UNIVERSIDADE
CATÓLICA DE
BRASÍLIA
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO
STRICTU SENSU EM EDUCAÇÃO
Mestrado
BRASÍLIA
2005
EXPRESSÃO E DESENVOLVIMENTO DA CRIATIVIDADE EM
AMBIENTES DE ENSINO-APRENDIZAGEM ONLINE
Autora: Claudia Rossana Gómez Valenzuela Vianna
CLAUDIA ROSSANA GOMEZ VALENZUELA VIANNA
EXPRESSÃO E DESENVOLVIMENTO DA CRIATIVIDADE EM AMBIENTES DE ENSINO-APRENDIZAGEM ONLINE
Dissertação submetida ao Programa de Pós-Graduação
Stricto Sensu em Educação da Unidade Católica de Brasília, na área de Ensino Aprendizagem, como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre.
Orientadora: Profa. Dra. Eunice Maria Lima Soriano de Alencar.
TERMO DE APROVAÇÃO
Dissertação de autoria de Claudia Rossana Gómez Valenzuela Vianna, intitulada “Expressão e Desenvolvimento da Criatividade em Ambientes de Ensino-Aprendizagem
Online”, apresentada ao Programa de Pós-Graduação Strictu Sensu em Educação como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre do Programa, defendida e aprovada, em 22 de junho de 2005, pela banca examinadora constituída por:
_________________________________________
Profa. Dra. Eunice Maria Lima Soriano de Alencar Orientadora
_______________________________________
Profa. Dra. Beatrice Laura Carnielli
_________________________________________
Profa. Dra. Denise de Souza Fleith
INSPIRAÇÃO
“Escrever é fácil.
Você começa com uma maiúscula
e termina com um ponto final.
No meio, coloca idéias".
DEDICATÓRIA
Ao meu marido Fernando,
que andou comigo de mãos dadas neste caminho até o fim, que me brindou a sua paciência
ao me tranqüilizar nos momentos de desânimo e que me dá o seu amor sincero, em todos os momentos da nossa existência,
AGRADECIMENTOS
A Deus, por ter me proporcionado saúde, sabedoria, amor e companheiros que me permitiram terminar este trabalho.
A meus filhos, Ana Carolina, Arthur e Heloísa, todo meu amor pela paciência em me esperar, durante tanto tempo de suas vidinhas fofinhas, para brincar sem o compromisso dos livros, dos estudos, do computador... para brincar, enfim, num sem fim de alegria, de descontração e de relaxamento:
“Olha os meus meninos
Os meus meninos, pra onde é que eles vão Se já saem sozinhos, as notas da minha canção
Vão os meus meninos,levando destinos Tão iluminados de sim. Passam por mim
E embaraçam as linhas da minha mão” (adaptado de Minhas Meninas, Chico Buarque)
A meus pais, Bernardo e Julia, que sempre me incentivaram a enfrentar desafios, meu amor e admiração pelo exemplo que cultivaram em nossa família. Agradeço terem sido meus pai e mãe e por terem me dado a formação necessária para mais este passo.
A minhas irmãs, Paola e Nati, por terem me suportado mesmo quando eu estava muito cansada, impaciente e mau-humorada, todo meu amor de irmã e companheira (não nestes últimos anos...).
À Helena, minha querida e única sobrinha até então, meu tatu bolinha, que acaba de nascer para florescer mais ainda a felicidade de nossa família.
À minha família no Rio, Suely, Fernando, Biza Anita, Flavinha e Lene, que me ajudaram na pesquisa e na torcida, todo o meu carinho.
A todos os meus amigos, especialmente Teresa, Dani, Lilica, Jun, Fernandinha, Junia, Orlando, Joana, Alexandre, Armando, a turma da Igreja, que acompanharam dia-a-dia o esforço realizado e o sucesso alcançado, que viram minha loucura, que partilharam minha angústia por me dividir em trabalho, casa, mestrado....
Ao meu chefe e amigo Oswaldo, por ter me dado todo o apoio que eu precisava durante este período e por ter me dado a liberdade de seguir estudando mesmo com a carga de trabalho sempre presente do dia a dia.
Ao amigo Rilson, que me ajudou a hospedar o site da pesquisa e fez com que a tecnologia realmente fosse
aplicada a este trabalho, desde a sua concepção. À Luiza Carvalho, uma grande incentivadora do meu
desenvolvimento acadêmico e uma querida amiga. À Paulina, que colaborou ativamente com a análise dos
dados estatísticos.
Aos tutores virtuais, que participaram da pesquisa e me incentivaram a buscar mais conhecimentos na área
de EAD online.
Aos colegas e amigos do Mestrado em Educação que compartilharam o passo-a-passo da realização desta
dissertação, em especial à Ângela e Zezé. Aos professores do Mestrado em Educação, que apresentaram
qualidades excepcionais e incentivadoras como mestres. Aos funcionários da Pós-Graduação da UCB e da
biblioteca, agradeço toda atenção e presteza comigo nos momentos em que foi necessário.
À Professora Beatrice, que por total sorte minha como aluna, foi minha mestra por dois semestres e muito me ensinou como educadora e como pessoa.
À Profa. Dra. Jacira, que com sua atenção e dinamismo, me cativou. Sou grata por ter me envolvido nos projetos da Universidade e por ter podido conhecer mais de perto seu exemplo de pessoa.
À Professora Dra. Denise, primeiro por ter prontamente aceito compor esta banca examinadora – o que muito me honra, e em segundo lugar por sempre ter demonstrado simpatia ímpar para comigo em todos os momentos desta trajetória.
Agradeço de forma mais que especial à Profa. Eunice, que muito além de orientadora, foi um exemplo de
liderança, profissionalismo, sabedoria e amizade. Não tenho palavras para expressar o quanto me ajudou, me incentivou e me orientou em teoria e na prática. Cumprir esta etapa e finalizar este trabalho foi gratificante
porque tive a presença da Profa. Eunice ao meu lado, que me ensinou desde o roteiro da APA até como não
RESUMO
Os pilares temáticos que norteiam esta pesquisa são o estudo da criatividade no contexto
educacional e o processo de ensino-aprendizagem na educação a distância online. A presente
pesquisa teve por objetivo investigar a expressão e o desenvolvimento da criatividade em
ambientes de ensino-aprendizagem online, baseando-se na percepção de tutores desta
modalidade de ensino. Cinqüenta e dois tutores de instituições de todo o país responderam a
um questionário que incluía uma relação de atributos pessoais a serem pontuados no que diz
respeito à sua relevância para uma atuação bem sucedida em EAD online, uma questão aberta
sobre a extensão em que o curso em que atuavam contemplava a criatividade do aluno, um
conjunto de práticas pedagógicas favorecedoras e inibidoras da criatividade para verificação
de sua implementação pelos tutores e um checklist de barreiras à criatividade no ambiente
online. Constatou-se que, para a grande maioria dos tutores, a criatividade vinha sendo
contemplada nos cursos de EAD online em que atuavam. Os atributos personológicos
indicados como os mais relevantes pelos tutores foram dedicação ao trabalho e entusiasmo,
confirmando estudos similares já conduzidos na área da criatividade. Observou-se que
segundo os tutores, os mesmos contemplam a criatividade nos cursos em que atuam,
utilizando mecanismos de interação e estímulos diversificados ao potencial do aluno, como o
uso de jogos, projetos, estudos de caso e aprendizagem colaborativa. Verificou-se que, dado o
caráter multidimensional e interativo do ambiente virtual, a estrutura e planejamento dos
cursos em si pressupõem uma boa dosagem de criatividade dos tutores e do alunado. As
barreiras à criatividade mais indicadas pelos tutores estão relacionadas ao aluno, como
dificuldade do aluno em participar de curso em EaD online, desinteresse do aluno com
relação ao conteúdo ministrado, alunos com dificuldade de aprendizagem em ambiente
online; pouca participação por parte dos alunos; e elevado número de alunos no curso. A
análise das questões de pesquisa foi enriquecida com um recorte de gênero. Entretanto,
poucas diferenças foram observadas entre a percepção dos respondentes do gênero masculino
e do gênero feminino, o que pode ser conseqüência da formação basicamente homogênea da
amostra.
PALAVRAS-CHAVE: Criatividade, educação a distância online, prática pedagógica,
ABSTRACT
The thematic pillars in which this research is based are the study of creativity in educational
context and the learning-teaching process in Online distance education modality. This
research aimed at investigating the expression and development of creativity within Online
teaching-learning environments, based on the perception of virtual tutors. Fifty-two tutors
from all over the country institutions answered a questionnaire that included a relation of
personal attributes to be evaluated regarding their importance to a well succeeded Online
tutorial practice, an open question over the extension in which the course they performed as
tutors contemplated the student’s creativity, a group of pedagogical practices that favor and/or
inhibit student’s creativity to be verified as being implemented or not in their courses and a
checklist of barriers to creativity in Online environment. Results indicated that, for the
majority of respondents, creativity has being fostered in the Online courses they are involved
with. The personal attributes which were most indicated were dedication to work and
enthusiasm, confirming results from past researches developed in this area. It was observed
that, according to tutors, they contemplate creativity within their courses through the
implementation of interaction mechanisms and diversified stimulation practices, such as
games, project-based activities, case studies and collaborative learning. Results also indicated
that the multidimensional and interactive character of Online environment, as well as the
courses’ structure and planning in this modality, demand a high level of creativity from tutors
and students. The most frequently reported barriers were related to the student, such as:
student’s difficulties in participating in an online education course, lack of student’s interest
in course contents; students presenting learning difficulties in online environment; little
participation of students; high number of students in the course. The analysis of research
questions were enriched by a gender perspective. However, few differences were found when
comparing male and female tutors’ perceptions, which can be a consequence of the basically
homogeneous background of respondents.
LISTA DE TABELAS
Página
Tabela 1 - Freqüência Numérica e Percentual das Variáveis de Identificação
dos Respondentes
57
Tabela 2 - Média e Desvio Padrão de Valoração dos Atributos Identificados
pelos Tutores de EaD do Mais ao Menos Importante
62
Tabela 3 - Média e Desvio Padrão dos Tutores do Gênero Masculino e
Feminino e Valor do Teste de Kruskall-Wallis (Estatística H) Referentes aos Atributos Identificados como os Mais Importantes para uma Atuação
Profissional Bem Sucedida na Tutoria Online
64
Tabela 4 - Média e Desvio Padrão nos Distintos Itens Relativos às Práticas
Docentes
66
Tabela 5 - Média, Desvio Padrão e Valor do Teste de Kruskal-Wallis
(Estatística H) nos Distintos Itens do Questionário Referente às Práticas
Pedagógicas Favorecedoras do Desenvolvimento e Expressão da
Criatividade dos Alunos (Tutores do Gênero Masculino e do Gênero
Feminino)
68
Tabela 6 - Freqüência e Percentual de Respostas sobre as Diferentes
Barreiras Percebidas pelos Tutores à Promoção de Condições Adequadas ao
Desenvolvimento/ Expressão da Criatividade de seus Alunos (Gênero
Masculino, Gênero Feminino e Total)
72
Tabela 7 - Valor da Estatística Z nas Distintas Barreiras à Promoção de Condições Adequadas ao Desenvolvimento/ Expressão da Criatividade de
seus Alunos
SUMÁRIO
Página
INSPIRAÇÃO ... iv
DEDICATÓRIA ... v
AGRADECIMENTOS... vi
RESUMO ... vii
ABSTRACT ... viii
LISTA DE TABELAS ... ix
CAPÍTULO I – INTRODUÇÃO ... 3
CAPÍTULO II - REVISÃO DA LITERATURA ... 6
1. A Educação a Distância: Contexto, Características e Agentes ... 6
1.1 Breve Histórico ... 6
1.2 Características do Ambiente Online ... 10
1.3 Qualidade do Processo de Ensino-Aprendizagem em Educação a Distância Online ... 12
1.4 Quem é o Tutor no ambiente Online ... 15
1.5 Mapeando as Características dos Alunos ... 18
1.6 Estratégias e Práticas do Ensino Online ... 20
2. A Criatividade – Abordagens Teóricas e Conceitos ... 24
2.1 Conceituando a Criatividade ... 26
2.2 O Processo Criativo: Preparar, Imaginar, IIuminar! ... 30
2.3 O Desenvolvimento e Expressão da Criatividade ... 32
2.4 Barreiras ao Desenvolvimento da Criatividade ... 35
3. A Criatividade na Educação e na Educação a Distância Online ... 37
3.1 A Criatividade no Contexto Educacional ... 37
3.2 Fatores Facilitadores e Inibidores à Expressão da Criatividade no Ambiente Educacional ... 40
3.3 Estratégias e Práticas para o Ensino Criativo ... 44
Página
CAPÍTULO III - DEFINIÇÃO DO PROBLEMA ... 52
CAPÍTULO IV – MÉTODO ... 55
4.1 Participantes 55 4.1.1 Definição da Amostra ... 55
4.1.2 Descrição da Amostra ... 55
4.2 Instrumentos ... 58
4.3 Procedimentos ... 58
4.4 Análise dos Dados ... 60
CAPÍTULO V - RESULTADOS 61 5.1 Atributos Personológicos Relevantes para uma Atuação Bem Sucedida em EAD Online ... 61
5.2 Diferenças entre Tutores do Gênero Masculino e Feminino quanto à Relevância dos Atributos Pessoais para uma Atuação Bem Sucedida em Educação a Distância Online ... 62
5.3 Práticas Pedagógicas Favorecedoras da Expressão Criativa dos Alunos ... 65
5.4 Diferenças entre a Percepção de Tutores do Gênero Masculino e Feminino quanto à Implementação por eles próprios de Práticas Docentes que Favorecem a Expressão do Potencial Criativo de seus Alunos ... 67
5.5 Barreiras Apontadas pelos Tutores ao Desenvolvimento e à Expressão da Criatividade dos Alunos ... 70
5.6 Diferenças entre Tutores do Gênero Masculino e Feminino quanto às Barreiras Apontadas à Promoção de Condições Adequadas ao Desenvolvimento/ Expressão da Criatividade de seus Alunos ... ... 73
CAPÍTULO VI – DISCUSSÃO ... 77
6.1 Atributos Personológicos Relevantes para uma Atuação Bem Sucedida em EAD Online ... 78
6.2 Diferenças entre Tutores do Gênero Masculino e Feminino quanto à Relevância dos Atributos Pessoais para uma Atuação Bem Sucedida em Educação a Distância Online ... 80
6.3 Práticas Pedagógicas Favorecedoras da Expressão Criativa dos Alunos ... 80
6.4 Diferenças entre a Percepção de Tutores do Gênero Masculino e Feminino quanto à Implementação por eles próprios de Práticas Docentes que Favorecem a Expressão do Potencial Criativo de seus Alunos ... 83
6.5 Barreiras Apontadas pelos Tutores ao Desenvolvimento e à Expressão da Criatividade dos Alunos ... 84
6.6 Diferenças entre Tutores do Gênero Masculino e Feminino quanto às Barreiras Apontadas à Promoção de Condições Adequadas ao Desenvolvimento/ Expressão da Criatividade de seus Alunos ... 86
CONCLUSÕES ... 87
REFERÊNCIAS ... 90
CAPÍTULO I
INTRODUÇÃO
Hoje é vital não só aprender, não só desaprender, mas, sobretudo organizar nosso sistema mental para aprender a aprender. Edgar Morin
A sociedade da forma como a conhecemos está sempre em transformação. Desde o
escambo até as noções de capital humano, muito foi repensado e re-editado. A gestão da
informação e do conhecimento é a resposta a tendências macroeconômicas e sociais, como a
globalização. Esta última aplica-se não somente a questões de mercado, mas principalmente
aos aspectos culturais, de difusão de informação e socialização das inovações.
Na sociedade do conhecimento, a principal característica da instituição e do indivíduo
bem-sucedido é justamente a sua capacidade de aprender a se reinventar e se preparar para a
competitividade. É visível a pressão que o próprio mercado de trabalho e a sociedade
globalizada, com uma visão voltada para a produção individual, transfere à educação: o papel
de formar profissionais capazes de responder às expectativas de sua comunidade.
Conforme a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, a Educação deve
abranger todos os processos formativos do indivíduo e deve prover formação que vincule os
conteúdos educacionais ao mundo do trabalho e à prática social. Ainda, a LDB preconiza que
a Educação Superior deve “suscitar o desejo permanente de aperfeiçoamento cultural e
profissional e possibilitar a correspondente concretização, integrando os conhecimentos que
vão sendo adquiridos numa estrutura intelectual sistematizadora do conhecimento de cada
geração” (Ministério da Educação, 2004).
pode acontecer de duas maneiras: (a) uma pessoa educada é a que se desenvolveu, que
evoluiu de níveis inferiores no meio físico-social até níveis superiores; ou (b) uma pessoa
educada é a que aprendeu um conjunto de conceitos, explicações e habilidades, práticas e
valores que caracterizam uma determinada cultura, por isto, permitem a adaptação do
indivíduo no seio de tal cultura. É nesse contexto que se insere a necessidade do estudo da
utilização da Educação a Distância como modalidade de ensino, da qualidade possível deste
ensino e, principalmente, do papel do tutor nesse novo arcabouço digital.
Com relação à Educação Superior, espera-se que neste nível de ensino, o aluno seja
estimulado a conhecer o contexto e problemas do mundo atual, observando as realidades
mundiais, nacionais e regionais, e que seja capaz de assumir uma postura crítica e analítica
dos assuntos que o rodeiam. A Educação Superior a Distância surge então como uma
potencial ferramenta para democratizar o acesso dos alunos à universidade e, ainda,
consolidar no aluno a capacidade de aprender durante toda a sua vida, de forma mais
independente e autônoma.
O espaço virtual permite uma flexibilidade espacial e temporal, viabilizada pela
interatividade, não perceptível em outras modalidades de ensino. Essa teia de possibilidades, a
internet, possibilita as mais diversas fusões, criações e redes, onde o enriquecimento e a
facilidade de acesso ao conhecimento são ilimitados. Tudo está interligado e existem todas as
possibilidades de gerar novos conhecimentos sobre os bytes já existentes. O uso da Educação
a Distância – EaD - nos leva mais diretamente a um dos objetivos da educação, que é o de
formar seres aprendentes, curiosos e criativos.
Nesse meio ambiente do ciberespaço, o professor e o tutor assumem um papel mais do
que importante na formação dos alunos. O tutor, professor ou facilitador dessa aprendizagem
online é ponto chave no sucesso do curso; é estrutura para o comportamento dos alunos; é,
que, em Educação a Distância, os índices de evasão são altíssimos. Assim, esse tutor deve
apresentar algumas características pessoais que se reflitam na sala de aula virtual, assim como
implementar práticas pedagógicas que promovam o desenvolvimento integral do aluno e de
suas potencialidades, sendo uma delas a criatividade. A criatividade, se não a mais
importante, é uma das características que devem permear os dois lados do processo de
ensino-aprendizagem: o do tutor e o do aluno.
Somos muitos educadores; no entanto, somos poucos os desbravadores da nova
educação da e para a tecnologia, isto é, ainda há muita resistência com relação à aceitação de
práticas em EaD por parte dos professores atuais. Nesta pesquisa, parece-nos possível que, ao
investigar o perfil personológico, bem como a vivência profissional de cada tutor, podemos
chegar a uma pista das razões que motivam esses profissionais a atuar em EaD online, bem
CAPÍTULO II
REVISÃO DA LITERATURA
Tudo o que é sensato já pode ter sido pensado sete vezes. Quando, porém, foi pensado novamente,
em outra época e situação, não era mais a mesma coisa. Ernst Bloch
1. A Educação a Distância: Contexto, Características e Agentes
1.1 Breve Histórico
A Educação a Distância tem uma boa história de experimentações, tendo obtido, ao
longo dela, sucessos e fracassos. Sua origem nos tempos mais recentes está nas experiências
de educação por correspondência, iniciadas na Europa, no final do século XVIII, tendo obtido
maior desenvolvimento a partir de meados do século XIX.
Araújo e Maltez (2000) afirmam que “a partir das décadas de 60 e 70, a Educação a
Distância, embora mantendo os materiais escritos como base, passa a incorporar articulada e
gradativamente o áudio e o videocassete, as transmissões de rádio e televisão...” (p. 135). Seu
histórico foi marcado e influenciado pela modernização da sociedade e a introdução de novos
meios de comunicação de massa, principalmente o rádio, dando origem a projetos de grande
importância para as populações mais afastadas e carentes.
Do processo de correspondência ao uso da Internet, pode-se dizer que as revoluções
tecnológicas estão determinando as novas formas de atuação e de produção criativa dos
acompanhar as transformações da sociedade, que passa a cobrar novas formas de atuar no
processo de ensino-aprendizagem.
As mudanças pelas quais a sociedade vem passando certamente têm provocado
reflexos na área de difusão de tecnologias, que estão fazendo com que os países sejam
capazes de encontrar seu lugar em um mundo em acelerado processo de globalização.
Segundo Takahashi (2000), no Livro Verde do Ministério da Ciência e Tecnologia, “a
educação é o elemento-chave na construção de uma sociedade baseada na informação, no
conhecimento e no aprendizado” (p. 45). Educar, em uma sociedade do conhecimento ou da
informação, pressupõe investir na capacitação de um número cada vez maior de pessoas, na
ampliação de competências e na aplicação e cruzamento criativo de dados.
O Ministério da Educação do Brasil apresenta a Educação a Distância como um
mecanismo congruente com a meta de promover maior acesso ao ensino superior, alegando
que é uma modalidade onde o aluno pode desenvolver suas atitudes frente ao estudo. O MEC,
por meio de sua Secretaria de Educação a Distância, SEED, atua no fomento à inovação
tecnológica aplicada ao contexto educacional, incorporando as TICs (Tecnologias de
Informação e Comunicação) e desenvolvendo mecanismos de verificação da qualidade de
práticas pedagógicas em EaD.
Nesse contexto, a Educação a Distância online representa um recurso de fundamental
importância, principalmente para o atendimento de grandes contingentes de alunos. É certo
que, uma vez planejado, estruturado e aplicado um curso de Educação a Distância online, a
sua replicação para um número significativo de alunos é possível e recomendável, sempre que
se possa contar com o apoio pedagógico necessário. Além disso, a EaD online permite a
oferta de treinamento ágil, célere e de alta qualidade, dessa forma atendendo com grande
eficácia e eficiência aos anseios de universalização do ensino e oferta de mecanismos
As instituições de ensino superior devem flexibilizar-se e buscar integrar na sua
atuação as novas tecnologias da informação e da comunicação no processo de formação do
aluno. Para que isto ocorra, é necessário transpor o paradigma da educação tradicional e
mudar a concepção dos alunos, dos professores, tutores e até mesmo da administração da
instituição e lançar os esforços rumo à educação online.
A busca por essa modernização deve basear-se em duas palavras-chave: inovação e
flexibilidade. Salinas (2004) indica que podemos considerar a inovação “como uma forma
criativa de seleção, organização e utilização dos recursos humanos e materiais; esta forma,
nova e própria, deve ter como resultado o atingimento de objetivos previamente planejados”
(p.4). A incorporação de novos materiais, tecnologias e práticas pedagógicas fazem parte de
um processo de inovação que leva ao aprimoramento do processo de ensino-aprendizagem. O
autor afirma que “consideramos a organização de sistemas de ensino-aprendizagem em
ambientes virtuais um processo de inovação pedagógica baseada na criação de condições para
desenvolver a capacidade de aprender e adaptar-se, tanto das organizações como dos
indivíduos...” (p.5).
Como em outras áreas, o esforço por uma definição de conceitos iniciou-se pela
definição do que não era Educação a Distância, partindo da análise das diferenças existentes
entre essa modalidade e a educação presencial. Mais recentemente, pesquisadores têm
procurado explicitar suas características, apontando conceitos que, se ainda não são
homogêneos, apresentam maior convergência no esforço de definir de modo mais preciso o
que é Educação a Distância.
A existência do grande número de conceitos demonstra que, apesar de não haver ainda
um conceito único, voltado para essa modalidade de ensino, e das divergências pontuais
Distância, dando-lhe uma imagem objetiva e prática, perfeitamente capaz de se adaptar aos
dias de hoje.
Peters (2001) afirma que “a Educação a Distância na verdade não é nada de novo ou
até mesmo estranho. Ela tem suas raízes nas formas de estudo em sala de aula e serve-se
delas” (p. 30). Isto é, a Educação a Distância combina técnicas de didática presencial,
evidenciando, entretanto, as diferenças dos meios, alunos e do próprio processo de
ensino-aprendizagem a que os alunos e tutores estão expostos.
Já Litwin (2001) nos desperta para uma concepção em que se leva em conta
prioritariamente o papel que cada um desempenha no processo de ensino-aprendizagem. Esta
autora defende que
o traço distintivo da modalidade consiste na mediatização das relações entre os
docentes e os alunos. Isso significa, de modo essencial, substituir a proposta de
assistência regular à aula por uma nova proposta, na qual os docentes ensinam e os
alunos aprendem mediante situações não-convencionais, ou seja, em espaços e tempos
que não se compartilham. (p. 13)
Educação a Distância online se refere ao processo de ensino-aprendizagem mediado
por tecnologias onde professores e alunos estão separados espacial e/ou temporalmente.
Segundo Moran (2003), a EaD online é o “conjunto de ações de ensino-aprendizagem
desenvolvidas por meio de meios telemáticos, como a internet, a videoconferência e a
1.2 Características do Ambiente Online
Analisando o ambiente de ensino-aprendizagem virtual, se pretendemos verificar a
qualidade de um processo, identificamos o que significa, em termos educacionais, o ensinar e
o aprender. Pode-se dizer que não há um conceito homogêneo do que seja
ensino-aprendizagem, nem sequer há linearidade sobre o papel que cada agente desempenha nesse
processo. Segundo Freire (1996), aprender é “um processo que pode deflagrar no aprendiz
uma curiosidade crescente, que pode torná-lo mais e mais criador” (p. 22) e ensinar não é
transferir conhecimentos “mas criar as possibilidades para sua própria produção ou a sua
construção” (p. 24). Ainda, conforme o educador, “quem ensina aprende ao ensinar e quem
aprende ensina ao aprender” (p. 23). No caso do ambiente virtual, o processo de
ensino-aprendizagem é colaborativo e horizontal, isto é, todos – alunos, tutores, professores –
aprendem com as contribuições de todos.
Como resultado da adaptação das instituições de ensino à sociedade do conhecimento,
o ambiente online, como pano de fundo para o processo ensino-aprendizagem, surgiu como
alternativa – ou complemento - às aulas presenciais, pois, além de permitir ao aluno
determinar o seu local de estudo, possibilita organizar o tempo de estudo, o ritmo e o caminho
de aprendizagem. Entende-se, ainda, que a utilização de tecnologias favorece a criação de
novas propostas em termos de educação.
A Internet se tornou um ambiente perfeito para implementação de cursos em Educação
a Distância, pois, entre outras vantagens, oferece o acesso infinito a fontes de pesquisa e a
repositórios de informações especializados, e, ainda, permite a comunicação e a interação de
escolas, alunos e coordenações no mundo inteiro, o que constitui um estímulo à pesquisa, ao
desenvolvimento do potencial criativo individual e à autonomia do aluno.
comunicação e interação horizontal; a aprendizagem colaborativa; o uso de instrumentos e
recursos tecnológicos na construção de cursos; a mudança no papel do professor; entre outras.
Sobre a separação do professor e do aluno e a promoção da afetividade virtual,
ressalta-se que a EaD não distancia o aluno e o professor do aspecto humano. Muito pelo
contrário, quanto maior o estímulo, o contato e a presença virtual, melhor o processo de
aprendizagem. Não podemos nos esquivar do fato de que a nova Nação Planetária deve
perceber a educação sob uma nova ótica: da afetividade, do estímulo e da tolerância. Segundo
Moraes (2003), nós como humanos que somos, devemos buscar novas bases teóricas e novas
formas de fazer educação para favorecer não só o aprimoramento da inteligência humana, mas
também a reforma do pensamento humano.
Outra característica presente no ambiente online é a possibilidade de interação e
comunicação com os alunos e tutores e entre seus pares, desenvolvendo, inclusive, o que se
chamam as “comunidades de aprendizagem”. Pode-se afirmar que nunca na história foi tão
fácil compartilhar e gerar informação e conhecimento. Segundo Santos (2003), um ambiente
virtual é “um espaço fecundo de significação onde seres humanos e objetos técnicos
interagem potencializando, assim, a construção de conhecimentos, logo, a aprendizagem” (p.
223). A mensagem que realmente se estabelece é a de que, em ambientes virtuais de
aprendizagem, podemos produzir e reproduzir, ciclicamente, qualquer informação, e, o mais
importante, que esta informação está disponível para ser construída em grupo.
A construção dos cursos online também apresenta suas idiossincrasias. Na
implementação dos cursos, há padrões de qualidade que devem ser atendidos para que
realmente exista um processo de ensino-aprendizagem de sucesso. Esses padrões referem-se
desde o planejamento detalhado do curso até a implementação de práticas pedagógicas
1.3 Qualidade do Processo de Ensino-Aprendizagem em Educação a Distância Online
A Secretaria Especial de Educação a Distância - SEED do Ministério da Educação do
Brasil - MEC pré-definiu alguns parâmetros de qualidade (Ministério da Educação, 2004) e
sua finalidade:
orientar alunos, professores, técnicos e gestores de instituições de ensino superior que
podem usufruir dessa forma de educação ainda pouco explorada no Brasil e
empenhar-se por maior qualidade em empenhar-seus processos e produtos.
A base principal das práticas de qualidade nos projetos e processos de educação
superior é garantir continuamente melhorias na criação, aperfeiçoamento, divulgação
de conhecimentos culturais, científicos, tecnológicos e profissionais que contribuam
para superar os problemas regionais, nacionais e internacionais e para o
desenvolvimento sustentável dos seres humanos, sem exclusões, nas comunidades e
ambientes em que vivem. (Ministério da Educação, SEED/MEC, 2004)
Ao realizar uma leitura atenta dos referenciais de qualidade de EaD listados pelo
MEC, pode-se constatar que os indicadores de qualidade não se diferenciam substancialmente
daqueles exigidos na educação presencial, pois, como já foi apontado anteriormente, estamos
tratando simplesmente de Educação. Como princípio, os indicadores buscam validar a questão
da preparação metodológica, didática, pedagógica e combater a idéia de que a Educação a
Distância é tão somente tecnologia. Ao contrário, no caso da EaD, devemos perceber a
Educação a Distância online como um complemento à modalidade presencial, em cujo escopo
A SEED-MEC resumiu os indicadores em dez fatores considerados os mais
importantes, que são: 1. integração com políticas, diretrizes e padrões de qualidade definidos
para o ensino superior como um todo e para o curso específico; 2. desenho do projeto: a
identidade da Educação a Distância; 3. equipe profissional multidisciplinar; 4.
comunicação/interatividade entre professor e aluno; 5. qualidade dos recursos educacionais;
6. infra-estrutura de apoio; 7. avaliação de qualidade contínua e abrangente; 8. convênios e
parcerias; 9. edital e informações sobre o curso de graduação a distância; 10. custos de
implementação e manutenção da graduação a distância.
Se pudéssemos organizar os indicadores do MEC em três grandes grupos vinculados ao
processo de ensino-aprendizagem, poderíamos defini-los como:
1. Estrutura e Organização dos Cursos – cujo foco reside na elaboração de materiais e na
coordenação do curso.
2. Planejamento do Processo de Ensino-Aprendizagem – cujo foco está no planejamento
pedagógico.
3. Comunicação e Interatividade – cujo foco recai sobre a comunicação – em todos os
níveis - que substitui, de certa maneira, a interpessoalidade presencial.
Buscando a consolidação de uma linha de pensamento em torno da qualidade em
Educação a Distância, foram pesquisados os indicadores de qualidade de universidades a
distância também analisados por Stahl (2003), os quais se assemelham bastante àqueles
difundidos pelo MEC: contexto sócio-econômico, institucional, metas, objetivos, instalações,
recursos, agentes envolvidos (alunos, tutores, outros), equipe de trabalho, programa,
metodologia, atenção tutorial, resultados, meios didáticos e avaliação. Pode-se perceber, da
é grande, isto é, podemos inferir que os tutores e as práticas pedagógicas são peças
fundamentais no sucesso ou fracasso de um curso online.
Do ponto de vista da preparação dos materiais, há uma diferença fundamental entre a
educação presencial e a distância. Neste último caso, é importante que os materiais sejam
preparados por equipes multidisciplinares, com formação específica na área, que incorporem
aos cursos e instrumentos pedagógicos escolhidos as técnicas mais adequadas para a
auto-instrução. Ao descrever a forma de criação e elaboração de materiais utilizados em Educação
a Distância, Laaser (1997) destaca que:
ao planejar a estrutura do curso, é importante saber se os materiais que você está
preparando são para o uso direto dos estudantes de Educação a Distância ou se estes
vão ensinar o conteúdo do curso para seus próprios alunos. (p. 39)
Na Educação a Distância online, como ressaltado anteriormente, deve-se considerar as
características únicas dessa modalidade de ensino, também no que tange ao ambiente e aos
atores nele envolvidos. Assim, devemos analisar os alunos e os tutores, bem como o seu papel
como aprendentes no processo de ensino-aprendizagem. Fica claro que não só os alunos
aprendem, e também é facilmente identificável a forma como o tutor se apresenta: horizontal,
de igual para igual e facilitador do intercâmbio de conhecimento. Todos, tutores e alunos,
devem sentir-se confortáveis para trocar conhecimento, tanto escrevendo ou mesmo falando
presencialmente.
No caso da Educação a Distância, pressupomos que: (a) o aluno que se interessa e
busca a Educação a Distância como alternativa, já possui algumas características criativas,
como a aceitação do novo, adaptabilidade a novas situações, autoconceito positivo,
autoconfiança, independência e dinamismo; (b) os tutores envolvidos com cursos a distância
facilitação da expressão de novas idéias e autonomia dos alunos, aspectos estes considerados
facilitadores da expressão criativa nos alunos.
1.4 Quem é o Tutor no ambiente Online
A educação via Internet representa um desafio para o profissional que está acostumado
com o modelo de ensino presencial. O professor - e a figura que surge do tutor (que é quem
acompanha a condução pedagógica do grupo online) – tem que abandonar o modelo da
transmissão de conhecimentos para desenvolver-se em um ambiente de interatividade,
síncrono ou assíncrono, no qual o aluno é ativo em sua participação.
É importante lembrar que a EaD online tem a tecnologia como instrumento e não
como identidade conceitual. O uso de recursos tecnológicos no processo de
ensino-aprendizagem requer muita participação pessoal e “presencial” do tutor, que podem ser a
atuação na elaboração do ambiente virtual, com métodos e ferramentas adequadas, a seleção
do conteúdo e a verificação deste conteúdo refletido nas respostas dos alunos.
Uma das dificuldades na Educação a Distância online é a própria negação da EaD
como modalidade de ensino pelos educadores da atualidade que, acostumados com o modelo
sala de aula presencial, não se mostram confortáveis com o uso de novas tecnologias ou com
a construção de conhecimento em ambiente virtual. Algumas vezes, ainda ocorre que, mesmo
conhecendo os aspectos particulares à EaD online, o educador apenas transfere a aula
tipicamente presencial para um hipertexto, descaracterizando os princípios da Educação a
Distância online, que pressupõe planejamento, interatividade e metodologia específica. Se não
se muda o paradigma, a internet acaba sendo um depósito de informações sem criticidade e
interação.
instituições nacionais credenciadas pelo MEC para oferecer cursos virtuais. Atualmente, há
34 instituições de ensino autorizadas a ofertar cursos de graduação; 42 instituições
credenciadas para prover cursos de pós-graduação latu-sensu; e 8 instituições autorizadas a
implementar cursos seqüenciais (Ministério da Educação, 2005).
Pode-se dizer que os tutores online, para a execução de seu trabalho, devem possuir
características de pessoas criativas e aplicar, dessa forma, práticas pedagógicas de estímulo ao
potencial criativo dos alunos. Os ambientes online já promovem este tipo de iniciativa, isto é,
o sucesso em cursos nesta modalidade é altamente facilitado pela presença de tutores com
habilidades características de pessoas criativas, como o senso de humor, a dedicação ao
trabalho e o entusiasmo, bem como pela aplicação de práticas adequadas.
A dificuldade e desafio do novo tutor online é que este deve estruturar uma mediação
pedagógica que resuma a interação, a motivação e a animação de suas turmas, moderando,
facilitando e incentivando os alunos a expressarem seus potenciais. O tutor deve ensinar não
somente os detalhes técnicos do uso das ferramentas de aprendizagem, mas o mais
importante, que é o aprender de forma colaborativa.
O enfoque da construção colaborativa do conhecimento, cuja linha caracteriza a EaD
online, na educação formal, é importante não só porque permite muitos ganhos aos alunos e
mestres, mas também por preparar o aluno para o mercado de trabalho atual, que demanda
cada vez mais o trabalho em grupo e a interação. Segundo Campos (2003), é importante
“aprender de forma cooperativa independe do uso de tecnologias, exigindo basicamente uma
postura pedagógica inovadora” (p. 46). A Internet e os ambientes de aprendizagem online
permitem uma relação cada vez maior e ilimitada de cooperação onde tutores e alunos estão
horizontalizados no processo de ensino-aprendizagem.
Salinas (2004), baseando em Berge, categoriza o papel do tutor em quatro áreas:
estes papéis nem sempre devem ser cumpridos por uma só pessoa. Usualmente, estas funções
são exercidas por uma equipe. De todas as formas, o professor, neste caso, o tutor, deixa de
ser o transmissor de conhecimento, passando a ser o mediador da construção do
conhecimento.
Gutierrez e Rangel (2005) destacam três dos papéis indicados acima como condições
necessárias para uma aprendizagem flexível de qualidade:
- o papel organizacional ou administrativo, que diz respeito ao cumprimento das
regras do ambiente de aprendizagem. Cada situação demanda uma diferente estrutura
de curso e distintas formas de dirigir-se ao aluno. O tutor deverá ser sensível para, em
sua atuação pedagógica, fazer uso dos instrumentos online, criando situações de
estímulo dos alunos ao aprendizado permanente. Parte muito grande do sucesso neste
papel é a criação de um ambiente transparente e claro com relação a aspectos
organizacionais do curso (datas, avaliações, outros);
- o papel social, que diz respeito ao desenvolvimento de um ambiente interativo,
cálido e participativo. O tutor na qualidade de comunicador e agente de interação e
motivação na Educação a Distância online, deve, entre outros fatores, transmitir
emoções, ainda que virtualmente. Não se pode esquecer que o homem,
independentemente da máquina, precisa do “calor”, do “toque” digital, que é
transmitido pelos bytes digitados de um tutor bem sucedido. Como menciona Moraes
(2003) ao citar Maturana:
é importante reconhecer que, como seres humanos, existimos no cruzamento
das conversações que ocorrem a partir do enlaçamento da linguagem com as
emoções que surgem no próprio linguajar e que o viver/conviver emerge no
fluir do con-viver, no co-emocionar, no co-operar dos membros de uma
- o papel intelectual (ou técnico e pedagógico), que traduz a ação de fomentar a
discussão teórica sobre o assunto do qual trata o curso. Neste papel, o tutor aplica os
seus conhecimentos técnicos para instigar os alunos a construir conhecimento, a partir
do conteúdo apresentado nos cursos. O tutor deve ter domínio da disciplina que
leciona para mediar as interações online com qualidade e efetividade. Entretanto,
ressalta-se o que Salinas (2004) alerta “ o tutor primeiro atua como pessoa e depois
como especialista de conteúdo” (p. 7).
1.5 Mapeando as Características dos Alunos
Algumas características pessoais já podem ser definidas para o usuário de EaD:
normalmente são os adultos que se submetem à Educação a Distância como alternativa para o
seu desenvolvimento por um sem número de variáveis, como falta de tempo, distância, custos
atrativos, oferta de cursos, entre outros. Os usuários de EaD se encontram tanto nos grandes
centros urbanos quanto nas áreas menos favorecidas, no que se refere à oferta de programas
de formação de diversas naturezas.
Contudo, Palloff e Pratt (2004) alertam para as novas pesquisas em Educação
publicadas pelo National Center for Education Statistics, em 2002, as quais indicaram que há
alunos de diversas faixas etárias matriculados em cursos online. Segundo os autores, a
popularidade de cursos a distância tem crescido para indivíduos menores que 18 anos, do
ensino médio, e que grupos de indivíduos entre 19 e 23 anos, normalmente já cursando a
graduação superior, também têm ingressado com frequência ao ambiente virtual.
No que se refere à peculiaridades da faixa etária do público alvo, observa-se que, de
forma geral, os adultos, distintamente de indivíduos mais jovens, são mais submetidos a um
maior número de variáveis. Mais conscientes da necessidade de prosseguir seus estudos,
não lhes dão muitas chances de buscar desenvolvimento por meio da educação presencial, e
passam a buscar a Educação a Distância como meio para obter novos conhecimentos e
formação.
Com relação aos estudantes de Educação a Distância, Peters (2001) afirma que
“trata-se de uma clientela especial. Ela é diferente da do estudo com pre“trata-sença, porque via de regra “trata-se
trata de adultos um pouco mais velhos” (p. 37). Segundo esta mesma fonte, os alunos da
Educação a Distância têm idade predominantemente entre 20-30 anos, com experiência de
vida maior e, portanto, dão mais valor aos estudos, têm uma experiência profissional que
influencia a forma e o planejamento do estudante frente ao curso e provêm, muitas vezes, de
ambientes sociais nos quais não lhes pode ser oferecido uma experiência acadêmica. Essa
maturidade é essencial para que o aluno persiga os seus objetivos educacionais no meio
virtual.
Recentemente o Illinois On-line Network socializou uma lista de qualidades que
definem o aluno virtual de sucesso. Nesse conjunto, o instituto apresenta características únicas
do aluno que deverá iniciar o curso e terminá-lo tendo aproveitado ao máximo as
oportunidades dele derivadas. Em primeiro lugar, o aluno virtual de sucesso deve ter acesso
aos recursos tecnológicos mínimos (computador e modem) e deve ter habilidades de
comunicação escrita (ou deve ser instigado a desenvolvê-las). De forma geral, os alunos
virtuais bem sucedidos devem caracterizar-se pelas seguintes habilidades: sabem trabalhar
colaborativamente, usam a tecnologia adequadamente, atendem aos requisitos formais do
curso e têm habilidades de comunicação virtual.
Ressalta-se que, dentre as características detalhadas apresentadas pelo Illinois On-line
Network estão atributos personológicos característicos também de pessoas criativas, como a
automotivação, disciplina e flexibilidade para lidar com o ambiente virtual. Também, cita-se
e trabalho além do processo de ensino-aprendizagem de forma a eliminar possíveis barreiras
que possam impedir um melhor aproveitamento do curso online.
Outras características do aluno virtual bem sucedido são a capacidade de manifestar-se
se houver problemas, poder trabalhar com análise crítica e tomada de decisões no seu
aprendizado e ser capaz de trabalhar suas idéias antes de socializá-las para que sejam de
qualidade e instigadoras à comunidade. Espera-se que o aluno virtual de sucesso saiba das
potencialidades da EaD virtual e tenha compromisso com os aspectos formais do curso, como
horários de interação, requerimentos mínimos dos trabalhos, entre outros.
1.6 Estratégias e Práticas do Ensino Online
Saltsman e Sheltom (2004) definem que ensinar online é como fazer jardinagem e os
alunos são como plantas: os alunos precisam de tratamento diário e de um ambiente fértil para
amadurecerem. Os autores destacam que é necessário cumprir quatro estágios para
desenvolver um trabalho de tutoria bem sucedido: desenvolvimento e estrutura do curso;
apresentação do curso; motivação dos alunos ao crescimento intelectual; e avaliação do
aprendizado efetivo dos alunos.
O primeiro passo de Saltsman e Sheltom é determinante para a vida do aluno uma vez
que é o momento em que se apresentam o desenvolvimento e a estrutura do ambiente virtual.
É nesta etapa que o aluno inicia o seu compromisso para com o curso, avaliando as
orientações, os objetivos do curso, prazos, contatos, métodos de avaliação e políticas e
diretrizes. Palloff e Pratt (2004) alertam que as regras devem ser claras para que não ocorra
qualquer problema de frustração de expectativas por parte dos alunos.
A segunda etapa diz respeito ao início do curso, principalmente na começo do
estabelecer vínculos, permitir que os alunos se apresentem e, ao mesmo tempo, deve buscar
dar atenção individualizada para que o grupo se sinta confortável. A terceira fase é a de
motivação dos alunos no ambiente virtual. O tutor deve tratar os alunos como se fossem
únicos, valorizar suas características pessoais virtuais e também deve agregar emoção ao texto
virtual, seja chamando o aluno por um apelido amistoso ou usando ícones emoticons da
Internet (por exemplo: ;-) significa estar alegre ou ;-O significa estar surpreso). O tutor deve
preocupar-se no feedeback aos alunos, respondendo rapidamente aos questionamentos
colocados online.
A quarta e última etapa é a da avaliação, na qual o tutor deve verificar em que
momento os equívocos, se houver, ocorreram e analisar formas de contorná-los nas novas
investidas educacionais.
Com o objetivo de superar os mecanismos tradicionais da realidade educacional, o
tutor provoca o raciocínio coletivo de seus alunos, tecendo uma rede e não um caminho. No
ambiente online, o tutor deve disponibilizar recursos que sejam favoráveis à aprendizagem de
verdade. Silva (2003) alerta que disponibilizar em sala de aula online significa investir em
três grandes áreas
Oferecer múltiplas informações (em imagens, sons, textos etc.) sabendo que as
tecnologias digitais utilizadas de modo interativo potencializam consideravelmente
ações que resultam em conhecimento;
Ensejar (oferecer ocasião de...) e urdir (dispor entrelaçados os fios da teia, enredar)
múltiplos percursos para conexões e expressões em que os alunos possam contar no
Estimular os aprendizes a contribuir com novas informações e a criar e oferecer mais e
melhores percursos, participando como co-autores do processo. (p. 55)
Os tutores, de acordo com os pesquisadores Gutierrez e Rangel (2005) devem ser
competentes (no sentido de ter competências em) nos seguintes aspectos: saber trabalhar com
diferentes tecnologias, compreendendo sua operação, a escolha das melhores ferramentas e a
utilização pedagógica das mesmas; saber desenhar e gerenciar os ambientes virtuais de
aprendizagem, no que tange à compreensão do que significa a pedagogia virtual; compreender
as demandas da sociedade do conhecimento, principalmente os desafios da globalização e das
necessidades de formação dos indivíduos; ter domínio da displina que ensina, atualizando-se e
oferencendo materiais de qualidade ao aluno; e desenvolver-se profissionalmente, o que
enseja a sua atualização como professor, de forma contínua.
Dentre as ações que os tutores devem executar online, como relatado por Gutierrez e
Rangel (2005) em sua experiência na UNAB Virtual (Universidad Autónoma de
Bucaramanga, Colômbia), destacam-se:
- Atividades relacionadas ao papel organizador/ administrativo: planejar o processo
de ensino-aprendizagem (desenho, recursos, conhecer o perfil dos alunos, etc.); prover
a informação e os recursos necessários para que os alunos possam orientar-se
inicialmente para a construção do conhecimento (inteação entre os recursos,
facilitação de busca de material, etc.); orientar os alunos sobre as ferramentas do
ambiente de aprendizagem em uso; organizar a aula virtual; cumprir rigorosamente
com os prazos estabelecidos para resposta aos alunos; velar pelo cumprimento do
- Atividades relacionadas ao papel social: promover a diminuição do anonimato ou do
silêncio virtual e estabeler uma atmosfera de comunidade de aprendizagem (estimular
os alunos quietos, destacar as manifestações dos alunos, reconhecer a contribuição dos
alunos, etc.); manter uma interação constante com os alunos para além do objetivo
acadêmico; e estar atento às particularidades dos alunos.
- Atividades relacionadas ao papel intelectual: estimular os alunos exemplificando a
teoria com estudos de caso para a construção do conhecimento; favorecer a
observação de diferentes pontos de vista sobre o mesmo tema; selecionar e integrar os
conteúdos pertinentes; e favorecer a metacognição (pp. 79-80).
Adicionalmente, é importante que o tutor permanentemente se questione e modifique
sua prática para responder às questões: o que deve ser ensinado? Como deve ser ensinado para
possibilitar ao aluno o uso deste conhecimento? Sem a preocupação com o pleno
desenvolvimento da pessoa humana, a educação não se concretiza, e, sem flexibilidade, o
professor pára no tempo. Se a cada dia mais o reconhecimento de que o papel do professor é
fundamental na construção do aluno, tanto em sua vida acadêmica como no seu futuro
profissional, no caso da Educação a Distância online, é fundamental pensar no papel que o
2. A Criatividade – Abordagens Teóricas e Conceitos
Falta-nos a crença obstinada de que os produtos simples podem
e devem ser melhorados e que a criatividade não pode ficar só na música
e no futebol. Cláudio de Moura Castro
É inquestionável a importância que a criatividade tem em nossas vidas, para a nossa
formação e para a geração de um meio ambiente saudável e em constante evolução. No
turbilhão de mudanças que ocorrem nos dias de hoje, as quais surgem e se esvaem em ritmo
absolutamente acelerado, devemos receber as novidades com curiosidade e estar preparados
para atuar como agentes nos processos inerentes à evolução humana.
Na sociedade dita pós-moderna, todo o conhecimento tácito e explícito adquirido se
torna obsoleto em tempo recorde. Para tanto, é importante que os indivíduos sejam formados
de maneira criativa, isto é, que sejam estimulados e motivados, em seus ambientes sociais e
culturais, a perceber, receber e produzir novidades, bem como cultivar o ato de criar, exercitar
a imaginação e desenvolver um autoconceito positivo.
Deve-se, sobremaneira, promover a criatividade na escola, que é um dos agentes
responsáveis pela formação das sociedades. Inclusive, a preocupação em envolver a
criatividade no processo de ensino-aprendizagem deve estar refletida em todos os níveis de
ensino. Assim, desde a primeira infância deve-se provocar os alunos a buscar a autoconfiança,
a criticidade e a intenção de serem aprendentes por toda a vida. Esta busca se concretiza, entre
outras, na capacidade individual de solução a problemas formulados, na prática da
O início da pesquisa sobre criatividade na era moderna é marcado pelo discurso de
Guilford perante a Associação Americana de Psicologia em 1950, que apontou a necessidade
de estudos científicos na área de criatividade, ressaltando que esse tema era negligenciado, até
então, nos meios acadêmicos (Guilford, 1987; Isaksen, 1987).
No período compreendido entre 1950 e 1960, as pesquisas na área de criatividade
buscaram identificar habilidades de pensamento criativo e traços de personalidade vinculados
à criatividade. De 1960 a 1970, os estudos em criatividade voltaram-se para a investigação de
maneiras eficientes para desenvolver o potencial criativo dos indivíduos. Ainda, este último
foi um período em que as críticas às práticas educativas foram intensificadas, ressaltando-se
que eram tradicionais, conservadoras e inibidoras da criatividade:
sob a influência do movimento humanista (Maslow, 1968; Rogers, 1961), que
defendia a idéia de que todos os indivíduos apresentam um potencial criativo que deve
ser cultivado, especialmente no contexto escolar, observou-se uma revisão das
estratégias educacionais, bem como a multiplicação de programas de treinamento e
técnicas de estimulação da criatividade. (Alencar & Fleith, 2003b, p. 62)
Outras contribuições teóricas surgiram nas décadas de 70 a 80 e, então, as pesquisas
ampliaram o seu foco para o processo criativo, o desenvolvimento do pensamento criativo, o
ato criativo e as influências do contexto que pudessem interferir no processo.
Alencar e Fleith (2003a) descrevem que é a partir da década de 80 que se observa uma
preponderância da visão sistêmica da criatividade, tendo como alguns de seus teóricos mais
relevantes Csikszentmihalyi e Amabile. O primeiro, por exemplo, afirma que a criatividade é
um produto da interação entre os pensamentos do indivíduo e o contexto sociocultural, que
2.1 Conceituando a Criatividade
Criatividade é a inspiração divina. Sócrates
Ao pensar em criatividade, as definições que nos vêm à mente são as mais variadas e
os estereótipos sustentados pelo senso comum determinam os conceitos leigos. Por exemplo,
remetendo-nos ao termo criatividade, podemos pensar em um indivíduo que, conhecido por
sua produção criativa em uma determinada área, entrou para a história da humanidade, como,
por exemplo, Michelangelo, Cecília Meirelles e Beethoven. Também, pode-se imaginar que o
indivíduo criativo é apenas aquele artista famoso, ou mesmo anônimo, que nos deslumbra
com suas obras artísticas. Existe o estereótipo bastante comum de que o indivíduo criativo foi
tocado por forças divinas que lhe concederam o dom da criatividade. Todos esses equívocos
são conceitos, idéias e preceitos assumidos pela nossa sociedade como verdadeiros.
É importante lembrar que existe uma tendência leiga e equivocada de estabelecer uma
relação direta entre a criatividade e a expressão artística, como se a criatividade não pudesse
surgir de outras áreas, o que é incorreto, pois a criatividade surge em todas as áreas do
conhecimento humano. Vejamos como exemplos de criatividade nas mais variadas áreas o
cantor e compositor Chico Buarque, o escritor e literato Pablo Neruda, os arquitetos Sig
Bergamin e Oscar Niemayer, o sociólogo e acadêmico Amartya Sen, o cientista Thomas
Edison, entre outros.
Ainda há os que consideram a criatividade uma questão de pura inteligência, apesar de
já se saber, cientificamente, que são conceitos distintos. Sternberg e O’Hara (1999) destacam
a contribuição de Getzels e Csikszentmihalyi, que apontam essa diferença, ressaltando que a
pode ser requisitada em um número sem fim de níveis em diferentes campos da produção
criativa. Um cientista pode ser um gênio na física quântica, entretanto, pode não lograr êxitos
ao desenhar uma casa da forma perfeita com que um arquiteto comum o faria. Esta idéia
converge com a teoria das Inteligências Múltiplas de Gardner (Garder, 1993), que enfatiza a
inteligência como sendo uma coleção de distintas inteligências. De acordo com esta teoria, as
pessoas podem ser inteligentes de várias formas e essas inteligências podem ser utilizadas
também de forma rica e variada, não necessariamente incluindo expressões criativas.
Sternberg e O’Hara (1999), em pesquisa sobre criatividade e inteligência, utilizando
vários modelos teóricos, entre eles, o de Guilford (estrutura do intelecto) e de Gardner (teoria
das inteligências múltiplas), concluíram que a criatividade parece envolver, no mínimo,
aspectos sintéticos, analíticos e práticos da inteligência: “sintéticos para criar as idéias,
analíticos para avaliar a qualidade dessas idéias e práticos para formular a melhor maneira de
comunicar as idéias de forma efetiva e persuadir os interlocutores do seu valor” (p. 269).
Entretanto, os autores finalizam o artigo afirmando que, apesar da quantidade de pesquisas na
área, não é possível definir um consenso sobre a natureza da relação entre a criatividade e a
inteligência, nem mesmo definir com precisão o que são os referidos construtos.
Guilford (1987), por sua vez, além de contribuir com seus estudos a respeito de
habilidades cognitivas que se associam à criatividade, deu ênfase para a emergência de
pesquisas sobre os traços de personalidade de pessoas criativas. Este pesquisador defende que
“a produção criativa do dia a dia é sem dúvida dependente dos traços primários, mais que das
habilidades. Aspectos motivacionais (interesses e atitudes), bem como fatores de
temperamento devem contribuir significativamente” (p. 44).
Já De Masi (2003) aponta a riqueza de aspectos e teorias que são inerentes ao estudo
da criatividade e afirma que é impossível detalhar objetivamente todas as habilidades do
quanto às habilidades requeridas pela criatividade, elas são tais e tantas que talvez seja
mais justo negar inteiramente que seja possível esperar-se qualquer lista de
características peculiares aos criativos, desde que se excetuem a persistência e a
intensidade da dedicação deles ao trabalho. (p. 480)
Exato acordo sobre a definição da criatividade não existe. Muitas são as suas nuances
e a percepção que temos deste termo. Feldman, Csikszentmihalyi e Gardner (1994) lembram
que “a criatividade é uma dessas palavras que estão em qualquer lugar” (p. 2). Pode-se
constatar que a palavra “criatividade” tem vários significados e aplicações, dependendo da
situação. Pode-se falar, por exemplo, na pessoa criativa, no processo criativo, na criatividade
na escola ou no ambiente de trabalho, no estímulo à criatividade, dentre outras formas de sua
expressão e desenvolvimento.
Ao tentar conceituar a criatividade, Sternberg e Lubart (1995) reforçam que
“consideramos um produto como criativo quando é (a) novidade e (b) apropriado. Esses dois
elementos são necessários para a criatividade” (p. 11). Também Stein (em Alencar, 1995a), de
forma similar a Sternberg e Lubart, define criatividade como “um processo que resulta em
algo novo, que aceito como útil e/ou satisfatório por um número significativo de pessoas em
algum ponto no tempo” (p. 13). Os dois conceitos nos remetem a uma conclusão: algo ou
alguém é considerado criativo quando produz-se um elemento que, naquela sociedade,
naquele momento no tempo, na história e no tempo, traduz-se em uma novidade, que é útil ou
considerada de valor.
Também MacKinnon (em Alencar & Fleith, 2003b), em um estudo sobre a
personalidade criativa, concluiu que a real criatividade deve satisfazer três condições básicas:
deve solucionar algum problema; (c) deve incluir avaliação, elaboração e desenvolvimento do
insight original.
Pode-se dizer que, independentemente das diversas abordagens teóricas sobre a
criatividade ou sobre a sua expressão nos indivíduos, há uma confluência para a percepção de
que esta é intimamente ligada com algo novo, seja um produto ou uma idéia (Alencar &
Fleith, 2003b; Amabile, 1983; Sternberg & Lubart, 1995). Na mesma linha, Schuman (em
Alencar, 1995a) propõe que “o termo pensamento criativo tem duas características
fundamentais, a saber: é autônomo e é dirigido para a produção de uma nova forma” (p. 13).
Alencar (1995a) salienta que todos os indivíduos são criativos em alguma medida,
apresentando, porém, diferentes níveis de expressão e desenvolvimento de sua capacidade de
criar. Assim, pode-se dizer que todas as pessoas possuem habilidades criativas, as quais
podem ser potencializadas. Em se tratando da expressão e desenvolvimento da criatividade,
sabe-se que estes dependem de muitos elementos que favorecem ou dificultam a sua
emergência.
Amabile (1996) também aborda a questão dos graus de criatividade ressaltando que
existem vários graus de criatividade, que podem ser considerados mais ou menos criativos ao
serem comparados. A autora descreve a contribuição de Cattle e Butcher (1968), que afirmam
que a criatividade pode se manifestar em níveis distintos, desde a produção científica mais
2.2 O Processo Criativo: Preparar, Imaginar, IIuminar!
Pensar criativamente pode significar a mera constatação de que não há mérito algum em fazer as coisas do jeito como sempre foram feitas. Rudolph Flesch
Muitas são as definições do processo criativo, as quais chamam a atenção para
aspectos que se sobressaem nos diversos momentos do processo de criação. Alencar e Fleith
(2003b) ressaltam que, para Helmholtz, por exemplo, o processo criativo inclui três etapas: a
saturação – que é junção de dados para o desenvolvimento de novas idéias; a incubação – que
é a organização mental dessas novas idéias; e a iluminação – que é quando a solução ou
resposta emergem.
Wallas (1982) complementa os três estágios do pensamento criativo de Helmoltz
incluindo a etapa da verificação. O autor defende que o quarto estágio, o da verificação, está
muito próximo da definição do primeiro (preparação): é um fenômeno consciente, demanda
muito trabalho e preparação e institui normas lógicas. É nessa etapa em que se avalia a
solução de um determinado problema, com base em normas e critérios lógicos estabelecidos
conscientemente pelo indivíduo.
Amabile (1983) salienta que muitas das mais recentes definições da criatividade foram
direcionadas ao processo criativo. Essas definições, segundo a autora, baseiam-se na noção
que qualquer coisa que surja do processo poderia ser chamado de criativo. Ela reproduz a
definição de John Watson (Amabile, 1983, p.18) como sendo a mais relevante sobre o
processo criativo “como o novo se torna realidade: uma questão natural sempre levantada é:
como sempre conseguimos novas criações verbais como poemas ou escritos brilhantes? A
resposta é que nós os conseguimos manipulando palavras, mesclando-as até que um novo
Csiksentmihalyi (1996) considera que a criatividade envolve a produção de novidade.
Ele comenta que “o processo de descoberta envolvido na criação de algo novo parecer ser
uma das mais divertidas atividades que cada pessoa pode estar envolvida” (p. 113), baseado
nas respostas apresentadas por participantes de suas pesquisas. O autor indica que, em certos
casos, o processo criativo começa com o objetivo de resolver um problema que foi
apresentado àquela pessoa, seja um problema científico da mais alta relevância ou qualquer
outro desafio imposto, citando o que um de seus respondentes mencionou:
Oh, eu adoro resolver problemas. Se é o porque nossa máquina de lavar louça não
funciona, ou porque o carro não pega ou como o sistema nervoso trabalha ou qualquer
outra coisa. Agora estou trabalhando em como as células capilares funcionam e... ah...
é tão interessante. Não me importa que tipo de problema é. Se eu posso solucionar, é
divertido. (p. 114)
Alencar e Fleith (2003b) salientam que, para que aconteça a emergência de um novo
produto fruto do pensamento e processo criativos, vários aspectos devem ser considerados,
como conhecimento, trabalho, certos traços de personalidade e características cognitivas.
Alencar (1995a) destaca que a produção criativa não ocorre por acaso, como por milagre,
muito pelo contrário, esta é fruto de técnica, domínio, preparo, trabalho, dedicação e esforço,
associados a algumas habilidades características de pessoas criativas, como flexibilidade,
originalidade, sensibilidade a problemas e imaginação.
Certamente não foi somente um insight que levou Thomas Edison a inventar a
lâmpada. Se fosse possível voltar ao tempo e pesquisar como o cientista chegou até a
descoberta, identificaríamos que houve muito trabalho e esforço pessoal. Sternberg e Lubart