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Capítulo 4: Ecossistema para Infraestrutura de Dados Espaciais Híbrida

4.3. Esfera governamental brasileira no movimento openness

4.3.1. A cultura do compartilhamento – contexto IDEs

Em relação às IDEs, NEDOVIĆ-BUDIĆ et al. (2004) citam que a ideia de compartilhar dados geoespaciais dentro e entre organizações permanece em grande parte resistida apesar dos óbvios benefícios que podem ser obtidos das atividades de compartilhamento de dados e iniciativas que as promovem. Em outras palavras, algumas organizações e setores minam a mentalidade de compartilhamento interno/externo por diversos motivos. Por exemplo, informação é poder, motivos financeiros ou simplesmente por causa de problemas técnicos e ou institucionais para compartilhar suas informações, ou ainda por desconhecimento de iniciativas que fazem parte do contexto de qualquer infraestrutura de informação moderna. Este tipo de problema é bem abordado em MONTALVO (2003) e MCDOUGALL et al. (2007). No entanto, passado uma década, esta cultura organizacional e comportamental deve ser combatida e não mais aceita dependendo do contexto, pois as demandas tanto da sociedade quanto de governo são mais aparentes e complexas exigindo mais inter/intra informações e, sobretudo transparência nos serviços prestados e produtos gerados a partir de dinheiro arrecado de impostos. Portanto, podem-se enumerar os principais motivos para o compartilhamento atualmente:

1) Cultura do acesso;

2) Transparência e sustentabilidade; 3) Racionalização de recursos;

4) Aumento do valor da informação, já que quanto mais usada maior é o valor agregado;

5) Reconhecimento de que se faz parte de um processo maior, necessitando interações internas e externas mais intensas e constantes;

6) Demandas da sociedade, do meio ambiente e de políticas públicas multissetoriais; e

7) Justificativa de investimentos recebidos e provenientes dos impostos;

Estas motivações estão explicitamente ou implicitamente endereçadas nos três princípios de uma IDE de terceira geração+: (1) iniciativas abertas e transparentes; (2) cultura de participação, e (3) injeção inversa de dados espaciais.

Isso de certa forma favorecerá a política de abertura (cultura do acesso) que deve ser considerada desde a gênese da informação por parte de qualquer instituição. O quadro 4.2 mostra a escala de acesso organizacional da informação que tem como foco

relações transversais (horizontal e vertical) e apoiar o rompimento de stovepipe12 nas instituições no que tange a informação. Ressalta-se que ao levar em consideração as premissas de uma IDE, tantos os dados quanto os metadados precisam ser avaliados e que certamente é válido para uma infraestrutura de informação maior, como no caso do Brasil, a INDA.

Quadro 4.2 - Escala de acesso organizacional da informação.

Localizada

É o nível mais básico, onde a informação muitas vezes é apropriada por algumas pessoas, gravadas em pendrivers ou mesmo computadores, mas de difícil acesso e sem compartilhamento. Neste nível a informação não tem valor algum, pois é desconhecida para outros. Exemplo: determinada pessoa possui informação, sem conhecimento de qualquer outra pessoa. Neste nível, um alto grau de patrimonialismo é encontrado ou simplesmente desconhecimento da necessidade de compartilhamento. Fatores políticos, técnicos e de gestão podem estar relacionados.

Intra- departamental

Neste nível há algum tipo de compartilhamento, mas a informação é conhecida apenas por parte de um departamento. Aqui a informação possui pouco valor, já que é de uso ou conhecimento de pequena parcela que muitas vezes, se acha proprietária da informação. A informação pode estar armazenada em mídias externas ou computadores. Normalmente há perda de conhecimento com o deslocamento de pessoal, já que muitas vezes o conhecimento compartilhado nem sempre é por funcionário com o mesmo perfil profissional e também por não haver um processo formalizado de compartilhamento, o patrimonialismo ainda está entranhado. Exemplo: No mesmo departamento, um “funcionário” sabe que “outro” trabalha com determinada informação que está armazenada em um HD externo, mas aquele desconhece o processo de uso ou manutenção da informação, pois para ele o outro é visto como o proprietário da informação. Fatores políticos, técnicos e de gestão podem estar relacionados.

Departamental

Dentro do departamento há conhecimento da informação e sua localização, mas não há conhecimento da informação fora deste ambiente. Neste nível existe algum processo interno para a gestão da informação no departamento, mas ainda de forma isolada de outros departamentos, por falta de mecanismos de comunicação ou mesmo ainda do patrimonialismo. Exemplo: todos do departamento sabem que determinada atividade para ser executada depende de informações armazenadas em um computador que faz o papel de servidor local do departamento, mas sem integração ou conhecimento de outras áreas e departamentos. Fatores políticos, técnicos e de gestão podem estar relacionados.

Intra- institucional

Neste nível há desapego da informação e combate ao patrimonialismo. Existe preocupação em tornar a informação conhecida entre diferentes áreas, mas ainda sem considerar toda a instituição e externos a instituição. Normalmente há mecanismos de organização e divulgação interna como, por exemplo, a intranet. Algumas pessoas defendem que o valor da informação está atrelado ao conhecimento e uso. Por exemplo, a informação produzida por um departamento de uma diretoria A, não é de conhecimento de outras diretorias da instituição de maneira acessível. Fatores políticos, técnicos e de gestão podem estar relacionados.

Institucional

A informação é de conhecimento de toda instituição através de mecanismos de gestão de conhecimento e divulgação. A informação é reconhecida como um ativo de alto valor quando utilizada e conhecida. Há preocupação com o compartilhamento, reuso e com os recursos usados na produção da informação institucionalmente. Exemplo: Há mecanismos institucionais que endereçam a produção e disseminação de tudo que é realizado em relação à informação. Há preocupação constante em dar conhecimento da informação e o reconhecimento de uso externo. Por exemplo, toda a informação produzida é disponibilizada via serviço/geoserviço e com metadados ou possa ser acessada por qualquer interessado. Fatores principalmente políticos podem estar relacionados.

Multi- Institucional

A informação ganha uma importância cultural que transcende suas instituições produtoras, a disseminação é uma atividade importante, bem como o valor agregado através de compartilhamento e reuso. Há preocupação com processos que envolvem as instituições de governo e fora também. Há preocupação efetivamente de racionalizar os recursos e com a cadeia de produção governamental que considera órgãos distintos, inclusive de poderes e esferas diferentes de governo e até internacionais. Em última instancia, a informação é um bem comum aberto a todos que fazem o uso para atender suas necessidades.

O modelo apresentado no Quadro 4.2 é importante, pois considera o aspecto organizacional do acesso à informação que tem impacto em qualquer IDE. No entanto, para medir isto, no mínimo é preciso realizar um inventário dos ativos de dados em cada setor produtivo acompanhado de técnicas de gestão de conhecimento e patrocínio dos altos escalões. Além disso, a transformação destes dados (arquivos textos, bibliotecas de símbolos, planilhas, banco de dados, imagens, arquivos vetoriais, arquivos em CAD, entre outros) em serviços Web apoia a institucionalização e facilita a multi- institucionalização, uma vez que estes tipos de serviços são mais acessíveis e usados em qualquer browser ou aplicação que utilize este protocolo. Deve-se observar também que tal escala está alinhada com a cultura do acesso.

Enquanto a escala de acesso organizacional da informação é voltada para aspectos mais institucionais, a escala acessibilidade da informação trata da dimensão técnica da reutilização e consumo da informação/dado, mas ambos se relacionam. A escala integrativa da informação visa ir além da mera disponibilização da informação, seja por download ou ftp. Busca-se tornar a informação reutilizável para diferentes contextos e diferentes atores. O termo reutilizável é algo mais forte que compartilhamento, pois provoca uma maior relação de utilidade e dependência. O Quadro 4.3 ilustra esta escala de acessibilidade da informação.

Download

É possível baixar, mas não há preocupação, com padrões e formatos interoperáveis nem com compartilhamento. Por exemplo, disponibilizar para download um arquivo em um formato que pode ser proprietário. Questões de completude e qualidade da informação, disponibilidade, licença e atualização são negligenciadas.

Compartilhamento É possível baixar, há preocupação com compartilhamento, mas nem sempre respeitando openness. Por exemplo, disponibilizar uma informação em um formato

aberto, porém com granularidade grossa.

Consumível

Neste nível, há preocupação com a utilização da informação em diferentes contextos e que ela possa ser agrupada e combinada com outras informações que vai além do propósito inicial de uso. Há necessidade de obedecer a determinados formatos e padrões. O grau de interoperabilidade é alto, porém mais restrito a um domínio, no caso, de IDEs. Por exemplo, disponibilizar geoserviço no formado da EDGV e no padrão WMS e seus respectivos metadados por instituições que fazem parte de uma IDE.

Integrativa

A informação é acessível independente de ser geo ou não(dados ligados), como bem comum, de forma racionalizada para que possa ser reutilizada e integrada entre sistemas e redes. O movimento de abertura é seguido e referência. A informação pode ser baixada e compartilhada, mas o foco é disponibilizar como APIs padronizadas criando assim uma grande rede distribuída de bibliotecas de serviços para consumo nas diferentes esferas de governo, da academia (entre professores, estudantes, pesquisadores e especialistas), de desenvolvedores e de qualquer interessado. Há preocupação constante com padrões, formatos e convenções, o reuso é o foco, medir a utilidade da informação e por quem está sendo utilizada também são importantes. O grau de interoperabilidade é mais alto e não restritivo quando comparado ao nível três (consumível). Por exemplo, disponibilizar um serviço (geo ou não) auto descritivo, baseado em princípios abertos e na Web dos dados, cuja representação possa ser negociada e consumida/reutilizada por máquinas e pessoas. Modela-se para um domínio pensando para fora, buscando o que é comum, ao usar termos universais. Uma tecnologia que pode apoiar a escala de acessibilidade da informação no nível integrativa é o uso de REST no nível 3, conforme é explicado nos Capítulo 5 e 6.