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3 FRAÇÕES BURGUESAS, HEGEMONIA E POLÍTICA ECONÔMICA NO

3.2 A crise de hegemonia dos anos 1950 e 1960

O fim da Segunda Guerra Mundial veio acompanhado de uma reorganização do sistema econômico e político global. Os Estados Unidos, fortalecidos pelo seu papel de fiador das potências aliadas, alçou à liderança do bloco capitalista, confrontando as experiências revolucionárias inspiradas no exemplo soviético. A rápida recuperação da Europa e do Japão nos anos 1950 incrementou a competição internacional e impulsionou as grandes potências a ampliarem sua zona de valorização de capitais. O início da Guerra Fria veio acompanhado da tentativa dos Estados Unidos reforçarem seu domínio sobre o continente americano. A questão se tornou ainda mais urgente do ponto de vista norte-americano depois do sucesso da Revolução Cubana em 1959.

Junto a isso, a mudança na matriz produtiva nas áreas centrais tornava lucrativa a exportação dos parques industriais obsoletos. Foi aí que se conformou uma via para dar

21 Para uma apreciação do histórico do debate entre o desenvolvimentismo e o neoliberalismo no Brasil

continuidade ao processo de industrialização brasileira agora com a participação direta de forças exteriores. Entrávamos no mapa de interesse das empresas transnacionais. Tudo isso levava um estreitamento do espaço de autonomia antes existente que permitia a formulação de propostas de desenvolvimento alicerçadas em projetos de soberania nacional, como era o caso do desenvolvimentismo da Era Vargas (1930 – 1945).

Neste quadro de profundas transformações internas e externas, o que se viu ao longo dos anos 1950 e início da década de 1960 foi uma conjuntura de crise da hegemonia no Brasil. Pode-se tomar como marco simbólico de início desta conjuntura o suicídio de Vargas em 1954. Houve, no entanto, certa defasagem nos processos externos e internos que levou a um prolongamento desta crise em diversas fases. No plano interno, os anos 50 e 60 foram marcados pelo avanço da industrialização, pelo aprofundamento da participação do Estado na produção industrial, pela entrada das transnacionais no país e pela internalização das disputas ideológicas da Guerra Fria. Neste cenário, a disputa pelos recursos estratégicos e pelo acesso ao mercado interno brasileiro colidia com o crescente papel que o Estado vinha assumindo na economia nacional. Com isto, já se apresentavam fortes tensões a respeito do intervencionismo do Estado, especialmente depois da criação da Petrobrás e da Eletrobrás.

O período Kubitschek (1956-1961) operou as primeiras mudanças econômicas que inviabilizariam a permanência da burguesia industrial nacional como fração hegemônica no interior da classe dominante. Conceição Tavares aponta que nesta fase houve uma mudança na composição estrutural da indústria no Brasil. Enquanto em 1949 cerca de 50% do valor total da indústria de transformação se devia ao setor alimentício e têxtil, este percentual caiu para 34% em 1961. Em contraste, os setores da indústria mecânica, metalúrgica, material elétrico, transporte e química saltaram de 22% para 41% (TAVARES, 1983, p. 92). Ou seja, os setores industriais que dependiam mais diretamente de tecnologias de ponta cresciam mais rapidamente que os setores tradicionais. Contudo, enquanto os setores de ponta eram dominados principalmente pelas transnacionais recém instaladas em território nacional, os setores tradicionais continuavam a cargo de empresas nacionais.

A partir de 1955, as entradas de capitais externos (IED e empréstimos) intensificaram- se e financiaram sucessivos déficits em transações correntes. O transbordamento de muitas indústrias núcleo do paradigma metalomecânico-químico e a existência de “dinheiro ocioso” nas economias avançadas disponibilizaram recursos externos que contribuíam não somente para a aceleração da taxa de investimento doméstica, mas também sustentaram a aceleração da demanda por importações. Assim, essa estratégia de crescimento foi amplamente eficaz ao promover crescimento com transformação industrial (AREND; FONSECA, 2012, p. 48).

Junto a isso, a expansão das classes trabalhadoras urbanas, sua organização em sindicatos e a intensificação do movimento grevista aumentavam o temor de todas as frações burguesas de uma escalada de politização e possível descontrole que o arranjo hegemônico herdado da Era Vargas (1930 – 1945) poderia atingir. Tais transformações fragilizaram a posição da fração industrial nacional mas, especialmente pela pressão das classes trabalhadoras e por dificuldades políticas, a crise se prolongou sem solução. O que ocorria era a dificuldade de definir o lugar de cada uma das frações da classe dominante num novo arranjo hegemônico. Assim, com diferentes idas e vindas, a crise de hegemonia se arrastava sem solução duradoura na década que vai de meados dos anos 1950 a 196422.

A conjuntura chegou ao impasse entre 1961 a 1964 em virtude da concatenação de uma grave crise econômica com polarização política. No plano econômico este embate se expressava nas crescentes dificuldades em acessar capitais externos e na escalada inflacionária. A proposta do governo João Goulart (1961-1964) era retomar o crescimento por via endógena. Propunha- se realizar um conjunto de reformas (bancária, fiscal, urbana, administrativa, agrária e universitária) que ajudariam a liberar capitais nacionais para um novo ciclo de acumulação. Dentre os pontos que causaram maiores embates estava a proposta de controlar as remessas de lucros para o exterior e o enfrentamento do problema histórico da concentração da propriedade da terra que a reforma agrária buscava superar.

A crise do arranjo hegemônico encabeçado pela burguesia industrial nacional teve repercussões na efetividade da política econômica até então aplicada. Em fins dos anos 1950 foi tornando-se claro que os grandes objetivos nacionais almejados pelo nacional- desenvolvimentismo estavam longe de serem alcançados. Em especial, as diretrizes propaladas pela CEPAL se, por um lado, ajudaram alguns países latino-americanos a ingressarem numa nova etapa do desenvolvimento capitalista, por outro, mostraram-se incapazes de superar os desequilíbrios típicos das formações sociais subdesenvolvidas bem como as relações de dependência com os países centrais. Com a industrialização, esta dependência se apresentava em um novo patamar, ganhando visibilidade a dependência tecnológica e financeira e não apenas a desigualdade dos termos de troca no mercado internacional.

Parte desses limites deve-se a que as condições previstas para a realização do roteiro de superação do subdesenvolvimento propugnado pela CEPAL pareciam esgotadas. Este roteiro pressupunha a possibilidade de uma política econômica pacífica e negociada no plano internacional e de Estados-nacionais periféricos dispostos a aplicá-las. Todavia o acirramento

da disputa geopolítica da Guerra Fria havia esvaziado este espaço de manobra no plano internacional. Além disso, os interesses de classe imbricados na política estatal de países como o Brasil demonstravam que não havia nada parecido com um Estado “neutro”, acima das classes sociais, interessado num suposto desenvolvimento geral do país. Pelo contrário, considerando que a aliança estabelecida entre a fração industrial nacional e a burguesia agroexportadora tinha caráter conservador, o prosseguimento do processo de substituição de importações tendo à frente a burguesia nacional esbarrava nos interesses de sua velha fração aliada. Tudo isto se refletiu então numa crise da política econômica nacional-desenvolvimentista inspiradas nas diretrizes da CEPAL.23

À direita, os adeptos da solução de tipo neoliberal denunciavam o caráter populista do nacional-desenvolvimentismo. Rechaçavam também a excessiva presença do Estado na economia e o risco de uma guinada rumo ao socialismo. À esquerda, os adeptos das diferentes teorias da dependência apontavam as insuficiências da política econômica nacional- desenvolvimentista porque era incapaz de romper os laços histórico de dependência que mantinham os países latino-americanos em condição periférica no sistema internacional (BAMBIRRA, 2013; CARDOSO; FALETTO, 2010; FERNANDES, 1968; MARINI, 2005). Em suma, neste novo contexto a política econômica que sustentou a hegemonia da burguesia industrial nacional no Brasil entre os anos 1930 e 1950 perdia sua eficácia e já não era capaz de oferecer respostas para a ação dos agentes estatais.

3.3 A HEGEMONIA DO CAPITAL INDUSTRIAL ESTRANGEIRO ENTRE 1964 A