• Nenhum resultado encontrado

A crise econômica e a reforma do setor de 1990

2 O SETOR ELÉTRICO BRASILEIRO

2.1 MODELOS ANTECESSORES

2.1.1 A crise econômica e a reforma do setor de 1990

As transformações ocorridas no mundo na década de 1970, como as crises do petróleo em 1973 e 1979, e a posterior elevação das taxas de juros no mercado externo no início de 1980, contribuíram para que o processo de crescimento econômico iniciado no Brasil se revertesse (LORENZO, 2002).

O modelo estatal do setor elétrico começou a apresentar seus primeiros sinais de fraqueza ainda no fim da década de 1970, quando a União passou a usar as tarifas de energia como instrumento de política monetária, a fim de conter a inflação. Na década seguinte, de 1980, em função do agravamento da dívida externa brasileira surgiu a grande crise do setor

elétrico, que motivou o fim do Imposto Único e a manipulação das tarifas, que interromperam o fluxo de financiamento do setor, e foi agravada pelas ineficiências oriundas da remuneração garantida das concessionárias (TOMALSQUIM, 2011).

Houve ainda nesta época uma tendência global da revisão do papel do Estado na economia, tratava-se do inicio da adoção em diversos países de uma política neoliberal, que defende a absoluta liberdade de mercado e uma restrição à intervenção estatal sobre a economia. Segundo esta concepção, o Estado passaria a ter uma função exclusiva de regulador da atividade econômica, e a iniciativa privada assumiria as atividades empresariais.

Estes fatores culminaram na ampla reforma do setor elétrico realizada na década de 1990, antes mesmo de estar definido um novo marco regulatório setorial o governo deu início ao processo de desestatização de empresas de energia elétrica.

Através da Lei no 8.031 de 1990, o governo instituiu o Programa Nacional de Desestatização (PND) e criou o Fundo Nacional de Desestatização (FND). Entre os objetivos fundamentais descritos na lei estavam:

I - reordenar a posição estratégica do Estado na economia, transferindo à iniciativa privada atividades indevidamente exploradas pelo setor público;

II - contribuir para a redução da dívida pública, concorrendo para o saneamento das finanças do setor público;

III - permitir a retomada de investimentos nas empresas e atividades que vierem a ser transferidas à iniciativa privada;

O PND foi a base para as privatizações no setor elétrico, que teriam inicio somente em 1995. Antes das privatizações outras leis foram formuladas que veremos a seguir. O setor público teve limitado os acessos a financiamentos, as empresas somente poderiam obter financiamentos em empreendimentos realizados em parceria com a iniciativa privada. A Lei no 8.631 de 1993, dispôs sobre a fixação dos níveis das tarifas para o serviço público de energia elétrica e extinguiu o regime de remuneração garantida, ela também tornou obrigatório os contratos de suprimento de energia entre geradores e distribuidores (MAY, 1999).

Em 1994 e 1995 foram elaboradas outras importantes leis para o setor elétrico, entre elas a Lei no 8.987, a chamada Lei das Concessões, que regulamentou o regime de concessão e permissão da prestação de serviços públicos através do serviço pelo preço, com reajustes e revisões tarifárias, e a Lei no 9.074 que implantou a figura do Produtor Independente de Energia (PIE) e do Consumidor Livre.

Ainda em 1995, através de um emblemático documento chamado de Plano Diretor da Reforma do Aparelho do Estado (PDRAE), o governo lançou as bases do projeto governamental brasileiro de reestruturação do aparato estatal. Na redação do item 6.5 do documento, são listados os seguintes objetivos para as Empresas Estatais:

Objetivos para a Produção para o Mercado:

 Dar continuidade ao processo de privatização através do Conselho de Desestatização.

 Reorganizar e fortalecer os órgãos de regulação dos monopólios naturais que forem privatizados.

 Implantar contratos de gestão nas empresas que não puderem ser privatizadas.

Em 1996, dando prosseguimento a reestruturação do setor, o governo criou a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), uma autarquia sob regime especial vinculada ao MME, com atribuição para regular e fiscalizar as atividades inerentes ao setor elétrico. Antes mesmo de criar a ANEEL, o MME contratou o consórcio Coopers & Lybrand para realização de estudos visando à reestruturação do setor elétrico brasileiro, dentro de um projeto intitulado Projeto de Reestruturação do Setor Elétrico Brasileiro (RE-SEB).

Paralelo a estas medidas, foram iniciadas as privatizações no setor elétrico, com a privatização das distribuidoras estaduais de energia, tais como a Light, CEEE, CPFL, Cerj, Enersul, etc.

Os estudos realizados pelo RE-SEB promoveram um novo desenho institucional para o setor, e foram substanciados na Lei no 9.648 e no Decreto no 2.655, de 1998, sendo introduzidos basicamente as seguintes modificações no setor:

 Estabelecimento de “contratos iniciais” de compra e venda de energia para transição de modelos.

 Desverticalização, criando a independência dos negócios, dos segmentos de geração, transmissão e distribuição das empresas. Separação do segmento físico e comercial da energia elétrica, constituindo assim o segmento da comercialização;

 Estabelecimento de condições para o livre acesso a rede de transmissão, proporcionando a livre comercialização da energia elétrica entre geradores e distribuidores de diferentes pontos da rede;

 Adotado o regime de concorrência nos segmentos de comercialização e geração;

 Criação do Mercado Atacadista de Energia Elétrica (MAE), responsável por disciplinar e operacionalizar a compra e venda de energia livremente negociada;

 Criação do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), responsável por coordenar e controlar, de forma independente, a operação da geração e da transmissão no âmbito do Sistema Interligado Nacional (SIN).

Em meio a todas essas modificações a lei autorizou a reestruturação da Eletrobrás e suas subsidiárias, esta reestruturação começou com a cisão da Eletrosul, em 23 de dezembro de 1997, em duas empresas: a Gerasul (que continha os ativos de geração) e a Eletrosul (que continha os ativos de transmissão). Em 15 de setembro de 1998, a Gerasul foi privatizada, sendo adquirida pela Tractebel Energia (Grupo Suez). Foram privatizados assim os ativos de geração da antiga Eletrosul que totalizavam 3.719 MW em operação e 2.800 MW em construção. O valor recebido pelo governo brasileiro foi de aproximadamente R$ 900 milhões (US$ 810 milhões). Segundo (ALKAIM, 2003):

Na estatal ocorreu a desestruturação dos quadros e nas privatizadas a tentativa de recomposição do pessoal, inclusive com terceirização de serviços.

Mas em todas estas transformações houve perda de rico material humano, que detinha parte do conhecimento da área, bem como mudança de padrão comportamental.

Muitos profissionais que trabalhavam nas equipes de planejamento das estatais foram forçados, ou aproveitaram, para integrar os Planos de Demissão incentivada que ocorreram na época, e aproveitaram a oportunidade para compor os quadros do ONS. Isso de certa forma enfraqueceu o planejamento setorial.

Iniciou-se assim a implantação do projeto RE-SEB, porém antes mesmo de terminado o processo de transição, o setor passou por uma grave crise de racionamento.

A insegurança regulatória, aliada a decisão do Estado de reduzir a participação estatal no setor, freou os investimentos na ampliação da capacidade instalada de geração de energia do país, que não acompanhou o crescimento do consumo. No Gráfico 2 é possível observar que a evolução da capacidade instalada a partir de 1993 (~3% a.a) não acompanha a evolução do consumo de energia elétrica (~5% a.a) no mesmo período, graficamente é possível observar a defasagem das curvas de crescimento.

Gráfico 2 – Evolução da capacidade e do consumo de energia elétrica no SIN: 1974-2001

Fonte: (EPE, Balanço Energético Nacional 2006: Ano Base 1974 - 2005, 2006)