3. As transformações no modo de acumulação capitalista no Pós-
3.3. A crise estrutural do capitalismo: esgotamento do modo
Dialeticamente, é possível analisar que as mudanças do modo de produção fordista foram causadas por um de seus frutos: a Terceira Revolução Tecnológica. Segundo Mandel (1982), a organização sistemática e intencional da pesquisa científica, nascida no contexto de guerra com o objetivo de acelerar a inovação tecnológica, fez com que, após o conflito, a invenção se tornasse um ramo dos negócios. A aplicação direta da ciência à produção passou a determinar as invenções, ou seja, a pesquisa passa a ter como principal objetivo maximizar os
lucros das empresas. O resultado disso foi a criação de novas máquinas com aparelhagem eletrônica, mais sofisticadas do que as que usavam recursos mecânicos.
A conseqüência foi que essa transformação da tecnologia produtiva levou a um aumento na composição orgânica do capital (e também a uma redução do tempo de trabalho necessário), o que conduziu, ao longo do tempo, em uma queda na taxa média de lucros.
As dificuldades cada vez maiores de valorização na segunda fase de introdução de toda nova tecnologia de base acarretam um subinvestimento crescente e a criação em escala cada vez mais ampla de capital ocioso (MANDEL, 1982, p. 83).
Enquanto a taxa de lucro, que é o principal objetivo do capitalista, apresentava tendência de queda, observava-se um aumento real dos salários, obtido por meio da organização trabalhista dos países centrais. Com isso, um número cada vez maior de setores não conseguia mais produzir lucrativamente em escala nacional, não só por causa dos limites do mercado interno mas também por causa do enorme volume de capital necessário à produção (MANDEL, 1982). Com essa perda de lucratividade, cai o nível de investimentos e a luta por mercados torna-se mais acirrada. Essa seria, então, a principal causa da crise de superprodução dos anos 1970.
A luta por mercados –consequência e agravante da crise– levou à uma reação defensiva dos EUA. A combinação da Guerra do Vietnã com crescimento do Japão e das nações europeias levou a uma abundância de dólares nesses países. A paridade entre dólar e ouro, estabelecida no tratado de Bretton-Woods, tornava o dólar artificialmente valorizado frente às moedas desses países e acabava com a competitividade dos produtos de exportação norte-americanos, agravando o problema da balança comercial dos Estados Unidos. Assim, no final da década de 1960, com a crise americana explicitada e desdobrada em seus aspectos comercial, fiscal e mesmo militar, confirma-se a transnacionalização do sistema capitalista e a perda progressiva da hegemonia nacional americana. Sua taxa de acumulação, ao retomar o mini-boom da economia mundial nos anos 1970-1972, é inferior não apenas à do subsistema de filiais – porque isso sempre o foi – mas à sua própria taxa histórica no pós-guerra (TEIXEIRA, 1983).
Para reverter o problema do câmbio, o presidente Nixon decretou em 1971, unilateralmente, a desvalorização do dólar em relação ao ouro, com a moeda norte-americana passando a flutuar em relação ao
padrão ouro e às demais moedas fortes: era o fim do padrão dólar e de todo o sistema de Bretton Woods. Com o fim da conversibilidade, o dólar tendia a se desvalorizar, e isso deveria permitir a recuperação da competitividade das exportações americanas. Além disso, a administração estadunidense poderia financiar seus déficits pela emissão de dólares, à custa de uma alta inflacionária dentro dos EUA e em todos os países que comercializassem com dólares – todos os países capitalistas. A conta corrente norte-americana se recuperou, mas o desemprego aumentou e os níveis salariais caíram tanto na América do Norte quanto na Europa e no Japão.
Um terceiro agravante –e que se tornou símbolo da crise mundial- foi a crise do petróleo, no fim de 1973, após a derrota árabe diante de Israel na Guerra do Yom Kippur. Mesmo não sendo a causa da recessão, ela colaborou para impulsionar a inflação mundial e prejudicar Europa, Japão e países periféricos e serviu como um dos meios para socializar as perdas da crise estrutural23.
Como bem observa Frank (1983), a crise mostra que o processo de acumulação já não funcionava como no passado, exigindo reajustes para que voltasse a funcionar no futuro. Sob o ponto de vista da luta de classes, tal crise “não é outra coisa senão a ruptura de um padrão de dominação de classe relativamente estável” (HOLLOWAY, 1997 apud ANTUNES, 2006, p.31). Ou seja, o acordo entre capital e trabalho, mediado pelo Estado após a crise de 1929 (o “keynesianismo”) não se sustentava mais diante da taxa decrescente de lucro da indústria. A solução para que os países centrais revertessem a tendência de lucros decrescentes foi mudar as condições de lucratividade: as indústrias antigas tinham de ser substituídas por outras, novas, e os atuais processos de trabalho tinham de ser revisados (FRANK, 1983). À essa reestruturação capitalista dá-se o nome de modo de acumulação flexível.
3.4. modo de acumulação flexível
23 Como Malagoli (1992) observa, os Estados Unidos ganharam com a crise de diversas formas: 1) dependiam menos de importação de petróleo que Europa e Japão e, por isso, tiveram recuperação na balança comercial; 2)os excedentes de dólares em mãos de exportadores de petróleo (petrodólares) foram investidos principalmente no mercado financeiro norte americano. A Europa e o Japão sofreram efeitos negativos de curto prazo, como aumento da inflação e crescimento econômico nulo ou negativo por alguns anos. Já os países periféricos que não produziam petróleo –como o Brasil- acabaram por pagar quase a totalidade dos custos da crise em função das políticas de recuperação econômica dos países centrais, como alta taxa de juros internacionais –que acarretou o crescimento das dívidas externas– e baixa dos preços das matérias-primas e produtos agrícolas no mercado mundial.