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6. Mercado e relações de trabalho nos jornais entre 1995 e

6.2. Dimensões do mercado de trabalho formal

6.2.3. O perfil do trabalhador

Em relação à mudança do perfil, o mercado de trabalho do segmento de jornais não apresenta diferenças em relação a outros setores da indústria. No período estudado, aumentou a quantidade e a proporção de mulheres contratadas, que continuam ganhando menos que os homens; cresceu a proporção de contratados com mais de 40 anos; e, por fim, aumentou o nível de escolaridade dos trabalhadores formais que, em sua maioria, tem pelo menos o ensino médio.

Em parte, cabe ainda a explicação de Marx, que o capitalista compra mais força de trabalho com o mesmo capital ao substituir, progressivamente, a força de trabalho masculina pela feminina e os trabalhadores qualificados por trabalhadores menos hábeis, ainda que seja questionável que, nesse setor a mão de obra amadurecida seja substituída por mão de obra incipiente e a adulta pela dos jovens. (MARX, 1980).

No período estudado, as exigências por qualificação estão sendo atendidas, no caso, pela manutenção de uma parcela fixa de mão de obra experiente. No entanto, é inegável que houve esse movimento no início da reestruturação, em 1980, quando muitos veteranos foram expulsos da redação por não concordarem com as novas relações de trabalho.

6.2.3.1. Diferenças de gênero

Em 1995, 69% dos trabalhadores formais eram homens; em 2010, passaram a ser 59%. Uma hipótese para explicar o aumento da quantidade de mulheres contratadas é a de que feminização tenha sido uma das maneiras de reorganizar o trabalho a fim de reduzir custos com mão de obra, já que as mulheres, historicamente e até então84, ganham menos que os homens. Assim, o aumento de mão de obra feminina seria uma das formas de reduzir os custos do trabalho no setor.

84 Em termos agregados, o salário mensal médio das mulheres foi 20% menor que o dos homens em 2009 – dado mais recente, que não se restringe ao mercado formal. Enquanto os homens receberam R$ 1.682,07 (3,6 SM da época), as mulheres ganharam R$ 1.346,16 (2,9 SM). O salário médio do brasileiro ficou em R$ 1.540,59 (3,3 SM) (IBGE, 2011).

GRÁFICO 6.3 e 6.4 - Variação do nº de trabalhadores e distribuição salarial por sexo (%)

Fonte: RAIS (MTE). 0 5000 10000 15000 20000 25000 30000 35000 40000 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 Feminino Masculino 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80% 90% 100% 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010

Homens Até 3 SM Homens De 3,01 a 7 SM Homens Mais de 7 SM Mulheres Até 3 SM Mulheres De 3,01 a 7 SM Mulheres Mais de 7 SM

Em 2010, o salário médio das mulheres foi de 4,58 SM, enquanto o dos homens foi de 4,98 SM. A menor diferença salarial entre gêneros da série é de 0,03 salários mínimos, em 2002, auge da crise dos jornais. O que se observa é que o aumento da diferença salarial entre homens e mulheres coincide com os anos de ascensão ou recuperação dos empregos do setor. Isso indica que nesses anos ou são contratados mais homens com salários maiores ou que os trabalhadores do sexo masculino recebem mais promoções que os do sexo feminino.

Também houve mudança significativa na composição da mão de obra por gênero e salário: entre 1995 e 2010, a participação dos homens que ganhavam mais de 7 salários mínimos passa de 28,5% para 9,9% dos trabalhadores formais; e a das mulheres que ganhavam até 3 SM passa de 8% para 23% do total. Essa mudança no perfil salarial começou no ano de 2001, quando houve a crise mais recente da imprensa brasileira e o corte de empregos chegou a cerca de 9 mil vagas.

6.2.3.2. Escolaridade

Em termos mais amplos sobre o desenvolvimento capitalista, observa-se que, com o avanço da industrialização e da expansão tecnológica das forças produtivas, a formação especializada do trabalhador passa a ser necessária. Essa condição se explícita no modo de acumulação flexível, caracterizado pela exigência de níveis mais altos de formação técnica e acadêmica.

Ao contrário do que ocorria nas formações sociais escravistas e servis, esta reprodução da qualificação da força de trabalho tende a dar-se não mais no “local de trabalho” (a aprendizagem na própria produção) porém, cada vez mais, fora da produção, através do sistema escolar capitalista e de outras instâncias e instituições (ALTHUSSER, 2001 p. 57)

No setor formal brasileiro, em nível agregado, os grupos de trabalhadores cuja formação não chega ao nível do primeiro grau completo sofreram reduções na sua participação nesse segmento de trabalho, e a expansão do emprego formal tendeu a favorecer aqueles que têm pelo menos o segundo grau completo. O mesmo movimento é notado na composição do emprego formal dos jornais.

GRÁFICO 6.5 - Distribuição dos trabalhadores formais (%)

Fonte: RAIS (MTE).

Conforme visto no capítulo anterior, o aumento no nível de alfabetização e de escolarização da população foram fatores que influenciaram –e continua influenciando– o desenvolvimento da imprensa. No Brasil, os primeiros cursos superiores, jurídicos, foram instalados somente em 1827, primeiramente em São Paulo, eminente metrópole, e depois em Recife, centro urbano importante por conta do ciclo da cana-de-açúcar. As elites avançavam um passo e a crônica da nossa vida política registra, ao atribuir à mocidade universitária posição vanguardeira, intimamente ligada com o papel da imprensa. Um balanço dessa época aponta o nascimento de nove jornais no Rio de Janeiro, a capital, e 22 nas províncias, como São Paulo (BAHIA, 1960).

Apesar disso, a composição da força de trabalho por escolaridade das empresas de jornais indica que, mesmo que sejam levados em conta os trabalhadores das gráficas, das área comercial e administrativa, a obrigatoriedade de um diploma de jornalista não era respeitada na maioria das empresas –já que, em muitos casos, não se tinha diploma de curso superior nenhum. Há 15 anos, 50% dos trabalhadores formais do setor tinham apenas o ensino fundamental

0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80% 90% 100% 1995 1997 1999 2001 2003 2005 2007 2009

Analfabeto Fundamental Incompleto Fundamental Completo Médio incompleto Médio completo Superior incompleto

(40% sem tê-lo concluído), e pouco mais de 10% possuíam ensino superior completo.

6.2.3.3. Faixa etária

Outra característica que acompanha o restante do mercado de trabalho formal brasileiro é o aumento proporcional de trabalhadores mais experientes. Da mesma forma que no conjunto do mercado formal brasileiro (em nível agregado), no setor de jornais, o grupo etário que mais cresceu e, consequentemente aumentou sua participação, foi aquele situado entre 40 e 65 anos. Enquanto em 1995 esse grupo representava 21% do total de contratados, em 2010 passou a 31%. Essa evidência complementa aquela fornecida pela composição educacional e indica que o segmento formal do mercado de trabalho se tornou mais exigente em qualificação, tanto aquela adquirida por meio da educação quanto a que advém de experiência (RAMOS, 2007).

GRÁFICO 6.6 - Distribuição dos empregos formais por faixa etária

Fonte: RAIS (MTE).