AMBIENTAL E OS EFEITOS NOCIVOS DA CORRUPÇÃO
2 A CRISE DO ESTADO E O FENÔMENO CORRUPTIVO
O Brasil, em que pese tenha evoluído no combate à corrupção, ainda sofre os impactos da corrupção, o que compromete de maneira contumaz o desenvolvimento do país com os volumes de recursos desviados refletindo diretamente na qualidade dos serviços essenciais, nas obras de infraestrutura, na perda de confiança e princi-palmente de autoestima da sociedade brasileira. Conforme Leal3:
Segundo o relatório anual Assuntos de Governança, publicado desde 1996 pelo Banco Mundial, há uma curva ascendente no índice que mede a eficiência no combate à corrupção no Brasil. O índice, que avalia 212 países e territórios, registra subida descontínua da situação brasileira desde 2003, tendo atingido seu pior nível em 2006, quando atingiu a marca de 47,1 numa escala de 0 a 100 (sendo 100 a avaliação mais positiva).
Não há corrupção sem uma cultura corruptiva. O fenômeno da corrupção de-manda a aceitação, o endosso, mesmo que tácito, do seu entorno, com níveis de aceitação social e institucional relativamente flexíveis. Não há como reclamar da cor-rupção como se fosse uma patologia avessa, um comportamento isolado de uma de-terminada classe. A corrupção reflete a cultura (ou falta de) de um país, seus hábitos e sua (in)capacidade de rebelar-se de forma contumaz contra as aberrações assis-tidas diuturnamente em todas as áreas (tanto pública quanto privada) imagináveis.
É a aceitação e a perda da capacidade de indignação, de quebra do paradigma de corrupção que mantém as mazelas lá existentes.
Essa cultura nefasta de corrupção não é hodierna – ao contrário – foi herdada com a colonização no período colonial. Conforme bem aduz Ronzani4 acerca da cul-tura nacional herdada pela colonização lusitana:
[...] pontuando como aspectos menos positivos da população a aversão ao trabalho, a mania nobiliárquica e a decadência moral dos costumes e da família. O “manobrismo” praticado em toda linha, conseqüente à busca do ganho mais imediato fomentado pela realeza lusa gerou verdadeiro fenômeno cultural.”
Fenômeno cultural este que se refletiu diretamente na formação do caráter na-cional, a cultura da corrupção, o costume do “jeitinho brasileiro”, à exceção de alguns povos imigrantes do fim do século XIX que contrastaram com a cultura portuguesa já
3 LEAL, Rogério Gesta. Patologias Corruptivas Nas Relações Entre Estado, Administração Pública e Sociedade: causas, conseqüências e tratamentos. Santa Cruz do Sul: EDUNISC, 2013, 223 p.
4 RONZANI, Dwight Cerqueira Ronzani. Corrupção, improbidade administrativa e poder público no Brasil. Revista da Faculdade de Direito de Campos. Ano VIII, Nº10 – Junho de 2007. p. 68
arraigada no país, fizeram com que o Brasil adotasse e incorporasse quase por com-pleto essa cultura da vantagem sobre outrem e do lucro rápido e fácil.
Continua Ronzani5 afirmando que “eram residuais os grupos que para cá vies-sem intencionados em fixar-se na terra e a dedicar-se à agricultura, até porque esse tipo de trabalho não seria adequado aos homens livres, mas aos escravos, consoan-te os velhos costumes”.
Tal afirmação representa bem a cultura herdada dos portugueses, paradigma que só veio mudar com a chegada de imigrantes de outras etnias no fim do século XIX. O Brasil foi sempre palco extrativista, de onde se tirava madeira e metais precio-sos. A lógica de cultivo da terra e valorização do trabalho só veio mudar recentemen-te, o que acabou por influenciar negativamente toda uma cultura de tolerância com os processos corruptivos.
É nessa seara que a corrupção surge como função manifesta, tendo por con-sequências fomentar ou impedir a modernização, representando, em muitos casos, eventuais benefícios para a constituição de uma ordem moderna, balizada, principal-mente, nas iniciativas do espírito capitalista:
Para a sociologia da modernização há uma relação necessária entre corrupção e modernização, uma vez que cenários de larga corrupção definem uma baixa institucionalização política e, por sua vez, uma ordem fraca para a mediação e a adjudicação de conflitos.6
No Brasil, ainda observa-se uma situação relativamente longe da corrupção en-dêmica, que representa cenários de ruptura institucional e total anomia institucional.
No entanto, encontramo-nos no que podemos denominar corrupção tolerada:
Ou seja, a corrupção tolerada implica na existência de impunidade e iniqüidade de agentes públicos sem romper, contudo, a reprodução das práticas vigentes e aceitas na sociedade e na economia. A tolerância em relação à corrupção está configurada numa teia de interdependências acerca das necessidades e de controles sobre os recursos, expressando, em última instância, relações de poder7.
Ao que parece, o Brasil vive uma situação próxima da corrupção tolerada, onde boa parte das práticas corruptivas é tolerada, ou ao menos, não são mais passíveis de gerar indignação no ente social.
5 RONZANI, 2007, p. 68.
6 FILGUEIRAS, Fernando . A Corrupção na Política: Perspectivas Teóricas e Metodológicas. Boletim CEDES, v. 5, p. 1-29, 2006. p. 3.
7 FILGUEIRAS, 2006, p. 22.
A política, e mais especificamente, as disputas eleitorais, pautadas pelo prag-matismo, pelo imediatismo e pela cobrança de resultados práticos, acabam por se-pultar a razão teórica do homem compromissado com a ética, viciando a democracia representativa:
O problema é que a política, sob o ponto de vista das disputas eleitorais e de governança, é pautada, em regra, não pela razão teórica do homem virtuoso que está mais compromissada com a moral e a ética do dever ser, mas à razão prática e pragmática dos fins imediatos de projetos institucionais, pessoais e corporativos, o que contamina a virtude cívica dos cidadãos e vicia a legitimidade de determinados modelos e experiências da democracia representativa, haja vista a ausência de consensos em torno de valores e princípios que a sustentem8.
Conclui Leal, destacando o impacto nocivo que a corrupção tem sobre todo o sistema democrático e a soberania do Estado e, mais do que isso, agindo direta e negativamente sobre os Direitos Fundamentais, citando Anechiarico e Jacobs9:
A reflexão que desenvolvi até aqui também serve – como disse acima – para entender melhor como os Direitos Humanos e Fundamentais são letalmente impactados pelos atos corruptivos, na medida em que, por exemplo, ‘the ability to promote and protect civil and political rights rests upon effectively combating political and judicial corruption (and vice versa). Transparency and access to information empower individuals to make informed decisions – from exercising their voting rights, to monitoring how state expenditures are spent10.’
Destarte, a transformação da cultura de combate à corrupção perpasse a barrei-ra da criação de novos mecanismos legais, mais do que isso, implica na modificação da própria identidade cultural impregnada na coletividade em um sentido de coorigi-nariedade, a sociedade como fiscal da lei e do poder público e enquanto parte do es-tado, onde suas práticas e seu agir influenciam diretamente o modo de ser da nação.
A mudança neste paradigma está muito mais na metamorfose de nossas práticas cotidianas enquanto cidadãos do que na criação de nova parafernália normativa.
O empoderamento social pode ser a ferramenta apta a enfrentar os efeitos pato-lógicos da corrupção, a lei enquanto letra morta não é capaz de gerar efeitos através
8 LEAL, 2013, p. 12.
9 LEAL, 2013, p. 24.
10 Tradução Livre: a capacidade de promover e proteger os direitos civis e políticos repousa no combate eficaz à corrupção política e judicial (e vice-versa). Transparência e acesso à informação, bem como, capacitar os indivíduos para tomar decisões com sabedoria - desde exercer seus direitos de voto, até monitorar como as despesas do Estado são gastos.
de sua simples existência formal, ou seja, o processo pelo qual os indivíduos, organi-zações e comunidades conseguem meios que lhes permitem ter voz, visibilidade, in-fluência e capacidade de ação e decisão. Nesse sentido, equivale aos sujeitos terem poder de decisão nos temas que afetam suas vidas, criando um contexto de gestão pública compartilhada.
3 O LICENCIAMENTO AMBIENTAL E A PERSECUÇÃO AO