CAPÍTULO II REVISÃO DA LITERATURA
2. A Criatividade – Abordagens Teóricas e Conceitos
Falta-nos a crença obstinada de que os produtos simples podem
e devem ser melhorados e que a criatividade não pode ficar só na música
e no futebol. Cláudio de Moura Castro
É inquestionável a importância que a criatividade tem em nossas vidas, para a nossa formação e para a geração de um meio ambiente saudável e em constante evolução. No turbilhão de mudanças que ocorrem nos dias de hoje, as quais surgem e se esvaem em ritmo absolutamente acelerado, devemos receber as novidades com curiosidade e estar preparados para atuar como agentes nos processos inerentes à evolução humana.
Na sociedade dita pós-moderna, todo o conhecimento tácito e explícito adquirido se torna obsoleto em tempo recorde. Para tanto, é importante que os indivíduos sejam formados de maneira criativa, isto é, que sejam estimulados e motivados, em seus ambientes sociais e culturais, a perceber, receber e produzir novidades, bem como cultivar o ato de criar, exercitar a imaginação e desenvolver um autoconceito positivo.
Deve-se, sobremaneira, promover a criatividade na escola, que é um dos agentes responsáveis pela formação das sociedades. Inclusive, a preocupação em envolver a criatividade no processo de ensino-aprendizagem deve estar refletida em todos os níveis de ensino. Assim, desde a primeira infância deve-se provocar os alunos a buscar a autoconfiança, a criticidade e a intenção de serem aprendentes por toda a vida. Esta busca se concretiza, entre outras, na capacidade individual de solução a problemas formulados, na prática da investigação, na vivência de novas experiências, bem como na execução de atividades de
O início da pesquisa sobre criatividade na era moderna é marcado pelo discurso de Guilford perante a Associação Americana de Psicologia em 1950, que apontou a necessidade de estudos científicos na área de criatividade, ressaltando que esse tema era negligenciado, até então, nos meios acadêmicos (Guilford, 1987; Isaksen, 1987).
No período compreendido entre 1950 e 1960, as pesquisas na área de criatividade buscaram identificar habilidades de pensamento criativo e traços de personalidade vinculados à criatividade. De 1960 a 1970, os estudos em criatividade voltaram-se para a investigação de maneiras eficientes para desenvolver o potencial criativo dos indivíduos. Ainda, este último foi um período em que as críticas às práticas educativas foram intensificadas, ressaltando-se que eram tradicionais, conservadoras e inibidoras da criatividade:
sob a influência do movimento humanista (Maslow, 1968; Rogers, 1961), que defendia a idéia de que todos os indivíduos apresentam um potencial criativo que deve ser cultivado, especialmente no contexto escolar, observou-se uma revisão das estratégias educacionais, bem como a multiplicação de programas de treinamento e técnicas de estimulação da criatividade. (Alencar & Fleith, 2003b, p. 62)
Outras contribuições teóricas surgiram nas décadas de 70 a 80 e, então, as pesquisas ampliaram o seu foco para o processo criativo, o desenvolvimento do pensamento criativo, o ato criativo e as influências do contexto que pudessem interferir no processo.
Alencar e Fleith (2003a) descrevem que é a partir da década de 80 que se observa uma preponderância da visão sistêmica da criatividade, tendo como alguns de seus teóricos mais relevantes Csikszentmihalyi e Amabile. O primeiro, por exemplo, afirma que a criatividade é um produto da interação entre os pensamentos do indivíduo e o contexto sociocultural, que deve ser compreendida como um fenômeno sistêmico.
2.1 Conceituando a Criatividade
Criatividade é a inspiração divina. Sócrates
Ao pensar em criatividade, as definições que nos vêm à mente são as mais variadas e os estereótipos sustentados pelo senso comum determinam os conceitos leigos. Por exemplo, remetendo-nos ao termo criatividade, podemos pensar em um indivíduo que, conhecido por sua produção criativa em uma determinada área, entrou para a história da humanidade, como, por exemplo, Michelangelo, Cecília Meirelles e Beethoven. Também, pode-se imaginar que o indivíduo criativo é apenas aquele artista famoso, ou mesmo anônimo, que nos deslumbra com suas obras artísticas. Existe o estereótipo bastante comum de que o indivíduo criativo foi tocado por forças divinas que lhe concederam o dom da criatividade. Todos esses equívocos são conceitos, idéias e preceitos assumidos pela nossa sociedade como verdadeiros.
É importante lembrar que existe uma tendência leiga e equivocada de estabelecer uma relação direta entre a criatividade e a expressão artística, como se a criatividade não pudesse surgir de outras áreas, o que é incorreto, pois a criatividade surge em todas as áreas do conhecimento humano. Vejamos como exemplos de criatividade nas mais variadas áreas o cantor e compositor Chico Buarque, o escritor e literato Pablo Neruda, os arquitetos Sig Bergamin e Oscar Niemayer, o sociólogo e acadêmico Amartya Sen, o cientista Thomas Edison, entre outros.
Ainda há os que consideram a criatividade uma questão de pura inteligência, apesar de já se saber, cientificamente, que são conceitos distintos. Sternberg e O’Hara (1999) destacam a contribuição de Getzels e Csikszentmihalyi, que apontam essa diferença, ressaltando que a criatividade e a inteligência podem representar processos distintos, assim como a inteligência
pode ser requisitada em um número sem fim de níveis em diferentes campos da produção criativa. Um cientista pode ser um gênio na física quântica, entretanto, pode não lograr êxitos ao desenhar uma casa da forma perfeita com que um arquiteto comum o faria. Esta idéia converge com a teoria das Inteligências Múltiplas de Gardner (Garder, 1993), que enfatiza a inteligência como sendo uma coleção de distintas inteligências. De acordo com esta teoria, as pessoas podem ser inteligentes de várias formas e essas inteligências podem ser utilizadas também de forma rica e variada, não necessariamente incluindo expressões criativas.
Sternberg e O’Hara (1999), em pesquisa sobre criatividade e inteligência, utilizando vários modelos teóricos, entre eles, o de Guilford (estrutura do intelecto) e de Gardner (teoria das inteligências múltiplas), concluíram que a criatividade parece envolver, no mínimo, aspectos sintéticos, analíticos e práticos da inteligência: “sintéticos para criar as idéias, analíticos para avaliar a qualidade dessas idéias e práticos para formular a melhor maneira de comunicar as idéias de forma efetiva e persuadir os interlocutores do seu valor” (p. 269). Entretanto, os autores finalizam o artigo afirmando que, apesar da quantidade de pesquisas na área, não é possível definir um consenso sobre a natureza da relação entre a criatividade e a inteligência, nem mesmo definir com precisão o que são os referidos construtos.
Guilford (1987), por sua vez, além de contribuir com seus estudos a respeito de habilidades cognitivas que se associam à criatividade, deu ênfase para a emergência de pesquisas sobre os traços de personalidade de pessoas criativas. Este pesquisador defende que “a produção criativa do dia a dia é sem dúvida dependente dos traços primários, mais que das habilidades. Aspectos motivacionais (interesses e atitudes), bem como fatores de temperamento devem contribuir significativamente” (p. 44).
Já De Masi (2003) aponta a riqueza de aspectos e teorias que são inerentes ao estudo da criatividade e afirma que é impossível detalhar objetivamente todas as habilidades do indivíduo criativo:
quanto às habilidades requeridas pela criatividade, elas são tais e tantas que talvez seja mais justo negar inteiramente que seja possível esperar-se qualquer lista de características peculiares aos criativos, desde que se excetuem a persistência e a intensidade da dedicação deles ao trabalho. (p. 480)
Exato acordo sobre a definição da criatividade não existe. Muitas são as suas nuances e a percepção que temos deste termo. Feldman, Csikszentmihalyi e Gardner (1994) lembram que “a criatividade é uma dessas palavras que estão em qualquer lugar” (p. 2). Pode-se constatar que a palavra “criatividade” tem vários significados e aplicações, dependendo da situação. Pode-se falar, por exemplo, na pessoa criativa, no processo criativo, na criatividade na escola ou no ambiente de trabalho, no estímulo à criatividade, dentre outras formas de sua expressão e desenvolvimento.
Ao tentar conceituar a criatividade, Sternberg e Lubart (1995) reforçam que “consideramos um produto como criativo quando é (a) novidade e (b) apropriado. Esses dois elementos são necessários para a criatividade” (p. 11). Também Stein (em Alencar, 1995a), de forma similar a Sternberg e Lubart, define criatividade como “um processo que resulta em algo novo, que aceito como útil e/ou satisfatório por um número significativo de pessoas em algum ponto no tempo” (p. 13). Os dois conceitos nos remetem a uma conclusão: algo ou alguém é considerado criativo quando produz-se um elemento que, naquela sociedade, naquele momento no tempo, na história e no tempo, traduz-se em uma novidade, que é útil ou considerada de valor.
Também MacKinnon (em Alencar & Fleith, 2003b), em um estudo sobre a personalidade criativa, concluiu que a real criatividade deve satisfazer três condições básicas: (a) a resposta deve ser nova; (b) a resposta deve estar adequada a uma determinada realidade e
deve solucionar algum problema; (c) deve incluir avaliação, elaboração e desenvolvimento do insight original.
Pode-se dizer que, independentemente das diversas abordagens teóricas sobre a criatividade ou sobre a sua expressão nos indivíduos, há uma confluência para a percepção de que esta é intimamente ligada com algo novo, seja um produto ou uma idéia (Alencar & Fleith, 2003b; Amabile, 1983; Sternberg & Lubart, 1995). Na mesma linha, Schuman (em Alencar, 1995a) propõe que “o termo pensamento criativo tem duas características fundamentais, a saber: é autônomo e é dirigido para a produção de uma nova forma” (p. 13).
Alencar (1995a) salienta que todos os indivíduos são criativos em alguma medida, apresentando, porém, diferentes níveis de expressão e desenvolvimento de sua capacidade de criar. Assim, pode-se dizer que todas as pessoas possuem habilidades criativas, as quais podem ser potencializadas. Em se tratando da expressão e desenvolvimento da criatividade, sabe-se que estes dependem de muitos elementos que favorecem ou dificultam a sua emergência.
Amabile (1996) também aborda a questão dos graus de criatividade ressaltando que existem vários graus de criatividade, que podem ser considerados mais ou menos criativos ao serem comparados. A autora descreve a contribuição de Cattle e Butcher (1968), que afirmam que a criatividade pode se manifestar em níveis distintos, desde a produção científica mais complicada até a produção de um elemento artesanalmente.
2.2 O Processo Criativo: Preparar, Imaginar, IIuminar!
Pensar criativamente pode significar a mera constatação de que não há mérito algum em fazer as coisas do jeito como sempre foram feitas. Rudolph Flesch
Muitas são as definições do processo criativo, as quais chamam a atenção para aspectos que se sobressaem nos diversos momentos do processo de criação. Alencar e Fleith (2003b) ressaltam que, para Helmholtz, por exemplo, o processo criativo inclui três etapas: a saturação – que é junção de dados para o desenvolvimento de novas idéias; a incubação – que é a organização mental dessas novas idéias; e a iluminação – que é quando a solução ou resposta emergem.
Wallas (1982) complementa os três estágios do pensamento criativo de Helmoltz incluindo a etapa da verificação. O autor defende que o quarto estágio, o da verificação, está muito próximo da definição do primeiro (preparação): é um fenômeno consciente, demanda muito trabalho e preparação e institui normas lógicas. É nessa etapa em que se avalia a solução de um determinado problema, com base em normas e critérios lógicos estabelecidos conscientemente pelo indivíduo.
Amabile (1983) salienta que muitas das mais recentes definições da criatividade foram direcionadas ao processo criativo. Essas definições, segundo a autora, baseiam-se na noção que qualquer coisa que surja do processo poderia ser chamado de criativo. Ela reproduz a definição de John Watson (Amabile, 1983, p.18) como sendo a mais relevante sobre o processo criativo “como o novo se torna realidade: uma questão natural sempre levantada é: como sempre conseguimos novas criações verbais como poemas ou escritos brilhantes? A resposta é que nós os conseguimos manipulando palavras, mesclando-as até que um novo padrão apareça”.
Csiksentmihalyi (1996) considera que a criatividade envolve a produção de novidade. Ele comenta que “o processo de descoberta envolvido na criação de algo novo parecer ser uma das mais divertidas atividades que cada pessoa pode estar envolvida” (p. 113), baseado nas respostas apresentadas por participantes de suas pesquisas. O autor indica que, em certos casos, o processo criativo começa com o objetivo de resolver um problema que foi apresentado àquela pessoa, seja um problema científico da mais alta relevância ou qualquer outro desafio imposto, citando o que um de seus respondentes mencionou:
Oh, eu adoro resolver problemas. Se é o porque nossa máquina de lavar louça não funciona, ou porque o carro não pega ou como o sistema nervoso trabalha ou qualquer outra coisa. Agora estou trabalhando em como as células capilares funcionam e... ah... é tão interessante. Não me importa que tipo de problema é. Se eu posso solucionar, é divertido. (p. 114)
Alencar e Fleith (2003b) salientam que, para que aconteça a emergência de um novo produto fruto do pensamento e processo criativos, vários aspectos devem ser considerados, como conhecimento, trabalho, certos traços de personalidade e características cognitivas. Alencar (1995a) destaca que a produção criativa não ocorre por acaso, como por milagre, muito pelo contrário, esta é fruto de técnica, domínio, preparo, trabalho, dedicação e esforço, associados a algumas habilidades características de pessoas criativas, como flexibilidade, originalidade, sensibilidade a problemas e imaginação.
Certamente não foi somente um insight que levou Thomas Edison a inventar a lâmpada. Se fosse possível voltar ao tempo e pesquisar como o cientista chegou até a descoberta, identificaríamos que houve muito trabalho e esforço pessoal. Sternberg e Lubart (1995) lembram que os níveis mais altos de criatividade envolvem uma grande etapa de
afirma que a criatividade não é resultado apenas da iluminação e inspiração, mas sim de muito trabalho, atitude, perfeccionismo e suor.
Até chegar ao momento do insight, na etapa da iluminação, o indivíduo já percorreu o caminho da coleta de dados, da significação das descobertas, do envolvimento e da dedicação ao trabalho. A maturação de todo este processo prévio leva à iluminação da nova idéia. Atingido o estágio do insight, o indivíduo deverá verificá-lo e apresentá-lo para que seja aceito como novidade. Além da determinação e dedicação ao trabalho, pode-se afirmar que também contribuem de forma decisiva a personalidade criativa, as habilidades e atitudes pessoais.
Dentre as habilidades cognitivas comumente ligadas aos conceitos de criatividade, como previamente mencionado, estão a flexibilidade, a fluência, a imaginação e originalidade, as quais podem ser características individuais. Torrance, também dedicado à pesquisa das habilidades cognitivas relacionadas à criatividade, desenvolveu testes de criatividade para a medição do potencial criativo. Vale ressaltar que suas pesquisas foram concentradas em crianças. Segundo esse pesquisador (em Alencar, 1995a), criatividade é “o processo de tornar- se sensível a problemas, deficiências, lacunas no conhecimento, desarmonia; identificar a dificuldade; buscar soluções, formulando hipóteses a respeito das deficiências; testar e retestar estas hipóteses; e, finalmente, comunicar os resultados” (p. 28).
2.3 O Desenvolvimento e Expressão da Criatividade
Sendo a criatividade um fenômeno complexo, um aspecto importante no desenvolvimento e expressão da criatividade nos indivíduos, além das habilidades cognitivas e traços de personalidade, são as influências sociais, culturais e ambientais. Estas vêm sendo discutidas por autores diversos, como Alencar (1995a), Alencar e Fleith (2003a), Amabile
(1983), Csikszentmihalyi (1996), Sternberg e Lubart (1995) e tratadas como bastante relevantes e determinantes na produção criativa.
Amabile (em Alencar & Fleith, 2003b) indica o importante papel de fatores sociais e ambientais para o desenvolvimento da criatividade. No seu Modelo da Criatividade, apresenta três componentes necessários ao trabalho criativo, em qualquer área: habilidades de domínio (expertise em um determinado domínio), processos criativos relevantes (estratégias e traços de personalidade que favoreçam a produção de novidades) e motivação intrínseca.
Pesquisas sobre motivação – intrínseca e extrínseca – foram realizadas durante anos. Amabile (1983) propõe que “o estado intrinsecamente motivador é condutor para a criatividade, enquanto o estado extrinsecamente motivador tem efeitos negativos” (p. 91). A autora define a motivação intrínseca como uma motivação para engajar em uma atividade por sua própria conta, porque a pessoa tem uma percepção agradável e interessante e desafiadora do problema.
Collins e Amabile (1999) afirmam que a motivação instrínseca está intimamente ligada ao desafio proposto e ao prazer envolvido no trabalho. Contrariamente, a motivação externa está altamente vinculada a um objetivo externo ao trabalho em si, por exemplo, a recompensa por um trabalho, remuneração excepcional ou outro. Estes autores concluem:
O nosso entendimento sobre a relação entre a motivação e a criatividade não pode ser definida em separado, mas sim deve ser complementada pela atenção à personalidade, talento, cultura, cognição e outros fatores que afetam o processo criativo. Uma coisa que podemos concluir com certeza é ser o amor pelo trabalho uma vantagem para a criatividade. Nós podemos dizer, também com certeza, que quando fatores externos fazem com que o indivíduo diminua o seu prazer, a criatividade sofrerá. (p. 305)
Csikszentmihalyi (1996) comunga desta idéia, sugerindo que, para ser criativa, a pessoa deve internalizar todo o sistema que torna a criatividade possível. O autor aponta, inclusive, a importância do meio ambiente, salientando que mesmo a mente mais abstrata é afetada pelo meio ambiente que a envolve, de forma prática ou inspiradora. Vemos com freqüência autores de novelas ou atores que, para criar os enredos ou personagens, inserem-se em experiências de campo para “sentir” e “mergulhar” no tema. O autor afirma, entretanto, que
ainda que não existam evidências – e possivelmente nunca existirão – que provem que um local agradável nos leve à criatividade, certamente um grande número de trabalhos criativos nas áreas de música, arte, filosofia e ciência foram elaborados em locais agradáveis e belos”. (p. 135)
Outros aspectos externos analisados são fatores sociais que facilitam o comportamento criativo, valores e ações de agentes formadores e estimuladores da capacidade de criação do indivíduo (neste ponto, a escola e a família se destacam). Um ambiente familiar estimulador da criatividade pode levar à formação de um indivíduo mais curioso e inventivo, sempre associando este estímulo a atributos pessoais já cultivados. Ou mesmo uma situação limite pode nos induzir a criar novas soluções para um determinado problema. Neste sentido, o papel da escola é também fundamental para formar gerações de crianças, jovens e adultos com foco no fomento ao potencial criador. Como exploram Alencar e Fleith (2003b), é a mescla de todos estes fatores que determinará a emergência, em todos os níveis, de produtos criativos.
2.4 Barreiras ao Desenvolvimento da Criatividade
Mencionamos, até então, elementos importantes que contribuem para o desenvolvimento da criatividade no indivíduo. Podemos dizer, entretanto, que existem muitas barreiras para que o potencial criativo se desenvolva e seja expressado, conforme elucidam Alencar e Fleith (2003b). Da mesma forma que as influências sociais, atitudinais e culturais são propiciadoras da criatividade, as barreiras nestes mesmos contextos são bloqueadoras de sua expressão.
Alencar e Fleith (2003b) descrevem alguns fatores bloqueadores que se traduzem em barreiras à criatividade. As barreiras do contexto social se referem a:
a) pressões sociais com relação ao indivíduo que diverge da norma, o que significa que nossa sociedade forma pessoas obedientes à norma, padronizadas em um só parâmetro e aqueles que divergem são punidos;
b) atitude negativa com relação ao comportamento de correr riscos, que faz com que cresçamos conformados com o padrão, com medo de arriscar em casa, na escola, no trabalho;
c) aceitação pelo grupo como um dos valores mais cultivados, o que quer dizer que todos queremos ser aceitos e envolvidos nos nossos grupos sociais, e, assim, agimos sempre conforme as normas estabelecidas;
d) expectativas com relação ao papel sexual, que elucida as diferentes expectativas que temos com mulheres e homens, reforçando as desigualdades de gênero em todas as instâncias.
Adicionalmente às barreiras sociais, Alencar e Fleith (2003b) ressaltam que ainda existem as barreiras de natureza perceptual, emocional e intelectual. Quanto às barreiras perceptuais, estas dizem respeito a obstáculos que impedem a pessoa de perceber claramente a
situação ou a informação necessária para resolver um dado problema; quanto às barreiras emocionais, estas ocorrem quando os nossos sentimentos alteram a nossa capacidade de pensar e de nos expressar criativamente. Alguns exemplos destas barreiras foram apresentados pelas autoras, como pode ser observado a seguir:
- Barreiras perceptuais (exemplos): inabilidade para relacionar o problema com a solução; dificuldade para visualizar um objeto como tendo mais que uma função; dificuldade para reformular um julgamento previamente formado a respeito de algo; ênfase exagerada nas formas tradicionais de fazer as coisas; dificuldade em imaginar e propor diferentes alternativas.
- Barreiras emocionais (exemplos): negativismo, ou seja, dificuldade por parte do indivíduo em admitir sugestões ou considerar pontos de vista alheios; desconhecimento por parte do indivíduo de seus próprios recursos internos, potenciais e capacidades; medo do ridículo e da crítica; preferência por julgar idéias, em vez de gerar idéias; concepção que o indivíduo tem de si mesmo; sentimentos de inferioridade; ansiedade.
Em se tratando de elementos bloqueadores da expressão da criatividade, estas mesmas autoras nos remetem à importância do autoconceito, assim descrito pelas pesquisadoras “diz respeito à imagem subjetiva que cada pessoa tem de si própria, sendo esta altamente influenciada pela percepção do que os outros pensam a seu respeito” (p. 115). Assim, é fundamental que os agentes que exercem influência no desenvolvimento da criatividade no indivíduo tenham em mente a preocupação com a formação de indivíduos cujo autoconceito