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2.1 PERSPECTIVA HISTÓRICA DOS DIREITOS HUMANOS

2.1.2 Características dos Direitos Humanos

2.1.2.1 Universalidade

A universalidade é uma característica dos direitos humanos, fundada primeiramente em seu caráter erga omnes, uma vez que seu titular é o ser humano, não importando qualquer distinção de raça, credo, sexo, nacionalidade, idade, profissão, formação intelectual, ou qualquer outro elemento que o distinga. De fato, muitos ordenamentos jurídicos, como o brasileiro, chegam a reconhecer a titularidade de alguns direitos ao ser humano ainda em formação, garantindo ao nascituro direitos humanos individuais, sociais e difusos, como a vida, o direito à família e ao patrimônio genético33

.

Peces-Barba (1999, p. 299) identifica ainda mais dois planos referentes à universalidade dos direitos humanos, sendo eles o plano temporal e o plano espacial. Para o primeiro, os direitos humanos seriam universais porque não são afetados por desenvolvimentos históricos ou superações tecnológicas. Os indivíduos detêm direito pelo simples fato de serem humanos, característica que não sofre modificações ao longo do tempo e, portanto, não pode ser alterada sob justificativas históricas. No segundo plano, a universalidade dos direitos compreenderia sua internacionalização, ou seja, seu reconhecimento em todas as partes do mundo34.

O reconhecimento da universalidade dos direitos humanos é, ainda, contestada em face do relativismo cultural. Entendem alguns Estados, influenciados pela Escola Histórica do pensamento, como visto anteriormente, que os direitos humanos são fruto histórico de cada realidade e desenvolvimento cultural de determinado povo ou nação, não sendo, portanto, de conceito e delimitação

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O art. 2º do atual Código Civil brasileiro dispõe: “a personalidade civil da pessoa começa do nascimento com vida; mas a lei põe a salvo, desde a concepção, os direitos do nascituro”. Conforme o Enunciado 1 do CEJ (Centro de Estudos Judiciários do Conselho da Justiça Federal), “A proteção que o Código defere ao nascituro alcança o natimorto no que concerne aos direitos de personalidade, tais como o nome, imagem e sepultura.” (Cf. NEGRÃO, Theotonio. Código Civil e Legislação em Vigor. 22. ed. São Paulo: Saraiva, 2003. p. 39, nota 3 ao art. 2º)

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“A universalidade dos direitos humanos, propugnada pela Carta Internacional dos Direitos Humanos (Declaração Universal de 1948 e dois Pactos de Direitos Humanos das Nações Unidas de 1966, por exemplo), vem sendo sustentada em termos inequívocos nas duas Conferências Mundiais de Direitos Humanos (Teerã, 1968, e Viena, 1993). Tema recorrente na evolução do presente domínio de proteção nas últimas cinco décadas, a questão da universalidade dos direitos humanos ocupa permanentemente um espaço importante no tratamento adequado da matéria”. (Cf. TRINDADE, Antônio Augusto Cançado. Tratado de Direito Internacional dos Direitos Humanos. Porto Alegre: Safe, 1997. v. I, p. 20)

universais. As justificativas se dividem ao sustentar que os direitos humanos são produzidos pelo Estado para atender a uma determinada classe de pessoas em detrimento de outra35

, ou que são instrumentos de ingerência e dominação de um Estado para outro36

. Para os seguidores desse posicionamento, o reconhecimento e a efetivação dos direitos humanos dependeriam do nível de desenvolvimento37

econômico, político e jurídico de cada sociedade, respeitados ainda seus valores e tradições culturais38

.

Felizmente, a maioria dos Estados39 reconhece a universalidade como

característica essencial dos direitos humanos, recordando que são anteriores à

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Principal expoente da Escola Histórica alemã, Marx sustentava a tese de que os direitos humanos eram direitos burgueses, reconhecidos pelo Estado para atender aos desejos da burguesia em detrimento do proletariado. (MARX, Karl. A Questão Judaica. 5. ed. São Paulo: Centauro, 2000. p. 37-38)

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Ainda que no campo da sociologia, muitos Estados ratifiquem as convenções internacionais de direitos humanos apenas por seus aspectos políticos e econômicos, como pregado pela teoria realista das relações internacionais, não se pode fazer uso de tal teoria para afastar dos Estados a obrigação com a proteção e promoção dos direitos humanos, dentro e fora das fronteiras de seu território. Sobre a crítica ao uso indiscriminado das bandeiras de luta dos direitos humanos como instrumentos de ingerência internacional e colonialista, ver RODRIGUES, Horácio Wanderlei. O uso do discurso de proteção aos direitos humanos como veículo da dominação exercida pelos Estados centrais. In: ANNONI, Danielle. Direitos Humanos & Poder Econômico: conflitos e alianças. Curitiba: Juruá, 2005. p. 15-33.

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Embora a Conferência de Viena reafirme o direito ao desenvolvimento como direito humano fundamental, ou seja, eleve ao rol de direitos humanos as ações dos Estados em prol do desenvolvimento social, político e econômicos de seus povos, essa afirmação não importa em conferir a esses mesmos Estados justificativas para a omissão no que tange à efetivação dos demais direitos humanos. O art. 10 de seu Programa de Ações dispõe, justamente que “[...] Embora o desenvolvimento facilite a realização de todos os direitos humanos, a falta de desenvolvimento não poderá ser invocada como justificativa para se limitarem direitos humanos internacionalmente reconhecidos. Os Estados devem cooperar uns com os outros para garantir o desenvolvimento e eliminar obstáculos ao mesmo. A comunidade internacional deve promover uma cooperação internacional eficaz visando à realização do direito ao desenvolvimento e à eliminação de obstáculos ao desenvolvimento. O progresso duradouro necessário à realização do direito ao desenvolvimento exige políticas eficazes de desenvolvimento em nível nacional, bem como relações econômicas eqüitativas e um ambiente econômico favorável em nível internacional”. (Cf. ALVES, José Augusto Lindgren. Os Direitos Humanos na Pós-modernidade. São Paulo: Perspectiva, 2005. p. 158)

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Nesse sentido se manifestaram as delegações governamentais dos Estados da China, Brunei, Irã, Líbia e Arábia Saudita, com variações de declarações sobre a questão do relativismo cultural e religioso, na Conferência Mundial de Viena sobre Direitos Humanos, ocorrida em Viena em 1993. (Cf. TRINDADE, Antônio Augusto Cançado. Tratado de Direito Internacional dos Direitos Humanos. Porto Alegre: Safe, 1997. v. I, p. 216)

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A Conferência Mundial de Direitos Humanos de Viena, 1993, contou com a presença de 171 Estados e 3000 delegados representando 1.500 ONGs. (Cf. TRINDADE, Antônio Augusto Cançado. Tratado de Direito Internacional dos Direitos Humanos. Porto Alegre: Safe, 1997. v. I, p. 206)

criação e consolidação do Estado, e não estão, portanto, adstritos aos interesses políticos ou às disponibilidades econômicas desse ou daquele Estado40.