cristãos para Abolição da Tortura (ACAT Brasil) y Grupo Tortura Nunca Mais – São Paulo. As denúncias pautavam-se na ausência total do Estado de garantir condições mínimas de vida, integridade, segurança e demais direitos aos prisioneiros da Penitenciária Dr. Sebastião Martins Silveira, de Araraquara, interior de São Paulo.
Segundo a denúncia formulada em 07 de julho de 2006, as pessoas privadas de liberdade na penitenciária de Araraquara promoveram um novo motim, em razão de estarem alojadas no centro penitenciário 1.600 pessoas onde apenas havia capacidade para 160. Os agentes penitenciários, em razão da rebelião, retiraram-se do local e soldaram a porta de acesso, deixando para trás 1.600 pessoas privadas de seus pertences, sem roupas, cobertores, colchões, remédios ou assistência de qualquer ordem, sem produtos de higiene e sem eletricidade, que foi cortada para que os “detentos não pudessem carregar seus celulares”198
.
197
CORTE INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS. Medidas provisionais de 28 de julho de 2006. “Caso das pessoas privadas de liberdade na Penitenciária Dr. Sebastião Martins Silveira, em Araraquara, São Paulo, Brasil”. Disponível na página principal do site da Corte: <www.corteidh.or.cr>.
198
Segundo informações da denúncia formulada pelas organizações não-governamentais, nesse centro penitenciário havia apenas 13 sanitários e 64 celas. Muitos detentos tinham de fazer suas necessidades em sacos plásticos e dormiam no piso de cimento do pátio, já que não havia