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Era Vargas (1930 – 1945)

No documento TAIZA DANIELA SERON KIOURANIS (páginas 111-119)

2 A TEORIA DOS CAMPOS DE PIERRE BOURDIEU COMO ARTEFATO

3.2 ESPORTE ESCOLAR E GOVERNO BRASILEIRO

3.2.2 Era Vargas (1930 – 1945)

A partir da década de 1930 inicia-se uma nova fase governamental, conhecida por “Era Vargas”. Esse período compreende os anos de 1930 a 1945,

esporte foi também convidado a participar e oferecer referencias para uma educação do corpo”

(LINHALES, 2009, p. 343).

governados ininterruptamente por Getúlio Vargas, e pode ser dividido em três fases:

1930 a 1934: Governo Provisório; 1934 a 1937: Governo Constitucionalista (estabelecimento da terceira Constituição Brasileira); 1937-1945: Estado Novo (de caráter ditatorial, formalmente constituído por um golpe de Estado95 e estabelecimento de uma nova Constituição).

A atmosfera política que antecedeu esse período, especialmente a partir da década de 1920 foi marcada pela proliferação de crenças ideológicas que davam ao mundo96 “concepções sobre o que deveria ser o ‘homem novo’, o papel do Estado e a boa sociedade” (ARAUJO, 2000, p. 07). A ideia de “novo”, de acordo com o mesmo autor, remetia ao ideal político de encontrar outra direção que evitasse o capitalismo liberal e o comunismo, os quais estavam, desde meados do século XIX, competindo entre si na tentativa de oferecer uma possibilidade política e econômica para o mundo e tinham a intenção de corrigir problemas como a desigualdade social, insegurança econômica e conflito de classes, advindos do capitalismo (ARAÚJO, 2000).

Durante o governo de Getúlio Vargas, houve um desejo de construção de uma identidade nacional brasileira. Uma onda nacionalista tomou conta do país como nunca antes, tentando estabelecer características físicas e ideológicas ao povo brasileiro, perpetuando os ideais de eugenia, disciplina e unidade nacional (MACEDO, 2008). Nesse bojo, o esporte foi percebido pelo governo como, além de um instrumento de projeção no cenário internacional, um instrumento de disciplina do corpo, do lazer, do trabalho, objetivando a formação do corpo sadio que atendesse às exigências estatais para o mundo contemporâneo (MACEDO, 2008).

Segundo Betti (1991), esse período trouxe um novo e decisivo impulso para a educação física brasileira. Quanto ao esporte, o mesmo tornou-se meio de propaganda política, transformando-se em símbolo de unidade nacional e de vigor pátrio (DRUMOND, 2011). “Na nova ordem política, o esporte é alçado à categoria de importante instrumento do Estado para seu processo de legitimação do projeto de desenvolvimento econômico e social do País” (BUENO, 2008, p. 106). O esporte

95“A escalada para o golpe foi racionalmente construída e cuidadosamente executada. O golpe não representou uma ruptura, uma mudança abrupta, mas sim a consolidação de um processo de fechamento e repressão que vinha sendo lentamente construído, com o apoio de intelectuais, políticos civis e militares” (ARAUJO, 2000, p. 15).

96 Na mesma época, outras ditaduras também receberam o nome de Estado Novo, como a de Francisco Franco na Espanha e a de António Oliveira Salazar em Portugal (ARAUJO, 2000). Vale destacar ainda, os governos autoritários deflagrados no mesmo período na Itália, com o fascismo de Benito Amilcare Andrea Mussolini, e na Alemanha, com o nazismo de Adolf Hitler.

passou a ser regulamentado pelo Estado, passando a servi-lo e a submeter-se aos seus interesses, os quais estavam ligados a projetos ideológicos de sociedade.

A partir da década de 1930, o esporte no Brasil já havia alcançado um desenvolvimento destacado e os atletas brasileiros participavam de diversas competições internacionais, como os Jogos Olímpicos (MANHÃES, 1986), desde o evento na Antuérpia/Bélgica, em 1920 (ALMEIDA, 2015). Marinho (1954) cita ainda a participação em 1938 no campeonato mundial de Futebol, no campeonato Sulamericano de Natação, campeonato Sulamericano de Basquetebol, Campeonato Sulamericano de Atletismo, Campeonato Sulamericano de Futebol e o alcance do bi-campeonato no Campeonato Continental de Atletismo. O futebol já havia se profissionalizado, e inúmeras entidades esportivas/clubes atuavam no desenvolvimento, prática e ensino do esporte no país. De acordo com Marinho (1953) além do crescente interesse pelo futebol, percebe-se no período um crescente interesse pelo automobilismo, o crescimento do atletismo e da natação, com inúmeras piscinas inauguradas pelo país.

Esse cenário tornou-se propício para a regulamentação do esporte brasileiro, por meio do Decreto-lei 3.199 de 14 de abril de 1941. O referido documento marcou o início da intervenção estatal sobre o esporte, tornando-se conhecido como a primeira legislação esportiva oficial no Brasil, que instituiu as primeiras bases de organização dos desportos no país97 (TUBINO, 2002; STAREPRAVO et al., 2010;

GODOY, 2013). Entre 1875 a 1941, de acordo com Mendes (1990, p. 35) o esporte não conhecia o "longa manus" governamental. Eram as entidades privadas que normatizavam, organizavam e propagavam o esporte. “Estas entidades, na sua maioria, eram sociedades de fato, isto é, sem qualquer forma jurídica. Com efeito, o esporte pertencia à sociedade, era atividade social, não atividade de governos. Havia ampla liberdade de organização, de funcionamento” (MENDES, 1990, p. 35).

Com o novo governo, surgiu o interesse de adequar o esporte “aos padrões e exigências internacionais” (MENDES, 1990, p. 35). De acordo com o autor, dois fatores foram cruciais no processo de estatização do esporte: 1) a livre organização vigente que permitiu ao futebol ter duas entidades de direção nacional (trazendo problemas no contexto internacional, pois a FIFA concedia filiação apenas a uma

97 Godoy (2013) cita Lyra Filho (1952), segundo o qual o nascimento da legislação esportiva brasileira se deu com o Decreto n. 1.056 de 19/01/1939, cujo objetivo era criar a Comissão Nacional de Desportos, contudo a regulamentação das práticas esportivas só seria oficializada com o DL 3.199 de 1941.

delas); 2) a necessidade de padronização das regras conforme as normas internacionais, pois algumas modalidades, como o Polo Aquático, eram jogadas no Brasil diferentemente do resto do mundo. Segundo Manhães (1986), a determinação da existência de apenas uma entidade nacional para cada ramo esportivo visava, assim, atender às exigências de organismos internacionais do esporte e indicava uma ordem de oposição ao pluralismo de representações.

Na leitura de Manhães (1986), o governo da época entendia que ao esporte faltava “disciplina” (termo que aparece com frequência em depoimentos e documentos originais da época), assim essa seria uma das justificativas para legislar sobre o esporte. A “indisciplina esportiva” perpassava os inúmeros conflitos que se deflagraram no setor. Linhales (1996, p. 205-206) relata que se antes havia baixos níveis de demanda e de conflitos no esporte, pequena intervenção estatal, bem como inexistência de interesses secundários, ao longo dos anos esse quadro sofreu alterações significativas.

Essa legislação, de acordo com Da Costa (1996 apud ALVES; PIERANTE, 2007), era uma adaptação muito próxima da legislação esportiva da Itália fascista, considerando que todos os níveis do esporte brasileiro estavam subordinados a um órgão superior, o Conselho Nacional de Desportos (CND). Na leitura de Mendes (1990, p. 35), o referido decreto-lei confere ao esporte uma nova realidade,

edifica-se [...] o que podemos chamar de SISTEMA DESPORTIVO NACIONAL, segundo a concepção de Governo. O grande mal desta estrutura e concepção é ser monopolizante, não permitindo a livre organização, a livre iniciativa, ainda que o sistema econômico em vigor fosse CAPITALISTA, assentado na livre iniciativa. Por esta e outras razões esta estrutura naufragou, deixando o esporte à deriva. A par desta estrutura, o DECRETO-LEI estabeleceu outros dispositivos, tais como, os pertinentes a organização das COMPETIÇÕES DESPORTIVAS e os relativos à PROTEÇÃO DOS DESPORTOS, com uma série de benefícios que nunca serviram para muita coisa.

Embora o contexto sinalizasse para um monopólio do esporte por parte do governo brasileiro, é preciso compreender que essa relação não se resume ao esporte como vítima desse processo, já ele também obteve benefícios com essa relação, assim também os dirigentes e as instituições esportivas do período.

O Decreto-Lei 3.199/41 selou a consolidação do processo de interferência do Estado sobre o esporte, sendo o documento um recurso utilizado amplamente pelo regime militar, e que “passou a estabelecer as bases da organização do esporte para o país, sob a forte e centralizadora intervenção política e administrativa” (GODOY,

2013, p. 85). Ainda segundo a autora, ao CND foi deliberado, pela presidência da República, que assumisse com o apoio dos Conselhos Regionais de Desportos (CRD), a fiscalização e orientação das atividades esportivas, com o intuito de

“assumir total responsabilidade por estruturar as entidades do esporte no Brasil”

(GODOY, 2013, p. 85).

No que tange ao esporte escolar, duas passagens do Decreto-Lei 3.199/41 parecem estar relacionadas a essa manifestação, uma quando menciona a competência do CND para “tornar os desportos, cada vez mais, um eficiente processo de educação física e espiritual da juventude” e o outro quando cita o amadorismo “como prática de desportos educativa” (BRASIL, 1941, art. 3º). No entanto, não percebemos uma preocupação mais ampla no trato com o esporte escolar, embora as competições escolares interestaduais já existissem antes desse período (década de 1940), além de competições intercolegiais em alguns estados e outras atividades isoladas (DANTAS JUNIOR, 2010; BORGES; BUONICORE, 2007).

No contexto das competições estudantis, iniciaram-se, em 1935, as competições universitárias, denominadas naquele ano de “Primeira Olimpíada Universitária Brasileira”. Além dessa, outras competições estudantis já vinham sendo desenvolvidas, como o “Primeiro Campeonato Intercolegial de Educação Física” no estado de São Paulo, em 1941, que apresentou demonstrações de ginástica, jogos de voleibol e de basquetebol, atletismo e natação e o “Campeonato Colegial de Educação Física dos Estabelecimentos Religiosos de Ensino da cidade de Santos”

na cidade de Santos em 1942, que contou com uma sessão de educação física e jogos de basquetebol e voleibol, entre outras (MARINHO, 1953).

Segundo Marinho (1953), uma série de órgãos especializados na direção da educação física como departamentos, secretarias e diretorias vão surgir da década de 1930 em diferentes estados brasileiros, bem como cursos de educação física e regulamentos que determinaram a obrigatoriedade da educação física na escola.

Dentre os órgãos especializados destaca-se a Divisão de Educação Física, em 1937, responsável pela administração das atividades de educação física no país, promovendo ações como propostas de projetos de lei, cursos para professores e técnicos e regulamentações em geral, e o Conselho Nacional de Desportos, em 1941 (com o Decreto-Lei 3.199), que futuramente desempenharia um papel relevante no cenário desportivo nacional.

No âmbito da educação física escolar, nota-se um acentuado interesse em sua regulamentação por parte do governo. De acordo com Betti (1991), durante o primeiro período da Era Vargas, a educação física foi implantada no sistema escolar brasileiro de 1º e 2º graus, sob o patrocínio do Estado, com apoio de educadores progressistas e conservadores e do sistema militar. No entanto, vale ressaltar que houve um fortalecimento apenas do ensino secundário, e o ensino primário foi objeto de reforma apenas em 1946. Getúlio Vargas se interessava muito pela inserção da educação física na escola. Esse profundo interesse do governo na educação física pode ser notado com a promulgação da Constituição de 1937, a qual marca o início do Estado Novo e que determina a obrigatoriedade da educação física nas escolas primárias, secundárias e normais (MARINHO, 1954; BETTI, 1991).

Uma explicação plausível é a de que a Educação Física foi percebida como um valioso meio de inculcação dos valores pregados pelo Estado, em especial na escola secundária, numa faixa etária propícia à modelação da personalidade e à absorção de valores morais e cívicos (BETTI, 1991, p.

85).

Olhado por esse viés, o campo da educação física parece guardar semelhanças com o que aconteceu com os jogos populares nas public schools inglesas. A inculcação de valores, à semelhança do que aconteceu com os jogos populares, pode apontar para a formação de um espaço de lutas da educação física brasileira.

Sobre a obrigatoriedade da educação física, a realização VII Congresso Nacional de Educação em 1935 foi um acontecimento determinante, que além de repercutir em todo o país ressoou ainda no artigo 131 da Constituição de 1937 (aquele que determinava a obrigatoriedade da educação física em todas as escolas primárias, normais e secundárias) (MARINHO, 1953). Para o mesmo autor, foi a primeira vez na história brasileira que as mais altas autoridades administrativas e educacionais voltaram sua atenção para “a formação da unidade nacional e constituição de uma raça homogênea, sadia e forte, que só poderá surgir dentro de alguns séculos, após o caldeamento das várias raças, sub-raças e tipos intermediários” que constituíam o povo brasileiro (MARINHO, 1953, p. 135).

A melhoria da raça foi um discurso hegemônico nessa fase, e o seu alcance estaria atrelado à prática sistemática e orientada de exercícios físicos, o que se tornou um dos princípios fundadores da educação física no Brasil. Esse ideal era amplamente buscado pelo exército, em especial a Escola de Educação Física do

Exército, “principal centro divulgador desta função eugênica da Educação Física, a qual muitas vezes se confundia com a função de preparação guerreira e patriótica”

(BETTI, 1991 p. 76).

No início da Era Vargas, mais exatamente em 1932, foi publicado o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nacional, cuja proposta estava baseada nos pressupostos da Escola Nova e incluía uma importante participação da educação física. Os agentes desse movimento tiveram grande participação nos órgãos estatais do primeiro Governo Vargas, mas a partir do Estado Novo a situação se inverteu (BETTI, 1991). Isso porque, o interesse da Escola Nova na educação primária não convergia com o interesse político-administrativo do Estado Novo, que, como visto, centrava suas forças no ensino secundário.

Ainda sobre esse período, destacamos a concepção de educação física como uma prática educativa, ou seja, não como disciplina, mas sempre tratada à parte nos textos legais; a influência dos métodos ginásticos europeus, especialmente de Pehr Henrik Ling (Escola Sueca), Friederich-Ludwig Jahn (Escola Alemã) e depois da escola francesa, cujo método, de origem militar, foi adotado oficialmente nas escolas brasileiras até próximo dos anos 1960, e incluía um conteúdo anátomo-fisiológico central, e o aperfeiçoamento moral e a disciplina, sendo que entre seus conteúdos estavam os jogos e os esportes (BETTI, 1991).

Durante o Estado Novo, a educação física tornou-se algo mais amplo e complexo do que apenas uma disciplina escolar, tinha também uma ligação com um projeto de segurança nacional no país. A aproximação do esporte com a educação física pôde ser concretizada pela criação da Escola Nacional de Educação Física e Desportos98 (ENEFD) (MELO, 2007) cujo quadro docente era formado por médicos, responsáveis pelas disciplinas “teóricas”, como anatomia, fisiologia, e os militares, responsáveis pelas disciplinas “práticas” como ginástica, treinamento esportivo e esportes (MELO, 1996).

98 Assim Gustavo Capanema apresentou a Getúlio Vargas os motivos que fariam da Escola Nacional de Educação Física e Desportos uma iniciativa de sucesso: “Ela será, antes do mais, um centro de preparação de todas as modalidades de técnicos ora reclamados pela educação física e pelos desportos. Funcionará, além disso, como um padrão para as demais escolas do país, e, finalmente, como um estabelecimento destinado a realizar pesquisa sobre o problema da educação física e dos desportos e a fazer permanente divulgação dos conhecimentos relativos a tais assuntos”

(CAPANEMA s.d. apud MELO, V. A. de, 2007, s.p., grifo nosso).

A Educação Física foi, portanto, um ponto de convergência entre o grupo educacional conservador, o grupo educacional escolanovista e os interesses do Estado e do sistema militar [...].

Não foi a Educação Física objeto profundo de interesse teórico; foi antes uma atividade considerada objetivamente útil pelo Estado, sendo sempre tratada em separado nos currículos escolares. A eugenia, a higiene/saúde, a preparação militar e o nacionalismo foram os núcleos de convergência dos grupos interessados na implantação da Educação Física (BETTI, 1991, p. 88-89).

Nesse segundo momento conhecido por Era Vargas, podemos afirmar que o esporte ficou mais perto da escola, ganhando elevado destaque na nova ordem política, somado à criação de instituições que visavam à formação de recursos humanos para a área. Nesse período identificamos também as primeiras competições estudantis pelo país, provavelmente motivadas pela considerável participação de atletas brasileiros em competições nacionais e internacionais, reunindo inúmeros estudantes que disputavam em diversas modalidades coletivas e individuais.

Em relação aos motivos de intervenção do Estado, a Era Vargas se resume no que Bracht (2003, p. 84) denominou de “momento policialesco, controle da ordem pública”, pois o que se percebe nesse período é um forte apoio à educação física, com caráter militar e disciplinador, e um crescimento e consolidação do esporte de forma geral, inclusive com o aumento da participação em competições nacionais e internacionais, sendo que nos dois âmbitos o Estado tem uma entrada significativa no processo de regulamentação, permitindo o entrecruzamento entre o campo político, o campo esportivo e o campo da educação física, culminando, posteriormente, numa relação cada vez mais estrita entre os agentes desses campos. Arriscamos afirmar ainda que foi nesse período que o subcampo do esporte escolar brasileiro começou a tomar forma, especialmente pelas competições intercolegiais e as instituições formadoras que se deflagraram a partir desse período.

Acompanhando o percurso até aqui descrito, notamos que o esporte, a partir desse último período histórico, começa a se fortalecer como um elemento da educação física escolar. O esporte se tornaria, mais a frente, um objeto de disputa no campo da Educação Física, ou seja, uma disputa pela legitimidade da prática nesse espaço.

No documento TAIZA DANIELA SERON KIOURANIS (páginas 111-119)