2 A TEORIA DOS CAMPOS DE PIERRE BOURDIEU COMO ARTEFATO
3.3 JOGOS ESCOLARES BRASILEIROS: UM PANORAMA DO PERÍODO DE 1969
3.3.2 A década de 1980 como marco reflexivo (1985-1989)
Em 1985, após 15 anos de reprodução do modelo de esporte de alto rendimento, os JEBs foram submetidos a uma reflexão crítica. Havia uma preocupação em transformar o seu sentido e seus objetivos. Assim, Bruno da Silveira, ao assumir a SEED/MEC, estabeleceu outros parâmetros para o funcionamento e realização dos Jogos, baseados em princípios socioeducativos e proibindo, inicialmente, a participação de atletas federados em entidades esportivas de direção. O auge desse período foi a concretização da 18º edição dos JEBs, cujo modelo pautou-se nos princípios de participação, cooperação, coeducação, corresponsabilidade e integração (BORGES; BUONICORE, 2007).
Durante o período de 1985 a 1989 a SEED/MEC foi a principal organizadora e financiadora dos JEBs. Nessa fase, os objetivos e finalidades desses eventos estavam pautados da visão educacional, buscando a desvinculação com as
competições que objetivavam, sobretudo, o rendimento esportivo (ARANTES;
MARTINS; SARMENTO, 2012). Segundo Borges e Buonicore (2007), com a chegada da Nova República e o processo de redemocratização do país, o esporte passou a ser cada vez mais considerado na perspectiva de um direito. Nesse ínterim, os JEBs passaram por um profundo debate sobre seu sentido e objetivo.
Para Bruno da Silveira (recém diretor do SEED/MEC) os jogos eram uma reprodução dos esportes de rendimento e contaminados de “violências simbólicas”, pois permitiam as desigualdades e não possuíam valores educativos. Frente a esse modelo, Bruno da Silveira estabeleceu os seguintes princípios para a reorganização dos JEBs: a) a criação de uma nova identidade para o esporte escolar, de modo que se diferenciasse do esporte federado ou de rendimento; b) redimensionamento de sua organização e funcionamento; c) maior envolvimento das escolas da periferia e interiorização dos Jogos; d) Recusa da utilização de resultados esportivos para avaliação dos estudantes e das escolas (BORGES; BUONICORE, 2007).
Nessa atmosfera de mudanças, novas modalidades foram acrescentadas nos JEBs, como atletismo e natação para pessoas com deficiência e capoeira, mantendo-se as tradicionais: atletismo, basquetebol, ginástica olímpica, ginástica rítmica, handebol, judô, natação, voleibol e xadrez, e em 1986 foi registrada a participação de povos indígenas. A participação de atletas federados foi proibida durante os anos de 1985 a 1987, sendo novamente assentida em 1988 e 1989 (ARANTES; MARTINS; SARMENTO, 2012).
Sobre o período, houve diversas ações voltadas para a discussão do esporte no Brasil e em especial do esporte educacional, que refletiram na forma como os eventos foram conduzidos, como a instalação da Comissão de Reformulação do Esporte Brasileiro instituída pelo Decreto n. 91.452 de julho de 1985, e regulamentada pela Portaria Ministerial n. 598 de agosto de 1985 (BRASIL, 1985). A partir dos estudos deflagrados por essa comissão, surgiu a indicação de manifestações esportivas de maior abrangência: educação, Esporte-participação e Esporte-performance.
Como já mencionamos no tópico anterior, a realização dos JEBs de 1989 foi considerada uma versão inédita, por ter sido realizada em acordo com os princípios socioeducativos de Participação, Cooperação, Co-educação, Co-gestão e Integração. De acordo com Barbieri (1999, p. 26), o modelo buscou ressignificar o esporte no contexto educacional e sua origem foi baseada em diversos debates
liderados por Manuel José Gomes Tubino e Bruno Silveira a partir de 1985, contando ainda com a participação direta ou indireta, dentre outros educadores, de Lino Castellani, João Batista Freire, Celi Taffarel, Person Cândido Matias da Silva, Laércio Elias Pereira, Florismar Oliveira Thomaz e Silvino Santin. Já mencionamos anteriormente como a entrada de novos agentes (especialmente os advindos do campo acadêmico da educação física) no subcampo do esporte escolar vão alterar as práticas que se estabelecem nesse espaço.
Assim, percebemos que no decorrer de sua trajetória os JEBs foram sendo apropriados por diferentes grupos de pessoas no campo politico-esportivo, o que culminou com diversas mudanças em sua concepção e na sua forma de realização.
Na perspectiva bourdieusiana, essa mutabilidade é decorrente da estrutura do campo, marcado por agentes em diferentes posições sociais. Por isso o autor fala de um campo de forças e de lutas, onde há um enfrentamento entre os agentes, os quais possuem meios e fins diversos a partir da posição que ocupam nesse espaço, o que contribui para a mudança ou a conservação da estrutura (BOURDIEU, 1996).
Embora, anteriormente, houvesse um dissenso em relação ao JEBs como ferramenta de identificação de talentos esportivos, foi a partir de 1985 que se tornou possível perceber com maior nitidez uma tensão entre a educação física e o esporte.
A maioria das críticas na área atingia diretamente o esporte e o modelo de performance, que era amplamente deflagrado em instituições de ensino, fazendo da educação física um local de perpetuação desse paradigma esportivo. Podemos considerar que, especialmente antes da década de 1980, a educação física escolar possuía uma ligação orgânica com a estrutura das JEBs.
Os JEBs de 1989 surgem na contramão da cultura dominante. Dentre as propostas inovadoras desenvolvidas nesse evento destaca-se: a instalação de uma
“Comissão de ética” coordenada por um educador e formada por Dirigentes das Delegações, Árbitros, Professores e Alunos (meninos e meninas), no lugar da
“Comissão Disciplinar”; a criação de uma “Comissão de Alunos” que coordenado por um professor discutia questões pertinentes aos Jogos, mas também o Esporte como meio de Educação; o estabelecimento de uma “Comissão de Avaliação” não nos moldes classificatórios anteriores; realização de palestras e oficinas aos alunos e palestras aos professores; a realização da “I Conferência do Esporte na Escola”; a elaboração conjunta da “Carta Brasileira do Esporte na Escola”; a substituição do juramento do atleta por uma "Declaração dos Alunos”, que sensibilizasse os alunos
acerca do caráter educacional dos jogos; substituição das “Cerimônias de Abertura”
por uma “Festa de Abertura” com banda musical; modificação profunda na Comissão de Comunicação Social, que atendesse à democratização do esporte na escola e não se comprometesse com o esporte competitivo, apresentando ainda uma linguagem acessível aos alunos (foram implementadas três ações principais: Os Documentários; A Tribuna Eletrônica; e Agência de Notícias); a premiação apenas por equipe (o atleta de esporte individual somava pontos para sua equipe), premiação de professores, que eram reconhecidos pelo engajamento nas questões do Esporte como Educação, e premiação por “Menção Honrosa” ao melhor estado de cada região, tendo em vista as diferenças socioeconômicas dos estados;
formação de times mistos, meninos e meninas jogando juntos; inclusão de caráter obrigatório de portadores de deficiência na modalidade de atletismo, cujos resultados somavam pontos para o resultado final das equipes; alteração das regras oficiais de basquetebol, voleibol, handebol, natação e outras modalidades para permitir a participação de todos os alunos das equipes; criação de um “Torneio da Amizade”, no qual os alunos podiam formar suas equipes independente de suas delegações, para participar em jogos populares (BRASIL, 1989; BARBIERI, 1999).
De acordo com Pires e Silveira (2007, p. 44) esse modelo de competição gerou desconforto para aqueles que defendiam o esporte-performance, nas palavras dos autores, esse novo modelo foi construído “não sem a ferrenha oposição e até mesmo o boicote de alguns adeptos e defensores do esporte de rendimento na escola, que não queriam perder seu espaço e glória de vencedores”. Quando olhamos para esse cenário, notamos que os JEBs foram consolidados muito antes desses discursos tomarem fôlego no contexto brasileiro. O que estamos considerando é que os JEBs nasceram a partir de um modelo particular de esporte, o do alto rendimento, e a tentativa de alinhá-los ao discurso educacional, como a edição realizada em 1989, não tem sucesso em edições posteriores. Há aí uma posição clara entre ortodoxos e heterodoxos no subcampo do esporte escolar.
Após a edição de 1989, os JEBs foram conduzidos sem referencial, sem identidade, voltando a se constituir em reproduções do esporte performance. Em alguns estados, como Paraná e São Paulo, as etapas estaduais seguiram parâmetros proeminentemente educativos, contrários à tendência nacional (TUBINO, s/d apud BORGES; BUONICORE, 2007). Essa fase será abordada no tópico seguinte.
Como síntese do período abordado anteriormente, apresentamos o Quadro 5 com detalhes sobre a nomenclatura, cidade/UF que sediou o evento, participantes e principal organizador.
QUADRO 5 – ANO DE REALIZAÇÃO, NOMENCLATURA, CIDADE SEDE, NÚMERO DE PARTICIPANTES E ÓRGÃO RESPONSÁVEL PELA ORGANIZAÇÃO DOS JEBS (1985-1989).
Ano Nomenclatura Cidade/UF- rendimento foi retomada no desenvolvimento dos JEBs (BORGES; BUONICORE, 2007). De acordo com os mesmos autores, essa opção foi justificada pela necessidade de se alcançar resultados em um prazo curto, negligenciando na prática a dimensão social do esporte, voltando-se imediatamente ao modelo de competições de desempenho esportivo.
Mesmo após as Leis Zico (Lei nº 8.672/1993) e Pelé (Lei nº 9.615/1998) refletirem, em seus textos, os objetivos do esporte educacional, na prática o que se verificava era a volta à prevalência da busca de resultados, embora sob a fachada de um discurso educativo. Essa tendência persistiu mesmo depois da deposição do presidente Fernando Collor (BORGES;
BUONICORE, 2007, p. 29).
Como vimos no tópico 3.2.6, as referidas leis trouxeram maiores detalhes sobre as características das diferentes manifestações esportivas, estabelecendo alguns parâmetros para o desenvolvimento de cada uma delas. No entanto, partir de nossa leitura, o texto ainda tem gerado dúvidas em relação ao esporte educacional, fato que pode ter contribuído para um dissenso na realização desses eventos,