• Nenhum resultado encontrado

A Cruzada contra o protestantismo e o espiritismo

PROTESTANTISMO NAS DÉCADAS INICIAIS DO SÉCULO

4. A Cruzada contra o protestantismo e o espiritismo

Os periódicos a serviço da Igreja buscavam auxiliar a propagação da religião ao tornar do conhecimento do leitor aspectos e fundamentos que constituíam o catolicismo, desta forma, pretendia-se que o saber se atrelasse com a prática. A Igreja Católica pregava a necessidade de recristianização da sociedade, mediante ao afastamento em relação aos seus fiéis e de manifestações de religiosidade que não eram institucionalizados ou que eram ligadas a outras religiões.

Em consonância com essas concepções estavam dois importantes clérigos brasileiros, o Padre Julio Maria16 no final do século XIX e Dom Sebastião Leme

16 Júlio César de Morais Carneiro (1850 – 1916) que após sua formação sacerdotal assumiu o nome de Padre Júlio Maria, publicou 1898 uma série semanal de 12 artigos na Gazeta de Noticias do Rio

nas décadas iniciais do século XX, que se dedicaram a escrever sobre a situação do catolicismo no país e o quadro identificado de ignorância religiosa, que afetava tanto os intelectuais quanto o povo. A solução para esse problema era o investimento na formação religiosa, com intelectuais dedicados a estudar a religião e o povo a conhecê-la efetivamente. Nesse processo a imprensa foi um dos principais meios para desenvolver essas ações. (MARCHI, 2011)

Segundo a Igreja, a ignorância religiosa que assolava a sociedade, era um dos motivos que levavam os católicos a se envolverem com outras crenças. Para combatê-las, a imprensa católica buscava desqualificá-las e indicar os perigos que envolviam suas práticas. Com a liberdade de culto proclamada pela Constituição Republicana de 1891,

[...] as autoridades eclesiásticas passaram a demonstrar grande preocupação com a liberdade propiciada a todas as religiões e, para enfrentá-las, desenvolveram um trabalho que aliava esclarecimento, ataque e crítica aos credos não católicos. (COSTA, 2002, p. 46)

A partir disso, o protestantismo e o espiritismo principais concorrentes da Igreja Católica pelo campo religioso do Paraná, configuraram-se como os alvos das edições d’A Cruzada.

Os ataques ao protestantismo ocorriam, sobretudo, a partir da crítica ao seu proselitismo e a sua leitura da Bíblia. Segundo a revista, os protestantes advindos principalmente dos Estados Unidos, buscavam se inserir em uma sociedade que já havia escolhido sua religião, a Igreja Católica, única detentora da verdade do cristianismo. Em outro momento questionava a presença dessas denominações religiosas em cidades já estabelecidas ao invés de se dedicarem pelo menos a trazer os “selvagens indígenas” para o cristianismo. (NEMO, set. 1928)

E onde estão os protestantes que nas nossas selvas catechizam e convertem os indígenas? Esses é que precisam de salvação e não os habitantes de Curityba, Ponta-Grossa, Castro e outras cidades do Paraná e dos outros estados, cidades indubitavelmente christãs. (NEMO, set. 1928, p. 181)

Além disso, eram acusados de possuir evasivas táticas de inserção na sociedade paranaense, como alertado na edição de novembro de 1929 sobre a presença na capital do estado de uma Associação Cristã de Moços. O texto ressaltava que um dos associados chamado Themistocles Dias, havia apresentado na sede da Congregação Mariana da Catedral um documento que solicitava ser assinado em solidariedade a suas ideias. Ao descobrir que a associação era na verdade protestante, o autor salientava a necessidade da mocidade católica não ter ligações com aquele grupo. (GUÉRIOS, nov. 1929)

A distribuição de Bíblias era outra das estratégias protestantes consideradas mais perigosas, uma vez que aliavam as “mutilações” realizadas nos seus livros com a leitura individual não orientada por um clérigo, como recomendava a Igreja Católica.

Negam innumeras verdades de fé e como a propria Biblia, que fingem tomar por argumento do que affirmam, se levanta contra elles, multilam-na, cortam trechos, safam paginas, engolem capitulos e escondem livros. Desta forma a Bíblia, livro santo e que contem somente Verdades desde a primeira até a ultima linha, na mão dos evangelistas, baptistas, methodistas e tuti quanti se transforma pelo abuso que della fazem em um livro sem valor e perigoso. Dahi o empenho dos protestantes de má fé em metter a mão de cada catholico uma das suas falsas bíblias. (ANTÃO, dez. 1927, p. 181)

Quanto ao espiritismo, que desde o final do século XIX, já possuía periódicos editados em Curitiba para a propagação de suas concepções, como foram os casos da A Luz e da Revista Spírita, uma das estratégias da revista era pautada na apresentação das supostas seções fraudulentas.

O Dr. Slater – Price, director do laboratorio britanico de pesquizas photographicas, assistindo a uma sessão onde o medium devia proceder a experiancias de photographias espiriticas, conseguiu substituir por uma chapa nova a chapa que o medium ia utilisar nas suas experiancias... Ora, quando o Dr. Slater revelou a chapa roubada antes da posse, elle achou o retrato do “Espírito” que o médium não foi capaz de obter na chapa virgem, não preparada para os devidos fins embusteiros... Ahi esta mais um dos factos em que se funda o Espiritismo... Esta claro! Cruzes! (A.B., abri. 1926, p. 37)

Além de denunciar a suposta fraude e o charlatanismo que envolvia as seções regidas pelos médiuns, A Cruzada destacava a ligação das práticas espíritas com o desenvolvimento de doenças psicológicas. Para dar crédito a suas acusações utilizava como referências os “doutores”, pesquisadores, cientistas, médicos de renome nacional e internacional, como o caso do psiquiatra Henrique Roxo do Hospital Nacional de Alienados.

O conhecido scientista Dr. Juliano Moreira, director do Hospício dos Alienados do Rio de Janeiro, acaba de dar no “O Jornal” do Rio, sua criteriosa e imparcial opinião, confirmando as theorias do Dr. Roxo sobre o espiritismo como factor de loucura e de demonolepsia. (O ESPIRITISMO EM ALVOROÇO, mai. 1926, p. 59)

Apesar da liberdade religiosa proclamada pela Constituição Republicana, a prática do espiritismo era considerada um crime pelo Código Penal de 1890. O artigo 157 salientava que estava proibido “Praticar o espiritismo, a magia e seus sortilégios, usar de talismãs e cartomancias para despertar sentimentos de ódio ou amor, inculcar cura de moléstias curáveis ou incuráveis, enfim, para fascinar e subjugar a credulidade publica.” (CÓDIGO PENAL, 1890) As penas para os praticantes eram seis meses de prisão e a multa de 100$ (100 réis) a 500$000 (500 mil réis).

No artigo Cuidado com o espiritismo! o autor Angelo Antonio Dallegrave afirmava: “Não sei como se permitte a pratica de taes bruxarias, quando a Biblia e o Código Penal condemnam essas perversas associações malfazejas.”

(DALLEGRAVE, jun./jul. 1926, p. 80) Além disso, condenava as pessoas que buscavam a cura de doenças em práticas espíritas:

Os que consultam a espiritistas não têm fé em Deus, porque o espiritismo é uma seita condemnada pela Santa Igreja, é uma seita diabolica e perversa, que tem causado grandes e irremediaveis males à humanidade. (DALLEGRAVE, jun./jul. 1926, p. 80)

O espiritismo, segundo a Igreja Católica causava grandes males a sociedade e só poderia “[...] estar inspirados e auxiliados por uma entidade que se dedicasse desde o início dos tempos ao mal e a afrontar a Deus: este seria o

diabo.” (COSTA, 2002, p. 43) Portanto, na visão dos autores da revista era necessário alertar quanto os perigos que as pessoas corriam ao se envolver com essas práticas, uma vez que ligadas ao diabo, estavam contrarias aos ensinamentos cristãos.

Documentos relacionados