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não tinham filiados denunciados, mencionados ou investigados pela operação Lava Jato. E mais: a operação cooperativa entre Polícia Federal, Ministério Público Federal e Justiça Federal, em seus dez anos de constituída, levaram à prisão os membros de cinco partidos políticos, ao passo que filiados de outras 13 organizações partidárias foram denunciados ou investigados.

O elevado número de partidos políticos com membros ao menos investigados por esquemas de corrupção somou-se às histórias, e também muitas estórias, sobre a classe política brasileira. É comum ouvirmos relatos populares que imputam aos políticos práticas como trabalhar pouco e ganhar muito (o famoso marajá), operar esquemas de corrupção para garantir sua eleição e, nos casos mais sérios, mesmo corromper ou passar por cima das leis para se manter livre. O fato é que no Brasil há uma relação pouco partícipe entre os eleitores e aqueles que deviam os representar no acesso às instâncias de poder. O observado é uma espécie de

“cárcere público”, uma relação na qual o eleitor fica refém do parlamentar ou executivo disponível para solucionar seus problemas. O acesso ao poder, corporificado nos partidos políticos, tornou-se um negócio lucrativo. E a população está cada dia mais cansada de pagar essa conta.

As manifestações que tomaram conta do Brasil e mostraram a “cara” da insatisfação dos eleitores com a classe política só tomaram as ruas no meio de 2013. Porém, a insatisfação ganhava cada vez mais força com as recorrentes denúncias de corrupção que tomavam conta do país. Por conta da Copa do Mundo e das Olimpíadas do Rio, mas também por conta do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) (uma política do Governo Federal de fomento ao crescimento econômico por meio das obras), o Brasil se tornou um canteiro de obras. Anos depois, os brasileiros descobriram que pagaram caro por isso. Os escândalos de corrupção envolvendo as empreiteiras ganharam dimensões nunca antes vistas e deram origem a uma das maiores operações contra corrupção do mundo: a Operação Lava Jato. Porém, as tristes surpresas dos brasileiros frente à divulgação de casos de corrupção na política são anteriores à Operação Lava Jato: Anões do Orçamento (1993), Banestado (1996), Máfia dos Fiscais de São Paulo (1999), Mensalão (2005), Sanguessuga (2006) e outros tantos casos48. O número de escândalos é alto, assim como o de partidos envolvidos nesses casos. O eleitor passou a imaginar que a solução residia em tirar quem ali estava, trazendo novos nomes, inclusive de partidos políticos. E houve quem apostasse nessa oportunidade, pois, desde 2005, 11 partidos

48 São tantos escândalos que cabe um breve descritivo sobre cada, então indicamos um resumo criado pela Revista Super Interessante que listou os dez casos mais emblemáticos até então (o material foi escrito em março de 2012).

cf. SUPER INTERESSANTE. Os maiores escândalos de corrupção do Brasil. Disponível em:

https://bit.ly/2OSDHey. Acesso em: 3 mar. 2019.

políticos tiveram seus registros deferidos pelo TSE. Há, nesta lista de partidos conservadores – como o Partido Republicano Brasileiro (PRB), um braço político da Igreja Universal do Reino de Deus – a partidos socialistas, como o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), fora três organizações partidárias com marcas pouco comuns – à época, é claro – adotadas pelas mesmas:

Novo, Solidariedade e Rede. Como a prática tornou-se recorrente em um futuro próximo, cabe uma breve análise.

A Figura 12 ilustra a logomarca do Novo, partido fundado em 12 de fevereiro de 2011 e registro no TSE em 15 de setembro de 2015, como resultado de um movimento que, “[...] foi iniciado por cidadãos insatisfeitos com o montante de impostos pagos e a qualidade dos serviços públicos recebidos”, como a própria organização partidária afirma em seu site oficial 49. Não há aí nenhuma exclusividade nas demandas defendidas, visto que milhares de brasileiros reclamam cotidianamente do custo elevado que é pago em troca de serviços públicos precários. O interessante no caso do Partido Novo – o “partido” foi só pra fins de consolidação da imagem, pois atualmente a organização refere-se a si mesma como Novo – é a decisão de usar as instâncias oficiais para acesso direto ao poder, sem intermediários. E, principalmente, a decisão de ilustrar essa oposição irrestrita às velhas práticas que observamos com o uso do Novo como nome, marca e, antes de tudo, lema para uma nova postura política. Como não há histórico da organização posterior à fundação do Novo, não podemos adotá-la em nosso estudo de caso, mas sem dúvida seu movimento de institucionalização no meio da sociedade, tornando-se um sistema acoplado à mesma, é de grande valia para nossa pesquisa.

Outro partido político recentemente fundado foi o Rede Solidariedade, cuja logomarca encontra-se representada na Figura 13, que, mesmo sendo registrado no TSE como organização partidária, desde 22 de setembro de 2015 é autointitulado “[...] um movimento aberto, autônomo e suprapartidário que reúne brasileiros decididos a reinventar o futuro do país”50. O partido político inaugurou no país o socialismo verde, uma aproximação aos conceitos socialistas em uma perspectiva ecológica iniciada nos anos 1970, encabeçado pela ex-Senadora da República pelo Acre e ex-Ministra do Meio Ambiente, Marina Silva. Com mais de 20 anos de filiação ao PT, a então senadora se desfiliou da sigla por incompatibilidades sobre as visões de desenvolvimento sustentável. Foi candidata à Presidência da República pelo Partido Verde (PV) e, posteriormente, começou uma caminhada com fins à fundação da Rede. Havia, entre os primeiros filiados da Rede Sustentabilidade, ex-filiados do PT e PV, mas no caso em específico não havia uma organização ocorrida com tais fins. Por conta disso, não vamos nos aprofundar

49 NOVO. Por que o Novo? De onde viemos? Disponível em: https://bit.ly/2LwTSuP. Acesso em: 3 mar. 2019.

50 REDE. A #Rede. Disponível em: https://bit.ly/2UgPTvS. Acesso em: 3 mar. 2019.

no caso da Rede, mas vale a atenção ao movimento que, como partido político que é, nega os limites conhecidos desse tipo de organização.

Antes de abordarmos os desafios impostos pela Cláusula de Barreira e como isso refletiu nas marcas de organizações partidárias, cabe conhecermos o primeiro partido político brasileiro fundado em meio às manifestações que tomaram as ruas brasileiras em 2013: o Solidariedade, com sua logomarca ilustrada na Figura 14. O Solidariedade foi fundado em 25 de outubro de 2012 – só tendo seu registro deferido pelo TSE em 24 de setembro de 2013 – por líderes sindicais que enxergaram, como afirma o site oficial do partido, “[...] a necessidade de criar um partido que representasse os interesses do Brasil que trabalha e produz”51. Os fins expostos eram pouco claros, mas talvez o nome escolhido fosse mais cheio de simbolismo: em tempos onde a maioria dos brasileiros se vê incapaz de perceber um sentido de solidariedade dos políticos aos mais necessitados, um partido autointitulado solidário surge como uma opção àqueles sem esperança. Não há, ao menos nos meios oficiais, nenhuma declaração de que o nome faz referência ao movimento sindicalista polonês que nos anos 1980 ficou conhecido mundialmente pela luta contra a ditadura comunista instalada nessa nação do leste europeu. O curioso é concluirmos que, mesmo se posicionando como um partido trabalhista e sindicalista, na votação da Reforma Trabalhista, pauta bastante criticada pelos movimentos sindicais, 1/3 dos deputados federais do Solidariedade não foram solidários às causas trabalhistas e votaram a favor da proposta do governo do presidente Michel Temer52.

Figura 12 - Logomarca Novo.

Fonte: site oficial.53

Figura 13 - Logomarca Rede.

Fonte: site oficial.54

Figura 14 - Logomarca Solidariedade.

Fonte: site oficial.55

Os três novos partidos supracitados compartilham entre si uma busca de reconstrução do sentido de partido político em tempos de crise de representatividade. É ainda muito cedo para aferirmos se tais organizações foram bem-sucedidas no embate contra as velhas práticas políticas – ou mesmo se passaram a adotá-las –, mas é certo que esse não foi o único desafio

51 SOLIDARIEDADE. Histórico do Partido Solidariedade. Disponível em: https://bit.ly/2HNTjLw. Acesso em: 3 mar. 2019.

52 O GLOBO. Saiba como votaram os principais partidos na Reforma Trabalhista. Disponível em:

https://glo.bo/2q6y4hX. Acesso em: 3 mar. 2019.

53 NOVO. Material Oficial. Disponível em: https://bit.ly/2G1vX7x. Acesso em: 3 mar. 2019.

54 REDE. Concurso do novo logotipo da Rede tem um vencedor. Disponível em: https://bit.ly/2Kb1FmE. Acesso em: 3 mar. 2019.

55 SOLIDARIEDADE. Logos Solidariedade nacional. Disponível em: https://bit.ly/2HZLXJi. Acesso em: 3 mar.

2019.

que tais organizações partidárias enfrentaram. Há outro fator com capacidade de mudar o sistema político brasileiro como o conhecemos atualmente e que tem demandado aos partidos políticos a tomada de decisões com fins à reconstrução de seus sentidos frente aos eleitores: a Cláusula de Barreira. Como citamos, a Cláusula de Barreira é um instrumento encontrado pelos legisladores para redução do número de partidos políticos no Brasil, em muitos casos, sem nenhuma válida razão para a manutenção de organizações partidárias com agendas programáticas tão similares. O embate não é recente: a Lei que institui esse mecanismo de controle do desempenho eleitoral foi proposta em 1995 e, após a decisão pela inconstitucionalidade pelo Superior Tribunal Federal (STF), o Brasil só passou a contar com o estabelecimento de metas de desempenho eleitoral aos partidos políticos com a aprovação da minirreforma eleitoral, aprovada em 201556. Os efeitos da implementação da Cláusula de Barreira serão progressivos: nas eleições para Câmara de Deputados em 2018, os partidos políticos precisaram somar 1,5% dos votos válidos totais e pelo menos 1% dos votos válidos em nove estados diferentes para garantir acesso ao Fundo Partidário e tempo de TV; nas eleições de 2030, os mesmos benefícios só estarão disponíveis àqueles partidos políticos que somarem 3% do total dos votos válidos com pelo menos 2% em nove estados ou 15 deputados em nove estados57. Com cada vez menos proximidade aos eleitores e cada vez mais necessidade do voto, muitos partidos políticos decidiram mudar.