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ANO NAVIOS TRIPULANTES

2.2. O corso argelino

2.2.3. A derrota final: o confronto com o Atlântico

Nos dias que se seguiram ao desembarque francês em Argel o Sheik Abdelkader compôs um poema traduzindo o ambiente vivido então na Regência e do qual reproduzimos

aqui alguns versos na tradução francesa de J. Desparmet: “ Hélas où est ce port célèbre/ Et le

butins de café et de draps… / Les drapeaux de soie claquant au vent / Les corsaires entrant

dans la darse / Et tous ces captifs les mains liées derrière le dos?”283. O papel da poesia como

283Lemnouar Merouche, Recherches sur l’Algérie à l’époque ottomane. II. La course mythes et réalité, pp. 237- 238.

veículo de expressão lírica ou trágica do espanto tem aqui um dos seus exemplos mais conseguidos. Anos mais tarde, em 1956, um outro poeta, desta vez o egípcio Ahmed Hidjazi,

invocou de novo a idade de ouro do corso magrebino: “Temps passé où les vaisseaux

souverains du Maghreb / Se posaient sur toute île et ramenaient l’or au Sultan / Temps passé

me voici qui te pleure.”284As bases sobre as quais assentava a actividade corsária, a nostalgia de tempos passados estão bem patentes nestes poemas, espelhando a derrota do Mediterrâneo face ao Atlântico e a constatação que muito tinha mudado nas águas do Grande Oceano bem como na conjuntura que o enquadrava.

Voltamos à análise dos dados referentes ao número de navios e tonelagem entrados no porto de Lisboa oriundos do litoral brasileiro, inseridos nos estudos de António Lopes, Eduardo Frutuoso e Paulo Guinote. Embora nos anos de 1806 a 1812 tenham aportado a Lisboa 10.133 navios285, entre os provenientes do Brasil e de outras origens, a nossa reflexão irá centrar-se apenas naqueles que da colónia portuguesa da América do Sul demandavam o Reino, já que era sobretudo nesses que o corso de Argel estava interessado. As restantes entradas eram fundamentalmente, no que diz respeito ao período entre os anos de 1787 e 1799, compostas por navios ingleses, franceses, holandeses, dinamarqueses, suecos e americanos. A marinha mercante inglesa chegou a representar no ano de 1799, 52,2% da totalidade dos navios de comércio estrangeiros que procuravam Lisboa. Para a regência de Argel, as embarcações inglesas e francesas eram alvos inatingíveis, tendo em conta o domínio por parte destas duas potências do espaço mediterrânico e o poder das suas marinhas de guerra. Quanto às pequenas potências do Norte da Europa, todas elas se encontravam abrangidas por Tratados de Paz ou Tréguas, o que deve ser entendido, para lá da procura das sempre desejadas relações comerciais, à luz da necessidade de bens estratégicos para a renovação da frota de Argel. Fora destes acordos, sempre geridos ao sabor da conjuntura

interna da Regência e do valor dos “tributos” e presentes consulares, encontravam-se os

pequenos poderes periféricos do espaço mediterrânico, para além de Portugal e dos Estados Unidos.Se analisarmos os números inseridos no ponto 2.2.2 relativos aos quinquénios entre 1791 e 1815 dos navios provenientes do Brasil entrados no porto de Lisboa, somos levados a concluir que depois do pico atingido nos anos de 1801-1805, com um número de 838 navios

284Idem, ibidem, p. 238.

285 António Lopes, Eduardo Frutuoso, Paulo Guinote, As Frotas do Brasil no Atlântico no final do Antigo

entrados, assistimos a um acentuado decréscimo das entradas, 535 no quinquénio 1806-1810 (107 navios/ano) e 547 no período 1811-1815 (109 navios/ano).

QUADRO XV

Navios provenientes do Brasil no porto de Lisboa286 Análises quinquenais

ANOS NAVIOS MÉDIA

1816-1820 709 142

1821-1825 446 89

1826-1830 420 84

Após uma subida no quinquénio compreendido entre os anos de 1816 e 1820, do número de navios oriundos do Brasil que demandaram o porto de Lisboa, 709 (142 navios/ano) assistir-se-á a significativo decréscimo relativamente ao quinquénio 1821-1825, 446 (89 navios/ano), e aos anos 1826-1830 (84 navios/ano). Esta tendência será também acompanhada pelo nível da carga movimentada em portos nacionais, com especial incidência no principal porto português, onde atracavam os navios com as cargas mais valiosas provenientes da América do Sul.

QUADRO XVI

Toneladas descarregadas no porto de Lisboa (1816-1830)287

ANOS BRASIL

1816-1820 186.524 1821-1825 95.500 1826-1830 93.029

A conjuntura atlântica, conjugada com a fraca rentabilidade do espaço mediterrânico relativa às presas proporcionadas ao corso de Argel, fazia esboroar as melhores previsões da oligarquia turca ao leme do poder argelino. Foi no âmbito das mudanças que tiveram lugar no espaço europeu, nomeadamente nos países com exposição atlântica, que ocorreu em Portugal a intervenção francesa em torno do chamado Bloqueio Continental decretado por Napoleão em 21 de Novembro de 1806 e através do qual se pretendeu proibir o comércio com a Inglaterra. Era do Atlântico que Portugal recebia a prosperidade, a riqueza e a segurança,

286 Eduardo Frutuoso, Paulo Guinote, António Lopes, O movimento do porto de Lisboa e o comércio luso-

brasileiro (1769-1836), p. 50.

expressas no abundante comércio colonial que os seus portos movimentavam288. E se fossemos levados a pensar que a vitória de Trafalgar em Outubro de 1805 permitiu a manutenção da abertura dos portos portugueses à navegação internacional, continuando a marinha mercante do Reino a rumar às habituais rotas do Atlântico Sul, a informação que encontramos nas fontes demonstra-nos que o espaço atlântico se tornara um local perigoso e terra de ninguém, dada a proliferação de navios corsários das mais variadas origens, para a marinha duma pequena potência cujas embarcações transportavam as tão apetecíveis produções coloniais.

A obra, já citada, O movimento do porto de Lisboa e o comércio luso-brasileiro

(1769-1836) é elucidativa quanto ao número de navios provenientes do Brasil no porto de

Lisboa, quando, tendo em atenção médias trienais, considera os anos 1806/1808 como de evidente crise no tráfego marítimo289. A ideia é reforçada pelos mesmos autores que afirmam ter vivido a barra do porto de Lisboa, na sequência da ocupação da cidade pelas tropas de Junot, situação de excepção devido ao bloqueio imposto pela marinha inglesa. O movimento de navios estrangeiros foi diminuto entre o final de Novembro de 1807 e Setembro de 1808. O mesmo acontecendo com o tráfego marítimo oriundo da América do Sul, pois, entre Dezembro de 1807 e Setembro de 1808, não chegou nenhuma embarcação aos portos portugueses proveniente do litoral brasileiro, aportando no último trimestre, apenas, três dezenas de navios290.

A presença da Royal Navy no porto de Lisboa, que se manteve entre os anos de 1808 e 1814, primeiro bloqueando-o, depois no âmbito do apoio às campanhas do exército britânico na Península, afectou naturalmente o abastecimento do Reino. É interessante todavia registar, quando a Inglaterra não estava ainda bem certa da posição portuguesa, uma das razões subjacentes ao bloqueio do porto de Lisboa. Esta prendia-se, segundo George Canning, com a dependência alimentar de Portugal em cereais que eram importados, na sua maioria, do Norte de África. Segundo carta de Donald Campbell, oficial da Royal Navy ao serviço da marinha

288

Idem, ibidem, p. 40. 289Idem, ibidem, p. 53.

290 António Lopes, Eduardo Frutuoso, Paulo Guinote, As Frotas do Brasil no Atlântico no final do Antigo

portuguesa, enviada para Inglaterra, Portugal não conseguia subsistir mais de três meses sem as importações norte-africanas291.

O corso de Argel via, em finais de 1807, desmoronar-se, por causas que naturalmente estavam fora do seu poder decisório e da sua influência directa, toda a estratégia de passagem ao Atlântico. Os melhoramentos que a Regência implementara na sua marinha através da construção de navios tecnologicamente mais adequados à navegação atlântica já não seriam susceptíveis de ser aplicados no ataque às presas originárias da América do Sul portuguesa. As cargas de trigo, transportadas nos pequenos navios do Reino que se dedicavam a esse tráfego praticado nos portos da costa atlântica de Marrocos, nunca se tinham revelado muito atractivas para os corsários de Argel, apesar deste cereal se negociar a 10,5 Patacas de Argel /Sâ292, durante o ano de 1807, nos mercados da grande cidade da Regência. Agora nem como recurso se poderiam perspectivar os ataques às embarcações nacionais de reduzida tonelagem, já que o bloqueio da Royal Navy impedia o acesso ao porto de Lisboa e limitava o tráfego cerealífero a valores residuais. Para capturar presas de tão diminuta importância e de tão escasso valor comercial, o corso argelino não necessitava de passar ao Atlântico, bastavam- lhe os pequenos navios gregos, sicilianos, sardos, esperando sempre que se lhes deparasse uma qualquer embarcação de uma das potências do Norte da Europa que continuavam a traficar no Mediterrâneo e com quem estivessem temporariamente em guerra. A tudo isto juntava-se um pormenor que não se devia de forma alguma desprezar; a concorrência no Atlântico de outros navios corsários – ingleses, franceses, americanos, insurgentes sul- americanos –, sobretudo nas águas portuguesas e espanholas, tinha aumentado de forma assinalável.

A conjuntura interna de Argel ressentira-se da nova situação internacional, durante a governação de Ahmed Khaznadar, apesar das qualidades naturais deste governante, de alguns sucessos do corso argelino e dos feitos dos seus raïs. A estabilidade do poder turco tinha sido posta em causa em vários locais do seu espaço geográfico, sem contar com as ameaças sentidas a Leste por parte do bey de Tunes. A derrota dos exércitos argelinos na regência de Tunes e as naturais baixas que esta causou nas fileiras dos janízaros de Argel, fez grassar o

291Apud Malyn Newitt e Martin Robson, op. cit., p. 38. Na nossa dissertação de mestrado Portugal e o Magrebe

nos finais do Antigo Regime, defendemos a centralidade do aprovisionamento cerealífero nas relações entre Marrocos e Portugal.

292Lemnouar Merouche, Recherches sur l’Algérie à l’époque ottomane I. Monnaies, Prix et Revenues (1520 –

descontentamento no seio da milícia que cresceu com as sanções aplicadas pelo dey aos sobreviventes, a quem reprovou a falta de bravura e combatividade. A 9 de Novembro de 1808, estes últimos sublevaram-se, invadiram a Djénina e apoderaram-se do seu principal inquilino que decapitaram.

A partir da morte de Ahmed Khaznadar até à conquista de Argel pelas tropas francesas, cinco deys vão suceder-se no governo da regência: Ali El-Ghesal sobreviverá apenas quatro meses, morrendo assassinado a 7 de Fevereiro de 1809; o seu sucessor Hadj Ali-Pacha (1809-1815), homem de grande crueldade, adepto de punições públicas e com quem Portugal se viu obrigado a negociar Tratados de Tréguas e Paz e o resgate dos seus cativos, será estrangulado por elementos da milícia a 22 de Março de 1815. Mohammed Khaznaji293, grande-tesoureiro do seu predecessor, permanecerá apenas alguns meses no poder, será estrangulado, pelos chefes do odjak, na sequência de um caso de falsificação detectado nos livros de pagamentos e pensões da milícia que mandara investigar. Suceder-lhe- á Omar Pacha (1815-1817), convertido grego, que, apesar de visíveis qualidades como governante, acabará também assassinado. Nunca conseguira livrar-se do estigma que representou o bombardeamento de Argel pelas esquadras de Lord Exmouth e do vice- almirante holandês Van Capellen, em Agosto de 1816, e das negociações entabuladas com o comandante da frota britânica do Mediterrâneo, redundando numa capitulação que o odjak sempre repudiou, sabendo que as condições impostas conduziriam inevitavelmente ao seu fim como elemento determinante do poder argelino. Após o assassinato do dey pelos oficiais da milícia, estes designaram como seu sucessor Ali-Khodja que ciente da influência daqueles que o guindaram à chefia do governo se refugiou com o Tesouro e arquivos da administração no interior da casbah, onde será protegido por uma guarda pessoal de oito mil homens, da qual farão parte seis mil kuluglis. Os seus esforços para restabelecer a ordem, procurando temperar o domínio dos janízaros – o que se pode comprovar pela escolha do elemento kulugli numa tentativa de contrabalançar ou anular o poder turco do odjak – levarão a uma nova revolta desta tropa anatoliana que acabará por ser esmagada pela nova guarda pessoal do dey294. Ali- Khodja morrerá em 1 de Março de 1818 na sequência de uma das muitas epidemias de peste que assolaram Argel. Será por fim a vez de Hussein Khodjet el-Kheil que protagonizou o mítico episódio do coup d’éventail com o cônsul francês Deval, supostamente na origem da

293Khaznaji, tesoureiro.

expedição punitiva levada a cabo pelas tropas francesas, por ordem de Carlos X, contra a regência de Argel295.

Se por um lado terá que se ter em consideração o confronto entre os poderes continental e atlântico no continente europeu, não podemos ignorar as explicações que os representantes do poder político que permaneceram em Portugal tentavam fazer passar à regência de Argel, através do encarregado de negócios desta em Gibraltar, o judeu de origem portuguesa Aaron Cardoso, com o objectivo de dissuadir o seu corso de franquear o Estreito e conseguir a paz e a libertação dos portugueses cativos no banho da grande urbe magrebina:

O commercio de Portugal para o Mediterraneo acha-se reduzido a huma total nullidade; e o das suas Ilhas e Brazil, comboyado, por navios de guerra, não offerece objecto de preza, ou interesse aos corsarios e marinha dessa Regencia. Os captivos feitos em embarcaçoens menores e miseráveis, offerece sim hum objecto de vingança, mas de nenhum modo de proveito á mesma Regencia; ao mesmo passo que cauza a desgraça dos infelizes portuguezes, e afflicção a Portugal de os não poder resgatar.296

Mas será sobretudo a entrada em cena de um novo poder que irá mudar de forma substancial a correlação de forças no confronto dos representantes argelinos do espaço mediterrânico com os seus oponentes atlânticos, levando ao falhanço dos vários pressupostos estratégicos que lhe tinham estado na origem.

Depois da Declaração de Independência, os Estados Unidos viram o seu comércio ameaçado pelos corsários das regências norte africanas e do Império Xarifino, quando, numa clara tentativa de afirmação externa, demandavam o Mediterrâneo. Um novo pavilhão, até então desconhecido dos raïs argelinos, enfrentava no Atlântico o desafio da Royal Navy e do corso que o enxameava, arriscando no mare nostrum a vida e a liberdade de homens e mercadorias, que navegavam sob a sua protecção. Enquanto como colónia, fazendo parte do Império Britânico, os seus navios rumavam ao Mediterrâneo, o pavilhão britânico revelou-se eficiente pela imunidade que lhes proporcionava. Logo que a ex-colónia inglesa da América do Norte ascendeu à independência, esta deixou de existir. O corso magrebino passou a exercer a sua actividade predatória sobre a marinha mercante da nova nação americana, numa acção, se não concertada, pelos menos tolerada, pela antiga potência colonial, fazendo afluir

295

Kamal Chehrit, Les Janissaires, p. 145.

296AHU, Fundo do Norte de África, Cx. 455, Cópia da carta de Cipriano Freire de Andrade para o cônsul geral e encarregado de negócios de S. A. o Dey de Argel em Gibraltar, Lisboa, Palácio do Governo, 21 de Janeiro de 1809.

ao seu Tesouro os rendimentos do Mediterrâneo e Atlântico e estrangulando o comércio externo da sua antiga colónia.

Toda esta questão está muito bem resumida num panfleto do mercantilista inglês John Baker-Holroyd, Lord Sheffield, intitulado Observations on the Commerce of the

American States, publicado no ano de 1783: “It is not problable the Americam States will

have a very free trade in the Mediterranean; it will not be the interest of any one of the great maritime powers to protect them from the Barbary States. If they know their interests, they will not encourage the Americans to be carriers – that the Barbary States are advantageous to the maritime powers is obvious (…) The Americans cannot protect themselves from the latter;

they cannot pretend to a navy”297. Na realidade estava usar-se o mesmo procedimento que desde sempre as potências europeias tinham também adoptado em relação às regências magrebinas e ao Império Xarifino, quando pretendiam sufocar-lhes o desenvolvimento comercial, mantendo o tráfico no Mediterrâneo como um exclusivo das marinhas mercantes das nações da sua margem norte.

Foi no ano de 1783 que os navios da nova república americana tiveram o seu primeiro confronto com o corso magrebino. Duas embarcações mercantes que depois de deixarem o porto de Marselha cruzavam o Mediterrâneo estiveram perto de cair nas mãos dos corsários argelinos. Nos portos europeus do mare nostrum abundavam os espiões das regências, os homens de obscuros negócios que com facilidade faziam chegar aos lugares que interessavam da costa norte-africana informações acerca do tráfego marítimo com origem nos portos cristãos. Embora se suspeite que a informação relativa à saída destes dois navios teve origem em agentes ingleses, de imediato largaram de Argel nove corsários para os perseguir. Os americanos conseguiram escapar para a protecção das costas espanholas, tendo daí atingido o estreito de Gibraltar. Apesar do insucesso da tentativa do corso argelino, este facto chamou a atenção aos corsários magrebinos que estavam na presença de potenciais e muito lucrativas presas.

Quando no final de Setecentos os comerciantes americanos se confrontaram, no Mediterrâneo e nas águas adjacentes a este mar interior, com os navios armados em corso das potências magrebinas, não tinham a noção que a resolução deste conflito, de momento, se encontrava algures nas costas do Atlântico, dominadas pelos grandes poderes marítimos 297Apud Joshua E. London, Victory in Tripoli. How America’s War with the Barbary Pirates Established the

europeus. Os acontecimentos necessitam ser analisados a partir de Londres, tanto como a partir de Argel ou Filadélfia. No final de 1784 e início de 1785, ao mesmo tempo que deslocavam para o Mediterrâneo uma esquadra para proteger a navegação mercante de Sua Majestade Britânica, os ingleses faziam circular pelo espaço europeu, relatórios sobre as verdadeiras e hipotéticas capturas de navios americanos pelo corso de Argel. Os prejuízos para a navegação americana foram imediatos. Em The Papers of Thomas Jefferson, encontra- se a informação de um Henry Martin que lhe foi dirigida, espelhando bem as consequências dos relatórios com origem nas autoridades inglesas, alertando para o perigo que corriam as cargas transportadas em embarcações americanas: “In consequence of theses reports, the underwriters at Lloyds will not insure a Americam Ship to Cadiz or Lisbon for less than 25 percent whereas the customary insurance for English vessels is no more than 1 ¼ or 1 ½ percent and therefore no American Ship has any chance of getting freight either to Spain or

Portugal”298.

O lugar dos Estados Unidos da América no mundo, depois de 1783, estava bem longe daquele idealizado pelos americanos e que deveria ter tido lugar após a independência. Fraca e desunida internamente, atacada externamente por via da conjuntura internacional que enfrentava, a nova nação, tentava com dificuldade ser a vanguarda de uma nova ordem. Por outro lado, embora reconhecendo a sua independência, a Inglaterra tratava o novo país, do ponto de vista das normais relações de comércio, como uma colónia. A nação americana responderia a este desafio pelo crescimento económico e a expansão territorial do início do século XIX que cimentaram a unificação política, trazendo no entanto consigo, embora ainda em estado larvar, as condições propícias a uma outra secessão e profunda ruptura social, aquela que conduziria à guerra civil299.

No ano de 1784, teve lugar um acontecimento que obrigou a clarificar a posição americana face ao que ambicionava ser o seu papel no teatro estratégico do Mediterrâneo, decorrente da capacidade que demonstrasse para resolver os seus próprios conflitos internos e a aptidão que revelasse para enfrentar a concorrência das grandes potências europeias que dominavam o espaço atlântico. No dia 11 de Outubro, como já foi referido, os corsários marroquinos capturaram o brigue americano Betsey. Um outro episódio teve lugar, três meses apenas, depois do apresamento do Betsey e este com repercussões substancialmente maiores 298Apud Frank Lambert, The Barbary Wars, p. 16.

para o relacionamento dos Estados Unidos com os poderes magrebinos. Dois navios americanos e respectivas tripulações foram capturadas, desta vez, pelo corso argelino, lançando nos banhos da Regência mais vinte e um cativos. As embarcações eram a escuna

Maria que de Boston rumava ao Mediterrâneo, comandada pelo capitão Isaac Stevens,

capturada a 24 de Julho, junto ao Cabo S. Vicente, e o Dauphin, registado em Filadélfia,

apresado perto de Cádis sob o comando de Richard O’Brien no dia 30 de Julho de 1785.